
A ofensiva contra o senador Flávio Bolsonaro (PL) pode ganhar novos desdobramentos a partir das investigações sobre sua saída do Brasil para seguir aos Estados Unidos. Fontes que acompanham as apurações indicam, sob reserva, que a eventual ampliação das apurações pode alcançar pessoas próximas do senador caso a PF encontre indícios de participação ou apoio para que ele e a família deixassem o país ou de auxílio para descumprir a ordem judicial do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de entrega dos passaportes.
Flávio chegou aos Estados Unidos nesta quarta-feira (28), onde pode receber visto ou asilo político do presidente Donald Trump. Lá divulgou uma carta na qual se descreveu como “líder do Brasil”, apontou fraude eleitoral e disse que comandaria a oposição do exterior.
O coordenador de sua campanha, senador Rogério Marinho, classificou a carta como um possível “desabafo”. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse em entrevista ao jornal Estado de S.Paulo ter aconselhado Flávio a ficar no Brasil.
Flávio está no centro de frentes distintas de apuração no STF. Uma delas está relacionada à investigação envolvendo o advogado e empresário Willer Tomaz, amigo do senador, na qual foi determinada a entrega dos passaportes de ambos e a proibição de deixar o país.
A segunda frente apura os recursos destinados ao financiamento do filme Dark Horse. Já a terceira foi aberta nesta semana pelo ministro Flávio Dino – após pedido do PT – para apurar o suposto financiamento estrangeiro ao PL e a hipotética interferência no processo eleitoral.
De acordo com fontes ouvidas pela reportagem, a PF não descartaria pedido de buscas e apreensões contra endereços de Flávio, de aliados, de estruturas do PL. Também há a possibilidade de ocorrer uma decisão judicial que determine bloqueios de bens e até pedido de prisão preventiva do senador. Todas essas possibilidades estariam no radar dos investigadores, mas dependem de novos fatos e do aprofundamento das investigações.
Oficialmente, a Polícia Federal informou, na tarde de quarta-feira (28), que a viagem do senador aos Estados Unidos junto de sua família não caracteriza uma condição de fuga e nem a adoção de medidas cautelares imediatas, como prisão ou vigilância permanente.
“A existência de restrições relacionadas a documentos de viagem, por si só, não caracteriza a condição de foragido nem autoriza a realização de prisão, vigilância permanente ou outras medidas cautelares”, disse a Polícia Federal em um comunicado.
Apuração vai mapear como foi a saída de Flávio do Brasil
A PF e o Itamaraty cancelaram os passaportes de Flávio na manhã de terça-feira (27), depois que ele não cumpriu a determinação do ministro do STF Alexandre de Moraes para entregar os documentos.
A medida ocorreu em meio a notícias de que o senador teria cruzado a fronteira com a Argentina. Na madrugada da quarta-feira (28), o governo argentino informou que Flávio, a esposa e as duas filhas entraram no país com documentos oficiais.
A PF não teria identificado registro formal da saída do senador nos sistemas migratórios brasileiros. Fontes a par das apurações mencionaram que a possibilidade de que agentes e estruturas brasileiras possam ter auxiliado a saída de Flávio.
Por isso, as autoridades brasileiras já estariam apurando se houve apoio de servidores públicos ligados ao sistema migratório brasileiro, qual caminho teria sido utilizado por Flávio e por sua família e quem teria participado ativamente do deslocamento de Brasília até Foz do Iguaçu, na fronteira com a Argentina.
A partir desses e outros rastreamentos, a PF não descartaria solicitar medidas ao STF como a coleta de documentos e aparelhos eletrônicos de suspeitos que teriam dado apoio à sua saída do país.
Do outro lado, análises apontam que as medidas contra Flávio Bolsonaro se inserem em um contexto de perseguição política à direita, levantando questionamentos sobre o uso de instrumentos judiciais para restringir a atuação de adversários políticos. Nesse cenário, a apuração sobre a saída do senador do país também pode ampliar o embate entre as autoridades brasileiras e o grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Para que essas providências sejam autorizadas, será necessário apresentar fundamentos concretos e demonstrar a relação entre os locais ou pessoas que possam ser investigadas e os fatos apurados. Há uma sinalização de fechamento de cerco contra Flávio e estruturas próximas”, avalia o constitucionalista André Marsiglia.
A possibilidade de bloqueio de bens também depende de fundamento jurídico específico, mas estaria no radar. “A medida não ocorre automaticamente de um descumprimento da ordem de entrega de passaporte e precisa de elementos que justifiquem a constrição patrimonial com base na natureza da investigação, mas, diante do que temos visto no Brasil, isso não está descartado e pode ocorrer rapidamente”, completa o analista.
Investigação pode alcançar pessoas próximas
O principal ponto de atenção para aliados de Flávio é a eventual identificação de pessoas que tenham participado ou que souberam antecipadamente da saída dele do país.
“Caso a PF encontre indícios de que terceiros tenham oferecido transporte, hospedagem, documentos, estrutura logística ou outra forma de auxílio, poderá investigar a participação, apesar de Flávio não ter cometido um crime apenas por ter saído do Brasil”, lembra o criminalista Márcio Nunes.
Juristas reforçam, no entanto, que uma eventual responsabilização dependeria da comprovação de condutas e da relevância jurídica, e não de ilações ou atos de perseguição deliberada.
Até o momento não existiria uma “lista de aliados”, integrantes do PL ou pessoas próximas ao senador que possam ser alvos das investigações. Autoridades ligadas ao PL disseram na terça terem sido pegas de surpresa com a saída de Flávio do Brasil.
“Irretocável a conduta de Flávio e da família no plano individual. Nada tem a ver com ‘fuga’. Ele não violou lei alguma ao sair […] Ele colocou seu corpo físico e seu corpo político como representante de milhões”, alerta o doutor em Direito e comentarista político, Luiz Augusto Módolo.
Para ele, Flávio será mais útil liderando a “resistência” de fora. “[Eventualmente, se fosse] preso, ele não ajudaria ninguém”, destaca.
“É fato que a eventual, quase certa investigação, deve trazer consequências políticas ao entorno do senador, especialmente se surgirem evidências de que pessoas ligadas a ele ou sua campanha participaram de alguma ação para contornar decisões judiciais”, segue Nunes.
O constitucionalista André Marsiglia lembra que a existência de relações políticas, familiares ou partidárias não constitui prova de quaisquer irregularidades e que deve ser mantida a atenção sobre esses aspectos. Se houver quaisquer medidas de retaliação, isso reforçaria a tese que embasou a saída de Flávio do Brasil: perseguição política.
Haveria ainda entre os aliados de Flávio temor de que esteja em curso uma espécie de “caça às bruxas”, conforme o senador afirmou em sua carta pública.
Dino manda investigar suposta interferência estrangeira nas eleições após pedido do PT
Na terça-feira (27), mesmo dia da divulgação das notícias sobre a saída de Flávio Bolsonaro do país, o ministro Flávio Dino determinou que a PF investigue suspeitas de interferência estrangeira nas eleições brasileiras.
A decisão foi fruto de um pedido do PT em ação que discutia soberania nacional. Dino entendeu que as denúncias deveriam ser apuradas em procedimento próprio e não incorporadas ao processo original.
Entre os pontos a serem investigados por determinação do ministro estão possíveis tratativas envolvendo uma empresa americana e empresários suspeitos de arrecadação de recursos nos Estados Unidos para campanha de Flávio Bolsonaro.
A PF também deverá apurar a origem de pagamentos a conteúdos eleitorais publicados por perfis estrangeiros, a eventual participação de pessoas ou entidades brasileiras e possíveis diferenças na distribuição de conteúdo político nas plataformas digitais.
Outro eixo do processo envolve a suspeita de que interesses econômicos relacionados à exploração de terras raras e minerais críticos no Brasil hipoteticamente possam ter sido vinculados a apoio eleitoral.
Dino determinou que sejam esclarecidos os responsáveis por eventuais propostas, os destinatários, os instrumentos utilizados e a natureza de possíveis contrapartidas.
Analistas citam hipótese de Jair Bolsonaro ser investigado após ida de Flávio aos EUA
Para analistas, a depender dos episódios relacionados a uma eventual escalada da perseguição política, poderia haver retaliações também contra familiares que permanecem no Brasil. Isso incluiria o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena em prisão domiciliar pela suposta tentativa de golpe de Estado. Analistas não descartam até mesmo a possibilidade de que Bolsonaro seja submetido de novo à prisão em regime fechado.
Isso aconteceria se houver o entendimento – por parte de Moraes, da PF ou da PGR – de que Jair Bolsonaro teve participação ou orientou seu filho a deixar o Brasil. O que se sabe nesse momento é apenas que Flávio visitou o pai em 26 de outubro, antes de ser intimado a entregar passaportes.
A visita de Flávio ao pai foi autorizada pelo STF em outubro, depois de meses de suspensão. A decisão manteve restrições relacionadas ao uso político das visitas e à divulgação de manifestações do ex-presidente.
“Com tudo o que temos visto no Judiciário brasileiro, a relação familiar ou a visita anterior à saída podem ser usados como argumento”, opina Módolo.
O histórico de decisões de Moraes contra a família Bolsonaro
A relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e a família Bolsonaro é marcada por uma sequência de investigações, decisões cautelares e condenações que atingiram o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos Flávio e Eduardo.
O histórico remonta a 2019, quando Moraes foi designado relator do chamado inquérito das fake news, instaurado pelo então presidente do STF, Dias Toffoli. A investigação passou a apurar a disseminação de notícias falsas, além de supostas ameaças e ataques contra ministros da Corte. Nos anos seguintes, decisões do magistrado também atingiram aliados do ex-presidente e perfis nas redes sociais ligados a aliados de Bolsonaro.
Em setembro de 2021, durante as manifestações de 7 de Setembro, Jair Bolsonaro intensificou os ataques a Alexandre de Moraes. Em discurso na Avenida Paulista, em São Paulo, afirmou que não cumpriria mais decisões do ministro, chamou-o de “canalha” e exigiu sua saída. No dia seguinte, o então presidente do STF, Luiz Fux, advertiu que o descumprimento de decisões judiciais pelo chefe de um dos Poderes poderia configurar crime de responsabilidade.
Em 9 de setembro, Bolsonaro divulgou a chamada “Declaração à Nação”, redigida pelo ex-presidente Michel Temer. No documento, Bolsonaro atribuiu suas palavras ao “calor do momento”, negou a intenção de agredir os Poderes e reiterou respeito às instituições.
A Polícia Federal também investigou Jair Bolsonaro em dois casos sob relatoria de Moraes no STF: o da suspeita de fraude nos registros de vacinação contra a Covid-19 e o das joias e de outros presentes recebidos durante seu mandato.
No primeiro, Bolsonaro e Mauro Cid foram indiciados em março de 2024, mas Moraes arquivou a investigação contra o ex-presidente em março de 2025, a pedido da PGR. No caso das joias, a PF indiciou Bolsonaro e outros investigados em julho de 2024 por suspeitas de associação criminosa, lavagem de dinheiro e apropriação de bens públicos.
A apuração contou com informações da colaboração premiada de Cid. Em março de 2026, a PGR pediu o arquivamento do inquérito, e Moraes solicitou novo parecer sobre a participação do advogado Frederick Wassef antes de decidir.
Além disso, em fevereiro de 2024, Jair Bolsonaro passou a ser alvo de medidas judiciais no âmbito da investigação sobre uma suposta trama para impedir a posse de Lula em 2023.
Em julho de 2025, Moraes impôs novas medidas cautelares ao ex-presidente, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, restrições de circulação e proibição de utilizar redes sociais, inclusive por intermédio de terceiros.
No mês seguinte, após considerar que houve descumprimento das restrições, Moraes decretou a prisão domiciliar de Bolsonaro. A decisão também proibiu o ex-presidente de receber visitas, exceto de seus advogados, e de utilizar celulares, inclusive aparelhos de terceiros. Posteriormente, o ministro autorizou visitas de familiares, mas manteve restrições ao uso de celulares.
A Primeira Turma do STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado em setembro do ano passado. Moraes foi o relator da ação penal.
Neste ano, após o ex-presidente passar a cumprir pena em regime fechado e posteriormente obter prisão domiciliar temporária por razões de saúde, o ministro manteve restrições de comunicação e fiscalização judicial. Em julho, Moraes suspendeu por 90 dias as visitas de Flávio Bolsonaro ao pai.
A medida foi tomada depois que o senador publicou nas redes sociais uma carta escrita por Jair Bolsonaro devido à proibição de o ex-presidente utilizar as redes sociais, inclusive por intermédio de terceiros.
Além de Jair, Eduardo Bolsonaro também passou a ser alvo de investigação no STF. Em maio de 2025, Moraes determinou a abertura de inquérito, a pedido da PGR, em razão da atuação do então deputado nos Estados Unidos e das iniciativas para pressionar autoridades brasileiras durante o julgamento do pai.
Em junho de 2026, a Primeira Turma do STF condenou Eduardo a quatro anos e dois meses de prisão, em regime inicial semiaberto, por coação no curso do processo. O colegiado entendeu que ele havia atuado para interferir no julgamento de Jair Bolsonaro. A condenação também resultou em declaração de inelegibilidade e perda do cargo público de escrivão da Polícia Federal.
Após as eleições de 2026, Flávio Bolsonaro passou a ser alvo de uma nova medida judicial determinada por Alexandre de Moraes. Em decisão cujo conteúdo integral não foi divulgado, o ministro determinou que o senador entregasse seus passaportes à Polícia Federal e o proibiu de deixar o país.
Também vetou seu contato com o advogado Willer Tomaz, investigado no mesmo contexto. Flávio não entregou os documentos no prazo determinado, e a Polícia Federal cancelou seus passaportes. Nesta terça-feira (27), a PF confirmou que o senador deixou o Brasil. Flávio Bolsonaro passou pela Argentina e desembarcou com a família nos Estados Unidos nesta quarta-feira (28).
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/saida-de-flavio-bolsonaro-dos-eua-pode-ampliar-cerco-judicial-contra-aliados-e-familia/
Flávio Bolsonaro e as batalhas que mais importam para a oposição

Flávio Bolsonaro durante evento de campanha, em outubro. (Foto: ChatGPT sobre foto de Vittor Sales/Campanha PL)
O senador Flávio Bolsonaro, candidato derrotado à presidência da República, chegou na manhã de quarta-feira aos Estados Unidos, para onde viajou após o recrudescimento da perseguição política movida contra ele tendo como pretexto os inquéritos a que responde no Supremo Tribunal Federal (STF). Em sua primeira manifestação pública fora do país, após uma versão inicial na qual se declarava “presidente eleito do Brasil”, Flávio se proclamou “líder do Brasil” e falou mais de uma vez em “fraude eleitoral”, cometida por “criminosos que roubaram a eleição do Brasil”.
Que o segundo turno foi totalmente atípico é algo que está suficientemente comprovado. Lula comprou votos em escala nunca antes vista, por meio de um “pacote de bondades” de centenas de bilhões de reais em gastos ou renúncias a receitas; sua campanha digital se superou no terrorismo apocalíptico, criando um clima de puro medo; o TSE pouco fez para conter a desinformação, e fechou totalmente os olhos ao abuso de poder político; por fim, veio a decisão mencionada por Flávio em sua carta, na qual Cristiano Zanin atropelou o TSE e prorrogou a votação quando a maioria das seções eleitorais já estava fechada.
Garantir que o Senado seja presidido por um parlamentar da oposição, comprometido com o freio aos abusos do Supremo, deveria ser a prioridade absoluta
Compreende-se a profunda decepção com a derrota no segundo turno, depois de Flávio ter saído na frente em 4 de outubro. Compreende-se a sensação de que há algo de errado quando Lula consegue incríveis 10 milhões de votos adicionais na comparação com o primeiro turno. Mas é preciso ter evidências irrefutáveis para acusar fraude. Foi o que os venezuelanos fizeram em 2024, já escaldados pela “vitória” irregular de Nicolás Maduro em 2018: eles fotografaram todos os boletins de urna que puderam, e foi assim que provaram, acima de qualquer dúvida, que os dados oficiais de apuração eram falsos. Sem uma evidência que Flávio possa exibir para o mundo no caso brasileiro – e o próprio coordenador de campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho, afirmou que não tem essas provas –, qualquer acusação de fraude se torna inclusive muito perigosa para o futuro da oposição no Brasil.
A crença em uma fraude em 2022, recorde-se, foi um dos estopins – se não tiver sido o principal deles – para o 8 de janeiro de 2023. Ainda que um novo tumulto como o ocorrido naquela ocasião não aconteça, falar em fraude sem apresentar provas é tudo de que nossa juristocracia autoritária precisa para recolocar em prática as teses da “democracia defensiva” e reforçar a perseguição. Quem duvida que Polícia Federal, Ministério da Justiça, Procuradoria-Geral da República e STF colocarão em sua mira qualquer um que endosse, elogie ou até mesmo compartilhe as alegações de fraude, tratando-o como potencial instigador de um novo golpe? Flávio deveria saber disso mais que ninguém: foi a tese do “golpismo” que colocou seu pai na prisão em uma condenação sem crime. Seus adversários estão salivando para poder usá-la outra vez.
Que Flávio acuse, isso sim, o abuso de poder político, que foi bastante real. Embora seja improvável a cassação da chapa de Lula no TSE, seria uma providência para marcar posição enquanto a oposição se prepara para as verdadeiras batalhas; a primeira delas ocorrerá no Senado, onde Davi Alcolumbre respira aliviado com a reeleição de Lula, que se torna o fiador de sua recondução à presidência da casa, na disputa marcada para fevereiro de 2027. Garantir que o Senado seja presidido, nos próximos dois anos, por um parlamentar da oposição, comprometido com o freio aos abusos do Supremo, cumprindo seu papel constitucional, deveria ser a prioridade absoluta, até porque o Centrão fisiológico já se movimenta para apoiar Alcolumbre, como fez a federação formada por União Brasil e PP.
Liderar a oposição, agora, exige mobilizar as dezenas de senadores de direita e centro-direita, os deputados dispostos a frustrar os planos do petismo e dar seguimento à ideia da CPI do Abuso de Autoridade, e os vários governadores (especialmente aqueles de estados importantes) eleitos na onda oposicionista. Não é hora de perder tempo com alegações de fraude que servem apenas para atiçar um regime autocrático, que joga sujo e pesado e que não perderá uma chance de esmagar a oposição que continua no Brasil. Apesar da derrota na disputa presidencial, o eleitor deu um presente ao país na forma de um Legislativo majoritariamente de direita e centro-direita, e é com essas armas que o jogo tem de ser jogado. De nada adiantará uma multidão de deputados e senadores cassados, presos ou expatriados.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/flavio-bolsonaro-batalhas-oposicao/
Trump evita comentar carta de Flávio e diz que eleição no Brasil “foi muito estranha”

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, evitou nesta quarta-feira (28) comentar a declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL), que se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” em uma primeira versão de uma carta divulgada após sua chegada aos EUA. Questionado por jornalistas sobre a afirmação do senador, que depois trocou o começo da carta para “líder do Brasil”, o republicano disse que não pretende se envolver no tema, mas voltou a criticar a eleição brasileira.
“Não vou comentar isso [a carta], mas sei que demos a ele permissão para entrar no país. Então, vamos ver. Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, isso é certo”, declarou Trump.
A manifestação ocorreu horas depois de Flávio divulgar a carta, na qual contesta a vitória de Lula (PT) no segundo turno da eleição presidencial, realizado no domingo (25). A primeira versão do documento, divulgada pelo jornalista e empresário Paulo Figueiredo, começava com a afirmação de que o senador seria o verdadeiro vencedor da disputa presidencial.
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, dizia o começo desta primeira versão.
Posteriormente, uma nova versão da carta, publicada no perfil de Flávio no X, trocou o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” por “líder do Brasil”. No documento, o senador agradeceu aos presidentes Trump e Javier Milei pelo apoio recebido durante sua saída do Brasil. Flávio deixou o país após uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes no âmbito de uma investigação judicial.
“Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o líder e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação”, diz um trecho do documento divulgado por Flávio.
Mais cedo, Trump já havia criticado a forma como se chegou ao resultado eleitoral brasileiro e defendido a família Bolsonaro. O presidente americano afirmou que aprovaria a entrada de Flávio e de seus familiares nos EUA, embora tenha declarado que não participou da disputa presidencial entre Lula e o senador.
“Eu conheço os dois. Conheço Lula. Conheço um pouco Flávio. Conheço muito bem o pai. O pai foi tratado muito mal, na minha opinião. Mas eu não me envolvi. É o Brasil, é outro país”, declarou Trump, em referência também ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na segunda-feira (26), o republicano havia afirmado que a eleição brasileira “pareceu fraudada”. Na ocasião, ele questionou a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, de prorrogar o horário de votação em determinadas seções eleitorais.
FONTE: GAEZTA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/trump-diz-que-nao-vai-se-envolver-apos-flavio-se-declarar-presidente-eleito-do-brasil-em-carta/
Flávio cita líderes da oposição ao chavismo e figuras históricas para defender atuação no exterior

O senador Flávio Bolsonaro (PL) citou personalidades históricas e líderes da oposição ao chavismo na Venezuela para defender sua atuação política no exterior. Na carta divulgada nesta quarta-feira (28), após chegar aos Estados Unidos com a família, o parlamentar mencionou figuras como o jurista brasileiro Rui Barbosa, o general francês Charles de Gaulle e a líder opositora venezuelana María Corina Machado. Todos foram apresentados por Flávio como exemplos de pessoas que enfrentaram governos autoritários de seus países e mantiveram suas atividades políticas mesmo diante de perseguições.
“Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele”, escreveu Flávio, que deixou o Brasil após uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes. A decisão de Moraes ocorreu dias após o segundo turno da eleição presidencial no Brasil, no domingo (25), onde Flávio disputava o cargo contra o presidente Lula (PT).
Na carta, Flávio afirma que pretende liderar a oposição brasileira a partir dos Estados Unidos, onde desembarcou depois de passar pela Argentina e pelo Equador.
“Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação”, diz no documento.
Quem são as personalidades históricas citadas por Flávio
A primeira figura histórica mencionada na carta é Rui Barbosa (1849–1923), jurista, diplomata e um dos principais nomes da política brasileira nos primeiros anos da República. Senador pela Bahia, Rui Barbosa entrou em confronto com o governo do marechal Floriano Peixoto, segundo presidente do Brasil, que governou o país entre 1891 e 1894. Rui Barbosa se destacou naquela ocasião pela defesa de presos políticos e pela oposição às medidas de exceção adotadas por Floriano. Em setembro de 1893, durante a Revolta da Armada, ele buscou abrigo na representação diplomática do Chile e deixou o Brasil. Barbosa voltou ao país em 1895, durante a Presidência de Prudente de Morais.
Outro nome citado por Flávio no documento é o do general Charles de Gaulle (1890–1970), que comandou a resistência francesa contra a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Em junho de 1940, após a invasão alemã da França e a decisão do governo francês de negociar um armistício, De Gaulle deixou o país e seguiu para Londres. Da capital britânica, fez um pronunciamento histórico pela BBC, em 18 de junho, convocando os franceses a continuar a guerra contra os nazistas. O militar organizou o movimento conhecido como França Livre, que recebeu o apoio do primeiro-ministro britânico Winston Churchill. De Gaulle foi condenado à morte à revelia pelo regime de Vichy, que colaborava com a Alemanha nazista. Após a libertação da França, ele assumiu o comando do governo provisório e, anos depois, tornou-se presidente francês.
O outro nome citado foi o de José Martí (1853–1895), escritor, jornalista e revolucionário cubano que participou da luta pela independência de Cuba contra o domínio colonial espanhol. Martí passou parte de sua vida no exílio, principalmente em Nova York, onde articulou grupos favoráveis à independência cubana. Em 1892, fundou o Partido Revolucionário Cubano, responsável por organizar politicamente a mobilização contra a Espanha. Três anos depois, retornou a Cuba para participar da guerra de independência e morreu em combate.
Líderes da oposição venezuelana ao chavismo também foram citados
Flávio mencionou ainda no documento três nomes de lideranças que se tornaram conhecidas internacionalmente pela oposição ao regime chavista na Venezuela: Juan Guaidó, Edmundo González Urrutia e María Corina Machado.
Juan Guaidó, que foi presidente da Assembleia Nacional venezuelana, ganhou destaque na comunidade internacional em janeiro de 2019, quando se declarou presidente interino do país, contestando a legitimidade do então “novo mandato” do ditador Nicolás Maduro, que fraudava as eleições no país. A iniciativa de Guaidó recebeu o reconhecimento de dezenas de governos, incluindo os Estados Unidos e o do Brasil, então presidido por Jair Bolsonaro. Guaidó tentou mobilizar a oposição e obter apoio internacional para afastar Maduro do poder, mas não conseguiu assumir o controle das instituições venezuelanas. Em abril de 2023, Guaidó deixou a Venezuela e seguiu para os Estados Unidos, onde passou a viver.
O segundo venezuelano citado por Flávio na carta foi Edmundo González Urrutia, diplomata aposentado que disputou a eleição presidencial de 2024 na Venezuela como candidato da oposição unificada, após María Corina Machado ser impedida pelo regime de Maduro de concorrer.
Naquele pleito, contudo, o Conselho Nacional Eleitoral declarou Maduro novamente vencedor, mas não divulgou os resultados detalhados das urnas. A oposição apresentou atas eleitorais que demonstravam a vitória de González, que foi reconhecida por grandes democracias e órgãos de observação eleitoral.
Após a contestação do resultado, o regime de Maduro decretou a abertura de diversas investigações contra González, que teve sua prisão decretada pela Justiça venezuelana. Em setembro de 2024, o opositor teve que deixou o país e recebeu asilo político na Espanha, onde continuou defendendo o reconhecimento de sua vitória eleitoral.
A outra liderança mencionada foi María Corina Machado, principal nome da oposição venezuelana nos últimos anos e vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025. Machado venceu as primárias da oposição de 2023 para disputar a eleição presidencial contra Maduro, mas foi impedida pelas autoridades chavistas de participar da eleição presidencial. A líder apoiou a candidatura de González e passou a denunciar irregularidades no pleito que declarou Maduro vencedor. Após a eleição, María Corina ficou mais de um ano escondida dentro da Venezuela, em meio à repressão contra integrantes da oposição. Em dezembro de 2025, ela deixou o país para viajar à Noruega, onde recebeu o Nobel da Paz. María Corina retornou à Venezuela no último domingo (25), depois de quase dez meses no exterior.
Flávio disse que todas as figuras citadas na carta “foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam”, mas que “a história os chamou de outra coisa”.
“Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre”, declarou na parte final da carta.
FONTE: GAEZTA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/flavio-cita-lideres-da-oposicao-ao-chavismo-e-figuras-historicas-para-defender-atuacao-no-exterior/
Tarcísio volta a cogitar Presidência após saída de Flávio do país

Em meio à saída do país do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após sua derrota nas eleições de 2026, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), admitiu a possibilidade de concorrer ao Planalto em 2030. A declaração ocorreu em entrevista ao jornal Estado de São Paulo publicada nesta quinta-feira (29).
“A gente tem que ver qual é o cenário de momento. E claro, eu vou estar terminando o segundo mandato aqui no estado de São Paulo. E terminando o segundo mandato, terminando bem, obviamente abre uma possibilidade. Mas isso é uma coisa que você avalia em grupo, você não avalia sozinho”, afirmou.
Tarcísio foi o primeiro nome a ser considerado para substituir Jair Bolsonaro (PL) na corrida presidencial, uma vez que o ex-presidente foi declarado inelegível e, depois, preso. O nome ganhou as graças de nomes do Centrão, como o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e o presidente do PSD, Gilberto Kassab. Bolsonaro, no entanto, encerrou a questão ao escolher o filho mais velho. Tarcísio aderiu e decidiu disputar um novo mandato ao Palácio dos Bandeirantes, vencendo logo no primeiro turno com 62,65% dos votos (14.491.874).
O feito ganha relevância no cenário nacional porque São Paulo é o maior colégio eleitoral do país. Uma comparação das votações mostra, porém, que Flávio não repetiu no segundo turno presidencial o total alcançado por Tarcísio na disputa estadual: recebeu 352.696 votos a menos. O republicano obteve 14.491.874 votos no primeiro turno, enquanto o candidato do PL recebeu 14.139.178 no segundo.
No campo adversário, ocorreu o movimento inverso nos números absolutos. Lula (PT) obteve 12.119.274 votos no segundo turno presidencial, 3.695.618 a mais do que Fernando Haddad (PT) havia recebido na disputa pelo governo paulista, quando terminou com 8.423.656 votos.
A comparação não permite identificar transferência individual de votos, já que envolve cargos e turnos diferentes, mas mostra que as votações obtidas pelos candidatos ao governo estadual não se reproduziram na mesma proporção na disputa presidencial. Também houve uma mudança no universo de votantes: o comparecimento aumentou em 970.133 eleitores entre o primeiro e o segundo turno. Ao mesmo tempo, a redução dos votos brancos e nulos fez o total de votos válidos crescer em 3.127.939.
Governador comenta carta de Flávio
Na entrevista, o governador também comentou a situação de Flávio. O governador disse que respeita o resultado das urnas e que o momento é de aprendizado e exercício de oposição.
“Não cabe contestar o resultado das urnas. Nós somos democratas, o resultado das urnas é soberano. O que a gente viu é uma posição majoritária da população que precisa ser respeitada. O que nos cabe agora é fazer oposição responsável, é começar a cobrar o governo”, argumentou.
O senador saiu do país após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinar a entrega do seu passaporte. Seu paradeiro permaneceu desconhecido desde segunda-feira (26). Na quarta-feira (28), a imprensa registrou imagens de sua descida no aeroporto executivo de Opa-Locka, em Miami.
Naquela noite, Flávio divulgou duas versões de uma carta aos apoiadores: na primeira, se dizia “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Na mais recente, trocou por “líder do Brasil”. Em ambas, porém, fala em “fraude eleitoral”, citando a extensão do horário de votação e o suposto uso da máquina pública por Lula com interesses eleitorais. Esses pontos, em sua visão, justificariam a cassação da chapa vencedora.
Tarcísio converge em parte com este posicionamento. Ele rejeita a alegação de fraude, mas avalia que Flávio só não venceu porque Lula lançou um “pacote de gastos desmedidos nessa reta final”, que teria conseguido “iludir o cidadão”.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/tarcisio-volta-a-cogitar-presidenia-em-2030-apos-saida-de-flavio-do-pais/
Lula começa novo mandato sob forte pressão para conter gastos e estabilizar dívida

Sem espaço para soluções fáceis, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de enfrentar a rigidez do Orçamento a partir de 5 de janeiro, quando começa o quarto mandato. Entre as alternativas para conter o avanço da dívida estão rever regras de aposentadorias e benefícios sociais, cortar despesas de custeio da máquina pública e limitar as emendas parlamentares.
Mais de 90% do Orçamento de 2027 está comprometido com despesas obrigatórias. Segundo analistas consultados pela Gazeta do Povo, sem mudanças estruturais, a dívida pública continuará crescendo e poderá ultrapassar 100% do PIB nos próximos anos.
O mercado reagiu negativamente à vitória de Lula no segundo turno, na segunda-feira (26), diante do temor de continuidade da política econômica atual. O dólar teve a maior alta diária em cerca de 27 anos, enquanto o Ibovespa caiu quase 14%. O circuit breaker, mecanismo que suspende temporariamente as negociações, foi acionado pela primeira vez em seis anos. Os juros futuros também registraram forte alta.
Um dos principais desafios do próximo mandato será montar uma equipe econômica comprometida com o ajuste fiscal e o controle dos gastos. Ao contrário de 2022, o mercado sinaliza que espera medidas concretas antes de rever suas expectativas. Um dos nomes citados para assumir o Ministério da Fazenda é o do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
Segundo a CNN Brasil, o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, conversou nos últimos meses com economistas liberais em busca de sugestões para o ajuste fiscal.
Contas públicas têm déficits crônicos desde 2014
Desde 2014, o setor público só registrou superávit primário em 2022. A dívida bruta alcançou 82,9% do PIB em agosto, segundo o Banco Central (BC), e o mercado prevê que seguirá subindo enquanto o ajuste não vier.
A conta que o próximo governo encontrará, porém, é maior do que qualquer corte imediato permite. “O novo governo precisará apresentar um ajuste capaz de mudar a trajetória de crescimento das despesas e estabilizar a dívida pública”, avalia Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil da UBS Global Wealth.
O economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, não espera uma guinada de Lula no quarto mandato. A manutenção da política econômica petista significará, segundo ele, “aumento da dívida pública, aumento do déficit fiscal, do endividamento das pessoas e do endividamento do governo.”
Dívida e gastos rígidos limitam as saídas fiscais
Além dos déficits crônicos nas contas, há o aumento no endividamento: quase metade da dívida pública (46,4%) está atrelada à taxa Selic. Eventuais elevações tornam-se despesa nova. A carga tributária, por sua vez, atingiu 32,4% do PIB em 2025, o maior valor da série histórica, segundo o Tesouro Nacional — ou seja, também a receita está no limite.
Mesmo assim, os especialistas alertam que aumentar a arrecadação com medidas pontuais ou fazer mudanças superficiais nas regras fiscais não resolverá o problema. Essas medidas podem elevar o custo da dívida e levar o país a uma situação em que o endividamento dificulta o trabalho do Banco Central para controlar a inflação, mesmo com juros altos.
Outro desafio do próximo mandato é lidar com o modelo de crescimento econômico defendido por Lula, que se baseia em estímulos recorrentes de demanda. O modelo, no entanto, agora colide com a baixa produtividade da economia.
“Quando você tem uma economia que desenha um modelo de crescimento por estímulo de demanda com baixa produtividade, o que acontece? Inflação”, resume Rodrigo Sgavioli, head de alocação da XP Investimentos.
Governo e IFI divergem sobre as contas de 2027
As expectativas em relação às contas públicas se deterioraram. A mediana das projeções do Focus para o endividamento público em 2030 subiu de 92% do PIB, em janeiro, a 95,1% em outubro. O boletim projeta déficits primários até 2029, equilíbrio em 2030 e superávits residuais daí em diante — insuficiente para estancar a dívida, cuja trajetória ultrapassa 100% do PIB em 2034.
Os números usados pelo governo no projeto de lei orçamentária anual de 2027 (PLOA) estão otimistas. O Executivo prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões (0,13% do PIB). Já o Relatório de Acompanhamento Fiscal da IFI (Instituição Fiscal Independente, órgão do Senado) aponta déficit de R$ 86,1 bilhões. A distância de R$ 104,7 bilhões entre as duas projeções decorre de premissas mais conservadoras do órgão.
Para cumprir a meta de superávit do projeto de lei de diretrizes orçamentárias (PLDO), de R$ 73,2 bilhões, a IFI calcula contingenciamentos (bloqueios de verbas aprovadas) de R$ 35,7 bilhões. No caminho, seguem os precatórios, que consomem 0,7% do PIB, e a transição para a reforma tributária, que exige aporte de R$ 33,8 bilhões ao Fundo de Compensação de Benefícios Tributários aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios.
A arrecadação com a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) em 2027 deve somar R$ 636,8 bilhões, segundo as estimativas do Executivo no PLOA analisadas pela IFI. Contudo, o órgão faz uma ressalva: por ser o primeiro ano de cobrança, o recolhimento via split payment (retenção na fonte) ainda é opcional, o que dá ao valor elevado grau de incerteza e pode exigir ajustes na execução orçamentária.
Três cenários para a dívida pública
O Orçamento engessado dificulta o ajuste fiscal. Segundo a Kinea Investimentos, mais de 90% das despesas de 2027 são obrigatórias, enquanto os gastos discricionários encolheram a ponto de deixar pouca margem para cortes. As despesas obrigatórias devem crescer R$ 131,4 bilhões em 2027, pressionadas por compromissos como aposentadorias, benefícios sociais e emendas parlamentares.
Para a Kinea, estabilizar a dívida no patamar atual exigiria um superávit primário imediato de cerca de 2% do PIB. Como o ajuste deve ser gradual, entre 2027 e 2029, o endividamento continuará subindo nos primeiros anos do novo mandato. Mesmo com reformas bem-sucedidas, a dívida só se estabilizaria em um nível mais alto, entre 88% e 90% do PIB no fim da década.
A gestora traça três cenários para os próximos anos. No mais favorável, o governo aprova reformas estruturais para conter despesas e alterar regras de indexação, com um ajuste equivalente a dois pontos percentuais do PIB. No cenário intermediário, baseado em aumentos pontuais de receita e bloqueios de gastos, a dívida supera 96% do PIB em 2030, próximo da projeção de 95,1% do Focus.
No pior cenário, sem medidas suficientes para recuperar a confiança do mercado, a dívida ultrapassa 100% do PIB até 2030, aumentando o risco de dominância fiscal — situação em que a deterioração das contas públicas dificulta o combate à inflação pelo Banco Central.
Novo governo terá janela de 18 meses para ajuste fiscal
Evitar esse destino exige agir cedo e rápido. Sgavioli salienta que começos de mandato abrem uma janela de credibilidade: “cabe ao presidente usar essa oportunidade para trazer um choque de credibilidade”.
A Kinea acrescenta que o país terá 18 meses, entre janeiro de 2027 e meados de 2028, para fazer os ajustes. Depois, as campanhas das eleições municipais de 2028 travam a aprovação de reformas impopulares no Congresso.
O pacote exigirá alterar a indexação do salário-mínimo — cada R$ 1,00 de aumento eleva despesas em R$ 413,2 milhões — e revisar os pisos de saúde e educação. Outra frente é limitar as emendas parlamentares impositivas, que somam 22% das verbas discricionárias. Em todas elas, o governo precisará vencer a resistência de parlamentares e servidores públicos.
Para colocar a reestruturação do Orçamento no topo da agenda, Lula terá que agir já nos primeiros meses. O primeiro passo é enviar ao Legislativo uma proposta de emenda à Constituição que desindexe e contenha as despesas obrigatórias. Decretos sobre tributos e cortes provisórios de renúncias cobrem o fosso fiscal imediato.
Para a Warren Rena e a Kinea, não haverá reestruturação do Orçamento adequada sem um “plano coeso de ajuste gradual”, fundamentado em um amplo pacto social.
FONTE: GAEZTA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/economia/ajuste-fiscal-divida-publica-lula/
Cotado para a Fazenda, Rafael Fonteles enfrenta questionamentos sobre contas do Piauí

Um dos nomes mais cotados para comandar o Ministério da Fazenda no quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o atual governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), tem números pouco convincentes na gestão das contas do Executivo piauiense. No entanto, o nome agrada parte do mercado financeiro pela formação técnica e atuação fiscal prévia.
Governador do Piauí desde 2023 e reeleito neste ano, Fonteles carrega o déficit deixado no estado. Somente em 2025, o déficit fiscal foi de R$ 1,25 bilhão, segundo a Secretaria de Planejamento, em um orçamento que saltou de R$ 17,6 bilhões, em 2022, para R$ 30,6 bilhões, em 2025.
A situação somente deve ser revertida em 2029, projeta a Secretaria de Planejamento do Estado, mesmo com o avanço da fronteira agrícola que teve peso relevante na duplicação da arrecadação entre 2022 e 2025.
A melhoria da arrecadação viabilizou o aumento da capacidade de investimento público, mas isso não se refletiu com força no mercado de trabalho: o crescimento real médio dos rendimentos (PNAD Contínua, pesquisa do IBGE) no Piauí foi de 10% entre o último trimestre de 2022 e o primeiro trimestre de 2026 — menos da metade do ritmo de Pernambuco e um terço do Sergipe.
A taxa de desemprego no segundo trimestre de 2026 era de 8,3%, a quarta maior do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Apesar disso, uma parcela dos agentes do mercado vê o nome com esperança. “Além de ser político, Fonteles cuidava das finanças do Piauí. Sempre trabalhou com finanças. O ideal é ser um político técnico ou um político que entenda e dê respaldo ao seu time técnico”, diz o estrategista macro da Genial Investimentos, Roberto Motta.
Analistas do BTG Pactual apontam que nomes como Rafael Fonteles ou o vice-presidente Geraldo Alckmin poderiam reduzir a percepção de risco dos investidores e, consequentemente, o custo de financiamento do governo.
Experiência na Fazenda e formação técnica pesam a favor
Analistas apontam que Lula tem preferência histórica por colocar figuras políticas na liderança do Ministério da Fazenda. Fonteles encaixa-se nessa tradição, mas diferencia-se pela experiência prática direta nas finanças públicas: foi secretário da Fazenda do Piauí antes de se eleger governador.
A bagagem acadêmica é um dos pontos elogiados. O governador é formado em Matemática pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e tem mestrado em economia matemática pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), um dos principais centros de referência de estudo e pesquisa da área no Brasil.
Motta ressalta que esse preparo é um diferencial para lidar com a mecânica dos juros e o manejo das contas públicas. O lastro técnico está registrado em documento oficial: Fonteles defendeu o equilíbrio fiscal no livro Diretrizes de Longo Prazo de Desenvolvimento do Estado do Piauí, publicado no ano passado.
“É a estabilidade fiscal que garante capacidade de investimento, elemento fundamental para as políticas públicas, para melhorar a infraestrutura e para atrair investimentos privados”, defendeu.
Desafio de Fonteles será convencer Lula a cortar gastos
Gestores e estrategistas advertem, contudo, que a escolha do nome, isoladamente, não resolverá o problema fiscal do país. Para o estrategista da Genial Investimentos, o sucesso de uma eventual gestão de Fonteles na Fazenda dependerá de autorização explícita do presidente da República para comunicar a necessidade de cortar despesas.
“Ele vai ter que entrar falando: ‘eu tenho o Lula comigo'”, diz Motta. Sem o apoio visível do Planalto para executar cortes rígidos, qualquer ministro técnico correrá o risco de ver sua credibilidade desgastada pelas pressões políticas internas.
No entanto, por ser um quadro filiado ao PT, paira entre os agentes financeiros o receio de que o governo opte por um ajuste superficial. O próprio Lula não apresentou, ao longo da campanha eleitoral, compromisso com o ajuste fiscal.
Diante de pressões políticas ou do Congresso, Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, teme que o governo adote medidas paliativas, como cortar gastos não obrigatórios, adiar despesas e buscar receitas extras, sem enfrentar o problema estrutural do Orçamento, que concentra a maior parte dos recursos em despesas obrigatórias.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/economia/rafael-fonteles-fazenda-mercado-deficit-piaui/
“Imposto do pecado” deve ser definido nesta semana: veja quais itens podem ter aumento de preços

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve publicar ainda nesta semana a medida provisória (MP) que estabelece as alíquotas do Imposto Seletivo, o chamado “imposto do pecado”, segundo afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan.
Previsto na reforma tributária aprovada em 2023, o tributo foi criado, em tese, com caráter extrafiscal, para desestimular o comércio de bens e a prestação de serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente (confira a lista abaixo), substituindo uma das funções do atual Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).
Na prática, no entanto, o governo depende da arrecadação gerada pelo Imposto Seletivo para fechar as contas dentro da meta fiscal a partir do ano que vem. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) de 2027, enviado pelo Executivo ao Congresso no fim de agosto, estima uma receita de R$ 41,9 bilhões com o imposto.
O cronograma da reforma tributária previa o início da cobrança do Imposto Seletivo em 1º de janeiro de 2027. Para isso, no entanto, o governo deveria ter fixado as alíquotas até o início deste mês.
Pela chamada regra da noventena, novos tributos ou aumentos de alíquotas precisam respeitar um prazo mínimo de 90 dias antes de começar a ser cobrados. Como o governo perdeu o prazo, o início da vigência do tributo terá de ser adiado.
No início de outubro, Durigan já havia afirmado que o governo planejava encaminhar a proposta ao Legislativo após o segundo turno das eleições, realizado no último domingo (25).
Para não perder mais tempo, o governo optou por utilizar uma MP, que entra em vigor de forma imediata e tem até 120 dias para ser referendada pelo Legislativo, em vez de encaminhar um projeto de lei ao Congresso.
Ainda assim, a MP fica sujeita à decisão dos parlamentares, que podem converter o ato em lei ou rejeitá-lo. Caso os parlamentares não votem até o fim da validade, a medida perde a eficácia e deixa de valer.
Quais setores terão de recolher o Imposto Seletivo
Embora ainda não tenha alíquotas definidas, o Imposto Seletivo já teve suas regras gerais regulamentadas. De acordo com a lei complementar 214/2025, os bens e serviços sobre os quais incidirá a nova tributação são:
- veículos (exceto caminhões), inclusive híbridos e elétricos;
- aeronaves e embarcações;
- cigarros e demais produtos fumígenos;
- bebidas alcoólicas;
- refrigerantes e outras bebidas açucaradas;
- bens minerais (petróleo, gás natural, carvão mineral e minério de ferro);
- concursos de prognósticos (jogos de azar); e
- fantasy sport (jogos online de competição).
Incluídas na definição de concursos de prognósticos, as apostas esportivas online, chamadas de bets, seriam alcançadas pelo tributo. Com a proibição do setor determinada por Lula no mês passado, as receitas que eram esperadas dessa fonte deverão ser compensadas.
Conforme a legislação já aprovada, o Imposto Seletivo sobre o minério de ferro e sobre a exportação e produção de petróleo ficará limitada a 0,25%.
Já a taxação de bebidas alcoólicas será feita de forma escalonada, progressivamente, de 2029 até 2033, para evitar carga excessiva.
Em 2024, o economista Bráulio Borges, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), utilizou o simulador SimVAT, do Banco Mundial, para calcular como diferentes alíquotas do Imposto Seletivo poderiam afetar a alíquota geral do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).
Em artigo publicado na revista Conjuntura Econômica, ele explica que para uma taxação total de 26,5% de IBS e CBS, as alíquotas do “imposto do pecado” implícitas seriam de 46% a 62% para alguns tipos de bebidas alcoólicas, 32% para refrigerantes e 250% para cigarros.
FONTE; GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/economia/aliquotas-imposto-seletivo/

O Brasil que perdemos e a esperança que nos resta

Há momentos na história de uma nação em que a tristeza é maior que a indignação. A indignação ainda pressupõe alguma expectativa de mudança. A tristeza chega quando percebemos que aquilo que julgávamos uma crise passageira talvez seja, na verdade, a expressão de um problema muito mais profundo, enraizado nas instituições, na cultura política e nas escolhas de uma parcela considerável da população.
Diante da reeleição de Lula, em mais um pleito marcado por controvérsias, foi difícil não recordar os versos sombrios de Nevermind, de Leonard Cohen, que parecem traduzir a amarga sensação de derrota diante de um poder maléfico que se perpetua:
A guerra estava perdida
O tratado, assinado
Não fui capturado
Cruzei a fronteira
Não fui capturado
Embora muitos tenham tentado
[…]
Tive de deixar para trás
A vida que era minha
[…]
A história é contada
Entre fatos e mentiras
[…]
A guerra estava perdida
O tratado, assinado
Há verdades que sobrevivem
E verdades que morrem
Não sei quais são umas ou outras
Então, que importa?
É difícil não experimentar esse sentimento diante do Brasil de hoje.
A existência de eleições e de representantes legitimamente eleitos não garante, por si só, a preservação da democracia
Durante mais de duas décadas, acompanhamos a consolidação de um projeto político que ultrapassa governos e mandatos. Vimos escândalos de corrupção, crises econômicas, o aparelhamento de instituições, o enfraquecimento da confiança pública e a crescente disposição de tratar adversários políticos como inimigos a serem eliminados da vida pública. Houve resistências, vitórias ocasionais e momentos de esperança. Mas a impressão, cada vez mais difícil de afastar, é que as forças responsáveis por esse processo continuam firmemente poderosas.
A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, parece hoje uma interrupção excepcional de uma trajetória mais longa. Sua vitória demonstrou que havia uma parcela expressiva da sociedade inconformada com os rumos do país. Entretanto, também revelou que uma vitória eleitoral, por si só, não basta para transformar estruturas políticas e institucionais consolidadas ao longo de décadas.
A experiência brasileira parece confirmar uma verdade desconfortável: é possível conquistar o governo sem conquistar a capacidade efetiva de governar. E que é possível perder eleições sem perder o controle de importantes centros de poder.
A democracia e seus limites
Uma das grandes preocupações atuais é o crescente desequilíbrio entre os poderes da República. O Supremo Tribunal Federal, cuja missão constitucional deveria incluir a proteção das liberdades fundamentais e a preservação dos limites institucionais, tornou-se protagonista de decisões políticas de enorme alcance.
Não se trata de negar a necessidade de um Judiciário independente. Ao contrário: justamente porque a independência judicial é indispensável à democracia, devemos nos preocupar quando decisões judiciais parecem substituir a deliberação legislativa ou restringir desproporcionalmente direitos fundamentais.
A experiência internacional oferece advertências que não deveriam ser ignoradas. Na Venezuela, a eleição de uma Assembleia Nacional de maioria oposicionista, em 2015, não impediu que o regime chavista esvaziasse progressivamente seus poderes, valendo-se de decisões judiciais e da criação de instituições paralelas. A lição é inquietante: a existência de eleições e de representantes legitimamente eleitos não garante, por si só, a preservação da democracia, sobretudo quando as instituições encarregadas de limitar o poder passam a servir à sua concentração.
A liberdade de expressão, o devido processo legal, a separação dos poderes e o direito à oposição não são concessões de governantes ou magistrados, mas garantias fundamentais de uma sociedade livre. Quando essas garantias são ameaçadas, é a própria democracia que está em perigo. O que está em jogo é a liberdade de todos os brasileiros e a preservação do Estado de Direito.
Uma longa agonia
Talvez nosso maior erro tenha sido imaginar que o declínio de uma nação acontece de maneira súbita e espetacular. Nem sempre há tanques e militares nas ruas, fechamento formal do Congresso ou suspensão explícita da Constituição. Às vezes, a deterioração ocorre lentamente. A queda de Roma deveria ter nos ensinado que as grandes civilizações nem sempre desmoronam de uma vez: muitas vezes, são corroídas lentamente por dentro, muito antes de sucumbirem.
Não basta culpar os governantes. Precisamos perguntar por que tantos brasileiros continuam aceitando a corrupção, os abusos e a troca de favores
As instituições continuam funcionando, mas sem credibilidade. As eleições continuam acontecendo, mas a confiança nas regras se enfraquece. A imprensa continua publicando, mas o debate público se torna cada vez mais condicionado por alinhamentos políticos. O Estado continua crescendo, enquanto a sociedade perde autonomia. A corrupção deixa de provocar escândalo. A violência passa a integrar a rotina. A mediocridade administrativa torna-se aceitável. O cidadão aprende a sobreviver apesar do governo, e não graças à proteção das instituições.
O perigo não é apenas econômico. É também moral. Uma sociedade que se acostuma com a mentira, que relativiza a corrupção conforme a identidade de seus praticantes e que transforma a lealdade partidária em critério supremo de julgamento compromete os fundamentos da vida comum.
O PT e o Centrão têm grande responsabilidade pela decadência da política brasileira. O PT construiu um projeto de poder baseado no controle da máquina pública, na distribuição de cargos e em alianças para permanecer no governo. O Centrão, por sua vez, fez da troca de favores sua principal forma de atuação, negociando apoio no Congresso em troca de cargos, verbas e influência. Embora tenham interesses diferentes, os dois se tornaram parceiros indispensáveis. O PT precisa dos votos do Centrão para governar, enquanto o Centrão depende do governo para manter seus privilégios. Nessa relação, o interesse público fica em segundo plano. O que importa é conservar o poder, distribuir benefícios e garantir a sobrevivência política de ambos. E quem paga a conta dessa aliança é, como sempre, o povo brasileiro.
Mas nenhum projeto político permanece no poder sem apoio popular. Não basta culpar os governantes. Precisamos perguntar por que tantos brasileiros continuam aceitando a corrupção, os abusos e a troca de favores. Afinal, os políticos também refletem os valores de quem os elege.
A gravidade do momento exige lucidez, não ilusões. Há riscos reais de novos conflitos entre os poderes, de ampliação das restrições à liberdade de expressão, de insegurança jurídica, de fuga de investimentos e de agravamento da situação fiscal.
Mas a prudência exige preparação. Famílias devem considerar seriamente sua segurança, a educação dos filhos, sua independência financeira e suas perspectivas profissionais. Aprender idiomas, adquirir competências, desenvolver redes de confiança e até considerar a possibilidade de viver em outro país são decisões legítimas. Não há virtude cristã em expor desnecessariamente os filhos à insegurança. Tampouco há desonra em permanecer, trabalhar honestamente e procurar construir uma vida digna em circunstâncias adversas. O importante é não entregar nossa existência inteira à política.
Um governo pode dificultar a prosperidade, comprometer oportunidades e produzir injustiças. Mas não deve receber o poder de determinar o significado último de nossa vida.
Recuperar aquilo que está próximo
Talvez seja hora de redescobrir a importância daquilo que realmente importa. A família reunida à mesa. O casamento preservado com fidelidade. Os filhos educados no temor do Senhor. Os avós transmitindo sua experiência aos netos. Os amigos que permanecem próximos nas dificuldades. O trabalho realizado com excelência. Os livros que nos tornam mais sábios. E, acima de tudo, a igreja local.
Famílias devem considerar seriamente sua segurança, a educação dos filhos, sua independência financeira e suas perspectivas profissionais
Em tempos de instabilidade, somos tentados a procurar segurança exclusivamente nas grandes estruturas: governos, tribunais, partidos e instituições nacionais. Mas boa parte da vida real acontece em comunidades menores, nas quais ainda podemos exercer responsabilidade concreta. A família, a igreja, a escola, as amizades e as associações voluntárias são espaços fundamentais de formação moral e resistência à desumanização. São lugares nos quais aprendemos a amar o próximo, praticar a justiça, falar a verdade e exercer a liberdade com responsabilidade.
O cristão não deve abandonar a vida pública. Deve, porém, recusar a idolatria política. O presidente Lula não é um messias. O PT não é a igreja. Nenhuma vitória eleitoral inaugura o Reino de Deus, e nenhuma derrota eleitoral pode destruí-lo.
A esperança de um povo peregrino
A perspectiva histórica é vital para os que creem no Deus de Israel e seu Messias, Jesus. O povo de Deus está peregrinando neste mundo há mais de 4 mil anos, desde os dias de Abraão. Ao longo dessa caminhada, viu impérios surgirem, conquistarem povos, construírem monumentos à própria grandeza e, finalmente, desaparecerem. Viu o poder dos faraós, a violência da Assíria, a arrogância da Babilônia, a majestade da Pérsia, as conquistas da Grécia e a força aparentemente invencível de Roma. Todos passaram.
A igreja atravessou perseguições, guerras, epidemias, revoluções, tiranias e períodos de profunda decadência moral. Sobreviveu a imperadores que exigiam adoração, a reis que reivindicavam autoridade absoluta e a ideologias que prometiam construir o paraíso na terra. Todos esses poderes tiveram seu tempo. Nenhum recebeu a última palavra.
O salmista nos adverte: “Não confiem em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação” (Salmo 146,3). E o profeta Daniel nos lembra que Deus “remove reis e estabelece reis” (Daniel 2,21). Essas verdades libertam-nos do desespero. Podemos trabalhar pela justiça sem acreditar que o destino do mundo repousa sobre nossos ombros. Podemos resistir ao mal sem nos tornarmos semelhantes àqueles que o praticam. Podemos lamentar a situação de nossa pátria sem perder o amor por ela. Podemos reconhecer derrotas políticas sem concluir que fomos derrotados naquilo que realmente importa.
Talvez o Brasil atravesse anos difíceis. Talvez vejamos coisas que jamais imaginamos presenciar. Mas ainda teremos filhos para educar, igrejas para servir, amigos para amar, livros para escrever e verdades para ensinar
O autor de Hebreus descreve os patriarcas como estrangeiros e peregrinos sobre a terra, homens e mulheres que aguardavam uma pátria superior (Hebreus 11,13-16). Essa esperança não os impediu de viver, trabalhar, formar famílias e cumprir suas responsabilidades no mundo. Assim também devemos proceder.
Talvez o Brasil atravesse anos difíceis. Talvez vejamos coisas que jamais imaginamos presenciar. Talvez algumas esperanças políticas precisem ser abandonadas, e outras, profundamente revistas. Mas ainda teremos filhos para educar, igrejas para servir, amigos para amar, livros para escrever e verdades para ensinar. Ainda teremos o culto no Dia do Senhor, a pregação da Palavra, o batismo, a mesa da comunhão e as promessas de Cristo. E isso não é pouca coisa.
Nossa esperança não repousa na sobrevivência de uma ordem política, mas naquele cujo Reino não terá fim. Os poderes deste mundo passam. Cristo permanece. Por isso, não precisamos fingir que tudo está bem. Podemos chorar pelo Brasil. Podemos lamentar as oportunidades perdidas e as injustiças cometidas. Há tempo para o lamento, como nos ensinam os profetas e os salmos.
Mas não nos é permitido desesperar. Continuemos fazendo o bem, educando nossos filhos, fortalecendo nossas igrejas, cultivando amizades e preservando aquilo que é verdadeiro, bom e belo. Não sabemos o que será do Brasil nas próximas décadas. Sabemos, porém, a quem pertencemos. E enquanto os reinos deste mundo continuam a surgir e desaparecer, a igreja de Jesus Cristo prossegue em sua peregrinação, aguardando a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador.
Coragem. Nossa pátria terrena pode atravessar a escuridão. Mas a nossa esperança está firmada naquele que venceu o mundo.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/brasil-que-perdemos-esperanca-familia-filhos-igreja-trabalho/
Tarcísio reforça peso para liderar direita e oposição a Lula no Brasil

A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial abre espaço para uma reorganização da direita, em meio à qual o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), desponta como um dos nomes com potencial para liderar a oposição nos próximos anos. A depender desse desempenho, ele até cogita voos mais altos, conforme respondeu nesta quarta-feira (28), pela primeira vez nesses termos, sobre uma eventual disputa presidencial.
Além de cogitar uma candidatura ao Planalto em 2030, Tarcísio fez movimentos para se distanciar de Flávio ao se posicionar sobre a contestação do resultado das eleições e a saída do senador do Brasil. Soou como aceno a uma direita menos ligada à família Bolsonaro para cercar a esquerda nos próximos quatro anos.
Na avaliação de lideranças partidárias ouvidas pela Gazeta do Povo após o resultado das urnas do último domingo (25), Tarcísio reúne mandato, força eleitoral e proximidade com dirigentes de partidos que já o consideravam uma alternativa para disputar o Palácio do Planalto.
Reeleito no primeiro turno com quase 63% dos votos, o governador terá mais quatro anos à frente do maior colégio eleitoral do país. A derrota de Flávio para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu a disputa presidencial com 51,79% dos votos válidos, ante 48,21% do senador, também abre uma discussão sobre a sucessão das lideranças da direita e a capacidade do clã Bolsonaro de manter a unidade do campo conservador.
Na avaliação de integrantes do partido de Tarcísio, o fato de Flávio não ter mandato a partir de 2027 e a manutenção da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro podem reduzir a capacidade do grupo de se manter à frente da articulação de toda a direita. Apesar disso, a influência política da família Bolsonaro continua sendo apontada como um fator relevante para a oposição, que precisará conciliar a força eleitoral do bolsonarismo com os interesses de partidos de centro e direita.
“Não é possível prever hoje quem disputará a Presidência em 2030. Quatro anos são uma eternidade na política. Mas é difícil olhar para aquele palco e não perceber que estamos diante de um personagem com potencial para permanecer no centro da política nacional”, avalia o cientista político Elias Tavares.
Tarcísio acompanhou a apuração do segundo turno ao lado de Flávio, em Brasília, mas não participou da declaração pública em que o senador chegou a anunciar que recorreria à Justiça para pedir a anulação do resultado da eleição. Na terça-feira (27), o governador reconheceu a vitória de Lula, mas criticou a condução do processo eleitoral em vídeo publicado nas redes sociais.
A derrota de Flávio não encerra a influência do grupo político de Jair Bolsonaro. Parlamentares do PL ouvidos pela Gazeta do Povo evitaram falar abertamente sobre o futuro de Tarcísio após o resultado eleitoral. Para esse grupo, a eleição demonstrou a força política do governador, mas ainda é cedo para antecipar a próxima disputa presidencial.
Força em São Paulo pode ajudar projeto nacional do governador
A projeção nacional de Tarcísio foi reforçada pelo resultado das eleições em São Paulo e pela atuação na campanha presidencial de Flávio. Além de vencer no primeiro turno, o governador triunfou em 99% dos municípios paulistas e recebeu 14,5 milhões de votos, a maior votação de um candidato ao governo estadual em primeiro turno na história de São Paulo.
A coligação de dez partidos liderada por Tarcísio também conquistou a maioria das cadeiras paulistas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa. O resultado consolidou a posição dele no estado e ampliou o peso político de um governador que já era citado por lideranças empresariais, do mercado financeiro e de partidos como alternativa para enfrentar Lula.
Após a vitória em São Paulo, Tarcísio intensificou as articulações em favor de Flávio nas semanas que antecederam o segundo turno. No dia seguinte, foi a Brasília para costurar apoios de Republicanos, MDB, Podemos, além do ex-presidenciável Ronaldo Caiado.
Ao longo do segundo turno, participou de 12 eventos com o candidato do PL, incluindo um ato na Avenida Paulista, em 18 de outubro. Segundo pessoas próximas ouvidas pela reportagem da Gazeta do Povo, a atuação teve dois objetivos: ajudar a ampliar a coalizão em torno de Flávio e reforçar a imagem de Tarcísio como articulador nacional, de olho nas eleições de 2030.
A avaliação entre esses aliados é de que a proximidade com dirigentes partidários pode facilitar o diálogo com diferentes setores da oposição, embora a formação de uma eventual candidatura presidencial dependa de negociações que ainda não estão na mesa. “O governador Tarcísio é a grande estrela do nosso partido”, avaliou o deputado Marcos Pereira (SP), presidente nacional do Republicanos.
Ainda durante a campanha presidencial deste ano, Tarcísio recebeu sinalizações do próprio Flávio de que contaria com o apoio dele daqui a quatro anos. “Sem dúvida alguma, o Tarcísio é um dos grandes quadros que nós temos na centro-direita”, disse o senador em setembro, ao ser perguntado sobre a próxima disputa.
Tarcísio foca em novo mandato e reorganização do governo paulista
Enquanto parte da oposição já discute o futuro nacional do governador, Tarcísio deve concentrar esforços na montagem do próximo governo estadual, que começa em janeiro de 2027. Segundo auxiliares, o governador pretende retomar nos próximos dias o foco na administração paulista e definir mudanças na equipe para o segundo mandato.
Uma das saídas esperadas é a do secretário estadual da Saúde, Eleuses Paiva (PSD), que comunicou ao governador que deixará o cargo. Entre os nomes cotados para substituí-lo estão o secretário municipal da Saúde de São Paulo, Luiz Carlos Zamarco, e o secretário-adjunto da pasta estadual, Maurício Serpa.
A composição do novo secretariado também poderá refletir a reorganização das alianças políticas. O MDB deve ganhar espaço na administração estadual após integrantes do grupo do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, participarem diretamente da coordenação da campanha de reeleição de Tarcísio. Já o PSD, do presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, poderá perder espaço, segundo avaliações internas do governo paulista.
Direita terá que discutir sucessão
“Em algum momento, a direita terá de enfrentar a questão da sucessão, e Tarcísio conquistou projeção nacional, o que inevitavelmente também nos faz olhar para 2030”, afirmou Tavares.
Apesar de Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro estarem sem mandatos eletivos a partir de 2027, a família terá representação no Senado a partir de fevereiro, com Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo Distrito Federal, e Carlos Bolsonaro, eleito senador por Santa Catarina. A ex-primeira-dama chegou a ser cotada para ocupar a vice-presidência em uma eventual chapa encabeçada por Tarcísio, mas a composição para este ano não se concretizou.
Em julho, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, havia afirmado que Jair Bolsonaro preferia que Michelle adquirisse experiência em um mandato parlamentar antes de disputar um cargo no Executivo. “Bolsonaro não quer Michelle em cargo executivo até ter um mandato para adquirir mais experiência, falou para mim no passado”, declarou.
Valdemar também contou que havia sugerido ao ex-presidente que Michelle disputasse o governo do Distrito Federal, mas Bolsonaro teria discordado da ideia. Sobre a possibilidade de ela ocupar a vice-presidência, o dirigente afirmou: “De vice, ela poderia até sair, na minha opinião. Não sei na de Bolsonaro. De vice. Se fosse o Tarcísio, seria a chapa ideal, o pessoal falava. Entendeu que tinha de ser o Flávio.”
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/ganha-espaco-para-liderar-direita-e-oposicao-a-lula/
Nunes Marques dá prazo para PGR opinar sobre revisão da condenação de Bolsonaro

O ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou em despacho assinado na segunda-feira (26) que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, manifeste-se em até dez dias sobre o pedido de revisão criminal apresentado pela defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro. O objetivo da defesa é tentar reverter a condenação do ex-mandatário por suposta tentativa de “golpe de Estado”.
A decisão ocorre logo após o término das eleições presidenciais. Nunes Marques havia adiado a análise do pedido para depois do segundo turno (realizado no último domingo) justamente para evitar qualquer interferência na disputa eleitoral, conforme havia informado anteriormente.
Bolsonaro foi condenado em setembro de 2025 a 27 anos de prisão por suposta participação em “trama golpista” destinada a impedir a posse de Lula (PT), após as eleições de 2022. A defesa recorreu à revisão criminal, instrumento que permite questionar condenações já transitadas em julgado em hipóteses específicas, como a existência de provas novas ou a demonstração de erro judiciário.
No início de outubro, a assessoria de Nunes Marques informou que, quando o processo estiver pronto para julgamento, o ministro pretende levar a revisão ao plenário do STF, em vez de decidir sozinho sobre o mérito. “O caso ainda está pendente de parecer da PGR, mas, quando estiver pronto para julgamento, o ministro pretende levar ao plenário, que é o órgão competente”, afirmou a assessoria na ocasião.
Presidente do TCE-MT é preso pela PF em escândalo de ‘pressão’ contra fornecedores

O presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), conselheiro Sérgio Ricardo de Almeida, foi preso preventivamente nesta quinta-feira (29) durante a Operação Tomada de Contas, deflagrada pela Polícia Federal. A ação investiga suspeitas de irregularidades na gestão de contratos administrativos e em pagamentos a servidores da Corte.
A operação mobiliza mais de 180 policiais federais e cumpre seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo. As medidas foram autorizadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e incluem o afastamento de sigilos e o sequestro de bens relacionados à apuração.
Segundo a Polícia Federal, a investigação apura indícios de que a suspensão de contratos administrativos teria sido usada como mecanismo de pressão sobre empresas fornecedoras, além de possíveis favorecimentos na liberação de recursos públicos. Também são investigadas divergências nos pagamentos feitos a empresas, movimentações financeiras consideradas atípicas envolvendo servidores e saques recorrentes em dinheiro em espécie, inclusive nas dependências do próprio tribunal. Os fatos podem configurar, em tese, crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Além de Sérgio Ricardo de Almeida, que foi conduzido à sede da PF em Cuiabá (avenida do CPA), são alvos de prisão preventiva o consultor jurídico-geral do TCE-MT, Grhegory Paiva Pires Moreira Maia; a secretária executiva Roseli Loss; e os servidores Felipe José Glinke, Adriangelo Barros Antunes e Gustavo Fernandes da Silva. Em algumas informações preliminares, o conselheiro José Carlos Novelli também aparece entre os nomes relacionados à operação.
Até o momento, a assessoria do TCE-MT não se pronunciou publicamente sobre a prisão do presidente. A Operação Tomada de Contas ocorre em um contexto de investigações anteriores envolvendo a Corte de Contas de Mato Grosso, como a Operação Malebolge (2017), que levou ao afastamento de conselheiros.
A prisão de Sérgio Ricardo ocorre enquanto o governador de Mato Grosso questiona judicialmente normas internas do TCE que permitem ao presidente da Corte assumir a relatoria de processos considerados de “alta relevância”.
‘Wall Street Journal’ critica perseguição e vingança política contra Flávio

O jornal Wall Street Journal , considerado um dos mais importantes dos Estados Unidos e um dos mais prestigiados do mundo, publicou um duro editorial sob o título To Brazil’s Victor Goes Political Revenge (“Ao vencedor do Brasil, a vingança política”), criticando o que descreve como a perseguição imediata ao adversário derrotado logo após a reeleição de Lula (PT).
O texto do WSJ se soma a outras análises recentes do jornal sobre o país, que já haviam criticado a deterioração de normas democráticas, o ativismo judicial e os riscos fiscais associados à continuidade do governo Lula. A reação dos mercados à reeleição também foi negativa, com quedas acentuadas de ações e do real, conforme relatos de veículos brasileiros sobre outro editorial do conselho.
Segundo o jornal, “os vencedores políticos deveriam ser benevolentes com os vencidos, mas no Brasil eles processam os perdedores”. O jornal relata que Lula venceu o segundo turno no domingo (25) e, em minutos, o governo ordenou que o líder da oposição, o senador Flávio Bolsonaro, entregasse o passaporte. O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, descrito como aliado de Lula, autorizou o pedido da Polícia Federal para apreender os documentos de viagem.
Flávio Bolsonaro, que não foi formalmente acusado de crime, deixou secretamente o Brasil na terça-feira com a esposa e as filhas menores, cruzando a fronteira terrestre com a Argentina (usando passaporte italiano, segundo relatos). Na quarta, a família chegou a Miami. Os Estados Unidos emitiram vistos, medida que o WSJ qualifica como “oferta justificável de proteção política”. Reportagens do próprio jornal detalham o uso de iscas (comboio de carros que se dividiu) e um jato particular que partiu de Puerto Iguazú, na Argentina, com escala no Equador, com auxílio de aliados de Donald Trump e do presidente argentino Javier Milei.
“Lula escolheu o homem e prometeu encontrar o crime”
O editorial destaca que Flávio tem motivos para temer um julgamento justo. Em debate de campanha, Lula teria dito que, assim que o adversário perdesse a imunidade parlamentar, enfrentaria investigações — “Lula escolheu o homem e prometeu encontrar o crime”. A competência para decidir processos criminais contra políticos federais caberia ao procurador-geral da República, mas Moraes, segundo o WSJ, tem o hábito de expandir sua jurisdição quando convém politicamente.
O texto relembra a condenação de Jair Bolsonaro (pai de Flávio) no ano passado pelo STF, por 4 a 1, por orquestrar uma tentativa de golpe. Moraes presidiu a sessão; um ex-advogado pessoal de Lula e um ex-ministro da Justiça nomeado por ele votaram pela condenação. O ministro Luiz Fux apresentou voto divergente de 452 páginas apontando violações ao devido processo legal, falta de jurisdição do STF e insuficiência de provas. Jair cumpre pena de 27 anos em prisão domiciliar. Flávio se junta a jornalistas, blogueiros e formadores de opinião que optaram pelo exílio após a anulação da condenação de Lula por corrupção em 2017 e o avanço da censura a críticos.
Nos próximos quatro anos, Lula poderá indicar até quatro novos ministros ao STF (de 11 cadeiras). O WSJ alerta que caberá ao novo Senado defender a independência do Judiciário. A conclusão do editorial é sombria: países que passam da liberdade à autocracia seguem um roteiro semelhante — um demagogo vence nas urnas, controla o Judiciário e prende inimigos. “Onde as instituições são fortes, o Estado de Direito pode sobreviver. Não está claro se o Brasil conseguirá.”
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