Não deixe a Copa fazer você se esquecer dos R$ 129 milhões

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No “país do futebol”, é natural que a Copa do Mundo domine as atenções e as conversas a partir de quinta-feira, quando México e África do Sul disputam a primeira partida da competição. Mas a Copa não pode ser um presente para todos aqueles que têm ligações muito mal explicadas com o banqueiro Daniel Vorcaro. Pergunte-se quem Carlo Ancelotti vai escalar, mas o presidente da Gazeta do Povo, Guilherme Cunha Pereira, aconselha: continue perguntando para que o dono do Banco Master queria pagar R$ 129 milhões ao escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes. Os envolvidos nos escândalos querem que o país inteiro pense apenas em futebol e se esqueça deles. Não vamos lhes dar esse prazer.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/copa-do-mundo-distracao-escandalos-vorcaro-alexandre-de-moraes/

Jules Rimet: o católico devoto que ajudou a criar a Copa do Mundo

Jules Rimet, francês e católico, foi presidente da FIFA por mais de 30 anos. (Foto: Biblioteca nacional de França/Domínio Público(S)

Enquanto o mundo se prepara para o espetáculo da Copa do Mundo FIFA de 2026 — a primeira Copa do Mundo sediada conjuntamente pelos Estados Unidos, Canadá e México — bilhões de torcedores se reuniram mais uma vez em torno de um jogo que transcende idiomas, política e fronteiras. No entanto, poucos sabem que as origens do torneio estão entreladas com a fé católica.

A Copa do Mundo da FIFA é um dos eventos esportivos mais assistidos do planeta, com cerca de 5 bilhões de pessoas sintonizadas no torneio que reúne os melhores atletas do futebol mundial.

O torneio masculino deste ano acontecerá de 11 de junho a 19 de julho e será realizado nos três países-sede. A última vez que os EUA sediaram uma Copa do Mundo foi em 1994, quando o México já sediou o evento em 1970 e 1986, e está sendo a primeira vez que o Canadá sediará o prestigiou o torneio de futebol. A Copa do Mundo FIFA de 2026 é uma edição de 23 do torneio internacional quadrienal de futebol masculino.

Muito antes da Copa do Mundo se tornar o evento esportivo mais assistido do globo, seu fundador, Jules Rimet, foi moldado por uma visão profundamente influenciada por sua fé e pela crença na dignidade e na unidade da humanidade.

Rimet nasceu em 14 de outubro de 1873, na aldeia de Theuley, França, de família católica devota. Ele era conhecido por ter um coração para os pobres e foi inspirado pela doutrina social da Igreja Católica.

Em 1891, o Papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum‚que abordava as duras condições, a pobreza e a exploração do trabalho provocada pela Revolução Industrial.Esta encíclica inspirou Rimet a ajudar a criar uma organização que fornecia ajuda social e médica aos pobres.Ele tinha 17 anos.

Francês católico também era apaixonado por esportes e acreditava que eles poderiam unir pessoas de todas as raças e classes sociais diferentes. Aos 24 anos, fundou um clube esportivo chamado Estrela Vermelhaele também incluía o futebol no clube, independentemente da classe social.Ele também incluía o futebol no clube, embora o esporte fosse visto com desdém, considerado algo exclusivo dos ingleses e das classes mais baixas.

Em 1904, a Rimet ajudou a fundar o Federação Internacional de Futebol Association — Federação Internacional de Futebol Associado, ou FIFA. Depois de servir na Primeira Guerra Mundial, ele retornou à FIFA e tornou-se seu presidente em 1921.

Nove anos depois, foi realizada a primeira Copa do Mundo no Uruguai. Ele viu a Copa do Mundo como uma oportunidade para reunir nações que poderiam estar em guerra, promover a fraternidade universal e a solidariedade entre todos os povos e prevenir futuros conflitos globais. Ele também trabalhou duro para profissionalizar o futebol para que os atletas da classe trabalhadora pudessem ganhar a vida fazendo o que gostavam.

Rimet atuou como presidente da FIFA por 33 anos. De 1930 a 1970, o troféu do Campeonato foi nomeado Copa Jules Rimet.

Morreu em 1956 e foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por seu papel na criação do torneio da Copa do Mundo.

No livro “Uma História do Futebol em 100 Objetos” (Uma História do Futebol em 100 Objetos), o neto de Rimet, Yves, lembrou seu avô como um “humanista e idealista que acreditava que o esporte poderia unir o mundo. Ao contrário de muitos outros em sua época, ele percebeu que para ser verdadeiramente democrático, para realmente engajar as massas, o esporte internacional precisava ser profissional.”

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/jules-rimet-catolico-devoto-ajudou-criar-copa-do-mundo/

PF vê comitiva de advogados do Centrão na cela de Vorcaro; lista de visitas tem sigilo de 100 anos

O empresário Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master. (Foto: SAP-SP/EFE)

A movimentação intensa rumo à cela de Daniel Vorcaro, com cerca de 15 advogados, sendo ao menos três ligados a políticos do Centrão e dois do antigo governo do Distrito Federal, passou a incomodar investigadores da Polícia Federal no caso do Banco Master.

Eles afirmam que o problema não era a legalidade das visitas, pois os defensores tinham procuração do ex-banqueiro, mas a dificuldade em identificar exatamente quais interesses estavam sendo tratados dentro da custódia.

A percepção interna era de que a cela havia se transformado em um espaço de articulação paralela envolvendo causas cíveis, patrimoniais e políticas, além do conteúdo da própria delação. A defesa de Vorcaro não se manifestou sobre as visitas.

Concomitante a isso, mas sem uma relação direta que possa ser associada ao entra e sai, a Polícia Federal colocou sob sigilo de 100 anos a lista de visitantes do ex-banqueiro.

Essa manifestação foi feita pela instituição em resposta formulada pela Lei de Acesso à Informação ao jornal O Globo. Ao jornal, a instituição disse que isso ocorreu por proteção de dados pessoais e informações consideradas sensíveis. A Gazeta do Povo também indagou a PF sobre os visitantes, o entra e sai de advogados e o sigilo, mas não houve retorno até a publicação da reportagem.

Ao O Globo, a PF sustentou que nomes, horários, documentos pessoais e demais registros de visitação pertencem à esfera privada tanto dos visitantes quanto do preso.

Mesmo diante da possibilidade de divulgação parcial, com ocultação de dados sensíveis, a corporação optou por manter todo o conteúdo resguardado.

Acordo de delação em negociação justificava movimento intenso

Fontes a par das apurações descreveram que muitos desses advogados nem sequer teriam atuação direta nas negociações de delação premiada, principal motivo que justificaria os contatos frequentes.

Também chamava atenção que alguns deles estavam associados a nomes que já foram alvos ou estão na mira das apurações do esquema Master. Um dos pontos tratado com a defesa de Vorcaro no possível processo de delação está pautado justamente na revelação e comprovação de nomes de políticos e autoridades de todos os poderes que teriam dado apoio e sustentação às supostas fraudes.

As conversas foram todas reservadas e com a garantia legal de sigilo entre “cliente e advogado”. A reportagem apurou que todos os advogados que tiveram acesso a Vorcaro chegaram a ter autorização para visitar o ex-controlador do Master e tinham procuração formal, tornando os acessos legais.

A autorização havia sido concedida justamente para viabilizar a preparação da proposta de delação, mas a primeira versão entregue à PF, em maio, foi rejeitada por ser superficial demais e não apresentar novos elementos, além dos já colhidos em diferentes fases das operações e frentes de investigação.

No início das tratativas, a defesa de Vorcaro defendia que a delação não pouparia ninguémmas a afirmação foi sendo desmontada ao longo das semanas e isso não se confirmou.

Fluxo de advogados é revisto e agora há número limitado de defensores

Depois da intensa movimentação de defensores e a rejeição inicial do acordo, o fluxo de advogados passou a ser revisto e a lista foi reduzida consideravelmente.

Neste momento, cerca de cinco permanecem habilitados a ter acesso regular ao ex-banqueiro e isso foi feito nominalmente pelo ministro relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça. Quem está fora da lista não entra.

A mudança coincidiu com o endurecimento das condições impostas a Vorcaro na custódia da PF, que voltou a olhar para a possibilidade de negociar o acordo de delação após sinalização da Polícia Federal na semana passada. Depois de passar por uma cela comum e reclamar das condições do local, Vorcaro foi autorizado por Mendonça a retornar para a sala de Estado-Maior da Superintendência da instituição.

Apesar disso, o ex-banqueiro teria passado a seguir regras mais rígidas de visitação, semelhantes às aplicadas aos demais presos da custódia federal, porém, sem monitoramento das conversas com os defensores.

Nos últimos dias foram realizadas ao menos duas reuniões, uma entre advogados de Vorcaro e a Procuradoria-Geral da República (PGR) e outra com a PF para tratar da nova proposta de colaboração. As negociações ainda não avançaram.

Além da devolução de R$ 60 bilhões em curto espaço de tempo, investigadores alertam que a delação só seria possível se Vorcaro estiver disposto a entregar provas confirmando quem lhe deu sustentação política, econômica, financeira e jurídica na suposta estrutura fraudulenta, além de ter que admitir a prática de diferentes crimes que ele tem negado.

A PF quer acelerar a apresentação de uma nova proposta e solicitou ao ministro André Mendonça que estabeleça um prazo para a conclusão das negociações.

A avaliação interna é de que o regime excepcional concedido ao empresário, que permite maior contato com seus advogados em uma cela especial da PF, não pode se prolongar indefinidamente e que a primeira proposta se estendeu por tempo demais para ser formulada.

O pedido ainda depende de manifestação da PGR e posterior decisão de Mendonça.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/pf-ve-comitiva-de-advogados-do-centrao-na-cela-de-vorcaro-lista-de-visitas-tem-sigilo-de-100-anos/

PF mira 58 pessoas por suspeita de corrupção de servidores públicos em 7 estados

Investigação aponta que grupo corrompia agentes públicos para o cometimento de crimes como contrabando de cigarros e agrotóxicos. (Foto: Paulo Pinto/ Agência Brasil)

Um grupo de 58 pessoas é alvo da Polícia Federal, nesta terça-feira (9), por suspeita de corromper servidores públicos em sete estados do país para o cometimento de crimes como contrabando de cigarros, importação ilegal de agrotóxicos, falsificação de documentos e placas de veículos e lavagem de dinheiro.

Os alvos de mandados de prisão preventiva e temporária são cumpridos pelas Operações Operações Sicarius I e Sicarius II em municípios do Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Goiás e Pará.

Há, ainda, 62 mandados de busca e apreensão e ordens de bloqueio e sequestro de contas bancárias, cancelamento de cinco CPFs, de sete CNPJs e a abertura de 67 procedimentos administrativos fiscais contra empresas investigadas.

“As investigações apontam que o grupo criminoso possuía uma estrutura com divisão de funções e com atuação em diversos estados da federação, mediante empresas de fachada, interpostas pessoas e mecanismos de ocultação patrimonial para dissimular a origem ilícita dos recursos obtidos com as atividades criminosas”, afirmou a Polícia Federal em nota.

Segundo a Polícia Federal, a organização criminosa investigada mantinha uma estrutura altamente articulada e com funções bem definidas entre seus integrantes, o que permitia a atuação coordenada em diferentes estados do país. As apurações indicam que o grupo recorria a empresas de fachada, ao uso de pessoas interpostas, conhecidas como “laranjas”, e a diversos mecanismos de ocultação patrimonial para dissimular a origem ilícita dos recursos obtidos por meio das atividades criminosas e dificultar a ação dos órgãos de fiscalização e investigação.

Gazeta do Povo apurou que o grupo agia principalmente na cidade de Guaíra (PR), na fronteira do Brasil com o Paraguai, e teria movimentado mais de R$ 375 milhões entre os anos de 2019 e 2024. Um doleiro controlava contas em nome de “laranjas” e empresas de fachada e, em seu próprio nome, movimento R$ 114 milhões no período investigado.

“Segundo as investigações, a organização criminosa transnacional atuava no contrabando principalmente de cigarros provenientes do Paraguai e posteriormente ocultava ou dissimulava os recursos obtidos nessas atividades”, completou a Receita Federal.

Além das medidas executadas em território nacional, a Justiça Federal autorizou ações de cooperação jurídica internacional para ampliar o alcance das investigações. A estratégia tem como objetivo rastrear ativos financeiros eventualmente mantidos no exterior, identificar possíveis integrantes da organização fora do Brasil e localizar estruturas empresariais ou patrimoniais que possam ter sido utilizadas para movimentar ou ocultar recursos provenientes dos crimes investigados.

Ainda de acordo com a Polícia Federal, as operações vão além da responsabilização criminal dos suspeitos e têm como foco atingir a base financeira que sustentaria o esquema criminoso.

Com o bloqueio de contas, a identificação de patrimônio e outras medidas cautelares, os investigadores buscam interromper o fluxo de recursos da organização, descapitalizar seus integrantes e garantir a preservação de bens que poderão ser utilizados futuramente para ressarcir os prejuízos causados aos cofres públicos.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/pf-mira-58-suspeita-corrupcao-servidores-publicos-7-estados/

Coluna Esplanada

Trump vai caçar integrantes do PCC na América Latina

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. (Foto: Will Oliver/EFE/EPA)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está disposto a mandar o FBI e as forças armadas prenderem um fugitivo brasileiro ligado ao PCC, em outro país da América Latina, para mandar um recado ao governo do Brasil de que fala sério sobre a classificação do CV e PCC como terroristas.

O eventual alvo será levado para solo americano, claro, com argumento de que exporta cocaína para os EUA. A informação sigilosa circula há uma semana entre altas autoridades do Brasil, mas por ora nada oficialmente. Este mesmo grupo também duvida de que a Polícia Federal seria avisada de uma operação do tipo. Por outro lado, é especulação, diz um deles, qualquer menção de que Trump pode invadir território brasileiro atrás de faccionados.

Cadê vocês?

A Comissão de Controle de Atividades de Inteligência, que quase não se reuniu nos últimos dois anos, decidiu agendar para amanhã no Senado audiência para “Debater problemas relacionados à segurança pública e às organizações criminosas”. É a comissão que, por exemplo, tem acesso a relatórios sigilosos da Abin. Até ontem, nenhuma autoridade havia confirmado, entre elas os ministros da Defesa, da Justiça e da Fazenda.

Escala 6×1

A sensação dos poucos congressistas, da base e oposição, que aparecem no Congresso na semana passada é que o presidente Lula da Silva foi certeiro ao garimpar o projeto sobre a PEC do fim da escala de trabalho 6×1, mesmo que ela não avance este ano. Constatam que é puramente eleitoreira, e vai entrar em todas as campanhas eleitorais.

Aeroportos vazios

A Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara debate hoje a operação esvaziada dos aeroportos de Guanambi (no meio da Bahia) e de Vitória da Conquista (no Sudoeste do estado). Ambos perderam voos da Azul e GOL por falta de demanda, embora Conquista seja uma cidade rica. A operação ficou caríssima para as aéreas. Mas a turma da Bahia baixará em peso na sala para reclamar.

Favela + Rica

Os bilionários Carlos Wizard, André Esteves (BTG) e Flávio Augusto (ex-Wise Up) se juntam ao coach angolano Marco Patrice Victor no Favela +Rica, dia 27 de junho, no Expo Cidade Nova do Rio. Com foco em geração de renda e fortalecimento de pequenos negócios, o evento é coordenado por William Douglas e Anderson Cavalcante e deve receber mais de 3 mil pessoas, com palestras, mentorias e ações sociais.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/coluna-esplanada/trump-vai-cacar-integrantes-do-pcc-cv-america-latina/

Luciano Trigo

Os traidores e a forca

Quando um presidente fala em forca, mesmo metaforicamente, ele se aproxima de uma tradição política incompatível com os valores democráticos. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

A história brasileira costuma ser lembrada por meio de símbolos simplificados. Tiradentes, por exemplo. É o mártir da independência. Já Joaquim Silvério dos Reis ficou marcado como o traidor que vendeu seus companheiros à Coroa portuguesa. Mas, quando figuras públicas recorrem a esses personagens para atacar adversários, é importante recapitular os fatos em toda a sua complexidade.

Na semana passada, Lula afirmou que determinados adversários mereceriam a forca, evocando a memória de Joaquim Silvério dos Reis — que, na verdade, não foi enforcado, mas este é o menor dos problemas. A analogia revela um problema histórico e moral profundo. Afinal, quem foi o traidor, aos olhos do regime vigente em Minas Gerais no final do século XVIII? E quem acabou sendo enforcado: o traidor ou o herói?

Joaquim Silvério dos Reis era um rico proprietário de terras e minerador. Endividado junto à Coroa portuguesa, viu na delação da Inconfidência Mineira uma oportunidade para obter vantagens pessoais. Em 1789, denunciou às autoridades o movimento que articulava uma ruptura com o domínio português. Em troca, recebeu favores da administração colonial, incluindo o perdão de dívidas e outras compensações. Morreu de causas naturais, já idoso.

Do ponto de vista da memória nacional construída posteriormente, Silvério se tornou o arquétipo do traidor: o homem que colocou seus interesses particulares acima do ideal de liberdade defendido pelos inconfidentes.

Mas a perspectiva da Coroa portuguesa era exatamente oposta. Para Lisboa, Joaquim Silvério dos Reis não era um traidor: era um colaborador leal, que prestou um serviço ao Estado ao denunciar uma conspiração criminosa. Quem atentava contra a ordem estabelecida eram os inconfidentes. Eles é que planejavam desafiar a autoridade legítima do reino e romper com o sistema político vigente.

Tiradentes não foi enforcado por defender a liberdade em abstrato. Foi executado porque o governo da época o considerou um rebelde e um traidor. Mas a sua execução não é lembrada como um triunfo da justiça, e sim como um exemplo de perseguição estatal contra aqueles que ousaram desafiar o poder.

Como acontece hoje, a Coroa portuguesa também acreditava estar defendendo a ordem, a legalidade e a estabilidade. Também acreditava que seus opositores ameaçavam a integridade do Estado. Também se via como guardiã do bem comum. E foi em nome dessa convicção que condenou Tiradentes à morte. Isso comprova que a justiça histórica nem sempre coincide com a justiça proclamada pelos governantes de cada época.

Quando um presidente fala em forca, mesmo metaforicamente, ele se aproxima de uma tradição política incompatível com os valores democráticos

O problema da declaração não está apenas na violência da imagem empregada. Está também na inversão histórica que ela sugere. Ao associar adversários a Joaquim Silvério dos Reis, presume-se automaticamente que o governo representa a causa justa e que os opositores ocupam o papel dos traidores. Mas foi exatamente esse tipo de certeza moral que levou regimes autoritários de diferentes épocas a perseguirem dissidentes.

Uma analogia alternativa parece muito mais pertinente ao debate. Se quisermos transportar a lógica da Inconfidência Mineira para os dias atuais, Tiradentes não se pareceria com os defensores do poder estabelecido, mas justamente com aqueles que são apontados pelo regime vigente como inimigos da democracia, ameaças ao Estado de direito ou traidores da pátria.

Evidentemente, as circunstâncias históricas são distintas, e não se trata de equiparar personagens ou causas específicas. Meu ponto é outro: a História ensina que governos costumam atribuir aos seus opositores os rótulos mais severos possíveis, enquanto reservam para si o papel de guardiães da legalidade. Mas Tiradentes se tornou um símbolo nacional justamente porque as gerações posteriores concluíram que o julgamento do poder não era o julgamento da História.

Essa constatação deveria servir de advertência sempre que autoridades contemporâneas tratam adversários políticos como inimigos a serem perseguidos, silenciados ou eliminados. Governantes democráticos deveriam evitar qualquer flerte retórico com a ideia de eliminar adversários políticos.

Quando um presidente fala em forca, mesmo metaforicamente, ele se aproxima de uma tradição política incompatível com os valores democráticos. A democracia pressupõe a coexistência de opiniões divergentes. Adversários devem ser derrotados nas urnas, no debate público e no campo das ideias, não conduzidos ao cadafalso — nem mesmo simbolicamente.

Convém recordar quem realmente terminou na forca em 1792. Não foi o homem que defendeu o poder estabelecido. Foi justamente aquele que ousou enfrentá-lo. O mártir da Inconfidência foi enquadrado, pelo poder de sua época, na categoria dos “traidores” e “inimigos da ordem”.

A História está repleta de casos semelhantes. Muitos personagens hoje reverenciados como defensores da liberdade foram considerados subversivos, extremistas ou traidores pelas autoridades de seu tempo. A diferença entre um herói e um traidor, entre um mártir e um criminoso, depende do julgamento das gerações futuras. E o julgamento da história frequentemente surpreende aqueles que acreditam possuir o monopólio da virtude.

Por isso, a lembrança da Inconfidência Mineira deveria inspirar prudência, não bravatas. A principal lição da Inconfidência Mineira não é que traidores merecem a forca. É que o poder costuma chamar de traidor quem desafia seus interesses. Ontem foi Tiradentes. Hoje pode ser qualquer opositor inconveniente.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/luciano-trigo/os-traidores-e-a-forca/

Alexandre Garcia

Senado não vai facilitar para Benedito Gonçalves se tornar o novo corregedor do CNJ

O ministro Benedito Gonçalves em sessão do TSE, em janeiro de 2023. (Foto: Alejandro Zambrana/Secom/TSE)

Embora tenha sido aprovado por 21 a 5 na Comissão de Constituição e Justiça, o ministro do STJ Benedito Gonçalves não terá vida fácil para se tornar corregedor do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que é o órgão que julga os juízes – menos os do Supremo; esses só o Senado pode julgar, mas não quer, ou pelo menos o presidente do Senado não quer. Gonçalves vai encontrar oposição no plenário do Senado, tal como aconteceu com o “Bessias”, que foi aprovado na CCJ e recusado pelo plenário, algo inédito nos últimos 135 anos. Benedito Gonçalves é aquele que soprou “missão dada, missão cumprida” no ouvido de Alexandre de Moraes no dia da diplomação de Lula, e a frase foi captada pelos microfones. Ele foi integrante do Tribunal Superior Eleitoral, e a oposição se queixa de posições politizadas dele contra Jair Bolsonaro e Deltan Dallagnol.

Americanos não estão interferindo na soberania de ninguém ao classificar facções como terroristas

Falam tanto em soberania nesse caso da classificação de terroristas para os grupos armados brasileiros que aterrorizam populações inteiras. Cinquenta milhões de brasileiros vivem sob o medo imposto por essas facções, e dizem que são os EUA que invadem a soberania brasileira. O diretor-geral da Polícia Federal chegou a afirmar que a decisão era um equívoco do governo americano; depois, disse que está disposto a trabalhar junto com os Estados Unidos para combater o crime. Como assim, “equívoco”? O governo americano tomou uma decisão com base na lei americana; não há relação alguma com a lei brasileira, que não considera terrorismo o que fazem as facções. A lei americana vale para o território americano; a lei brasileira continuará dizendo que as facções não são terroristas, porque para caracterizar terrorismo é preciso ter motivação religiosa, étnica, política etc.

As facções já estão presentes em 12 a 19 estados nos EUA, lavando dinheiro em empresas e bancos que operam lá. Agora, o governo americano poderá coibir isso, fazendo uma asfixia financeira, mas não vai agir no Brasil. Só quem pensa que pode agir em outro país é Alexandre de Moraes, que está sendo processado e tem até o dia 12 para se defender em um tribunal da Flórida. Ele invadiu a jurisdição americana, dando ordens a empresas americanas (inclusive uma de Donald Trump, vejam só) para bloquear contas de pessoas que vivem nos EUA, são cidadãos americanos e estão, portanto, sob a lei americana.

Uns combatem o crime, outros têm “diálogo cabuloso” com ele

No Brasil o governo fala em soberania sobre a Amazônia, em combater o crime, mas não combate. Estão tomando conta da Amazônia. A última notícia que se tem é de 2019, quando o ministro Sergio Moro, da Justiça, e a Polícia Federal estavam combatendo o crime, e o bandido lamentava que com o governo do PT tinha um “diálogo cabuloso”.

A imprudência nas estradas no Brasil mata mais que grandes terremotos no exterior

Alguma coisa deve estar errada no Brasil. Nas Filipinas, houve um terremoto de 7,8 graus na escala Richter. É um senhor terremoto, e morreram 30 pessoas. Aqui no Brasil, no feriadão de Corpus Christi, morreram 98 pessoas – mais que o triplo do terremoto filipino – só nas estradas federais.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/benedito-goncalves-senado-corregedor-cnj/

José Fucs

Por que Rubio está certo ao dizer que o Brasil de Lula não é amigo dos EUA

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, durante audiência no Congresso americano. (Foto: SHAWN THEW/EFE/EPA)

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, reagiu com indignação à afirmação do secretário de Estado americano, Marco Rubio, de que o Brasil é uma exceção na “coalizão de países amigos” dos Estados Unidos na América Latina, ao lado de Cuba, da Venezuela e da Colômbia.

“A declaração de Rubio é inédita. Nem quando o Dean Rusk (secretário de Estado de 1961 a 1969) e o Lincoln Gordon (ex-embaixador dos EUA no país de 1961 a 1966) estavam conspirando (para derrubar o presidente João Goulart), um secretário de Estado excluiu o Brasil da lista de países amigos”, disse Amorim. “É uma declaração impressionante e preocupante. Precisamos ver o que ocorrerá a partir disso, mas nem quando havia conspiração essa situação foi formalizada.”

Convenientemente, Amorim omitiu em sua resposta a informação essencial de que afala de Rubio veio poucas horas depois de o presidente Lula dizer que ele é “inimigo mortal de Cuba”, “anti-América Latina” e “não gosta do Brasil”, o que já seria mais do que suficiente para justificá-la. Como se isso não bastasse, o presidente ainda dobrou a aposta no dia seguinte, ao chamar Rubio de “latino-americano frustrado” durante uma reunião ministerial, reforçando a percepção de que, com “amigos” como o Brasil de Lula, os EUA não precisariam de inimigos.

Com certeza, suas declarações não seriam incluídas no livro Como fazer amigos e influenciar pessoas, o eterno best-seller do escritor americano Dale Carnegie, com mais de 30 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Ninguém que procura cultivar um relacionamento saudável e sólido com seu interlocutor – no caso, com o presidente dos EUA, Donald Trump – vai se referir assim a um de seus colaboradores mais próximos. Nem vai falar que ele agora “vai pensar duas vezes antes de tomar decisões contrárias ao Brasil”, como fez Amorim logo após Trump receber Lula na Casa Branca, com surpreendente cordialidade, no início de maio.

Trata-se de uma regra básica de convivência que se torna ainda mais pertinente se você for o presidente do Brasil ou seu principal assessor na área externa e ele, o chefe da diplomacia dos EUA, a nação mais poderosa do planeta. Sobretudo quando o país tem pendências relevantes a negociar, como o tarifaço de 25% sobre produtos nacionais, recomendado pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), e divergências significativas na forma de lidar com grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), recentemente classificados como organizações terroristas pelo governo americano.

Nenhum país – e aqui “nenhum” não é só força de expressão – reagiu desta forma às medidas e ameaças de Trump. Nem a China nem a União Europeia, que são bem mais importantes para a economia e a geopolítica dos EUA e que também foram alvo do aumento de tarifas, entre outras medidas, tiveram a petulância de Amorim e de Lula, que saiu do encontro em Washington celebrando o fato de ter arrancado dele um sorriso.

Conjunto da obra

A fala de Rubio, porém, vai muito além das reações brasileiras ao tarifaço e à classificação do PCC e do CV como grupos terroristas. Vai muito além também da reação irada de Lula ao cancelamento de vistos de autoridades brasileiras e às sanções promovidas pelos EUA com base na Lei Magnitsky (norma que permite aplicar penalidades a estrangeiros envolvidos em violações a direitos humanos ou casos graves de corrupção), motivadas pelas denúncias de restrições à liberdade de expressão no país e de perseguição política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu grupo político.

A afirmação de Rubio se deve muito mais ao conjunto da obra de Lula e Amorim ao longo do tempo do que às suas grosserias recentes contra ele mesmo e contra Trump. Diante do retrospecto da dupla petista na arena internacional, não faltam razões para o secretário de Estado americano excluir o Brasil da lista de amigos dos EUA na América Latina – e não precisa ser bolsonarista nem de “extrema direita” para se dar conta disso.

Não é segredo para ninguém que Lula e o PT nunca morreram de amores pelos Estados Unidos. Desde a fundação do partido, em 1980, eles cultivam uma atitude hostil aos americanos, que culminou com a fundação do Foro de São Paulo, em parceria com Fidel Castro (1926-2016), em 1990. O objetivo declarado da entidade, que reúne partidos políticos, ONGs, movimentos sociais e sindicalistas de esquerda e extrema-esquerda da América Latina e do Caribe, foi justamente servir como contraponto à hegemonia dos EUA na região e no mundo, após a queda do Muro de Berlim e o fim do comunismo.

Depois, com a chegada de Lula ao poder em 2003, nos quase 20 anos de governos petistas, eles seguiram na mesma toada e agiram para aplicar suas ideias retrógradas ao mundo real. Encontraram em Amorim – que se filiou à sigla em 2009 – o mais completo tradutor do antiamericanismo petista entre os diplomatas do Itamaraty.

Com a ascensão da esquerda na América Latina nos anos 2000, eles atuaram para formar um “cinturão rosa” (ou era vermelho mesmo?) na região e aproximaram-se do regime dos aiatolás do Irã e de grupos guerrilheiros islâmicos. Tiveram ainda um papel ativo na criação do bloco do Brics, ao lado da China, da Rússia, da Índia e depois da África do Sul e de outros países, para reforçar o tal do Sul Global – um eufemismo para o velho terceiro-mundismo ressentido da esquerda latino-americana – do qual eles tanto tanto falam.

Agora, com Trump na Casa Branca e Rubio à frente do Departamento de Estado, que não engolem o lero lero esquerdista de Lula e sua turma, parece que a coisa degringolou de vez. Com a chacoalhada master promovida pelo presidente americano na geopolítica predominante no pós-guerra, o embate tornou-se mais direto e ganhou contornos de um conflito ideológico explícito.

“Turma do amor”

De repente, em vez de procurar se adaptar à nova realidade mundial, que colocou em xeque o multilateralismo defendido pelo atual governo e pelo PT, o Brasil resolveu falar grosso e peitar o gigante americano de igual para igual. Em vez de buscar um entendimento, preferiu seguir a cartilha do “companheiro” Fidel, resgatando o embolorado discurso anti-imperialista, em defesa da “soberania nacional”, dos anos 1950 e 1960.

O antagonismo da “turma do amor” começou ainda nas eleições americanas, em novembro de 2024, quando Lula declarou apoio à candidata democrata Kamala Harris e sugeriu que uma vitória de Trump representaria o retorno do fascismo e do nazismo “com nova cara”. É uma visão que foi reforçada recentemente pelo presidente do PT, Edinho Silva, autor do seguinte “afago” a Trump: “Ele é o maior líder fascista do século 21”.

Desde a posse de Trump, em janeiro de 2025, Lula já fez todo tipo de provocação contra ele. Já ironizou sua ambição pelo prêmio Nobel da Paz e sua suposta agressividade, ao dizer que iria levar um pé de jabuticaba para acalmá-lo. Também já o chamou de “imperador”, “senhor da guerra” e “gringo” e afirmou que ele “não foi eleito para governar o mundo” e “não faz bem para a democracia mundial”. De quebra, ainda falou que “se o Trump fosse brasileiro e tivesse feito o que fez no Capitólio estaria sendo julgado no Brasil”. Como se vê, Lula foi só “carinho”, de um “verdadeiro” amigo do peito, ao se referir ao presidente americano.

Desdolarização

Seus ataques a Trump, no entanto, superam de longe a retórica conflituosa e incendiária. Decorridos apenas um ano e meio desde o seu retorno à Casa Branca, Lula ampliou sua aliança com a China, a Rússia e o Irã; defendeu a desdolarização das transações comerciais entre os países do Brics e o fim do uso do dólar como padrão monetário global; e fez duras críticas às ações dos EUA contra o regime do Irã, contra a Venezuela, que levou à captura do ex-ditador Nicolás Maduro, e contra o cerco a Cuba, que ele procurou furar enviando “ajuda humanitária” ao país.

Ele ainda se negou a participar de duas grandes iniciativas lançadas por Trump: o “Escudo das Américas”, que reúne 12 países latino-americanos com o objetivo de combater grupos narcoterroristas da região e conter a imigração ilegal, e o Conselho da Paz, destinado inicialmente a promover a desmilitarização e a reconstrução da Faixa de Gaza, mas desenhado para atuar também em outros conflitos globais.

Além disso, Lula ainda declarou apoio oficial à candidatura de Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, à sucessão de António Guterres na Secretaria-Geral da ONU, que deverá ocorrer no fim de 2026, opondo-se aos nomes defendidos pelo presidente americano, e articulou com governos de esquerda na região o fortalecimento da Celac (comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) como alternativa à sua influência na OEA (Organização dos Estados Americanos).

Isso sem falar da revogação do visto e da proibição da entrada no Brasil de Darren Beattie, assessor do governo Trump, em suposta retaliação pelo cancelamento do visto do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e da expulsão de um agente de imigração americano do país –uma medida que também teria sido um troco pelo revogação do visto do representante da Polícia Federal nos EUA, Marcelo Ivo de Carvalho, acusado de ter atuado fora de suas atribuições legais na prisão do ex-deputado e ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) Alexandre Ramagem, em solo americano.

Diante de todo o bombardeio de Lula, Amorim e da tropa de choque petista contra Trump e os Estados Unidos, é difícil discordar de Rubio quando ele diz que hoje o Brasil não faz parte do grupo de países amigos de Washington na América Latina.

Ao se referir ao secretário de Estado americano, o presidente afirmou que ele “não gosta do Brasil”. Mas, na realidade, uma coisa é não gostar do Brasil. Outra, bem diferente, é não gostar de Lula, de Amorim e de seus aliados – e nisso Rubio não está sozinho.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/jose-fucs/por-que-rubio-esta-certo-ao-dizer-que-o-brasil-de-lula-nao-e-amigo-dos-eua/

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