
O departamento de migração do governo do presidente da Argentina, Javier Milei, confirmou na madrugada desta quarta-feira (28) que o senador Flávio Bolsonaro (PL), sua esposa e filhas passaram pelo país, mas apenas na noite de terça (27), e seguiram para o Equador.
“A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, entraram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, os cidadãos Flávio Nantes Bolsonaro, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, Carolina Figueira Bolsonaro e Luiza Figueira Bolsonaro. Eles apresentaram documentação de viagem válida e não possuíam qualquer impedimento legal para a entrada no país; o trâmite foi registrado pela autoridade competente sem incidentes”, informou a Migrações, como é chamada, em post no X.
“Posteriormente, às 23h30, o grupo embarcou em um voo privado, operado pela empresa Baires Fly S.A., com destino à cidade de Guayaquil, no Equador, conforme indicado no plano de voo”, acrescentou o órgão.
Segundo informações da emissora Todo Noticias, reproduzidas pelo jornal Clarín, pouco depois das 23 horas desta terça-feira, duas vans cruzaram a fronteira em Puerto Iguazú, cidade em Misiones vizinha de Foz do Iguaçu.
Tais veículos seguiram em alta velocidade, escoltados por uma viatura da Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA), órgão do governo Milei, entrando diretamente na pista do Aeroporto de Puerto Iguazú, de acordo com a imprensa argentina.
Segundo o Clarín, dentro de um dos veículos havia uma pessoa de boné sentada nos bancos traseiros e tratava-se de Flávio Bolsonaro.
Do Equador, Flávio e família seguiram para os Estados Unidos, onde o governo Donald Trump concedeu-lhe vistos. Segundo o portal g1, eles tomaram um voo para Miami.
O jornalista Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, disse que Flávio “está bem, em segurança e descansando com a família” e que uma coletiva de imprensa será realizada na tarde de quinta-feira (29), em Miami.
Na manhã de terça-feira, a Migrações havia negado que o senador brasileiro havia ingressado na Argentina, contrariando reportagens da imprensa local de que o candidato derrotado à presidência teria entrado a pé no país vizinho para pegar um avião em Puerto Iguazú rumo aos Estados Unidos, plano que teria sido abortado. A aeronave mencionada ficou estacionada na cidade fronteiriça ao longo do dia.
Santiago Caputo, assessor de Milei, postou ao longo do dia no X uma imagem do filme “O Grande Truque”, sugerindo uma manobra: informações extraoficiais deram conta de que Flávio já estaria nos EUA, quando na verdade ele teria esperado o dia inteiro do lado brasileiro antes de ir para a Argentina apenas à noite.
O advogado mexicano Simón Levy, aliado de Trump, foi um dos que afirmaram ontem que o senador já havia chegado aos Estados Unidos.
Na noite de terça-feira, porém, ele escreveu no X: “Preparem-se para amanhã…” Em outra postagem, o advogado sugeriu envolvimento de Milei na operação para saída de Flávio.
“O presidente Donald Trump sempre lutará. Ele jamais recuará e está mudando o curso da história em todo o Hemisfério Ocidental. E ele tem um grande aliado na Argentina. Seu nome é o presidente Javier Milei”, afirmou.
“Mantenham-se firmes, Brasil! Isso é apenas o começo!”, disse Levy, que havia afirmado na terça que a operação foi arquitetada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), havia determinado a retenção do passaporte de Flávio após a eleição de domingo (25).
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/argentina-flavio-passagem-equador-eua/
Sigilo, rapidez e fragilidade de ordem contra Flávio reforçam tese de perseguição política

A forma como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o cancelamento dos passaportes do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), logo após a proclamação oficial do resultado da eleição presidencial, levantou suspeitas no meio jurídico sobre a real motivação da medida. Entre juristas, o sigilo da decisão, a rapidez do pedido da Polícia Federal (PF) e a fragilidade dos argumentos reforçam a tese de que o parlamentar é vítima de perseguição política.
Essa avaliação foi ratificada na noite de terça-feira (27) pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, após reunião no Partido Liberal (PL) para discutir a viagem do parlamentar aos Estados Unidos. Flávio deixou o país com a família após queixar-se da intimação para entregar os passaportes, ocorrida logo depois de uma visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
Segundo revelou o jornal O Globo, a PF assinou o pedido a Moraes para recolher os passaportes de Flávio às 21h16 de domingo (25), após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamar o resultado do pleito. Na mesma noite, o ministro acolheu a solicitação, determinou o cancelamento dos documentos e proibiu o senador de manter contato com o advogado Willer Tomaz.
Ambos são investigados em inquérito recente da PF, sob relatoria de Moraes, que apura suspeita de lavagem de dinheiro. O pedido da corporação baseia-se em dois elementos: a suspeita de que Flávio figurava como “usuário master” de uma conta mantida por Tomaz em Portugal; e a declaração do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, em 23 de outubro: “Se meu irmão não ganhar [a eleição], sou a favor que ele deixe o país”.
Segundo Marinho, Moraes fora informado na manhã de domingo que a conta apontada pela PF nunca esteve em nome de Flávio. O inquérito tramita em sigilo no STF, e a defesa alega não ter tido acesso aos autos.
“O principal argumento para a manutenção desse inquérito cai por terra às 10h da manhã de domingo, dia da eleição. Às 20h44 é proclamado o resultado. Sete minutos depois, a Polícia Federal requer medidas cautelares contra o senador”, disse Marinho. “Em uma democracia, é muito estranho que um candidato, após o resultado, seja objeto de medida cautelar para retenção de passaporte em um inquérito cujo motivo principal ruiu. Parece-me a preparação de algo persecutório”, afirmou em entrevista.
A tese de perseguição é reforçada por aliados ao citarem declaração de Luiz Inácio Lula da Silva no debate da Band, em 18 de outubro. Na ocasião, o então candidato afirmou: “Você vai perder a imunidade, te prepara, porque vai ter problema. A sua vida tem muito inquérito que agora vai andar. Se os seus amigos não estão deixando andar, agora vai andar”.
Nesta terça (27), o presidente disse que o ato de Flávio foi “vergonhoso”. “Lamentavelmente a família Bolsonaro é isso. O Brasil é a segunda pátria dele, a primeira é lamber bota dos Estados Unidos”, afirmou durante comemoração de seu aniversário no Palácio da Alvorada.
Nos EUA, o senador deve pedir asilo político ao governo de Donald Trump. A expectativa de aliados é de que o Departamento de Estado americano conceda os vistos para o parlamentar e sua família.
Fundamento da medida de Moraes contra Flávio é visto como frágil
Para o advogado criminalista André Fini Terçarolli, mestre em Direito Processual Penal pela PUC-SP e pós-graduado em Direito Penal Econômico pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a apreensão do passaporte determinada por Moraes é desproporcional e carece de fundamentação sólida.
“A derrota eleitoral não constitui indício de fuga, e um vídeo publicado pelo irmão não demonstra intenção concreta de Flávio Bolsonaro de frustrar a investigação. Somar essas circunstâncias não substitui a necessidade de identificar atos do próprio senador que justifiquem a restrição”, afirma.
“Chama atenção o fato de a PF ter apresentado o pedido apenas sete minutos após a confirmação do resultado pelo TSE. Essa proximidade, seguida de decisão judicial sem manifestação prévia da PGR, transmite a impressão de uma iniciativa previamente preparada para ser desencadeada após a apuração”, completa o criminalista.
Fini acrescenta que “utilizar o aparato estatal para constranger ou neutralizar um adversário político constitui prática autoritária. A condição de opositor não confere imunidade, mas também não autoriza a redução de garantias individuais”.
O procurador César Dario Mariano da Silva, especialista em Direito Penal pela Escola Superior do Ministério Público de São Paulo (ESMP-SP), concorda que a fala de Eduardo é insuficiente para embasar a medida e critica a falta de transparência do processo.
“Além do risco concreto de fuga ou de outro fundamento cautelar legítimo, há necessidade de elementos que indiquem, de forma razoável, a possível participação de Flávio nos delitos investigados. Uma suspeita vaga ou conjectura desacompanhada de suporte nos autos não basta”, afirma. “Como a decisão e a investigação tramitam sob sigilo, é indispensável que os elementos tenham sido examinados e que a decisão demonstre a necessidade concreta da medida.”
Em publicação nas redes sociais, o advogado Horacio Neiva, doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP, sustentou que o momento da decisão de Moraes evidencia a fragilidade da medida.
“Flávio não tinha a intenção de fugir do Brasil pelo simples motivo de que tinha a convicção de que venceria. Não há como a Polícia ou o ministro terem descoberto uma intenção concreta de fuga poucos minutos após a divulgação do resultado”, escreveu. “Um risco concreto de fuga não surgiu nos minutos seguintes à proclamação. O resultado é este: Flávio deixou o país, evitou responsabilizações imediatas e obteve uma narrativa de perseguição política fortalecida pelo próprio Tribunal.”
O histórico de decisões de Moraes contra a família Bolsonaro
Investigações, medidas cautelares e condenações marcam a relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e a família do ex-presidente Jair Bolsonaro, atingindo também seus filhos Flávio e Eduardo.
O histórico começou em 2019, quando Moraes assumiu a relatoria do inquérito das fake news, instaurado pelo então presidente da Corte, Dias Toffoli. A investigação passou a apurar a disseminação de notícias falsas e ameaças a ministros do tribunal. Nos anos seguintes, decisões do magistrado atingiram aliados e perfis em redes sociais ligados ao ex-presidente.
Em setembro de 2021, durante as manifestações do 7 de Setembro, Jair Bolsonaro intensificou os ataques a Moraes. Em discurso na Avenida Paulista, em São Paulo, afirmou que não cumpriria mais decisões do ministro, chamou-o de “canalha” e exigiu sua saída.
No dia seguinte, o então presidente do STF, Luiz Fux, advertiu que o descumprimento de decisões judiciais por chefe de Poder poderia configurar crime de responsabilidade. Dois dias depois, o ex-presidente divulgou a “Declaração à Nação”, redigida pelo ex-presidente Michel Temer. No documento, atribuiu suas declarações ao “calor do momento”, negou intenção de agredir as instituições e reiterou respeito aos Poderes.
A Polícia Federal também investigou Bolsonaro em dois casos relatados por Moraes: a suspeita de fraude nos registros de vacinação contra a Covid-19 e o caso das joias e presentes recebidos durante o mandato. No caso da vacinação, Bolsonaro e Mauro Cid sofreram indiciamento em março de 2024.
O ministro arquivou a investigação contra o ex-presidente em março de 2025, a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR). No caso das joias, a PF indiciou Bolsonaro e outros investigados em julho de 2024 por associação criminosa, lavagem de dinheiro e apropriação de bens públicos.
A investigação utilizou informações da delação premiada de Cid. Em março de 2026, a PGR pediu o arquivamento do inquérito, e Moraes solicitou novo parecer sobre a participação do advogado Frederick Wassef antes de decidir.
Em fevereiro de 2024, Bolsonaro tornou-se alvo de medidas cautelares na investigação sobre uma trama para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em julho de 2025, Moraes impôs novas restrições ao ex-presidente, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, limitação de circulação e proibição de utilizar redes sociais, inclusive por intermédio de terceiros.
No mês seguinte, ao identificar o descumprimento das restrições, Moraes decretou a prisão domiciliar do ex-presidente. A decisão proibiu visitas — exceto de advogados — e o uso de telefones celulares, mesmo de terceiros. Posteriormente, o ministro autorizou visitas de familiares, mas manteve a proibição do uso de aparelhos de comunicação.
Em setembro do ano passado, a Primeira Turma do STF condenou Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado, sob relatoria de Moraes. Neste ano, após o ex-presidente passar ao regime fechado e obter prisão domiciliar temporária por razões de saúde, o ministro manteve as restrições de comunicação e a fiscalização judicial. Em julho, Moraes suspendeu por 90 dias as visitas de Flávio Bolsonaro ao pai, após o senador publicar em redes sociais uma carta escrita por Jair Bolsonaro.
Além do ex-presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro tornou-se alvo de inquérito no STF. Em maio de 2025, Moraes determinou a abertura de investigação, a pedido da PGR, em razão da atuação do parlamentar nos Estados Unidos e de iniciativas para pressionar autoridades brasileiras durante o julgamento do pai.
Em junho de 2026, a Primeira Turma condenou o parlamentar a quatro anos e dois meses de prisão, em regime inicial semiaberto, por coação no curso do processo. O colegiado entendeu que ele atuou para interferir no julgamento de Jair Bolsonaro. A pena incluiu a declaração de inelegibilidade e a perda do cargo de escrivão da Polícia Federal.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/sigilo-rapidez-e-fragilidade-de-ordem-contra-flavio-reforcam-tese-de-perseguicao-politica/
Perseguição política leva Flávio Bolsonaro a sair do Brasil

O senador Flávio Bolsonaro deixou o Brasil e, segundo um advogado próximo a Donald Trump, já estaria nos Estados Unidos, em uma operação que, de acordo com o mesmo advogado, teria sido arquitetada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Os detalhes exatos de como tudo ocorreu, no entanto, ainda são desconhecidos até o momento: por exemplo, se o candidato derrotado à Presidência passou ou não pela Argentina antes de ir aos Estados Unidos – e, em caso positivo, como teria entrado no país vizinho. A viagem surpreendeu até mesmo alguns aliados de Flávio, e na segunda-feira a assessoria do senador afirmava que ele “faz questão de deixar uma mensagem clara: nunca pensou em deixar o Brasil”. O que mudou, então?
Como o ministro Alexandre de Moraes – moralmente comprometido devido às suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro – ainda mantém sob sigilo a ordem dada na segunda-feira para a apreensão dos passaportes brasileiros (o normal e o diplomático) de Flávio, continua a ser impossível saber se havia de fato algum planejamento prévio que indicasse risco concreto de fuga e justificasse a medida cautelar. Mas, ainda que sair do Brasil não estivesse nos planos de Flávio mesmo após a confirmação de sua derrota eleitoral, os acontecimentos seguintes se deram em tal velocidade que não seria nada inverossímil supor uma mudança de ideia de última hora.
A condução dos processos contra Flávio tem sido marcada por tantas características de perseguição política que a decisão de resistir e não aceitar ser vítima de arbítrios parece lógica
Já na manhã de segunda-feira, deputados governistas já haviam corrido para pedir a apreensão do passaporte de Flávio, em um sinal de que a vingança prometida por Lula no debate da Band viria rapidamente. Mas a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, revelou algo ainda mais grave: a Polícia Federal havia protocolado o mesmo pedido apenas sete minutos depois da confirmação matemática da vitória de Lula no site do Tribunal Superior Eleitoral, e Moraes havia atendido a solicitação ainda na noite de domingo, sem consulta prévia à Procuradoria-Geral da República. Os únicos argumentos listados pela PF são a entrevista em que Eduardo Bolsonaro dizia ter aconselhado o irmão a deixar o Brasil caso Lula vencesse e o fato de Flávio ser um suposto “usuário master” de uma conta da empresa mantida pelo advogado Willer Tomaz na Ilha da Madeira, em Portugal. Nenhuma dessas razões, no entanto, seria suficiente para justificar uma apreensão de passaporte, por não configurarem a existência de um plano de fuga, e a cronologia dos documentos aponta para uma perseguição premeditada.
Como se não bastasse, na manhã desta terça-feira – quando o paradeiro de Flávio já era desconhecido –, o ministro Flávio Dino, da ala chicaneira e lulista do Supremo, ordenou a abertura de uma investigação sobre possível interferência e financiamento estrangeiro de campanha em benefício do senador do PL. Dino atendeu a um pedido do PT feito no fim de setembro, mais uma vez recorrendo ao truque de escolha de relator: a representação tinha sido protocolada dentro de um processo sobre a possibilidade de municípios brasileiros litigarem perante tribunais estrangeiros, no contexto do desastre de Mariana. A trapaça havia sido expressamente vedada pelo presidente da corte, Edson Fachin, mas, como a ala chicaneira já sabe que consegue atropelar o colega, a proibição não chegou a incomodar Dino.
Quando há a perspectiva de um julgamento justo, é sumamente condenável que um investigado ou réu pretenda escapar do braço da Justiça dessa forma. Mas quem, diante de tudo o que temos visto, haverá de considerar que Flávio Bolsonaro receberá um julgamento justo? Seu pai, recorde-se, foi condenado por crimes que nem sequer foram tentados, em uma violação grotesca do Código Penal. Se o mesmo rigor aplicado aos Bolsonaros fosse imposto aos próprios ministros do STF no caso Master, especialmente depois da hedionda sessão de 15 de setembro, quantos deles ainda estariam atuando na corte, ou mesmo livres? Ainda que Flávio eventualmente seja culpado dos crimes a ele atribuídos, a condução dos processos tem sido marcada por tantos abusos, com tantas características de perseguição política, que a decisão de resistir e não aceitar ser vítima dos atuais e de possíveis futuros arbítrios parece lógica.
E, atualmente, a única forma de poder denunciar em segurança os abusos cometidos por este conluio entre um Executivo sedento de vingança e um Judiciário moralmente desqualificado é fazê-lo do exterior. Bem o sabem, por exemplo, o jornalista Osvaldo Eustáquio, atualmente na Espanha, e o ex-assessor Eduardo Tagliaferro, que denunciou a forma ilegal como Moraes conduzia inquéritos no Supremo usando informalmente uma estrutura do TSE – a Corte de Apelação italiana, aliás, negou o pedido de extradição feito por Moraes, alegando falta de imparcialidade do ministro e o caráter político das acusações imputadas ao ex-assessor.
Na segunda metade do século passado, o Brasil era tido como um paraíso onde bandidos estrangeiros poderiam viver sem ser incomodados. Neste século, o clichê passou a contar com a ajuda do petismo – que o digam o terrorista italiano Cesare Battisti, protegido por Lula no fim de seu segundo mandato, e, mais recentemente, a ex-primeira-dama peruana Nadine Heredia, retirada do Peru em avião da Força Aérea Brasileira dias depois de sua condenação na versão local da Lava Jato (a condenação foi revogada posteriormente). Nos últimos anos, o fluxo se inverteu, e agora exportamos perseguidos políticos. Pobre do país que força seus cidadãos a se tornarem exilados por criticar suas autoridades, e pobres dos que acreditam que isso tudo ainda é “pela defesa da democracia”.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/perseguicao-politica-flavio-bolsonaro-sair-do-brasil/
Empresários anunciam fim de ações sociais com incertezas econômicas pós-vitória de Lula

Empresários de diversas regiões do país têm anunciado o encerramento de ações de assistência social que promoviam ou de que participavam após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais que reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A decisão é justificada por eles com o cenário de incerteza econômica que o país deve enfrentar nos próximos anos, durante o quarto mandato do petista.
A gráfica Casa das Cópias, de Joinville (SC), afirmou na segunda-feira (26) que “estão cancelados por tempo indeterminado todos os apoios, patrocínios, participações em ações sociais, rifas, doações e compras institucionais”.
Segundo comunicado divulgado pela empresa no Instagram, “diante do cenário atual”, a “prioridade absoluta” será concentrar esforços, recursos e energia “na manutenção da nossa operação, na sustentabilidade do nosso negócio e nas famílias que dependem dele”. No comunicado, a gráfica informa ainda que deve fazer uma reavaliação da decisão em janeiro de 2032.
Decisão semelhante foi tomada pelo cirurgião plástico André Miolo, que atende em Itabira (MG), Belo Horizonte e São Paulo. Ele anunciou, também na segunda, ter suspendido o programa de cirurgias gratuitas que mantinha nas últimas duas décadas.
“Essa difícil decisão decorre da instabilidade econômica e política do país e, ao longo desses anos, de nossa preocupação com o grave cenário fiscal atual e seu possível agravamento nos próximos anos, o que compromete a continuidade do programa”, informou em seu perfil na rede social.
“Reconhecemos a importância dessa iniciativa para tantas pessoas que não tinham condições de arcar com o tratamento cirúrgico”, acrescentou. “Encerramos esse ciclo com pesar, mas também com a satisfação de termos contribuído para a saúde e a qualidade de vida de tantas pessoas.”
A rede Ice Cream Mix, que tem lojas em São Paulo, Curitiba, Ribeirão Preto (SP), Sumaré (SP), Arcos (MG), Piumhi (MG) e Luanda, em Angola, também afirmou na segunda que não promoverá mais “qualquer tipo de ação que envolva doação de cestas básicas, brinquedos e qualquer tipo de ajuda aos que se se dizem ‘necessitados’”.
A justificativa da empresa, entretanto, foi diferente. “Estamos cansados de ajudar quem não quer ser ajudado e prefere viver dos auxílios do governo”, publicou a empresa.
Após a publicação, a empresa passou a ser criticada nas redes sociais. Em um vídeo publicado na sequência, o fundador da rede, Adriano Reis, respondeu aos comentários, segundo ele, de eleitores do presidente reeleito.
“Eles acharam ruim. Ué, mas o Lula não tirou vocês da pobreza? Por que vocês estão precisando de cesta básica nossa? Não estou entendendo mais nada”, disse.
Deputado responsabiliza esquerda por decisão de empresários
Para o deputado estadual reeleito pelo Rio de Janeiro Márcio Gualberto (PL), as medidas tomadas pelos empresários refletem a escolha feita pelo eleitorado no segundo turno da disputa presidencial. “A esquerda está conseguindo, até mesmo, acabar com a assistência social que não era realizada pelo Estado”, comentou o parlamentar.
“Vários empresários, pessoas autônomas e benfeitores estão publicando nas redes sociais que não mais ajudarão ninguém, pois já que o Brasil está bem — e tendo em vista que as pessoas votaram no Lula — não se sentem mais na obrigação de ajudar aos mais necessitados”, declarou Gualberto no X.
“É uma pena; mas, por outro lado, sei que a vida é feita de escolhas. E escolhas têm consequências. Ou como diria o adágio popular: ‘Quem semeia vento, colhe tempestade.’”
Líder do governo manda investigar demissões e boicotes a empresas de eleitores de Lula
Desde segunda-feira tem sido publicada nas redes sociais uma série de relatos de pessoas que teriam sido demitidas por terem se declarado eleitoras de Lula, além de posts que incentivam empresários a promover a mesma medida.
A prática, no entanto, é ilegal. A Constituição garante a liberdade de convicção política, enquanto a Lei 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias nas relações de trabalho.
Nesta terça-feira (27), o juiz Leonardo Saggese Fonseca, da 3ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, atendeu a um pedido do Ministério Público do Trabalho do estado (MPT-RJ), determinando que a deputada estadual Índia Armelau (PL) remova em até 48 horas uma postagem em que questiona se empresários deveriam manter em seus quadros funcionários que votaram em Lula.
O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), líder do governo na Câmara, anunciou ter acionado o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal (PF) para abrir um processo de investigação sobre os incentivos que circulam nas redes sociais e identificar seus autores. “Com certeza deve ter um comando centralizado”, afirmou.
“São muito graves as notícias que se multiplicam sobre uma ação deliberada e organizada por parte de apoiadores radicais de Flávio Bolsonaro que estimulam a demissão de supostos eleitores e eleitoras que votaram no Lula no último domingo, o boicote a empresas, o boicote a profissionais liberais.”
“Várias listas estão sendo difundidas nas cidades com um discurso de ódio, violento, de intimidação explícita. E várias informações dão conta de pessoas que foram demitidas, submetidas a todo tipo de constrangimento, de assédio moral. Isso é crime”, disse o parlamentar.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/economia/empresarios-fim-acoes-sociais-reeleicao-lula/
Flávio Bolsonaro é alvo de medidas judiciais e juristas apontam perseguição política

Menos de 48 horas após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a enfrentar medidas judiciais, diligências policiais e investigação que, na avaliação de juristas, indicariam cenário de perseguição política. Ele acabou saindo do país rumo aos Estados Unidos. As decisões também alimentaram o debate sobre o tratamento à oposição no país e sobre o risco que um adversário do governo passe a ser enquadrado, na prática, como um “dissidente político”.
Na segunda (26), Flávio foi intimado pela Polícia Federal, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, a entregar passaportes e a cumprir a proibição de deixar o Brasil. A decisão, que tramita sob segredo de Justiça, está relacionada à investigação que envolve o senador e o advogado Willer Tomaz, sob suspeita de lavagem de dinheiro.
Nesta terça (27), a PF e o Ministério da Justiça procuraram autoridades argentinas para verificar informações divulgadas pela imprensa de que Flávio teria cruzado a fronteira e seguido em direção aos Estados Unidos. A saída de Flávio e de sua família do Brasil foi confirmada horas depois.
O constitucionalista Alessandro Chiarottino destaca que há indícios de perseguição política pela forma como ocorreu a intimação para a entrega dos passaportes. Questionado se a sequência de medidas poderia indicar que Flávio deixa de ser opositor político e passa a ser visto como dissidente, o especialista respondeu afirmativamente e avaliou que o senador seria “mais um perseguido político”.
O constitucionalista André Marsiglia também vê sinais de perseguição. Para ele, a apreensão dos passaportes de um candidato à Presidência no dia seguinte à eleição transmite a impressão de que as medidas judiciais têm dimensão política. Marsiglia avalia que o objetivo seria enfraquecer o campo político ligado à família Bolsonaro não apenas eleitoralmente, mas também reduzir sua capacidade de voltar a disputar o poder.
“Parece que estão tentando fazer com o Flávio o que fizeram com o Jair”, afirmou Marsiglia, ao comparar a situação com a trajetória judicial do pai que está preso. Na avaliação do analista, as medidas podem desestimular futuras candidaturas e diminuir a disposição do movimento conservador de disputar eleições.
Marsiglia também questiona o uso da declaração feita pelo irmão, Eduardo Bolsonaro, como elemento relacionado à restrição de viagem. O ex-deputado sugeriu que Flávio deixasse o Brasil caso perdesse a eleição. Para Marsiglia, uma declaração de terceiros não deveria servir de fundamento para uma medida restritiva.
Oposição ou dissidência?
A discussão sobre dissidência também apareceu na análise do comentarista político Paulo Briguet, no Café com a Gazeta de segunda. Ao abordar o futuro do movimento conservador, Briguet argumentou que, em regimes que considera “ditatoriais”, não existe oposição institucional, mas “dissidência”.
O cientista político Gustavo Alves esclarece que oposição é o grupo que discorda do governo e disputa o poder dentro das regras institucionais. Dissidência costuma designar grupos ou indivíduos que contestam o poder estabelecido em contextos nos quais consideram limitadas as possibilidades de oposição formal ou de participação política democrática.
Juristas alertam que, por enquanto, a utilização do conceito de dissidência para descrever aliados de Bolsonaro ainda é “uma interpretação política e ainda não uma classificação jurídica estabelecida”.
Chiarottino e Marsiglia alertam para a sequência e para a forma das medidas tomadas contra Flávio, enquanto Briguet propõe uma leitura ampla sobre o futuro do movimento conservador. Em comum, as avaliações expressam preocupação com o espaço disponível para a oposição atualmente no Brasil.
Medidas judiciais e fundamentos sob sigilo
A restrição de viagem foi determinada em uma investigação que envolve Flávio e Willer Tomaz. O caso apura suspeitas de lavagem de dinheiro e movimentações financeiras. A existência da investigação não equivale a uma condenação e as suspeitas precisam ser comprovadas por procedimentos legais.
A proximidade entre a derrota eleitoral e a intimação para a entrega dos passaportes motivou críticas dos especialistas. “Como a decisão tramita sob segredo de Justiça, não é possível examinar os fundamentos apresentados pelo ministro, mas há estranheza sobre as movimentações”, reforça Marsiglia.
O mesmo valeria para a consulta às autoridades argentinas. A diligência da PF foi inicialmente motivada por notícias de uma possível saída do senador do país, o que se confirmou na tarde desta terça-feira (27).
“Isso expõe uma nova frente de tensão entre a direita e instituições judiciais”, completa Chiarottino.
Dino manda PF investigar suposta interferência estrangeira na campanha de Flávio
Somam-se a esse cenário as decisões do ministro Flávio Dino, nesta terça, para que a PF instaure um inquérito sobre a suposta interferência estrangeira nas eleições brasileiras. A investigação deverá apurar alegações de repasses à campanha do senador por um grupo estrangeiro, além da possibilidade de contrapartidas à exploração de terras raras e minerais críticos. A iniciativa ocorreu após pedido do PT, embora Dino tenha negado ao partido participação na ação.
O ministro afirmou que não se admite interferência de Estados estrangeiros em assuntos submetidos à soberania brasileira. A decisão também autoriza a PF a buscar evidências de eventual desigualdade entre candidatos nas plataformas digitais, incluindo possíveis diferenças de alcance de publicações e suspensões de contas.
Dino citou riscos de “desequilíbrio digital” e distinguiu a liberdade individual de expressão de uma possível instrumentalização da atividade político-partidária em favor de interesses estrangeiros.
Manifestantes acuados após o 8 de janeiro
Em um cenário macro, o receio de enfrentar consequências judiciais semelhantes às impostas aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023 pode contribuir para que apoiadores de Flávio evitem manifestações.
A possibilidade de uma reação nas ruas, que poderia expressar insatisfação com as medidas adotadas, esbarraria tanto no temor de novas investigações e condenações quanto na avaliação de que protestos dificilmente mudariam o desfecho da disputa, segundo analistas.
Marsiglia avalia que as punições aplicadas aos participantes do 8 de janeiro já têm produzido um efeito inibidor entre apoiadores da direita. O receio de perseguição judicial e a percepção de que o Judiciário exerce poder excessivo, descrito por setores desse campo político como autoritarismo, devem levar eleitores a evitar atos públicos, mesmo quando discordam do resultado eleitoral ou de decisões institucionais.
Nesse cenário, a preocupação com possíveis consequências legais funcionaria como um fator de autocensura. “Em vez de expressar publicamente sua posição, parte dos apoiadores opta por permanecer em casa ou limitar suas críticas às redes sociais, mesmo assim com restrições, porque sabem que pode haver retaliações inclusive com suas manifestações nas redes”, destaca.
Chiarottino não acredita que apenas o receio do 8 de janeiro seja o fator determinante neste momento.
Para ele, a campanha de Flávio errou ao alimentar cedo demais a expectativa de vitória, criando um ambiente de confiança excessiva. “Faltou um esforço maior de mobilização durante a campanha, inclusive com grandes manifestações de apoio ao candidato ainda naquele momento, o que sustentaria mobilizações agora”.
A avaliação aponta para outro componente do recuo. “Além do medo, pode haver uma percepção de que mobilizações tardias não produziriam efeitos concretos”.
Questionamento jurídico da eleição foi cogitado
O segundo turno da eleição foi marcado por questionamentos sobre a organização da votação e sobre a decisão judicial de ampliar o horário de funcionamento das seções eleitorais. Flávio Bolsonaro cogitou pedir judicialmente a anulação do pleito, mas recuou e disse que questionaria judicialmente o suposto uso da máquina pública por Lula para conseguir sua reeleição.
O episódio que concentrou parte das críticas foi a decisão de Cristiano Zanin, do STF, que prorrogou das 17h às 19h a votação nas seções que ainda não haviam sido encerradas.
A medida foi comunicada depois do horário previsto ao fechamento das urnas e exigiu adaptações nos procedimentos de apuração.
Em balanço divulgado na madrugada de segunda, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que a prorrogação, embora possível, precisava ter sido planejada e estruturada. Segundo ele, a decisão foi tomada em circunstâncias que dificultaram a avaliação de efeitos operacionais.
Como a orientação chegou após as 17h, milhares de urnas haviam sido encerradas e não podiam ser reabertas. O tribunal precisou suspender temporariamente o recebimento dos boletins de urna, o que provocou acúmulo de arquivos à espera de processamento.
O TSE informou que a votação continuaria apenas nas seções ainda abertas. Cerca de 35 mil votos foram registrados em todo o país em decorrência da ampliação do horário, volume incapaz de mudar qualquer cenário de disputa.
“Para apoiadores que podem interpretar as decisões judiciais como excessivas ou politicamente motivadas, o 8 de janeiro pode funcionar como um alerta sobre os riscos de participar de atos. A preocupação pode se estender a manifestações pacíficas, embora a participação em um protesto não deva ser equivalente à prática dos crimes”, destaca o criminalista Márcio Nunes.
Entre o medo e a estratégia política
O doutor em Direito Luiz Augusto Módolo chama atenção para os custos aos envolvidos no 8 de janeiro. Ao avaliar a possibilidade de novos questionamentos na Justiça, ele lembrou o precedente de 2022, quando o PL recebeu multa de quase R$ 23 milhões por supostamente ter praticado litigância de má-fé, após a Justiça Eleitoral rejeitar uma contestação sobre urnas eletrônicas. Para Módolo, o episódio mostra que iniciativas judiciais podem trazer consequências para quem as apresenta.
Para juristas, a ausência de atos após o resultado pode ser explicada por fatores diferentes: o temor de consequências judiciais, a avaliação de que protestos não mudariam o resultado, a falta de mobilização antecipada e a orientação de lideranças para que apoiadores não fossem às ruas.
Em relação à possibilidade de protestos de rua, segundo analistas, ela dependeria não apenas da disposição dos eleitores, mas das decisões das lideranças e da percepção sobre a utilidade de mobilizações. “O desafio à democracia é preservar o direito de contestar decisões e o limite que separa a manifestação pacífica de atos ilegais”, afirma Módolo.
O histórico de decisões de Moraes contra a família Bolsonaro
A relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e a família Bolsonaro é marcada por uma sequência de investigações, decisões cautelares e condenações que atingiram o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos Flávio e Eduardo.
O histórico remonta a 2019, quando Moraes foi designado relator do chamado inquérito das fake news, instaurado pelo então presidente do STF, Dias Toffoli. A investigação passou a apurar a disseminação de notícias falsas, além de supostas ameaças e ataques contra ministros da Corte. Nos anos seguintes, decisões do magistrado também atingiram aliados do ex-presidente e perfis nas redes sociais ligados a aliados de Bolsonaro.
Em setembro de 2021, durante as manifestações de 7 de Setembro, Jair Bolsonaro intensificou os ataques a Alexandre de Moraes. Em discurso na Avenida Paulista, em São Paulo, afirmou que não cumpriria mais decisões do ministro, chamou-o de “canalha” e exigiu sua saída. No dia seguinte, o então presidente do STF, Luiz Fux, advertiu que o descumprimento de decisões judiciais pelo chefe de um dos Poderes poderia configurar crime de responsabilidade. Em 9 de setembro, Bolsonaro divulgou a chamada “Declaração à Nação”, redigida pelo ex-presidente Michel Temer. No documento, Bolsonaro atribuiu suas palavras ao “calor do momento”, negou a intenção de agredir os Poderes e reiterou respeito às instituições.
A Polícia Federal também investigou Jair Bolsonaro em dois casos sob relatoria de Moraes no STF: o da suspeita de fraude nos registros de vacinação contra a Covid-19 e o das joias e de outros presentes recebidos durante seu mandato. No primeiro, Bolsonaro e Mauro Cid foram indiciados em março de 2024, mas Moraes arquivou a investigação contra o ex-presidente em março de 2025, a pedido da PGR. No caso das joias, a PF indiciou Bolsonaro e outros investigados em julho de 2024 por suspeitas de associação criminosa, lavagem de dinheiro e apropriação de bens públicos. A apuração contou com informações da colaboração premiada de Cid. Em março de 2026, a PGR pediu o arquivamento do inquérito, e Moraes solicitou novo parecer sobre a participação do advogado Frederick Wassef antes de decidir.
Além disso, em fevereiro de 2024, Jair Bolsonaro passou a ser alvo de medidas judiciais no âmbito da investigação sobre uma suposta trama para impedir a posse de Lula em 2023.
Em julho de 2025, Moraes impôs novas medidas cautelares ao ex-presidente, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, restrições de circulação e proibição de utilizar redes sociais, inclusive por intermédio de terceiros.
No mês seguinte, após considerar que houve descumprimento das restrições, Moraes decretou a prisão domiciliar de Bolsonaro. A decisão também proibiu o ex-presidente de receber visitas, exceto de seus advogados, e de utilizar celulares, inclusive aparelhos de terceiros. Posteriormente, o ministro autorizou visitas de familiares, mas manteve restrições ao uso de celulares.
A Primeira Turma do STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado em setembro do ano passado. Moraes foi o relator da ação penal.
Neste ano, após o ex-presidente passar a cumprir pena em regime fechado e posteriormente obter prisão domiciliar temporária por razões de saúde, o ministro manteve restrições de comunicação e fiscalização judicial. Em julho, Moraes suspendeu por 90 dias as visitas de Flávio Bolsonaro ao pai. A medida foi tomada depois que o senador publicou nas redes sociais uma carta escrita por Jair Bolsonaro devido à proibição de o ex-presidente utilizar as redes sociais, inclusive por intermédio de terceiros.
Além de Jair, Eduardo Bolsonaro também passou a ser alvo de investigação no STF. Em maio de 2025, Moraes determinou a abertura de inquérito, a pedido da PGR, em razão da atuação do então deputado nos Estados Unidos e das iniciativas para pressionar autoridades brasileiras durante o julgamento do pai.
Em junho de 2026, a Primeira Turma do STF condenou Eduardo a quatro anos e dois meses de prisão, em regime inicial semiaberto, por coação no curso do processo. O colegiado entendeu que ele havia atuado para interferir no julgamento de Jair Bolsonaro. A condenação também resultou em declaração de inelegibilidade e perda do cargo público de escrivão da Polícia Federal.
Após as eleições de 2026, Flávio Bolsonaro passou a ser alvo de uma nova medida judicial determinada por Alexandre de Moraes. Em decisão cujo conteúdo integral não foi divulgado, o ministro determinou que o senador entregasse seus passaportes à Polícia Federal e o proibiu de deixar o país. Também vetou seu contato com o advogado Willer Tomaz, investigado no mesmo contexto.
Flávio não entregou os documentos no prazo determinado, e a Polícia Federal cancelou seus passaportes. Nesta terça-feira (27), a PF confirmou que o senador deixou o Brasil. A Gazeta do Povo apurou que ele teria seguido para a Argentina e pretenderia viajar aos Estados Unidos.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/flavio-bolsonaro-alvo-medidas-judiciais-juristas-apontam-perseguicao-politica/
Aliados de Flávio justificam viagem aos EUA como perseguição e exílio

Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) justificaram, nesta terça-feira (27), que a viagem do parlamentar aos Estados Unidos mais cedo ocorreu por um exílio político decorrente do que seria uma “perseguição” promovida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A viagem de Flávio com a família ao país norte-americano ocorreu durante a madrugada, segundo confirmado à Gazeta do Povo por fontes ligadas à Polícia Federal e aliados próximos ao senador, após Moraes decretar a apreensão de seus passaportes. Ele teria saído do Brasil através da Argentina, embora o governo de Javier Milei não confirme a passagem do parlamentar pelo país.
Flávio Bolsonaro responde a três investigações no STF envolvendo, entre outros casos, supostas relações com o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, e com o advogado Willer Tomaz, de quem é amigo pessoal e apontado como “usuário master” de uma conta bancária de uma empresa que teria sido utilizada para lavar dinheiro.
Entre os primeiros aliados que confirmaram a saída de Flávio do Braisl está o deputado federal Maurício Marcon (PL-RS), que afirmou que o senador “ruma ao exílio”.
“Assim como María Corina Machado (líder da oposição na Venezuela), Flávio Bolsonaro, o candidato derrotado nas eleições também busca exílio em outro país. […] O Flávio conseguiu estar no exílio, vai nos representar num país livre, seguirá sendo o nosso líder assim como [o ex-presidente] Jair Bolsonaro”, afirmou.
Marcon afirmou que Flávio precisou deixar o país após a ordem de Moraes para apreender seus passaportes e pressioná-lo a votar pela reeleição do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que tem evitado abrir processos de impeachment contra o ministro. O ato de Flávio, afirma, confirma a necessidade dos demais senadores da oposição votarem em Rogério Marinho (PL-RN) na eleição à presidência do Senado no ano que vem.
“Agora, senadores que têm compromisso com o impeachment de Alexandre de Moraes, que estavam meio titubeantes em votar em Alcolumbre ou em Marinho, não precisam mais ter dúvida nenhuma. O plano [de Moraes] era: ou vocês votam no Alcolumbre, ou eu prendo o Flávio”, afirmou.
O mesmo posicionamento foi adotado pelo deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ), também aliado muito próximo de Flávio Bolsonaro, que pediu aos senadores que sigam no apoio a ele e a Rogério Marinho.
“Querem intimidar a oposição, querem intimidar os senadores. […] Se Flávio Bolsonaro fugiu, ele fez certo. Precisamos garantir a presidência do Senado Federal. A responsabilidade dos senadores eleitos aumentou muito”, disse citando que, se Flávio tivesse sido eleito presidente, teria pacificado o país junto da maioria de direita eleita para o Congresso.
Carlos Jordy afirma que a derrota de Flávio afetou diretamente este projeto e que Alcolumbre já estaria “cooptando” senadores para ser reconduzido ao cargo no ano que vem e continuar barrando os processos de impeachment de Moraes.
O senador eleito Deltan Dallagnol (Novo-PR) também considerou que a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos frustrou os supostos planos de Moraes com Alcolumbre, afirmando que o ministro “perde sua principal arma”.
“O medo de uma prisão vira pressão para que a direita recue, que não faça impeachment. Entendem aonde que o Moraes quis chegar”, questionou.
Outros parlamentares foram mais contidos, como o deputado eleito Lucas Pavanato (PL-SP), que classificou a ordem de Moraes contra Flávio como “o Brasil venezuelou”. “Perseguido pelo Supremo Tribunal, Flávio deixa o país. […] Ainda há quem não veja motivo para se preocupar com os rumos da nossa democracia”, questiona a deputada Caroline de Toni (PL-SC).
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/aliados-flavio-justificam-viagem-eua-perseguicao-exilio/
Valdemar e Michelle discutem futuro do PL após Flávio deixar o país

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, recebeu nesta terça-feira (27) a senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF) para debater o “futuro do partido”. O encontro ocorreu no mesmo dia em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos, dois dias após perder a eleição para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Recebi hoje a senadora eleita Michelle Bolsonaro para uma conversa sobre o futuro do nosso partido e os desafios que temos pela frente”, disse Valdemar em uma publicação nas redes sociais, que incluía uma foto dos dois na sede do partido.
“Seguimos unidos, com diálogo, responsabilidade e compromisso com o Brasil”, acrescentou. Mais cedo, o dirigente convocou uma reunião de emergência com parlamentares do PL depois que a viagem de Flávio foi divulgada pela imprensa.
No dia anterior, o senador havia dito que não pensava em deixar o país após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega de seus passaportes e proibi-lo de deixar o país.
Depois da reunião, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha de Flávio, disse ter ficado surpreso com a decisão do aliado e questionou a ordem de Moraes.
A ex-primeira-dama comentou uma notícia que dizia que, procurada por aliados, ela teria confirmado que o enteado saiu do Brasil. “Procurada??? Eeeeita, fofoca!!!”, disse Michelle em um post nos stories do Instagram.
Flávio, a esposa e suas duas filhas teriam deixado o país pela Argentina e seguido para os Estados Unidos. Diversos jornais afirmam que o senador já teria desembarcado e sido recebido pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) na Flórida. Segundo a imprensa americana, o governo de Donald Trump concederá vistos para Flávio e sua família.
Família Bolsonaro é alvo frequente de Moraes
A ordem de apreensão dos passaportes de Flávio ocorre após uma sequência de medidas judiciais impostas pelo ministro Alexandre de Moraes a integrantes da família Bolsonaro.
Em julho de 2025, antes da condenação de Jair Bolsonaro por suposta tentativa de golpe, Moraes determinou buscas na residência do ex-presidente, impôs o uso de tornozeleira eletrônica e estabeleceu restrições à comunicação e ao uso de redes sociais.
No mês seguinte, converteu as cautelares em prisão domiciliar, sob a alegação de descumprimento das ordens judiciais. Em novembro, decretou a prisão preventiva do ex-presidente.
Em julho de 2026, publicações de Flávio nas redes sociais foram usadas para impor restrições às visitas a Jair Bolsonaro. O senador, então pré-candidato, divulgou uma carta do ex-presidente que o apresentava como porta-voz do pai e pedia apoio à sua pré-candidatura à Presidência.
O ministro entendeu que a divulgação contornava a proibição de manifestações políticas por terceiros imposta a Jair e suspendeu as visitas de Flávio ao ex-presidente por 90 dias, período que ultrapassava o primeiro turno das eleições. As visitas foram retomadas em meados de outubro.
Moraes também iniciou uma investigação contra Eduardo Bolsonaro por sua atuação nos Estados Unidos em favor do pai. O ex-deputado foi condenado pelo STF por coação no curso do processo e, após o trânsito em julgado, o ministro determinou a expedição de mandado de prisão (de quatro anos e dois meses), a suspensão dos direitos políticos e o cancelamento dos passaportes de Eduardo, que está nos EUA.
Em outro processo, também relatado por Moraes, Eduardo foi condenado, em setembro deste ano, por declarações contra a deputada Tabata Amaral (PSB-SP), feitas quando ele ainda era deputado, em 2021.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/valdemar-e-michelle-discutem-futuro-do-pl-apos-flavio-deixar-o-pais/
O que se sabe sobre a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil após ordem de Moraes

O senador Flávio Bolsonaro (PL) chegou aos Estados Unidos no final da manhã desta quarta-feira (28) após descumprir uma ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que o proibiu de deixar o Brasil.
O senador não se manifestou publicamente desde a tarde desta segunda-feira (26). A primeira informação sobre a viagem partiu do site argentino Infobae que relatou que ele teria viajado de jatinho primeiramente à Argentina, governada pelo aliado Javier Milei, e seguido de lá aos Estados Unidos.
Nesta segunda (26), o ministro Alexandre de Moraes deu 24 horas para o senador entregar seus passaportes, o proibiu de deixar o país e de manter contato com o advogado Willer Tomaz. Os dois são investigados por suposta lavagem de dinheiro. O próprio Flávio anunciou que tinha sido alvo de medidas cautelares e garantiu que não tinha intenção de sair do país.
Veja abaixo a cronologia da saída de Flávio do Brasil
Tarde de 18 de outubro: Torna-se público que Flávio é alvo de uma investigação aberta para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo sua relação com o advogado Willer Tomaz. Uma semana antes, Moraes havia sido sorteado como relator do caso. O inquérito é sigiloso. A defesa do senador afirmou que a relação entre ele e Tomaz se limita à amizade entre as famílias e reforçou que os não não seriam sócios.
Tarde de 23 de outubro: O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) defendeu que o irmão deveria deixar o Brasil, caso perdesse as eleições. A declaração ocorreu na tarde do dia 23 durante a participação de Eduardo no programa “Louder with Crowder”, apresentado pelo comentarista político Steven Crowder.
Noite de 23 de outubro: Moraes autorizou a quebra dos sigilos da empresa offshore Alcazar Holdings, de Willer Tomaz, e mandou bloquear até R$ 6 bilhões em bens do advogado. O ministro também cancelou os passaportes do advogado, suspendeu as atividades de todas as suas empresas e determinou que os bancos enviassem, em 24 horas, informações referentes a suas contas.
Manhã de 25 de outubro: O Santander teria informado a Moraes que Flávio não estava entre os usuários registrados na conta da Alcazar Holdings. Por volta das 8h20, o senador votou na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
Ele retornou a Brasília e acompanhou a apuração na casa do advogado Vicente Santini, seu amigo pessoal, que foi eleito primeiro suplente na chapa de Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado.
Noite de 25 de outubro: Pouco depois das 21h, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou que Lula estava matematicamente eleito. Segundo o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha do PL, sete minutos após o anúncio do TSE, a PF teria pedido a adoção de medidas cautelares contra Flávio, citando entre os motivos a declaração de Eduardo do dia 23.
A autoridade policial também citou que Willer Tomaz teria capacidade de bancar o senador por um período prolongado em Miami, onde mora desde o mês de agosto. Moraes teria assinado o despacho com autorização de medidas cautelares cerca de uma hora e meia depois.
Paralelamente, por volta de 23h, Flávio convocou a imprensa e afirmou que seria “impossível” reconhecer o resultado do segundo turno e anunciou que pediria a anulação do pleito.
Manhã de 26 de outubro: O senador visitou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar, em Brasília. Ele teria chegado de forma discreta no local. Segundo Flávio, assim que deixou a residência do pai, ele foi abordado por agentes da PF que o informaram sobre a decisão de Moraes. Com a intimação, o prazo de 24 horas para entrega de seus passaportes convencional, diplomático e italiano já começa a valer.
Tarde de 26 de outubro: O próprio Flávio divulgou um vídeo nas redes sociais para informar que tinha sido intimado pela PF e disse que a ordem de Moraes tinha como base as falas de Eduardo. Horas depois, ele recebeu a visita do advogado Frederick Wassef, que representa a família Bolsonaro. Após a publicação do vídeo, o senador não foi mais visto em público.
Madrugada de 27 de outubro: O site argentino Infobae afirmou que Flávio teria cruzado teria ido para Puerto Iguazú, cidade na província de Misiones localizada na Tríplice Fronteira, em um jatinho particular para seguir para os Estados Unidos. A partir desta notícia, o senador não foi mais encontrado.
Manhã de 27 de outubro: A PF investiga o paradeiro de Flávio. Rogério Marinho relatou que tentou contato com o aliado, que respondeu por mensagem que estaria “esfriando a cabeça”. Outros aliados tentaram contato com o senador, mas sem sucesso.
O prazo para entrega dos passaportes vencia até o meio-dia, mas os documentos não foram entregues. Pouco depois do meio-dia, autoridades argentinas disseram não ter registro da entrada de Flávio. A imprensa do país vizinho afirma que ele teria entrado na Argentina a pé.
Tarde de 27 de outubro: Fontes ligadas à Polícia Federal confirmaram à Gazeta do Povo que Flávio deixou o Brasil, foi para a Argentina e de lá seguiu para os Estados Unidos . Deputados do PT pediram a prisão preventiva de Flávio por descumprimento de ordem judicial.
Noite de 27 de outubro: A imprensa americana afirma que o governo de Donald Trump concederá vistos a Flávio e sua família.
Manhã de 28 de outubro: O departamento de migração do governo do presidente da Argentina, Javier Milei, confirmou durante a madrugada da quarta-feira (28) que o senador Flávio Bolsonaro (PL), sua esposa e filhas passaram pelo país, mas apenas na noite de terça (27), e seguiram para o Equador. Do Equador, Flávio e família seguiram para os Estados Unidos, onde o governo Donald Trump concedeu-lhe vistos. Segundo o portal g1, eles tomaram um voo para Miami.
Ainda na manhã de quarta (28), o jornalista Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, disse que Flávio “está bem, em segurança e descansando com a família” e que uma coletiva de imprensa será realizada na tarde de quinta-feira (29), em Miami.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chega aos Estados Unidos com a família, em um aeroporto executivo da região da cidade de Miami, no estado da Flórida. O desembarque do parlamentar com a esposa e as filhas ocorreu por volta das 10h30 e foi confirmado por imagens veiculadas pela agência Reuters.
Família Bolsonaro é alvo frequente de Moraes
A ordem de apreensão dos passaportes de Flávio ocorre após uma sequência de medidas judiciais impostas pelo ministro Alexandre de Moraes a integrantes da família Bolsonaro.
Em julho de 2025, antes da condenação de Jair Bolsonaro por suposta tentativa de golpe, Moraes determinou buscas na residência do ex-presidente, impôs o uso de tornozeleira eletrônica e estabeleceu restrições à comunicação e ao uso de redes sociais.
No mês seguinte, converteu as cautelares em prisão domiciliar, sob a alegação de descumprimento das ordens judiciais. Em novembro, decretou a prisão preventiva do ex-presidente.
Em julho de 2026, publicações de Flávio nas redes sociais foram usadas para impor restrições às visitas a Jair Bolsonaro. O senador, então pré-candidato, divulgou uma carta do ex-presidente que o apresentava como porta-voz do pai e pedia apoio à sua pré-candidatura à Presidência.
O ministro entendeu que a divulgação contornava a proibição de manifestações políticas por terceiros imposta a Jair e suspendeu as visitas de Flávio ao ex-presidente por 90 dias, período que ultrapassava o primeiro turno das eleições. As visitas foram retomadas em meados de outubro.
Moraes também iniciou uma investigação contra Eduardo Bolsonaro por sua atuação nos Estados Unidos em favor do pai. O ex-deputado foi condenado pelo STF por coação no curso do processo e, após o trânsito em julgado, o ministro determinou a expedição de mandado de prisão (de quatro anos e dois meses), a suspensão dos direitos políticos e o cancelamento dos passaportes de Eduardo, que está nos EUA.
Em outro processo, também relatado por Moraes, Eduardo foi condenado, em setembro deste ano, por declarações contra a deputada Tabata Amaral (PSB-SP), feitas quando ele ainda era deputado, em 2021.
Atualização
Texto foi atualizado com as informações dos deslocamentos de Flávio Bolsonaro e sua família durante a noite de terça-feira (27) e a manhã de quarta-feira (28), além da confirmação do governo argentino de que o Senador passou pelo país antes de seguir para os EUA.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/o-que-se-sabe-sobre-a-saida-de-flavio-bolsonaro-do-brasil-apos-ordem-de-moraes/
Como Lula terceirizou a campanha digital para Janones – e ganhou na base do terrorismo

Se depender da esquerda brasileira, não haverá incenso suficiente no mundo para adular e bajular o deputado federal André Janones (Rede-MG). Ele está recebendo, em grande parte, os créditos pela inacreditável virada de Lula no segundo turno das eleições de 2026, e se autointitulou “general do marechal Silva” no contestado canal de WhatsApp “Exército do Lula”. Agora tratado como “gênio” da mobilização digital, Janones traz consigo um histórico de picaretagem que lhe rendeu algumas condenações na Justiça.
A estratégia de Janones parece ser um aprimoramento do que o PT já chamou de “manual do tuiteiro petista”. Era a cartilha dos MAVs, os Militantes em Ambiente Virtual, criada em um congresso do partido em 2011, quando o PT buscava estruturar uma patrulha nas redes para apoiar o governo de Dilma Rousseff.
Mas se antes o alvo da guerrilha digital petista era criticar os sites de notícia, o campo de batalha mudou para as redes sociais. E o canal criado por Janones angariou um contingente de mais de 10 milhões de seguidores. Na prancheta virtual, táticas como a disseminação de mentiras e uma espécie de terrorismo baseado em fake news para inundar as plataformas e tentar provocar mudanças nos algoritmos.
Tudo, lógico, sempre acompanhado de um senso de urgência exagerado. Quase todas as “missões” atribuídas aos “soldados” eram acompanhadas de gritos. Seja para subir hashtags, compartilhar links de transmissões ao vivo ou para tentar manipular os mecanismos de busca, Janones surgia aos berros. “Pessoal, urgente!” era uma das frases mais usadas nos vídeos. “Explode!” era a ordem mais comum nas mensagens de texto. 
Estética dos vídeos de Janones gerava sensação de urgência para os seguidores do canal de WhatsApp. (Foto: Reprodução / WhatsApp)
Janones usou palavrões para reclamar da falta de ação de seus seguidores
Além das ordens, o deputado também cobrava uma participação mais efetiva do “exército”. Às vezes com direito a palavrões, como quando ele reclamou que bastava dar uma saída para que a estratégia ficasse “bagunçada”.
“O ritmo do grupo desacelerou, ninguém está chamando mais ninguém. Está uma bagunça, ninguém está cumprindo missão, nem curtindo link. Eu vou ter que parar a minha vida e ficar só aqui? Não vou poder mais fazer live, nem campanha. Parece que eu estou lidando com criança”, disse Janones, para depois reclamar por escrito que a militância parecia pautada “por bebedores de detergente ipê, pqp”.

Mas não eram só cobranças. Janones também gostava de mostrar consideração pelos militantes virtuais, como quando, por volta das duas horas da madrugada ele se lembrava de “liberar” o exército para dormir.

Janones mandou seguidores ligarem para a mãe de madrugada por apoio a Lula
Foi numa madrugada também que Janones mandou um áudio que resume bem sua forma de atuação durante a campanha de Lula. A instrução era clara e direta: fazer os seguidores ligarem para os parentes, incluindo as próprias mães, por volta da uma e meia da manhã, para pedir apoio e voto para o petista.
“Você vai ligar e vai acordar. Não tem problema se você assustar sua mãe. Você vai ligar para ela 1h20 da manhã. A hora que o telefone tocar, ela vai achar que aconteceu alguma tragédia. Você vai falar: ‘Calma, eu só tô ligando pra senhora entrar na live agora, porque o Lula tem uma mensagem importante para passar’.”, decretou.
Ele continuou: “Você vai ligar para o seu filho, mesma coisa. Vai assustar, não tem problema não. Você vai falar “calma, não precisa assustar. Papai tá bem, mamãe tá bem. É só para pedir para você assistir a live lá do canal do exército do Lula, que o Lula está entrando agora. Enfim, é para chamar todo mundo. Todo mundo, não importa a hora”.
Janones tentou ligar Flávio Bolsonaro a esquema internacional de prostituição
Janones também não descansou enquanto mobilizava seus seguidores em torno de histórias, no mínimo, mal contadas. Foi assim antes do debate da Globo, quando o deputado ordenou que os membros do canal impulsionassem o termo #QuemEMarianaFlavio nas redes sociais.
As especulações giraram em torno de uma possível amante do senador, mas as buscas na internet acabavam direcionando para uma ex-chefe de gabinete de Flávio que teria participação no suposto esquema de rachadinha na Alerj. Janones negou as duas possibilidades e disse, no X, que a imprensa “estava viajando”.
Dias depois veio a revelação. Em uma explicação estapafúrdia, Janones disse que a mulher seria a ucraniana Mariana Vishegirskaya, que foi fotografada enquanto fugia grávida de um hospital bombardeado pelas tropas russas de Putin em Mariupol, em 2022. A alegação do deputado é que, mesmo sem qualquer ligação direta ou indireta com Flávio Bolsonaro, a imagem ajudaria a representar jovens do Leste Europeu que teriam sido cooptadas em um esquema internacional de prostituição que teria sido utilizado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro em suas festas.
“Mariana não é uma dessas mulheres que participaram das festas de Vorcaro. Não há nenhuma informação que a relacione às festas de Vorcaro ou a encontros com Flávio. Mas Mariana nos ajuda a compreender de onde vêm essas refugiadas. O que perderam. Do que fugiram”, postou Janones.
Mentiras de Janones também atingiram Nikolas Ferreira e Jair Bolsonaro
A irresponsabilidade de Janones, tanto em sua atuação parlamentar quanto em suas ações nas redes sociais, já lhe rendeu alguns inquéritos na Justiça. Em 2025 ele confirmou ao STF que recebeu parte dos salários de assessores para não ser processado por crime de peculato na forma de rachadinha. Ainda assim, teve que pagar mais de R$ 150 mil a título de reparação pelos crimes cometidos.
Anos antes, em 2022, Janones compartilhou publicações e uma série de indiretas contra o então vereador Nikolas Ferreira – que viria a ser o deputado federal mais votado naquelas eleições. Entre as peças, Janones postou no antigo Twitter algo sobre um suposto vídeo íntimo de Nikolas, com direito a provocações como “mete a boca”.
Em paralelo, um vídeo adulto com cenas de sexo oral entre dois homens começou a circular pelas redes sociais, com a alegação de que uma das pessoas seria Nikolas Ferreira. A informação foi logo desmentida, e a autoria do vídeo confirmada para um ator pornô. Ainda assim, o futuro deputado precisou gravar vários vídeos para desmentir o boato.
Quando ambos estavam na Câmara dos Deputados, em 2023, Janones chamou Nikolas de “chupetinha” durante uma sessão da CCJ. Questionado, o esquerdista rapidamente fez um malabarismo retórico para dizer que o apelido se referia à forma infantil de comportamento de Nikolas, e que nada tinha de contexto sexual.
O deputado do PL judicializou o caso, e diferente de quando foi condenado a pagar R$ 80 mil em indenização a Duda Salabert (PDT-MG) por homofobia, Nikolas ganhou a ação por danos morais contra Janones – que foi condenado a pagar R$ 5 mil após ter dito que seu colega parlamentar era um “vereador pedófilo”.
Também em 2022, Janones fez postagens afirmando, sem base nenhuma, que caso Jair Bolsonaro (PL) fosse reeleito, o ex-presidente Fernando Collor de Mello seria nomeado ministro. A ameaça era de que, uma vez no ministério, Collor confiscaria benefícios, aposentadorias e auxílios, em uma suposta manobra similar à feita pelo Governo Federal em 1990.
O histórico de Janones nas redes sociais mostra a contradição entre o discurso da esquerda de combate às fake news e o uso de conteúdos que foram contestados e questionados pela Justiça. Em vez de ser colocado de lado, o deputado estridente ganhou um lugar central na campanha de Lula e, com gritos e mentiras, ajudou o petista a derrotar Flávio Bolsonaro.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/como-lula-terceirizou-a-campanha-digital-para-janones-e-ganhou-na-base-do-terrorismo/
Ida de Flávio aos EUA pode reacender tensão entre Lula e Trump no início do quarto mandato

A ida do senador Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos, logo após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a apreensão de seus passaportes e proibi-lo de deixar o Brasil, pode abrir uma nova frente de tensão entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump às vésperas do quarto mandato do petista.
O episódio ocorre dois dias depois da derrota de Flávio na eleição presidencial brasileira e um dia após o presidente americano dizer a jornalistas nos EUA que a eleição brasileira “pareceu fraudada”, comentário que foi reforçado durante discurso do republicano no Texas nesta terça-feira (27).
Flávio Bolsonaro teria viajado com a esposa e as duas filhas e, segundo a imprensa americana, o governo dos EUA pretende conceder vistos de entrada para eles. O Departamento de Estado foi procurado pela Gazeta do Povo para comentar o caso, mas não respondeu à demanda até a publicação da reportagem. O Itamaraty não quis comentar o caso.
A advogada de imigração Ingrid Domingues-McConville, que atua nos Estados Unidos e integra a Ordem dos Advogados da Flórida, explicou à reportagem que um eventual pedido de asilo, se Flávio o fizer, teria de ser fundamentado em alegações de perseguição política, acompanhadas de elementos que sustentem o caso. Segundo ela, a concessão dependerá da análise das circunstâncias individuais e das provas apresentadas às autoridades americanas.
A viagem de Flávio aos EUA acrescenta um novo ponto de complicação à já conturbada relação entre Lula e Trump, marcada até aqui por sanções americanas contra autoridades do Judiciário brasileiro e o tarifaço contra produtos brasileiros. O embate mais recente foi no campo diplomático: o Departamento de Estado dos EUA revogou o visto da embaixadora do Brasil, Maria Luiza Viotti, em razão da demora do governo brasileiro em aprovar o novo embaixador do governo americano no Brasil, Daniel Perez, indicado por Trump.
Analistas consultados pela reportagem avaliam que a presença de Flávio nos EUA pode aumentar a pressão de aliados da família Bolsonaro por novas medidas contra integrantes do STF e até mesmo sobre o governo Lula.
Uma eventual escalada também poderia afetar as negociações comerciais entre os países e os interesses do governo Trump em relação à exploração e comercialização de terras raras e à segurança regional. Durante a campanha presidencial brasileira, esses interesses parecem ter pesado na decisão de Trump de não expressar apoio público a Flávio.
Eventual proteção americana a Flávio pode provocar nova crise diplomática
A ida de Flávio aos Estados Unidos merece atenção, sobretudo, pela possibilidade de que autoridades americanas tenham participado da operação. Para o economista e doutor em Relações Internacionais Igor Lucena, é improvável que o senador tenha deixado o país sem alguma perspectiva de apoio político nos EUA. A concessão de asilo ou proteção, caso ocorra, seria lida como sinal de que Washington considera injusta a decisão do Judiciário brasileiro e vê Flávio como alvo de perseguição política. “Isso poderia gerar uma crise institucional e diplomática sem precedentes”, afirma.
Esse cenário depende de um passo formal. Segundo Clarita Maia, advogada especialista em Direito Internacional e consultora legislativa do Senado Federal, uma crise de maiores proporções só se configura se Washington assumir oficialmente algum compromisso de proteção ao senador. Para o analista internacional Cezar Roedel, mestre em Relações Internacionais, isso indicaria que os EUA estariam dispostos “a ultrapassar o campo das manifestações diplomáticas e oferecer proteção concreta a uma liderança da oposição”.
Ainda assim, uma ruptura não é o cenário mais provável. Marco Aurélio da Silva, consultor de negócios internacionais e professor de Comércio Exterior e Relações Internacionais do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), lembra que os interesses econômicos americanos no Brasil limitam uma escalada prolongada. Clarita Maia projeta, nesse quadro, “um pragmatismo mais volátil, sujeito a oscilações de curto prazo, mas não uma ruptura estrutural”, diante dos novos focos de tensão: o discurso de fraude de Trump, a eventual proteção a Flávio e o inquérito conduzido por Dino sobre financiamento estrangeiro de uma organização americana à campanha de Flávio
Flávio nos EUA pode fortalecer articulação contra o governo Lula
A permanência de Flávio nos Estados Unidos deve reforçar a atuação política da família Bolsonaro no exterior. Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, já vive no país desde março de 2025 e mantém contatos com parlamentares republicanos e integrantes do movimento conservador americano.
Para Marco Aurélio da Silva, consultor de negócios internacionais e professor de Comércio Exterior e Relações Internacionais do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), a presença dos dois irmãos no país poderá facilitar o acesso a integrantes da administração Trump e a congressistas interessados nas denúncias da oposição brasileira, aumentando a pressão sobre autoridades do STF e estimulando novas iniciativas políticas contra o governo Lula.
“Essa presença física facilitará a apresentação de memoriais, denúncias e pedidos formais de audiência na Casa Branca e no Capitólio com o objetivo de questionar a lisura e a legitimidade do pleito brasileiro”, disse.
Marco Aurélio observa, contudo, que o Departamento de Estado americano ainda precisa considerar as relações econômicas e diplomáticas com o Brasil, independentemente de quem esteja no poder. Segundo os analistas, caso Flávio receba proteção do governo americano, haverá dificuldades na cooperação jurídica entre Brasília e Washington e um agravamento das tensões diplomáticas entre os dois países.
“As consequências diplomáticas para esse cenário incluem o congelamento de pautas bilaterais de cooperação judicial e policial, o tensionamento das discussões sobre extradição de cidadãos investigados e o aprofundamento da desconfiança mútua entre Brasília e Washington. A relação entre os governos passará a ser fortemente intermediada por atritos públicos e contestações em organismos internacionais de direitos humanos”, disse Marco Aurélio.
Novas sanções americanas
Os analistas consultados pela reportagem apontaram ainda que existe a possibilidade de o governo Trump voltar a sancionar Alexandre de Moraes ou outras autoridades brasileiras.
Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu Moraes na lista de sancionados pela Lei Magnitsky. A legislação permite impor restrições financeiras a estrangeiros acusados pelo governo americano de violações graves de direitos humanos ou corrupção. As medidas foram posteriormente estendidas à esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, e ao Instituto Lex, controlado pela família. Em dezembro daquele ano, os três foram retirados da lista de sancionados. Outros ministros do STF, entre eles Moraes, também tiveram seus vistos revogados.
Clarita lembra que o chanceler Mauro Vieira atribuiu a retirada das sanções a uma negociação direta entre Lula e Trump, realizada durante um encontro na Malásia. Para ela, voltar a sancionar Moraes significaria desfazer um entendimento político entre os dois presidentes.
A possibilidade das sanções, contudo, permanece aberta, apontou a analista, já que a lei americana permite que o Executivo dos EUA adote sanções individuais sob a Lei Magnitsky sem depender de autorização do Congresso brasileiro ou de qualquer decisão de seus tribunais.
O cientista político Leandro Gabiati, professor do Ibmec Brasília, avalia que a ordem de Alexandre de Moraes para apreender os passaportes de Flávio tem potencial para mobilizar aliados de Trump para a retomada dessas medidas, mas lembra que, para Trump, o custo de uma escalada é maior porque Lula acaba de ser reeleito.
Nova crise poderia afetar negociações comerciais entre Brasil e EUA
O caso Flávio pode ter reflexos diretos sobre as negociações comerciais em curso entre o Brasil e os EUA, um dos grandes desafios deste quarto mandato de Lula.
Em julho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) anunciou uma tarifa de 25% sobre determinadas importações do Brasil, depois de uma investigação sobre práticas comerciais brasileiras. Outra tarifa de 12,5%, relacionada ao combate ao trabalho forçado, também passou a atingir mercadorias nacionais. Dependendo do produto, as sobretaxas podem ser somadas, elevando a tarifa adicional a 37,5%.
Em agosto, Lula e Trump conversaram por telefone para discutir a retomada das negociações comerciais. No fim de setembro, os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, encontraram-se com o representante comercial americano, Jamieson Greer. Os governos concordaram em criar um grupo de trabalho para buscar soluções para as divergências comerciais. A reeleição de Lula e os acontecimentos desta semana colocam essas negociações diante de um novo cenário político.
Para Marco Aurélio da Silva, as negociações econômicas não deverão ser abandonadas mesmo diante de novos confrontos políticos.
“A tendência principal não é a busca por um confronto institucional prolongado, mas sim a aplicação de uma diplomacia transacional, na qual Washington utilizará tarifas e acesso a mercados como instrumentos de barganha econômica”, afirma o professor.
O caso Flávio, contudo, pode aumentar as divergências dentro do governo americano. Segundo os analistas, de um lado, integrantes mais próximos da agenda conservadora poderão defender sanções e proteção a Flávio. De outro, representantes interessados em comércio, investimentos e estabilidade regional poderão tentar preservar as negociações com o governo Lula. Marco Aurélio considera que esse conflito de interesses poderá influenciar a intensidade da resposta americana. O resultado, segundo ele, dependerá da decisão de Trump sobre até onde deseja levar o confronto.
Clarita Maia considera que o pragmatismo econômico poderá continuar orientando parte da relação bilateral entre os governos Lula e Trump neste novo mandato do petista, embora os novos acontecimentos envolvendo Flávio Bolsonaro possam dificultar as negociações entre os dois governos.
Os Estados Unidos continuam sendo um dos principais destinos das exportações brasileiras. Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil vendeu US$ 27,46 bilhões ao mercado americano, uma queda de 6,5% em relação ao mesmo período do ano passado. As importações de produtos dos EUA chegaram a US$ 31,79 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Outro possível foco de possível tensão entre os dois governos surgiu nesta terça-feira (27), quando o ministro Flávio Dino, do STF, determinou que a Polícia Federal investigue suspeitas de financiamento estrangeiro à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. A apuração envolve possíveis tratativas com a Rockbridge Network, organização conservadora americana, e eventuais contrapartidas relacionadas à exploração de terras raras e minerais críticos brasileiros. A assessoria do senador negou ter recebido recursos financeiros ou estrutura estrangeira.
“Caso a investigação alcance organizações ou pessoas próximas à administração Trump, o episódio poderá ampliar as divergências entre Washington e o STF, com possíveis repercussões diplomáticas para o governo Lula”, afirma Cezar Roedel.
Interesse americano em terras raras também entra na disputa
As terras raras estão entre os principais interesses econômicos dos Estados Unidos na relação com o governo Lula. Mesmo diante da possibilidade de novos atritos diplomáticos entre Brasília e Washington, o governo Trump busca ampliar o acesso aos minerais críticos brasileiros como parte de sua estratégia para reduzir a dependência da China nesse setor.
Esses recursos são utilizados na fabricação de equipamentos eletrônicos, baterias, motores elétricos e sistemas militares. O Brasil, que possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, ocupa uma posição estratégica nos planos americanos de diversificar seus fornecedores.
O interesse de Washington já se manifesta em investimentos no país. Em setembro, a companhia americana USA Rare Earth concluiu uma operação para comprar a mineradora Serra Verde, responsável pela produção de terras raras em Goiás. No mesmo mês, Lula sancionou uma lei que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação busca ampliar a exploração, o beneficiamento e a industrialização desses recursos no território brasileiro.
Para Bárbara Neves, doutora em Relações Internacionais e coordenadora de internacionalização da Universidade Positivo, o interesse americano nas riquezas naturais brasileiras continuará sendo um fator importante na condução das relações bilaterais entre EUA e Brasil, independentemente da vitória de Lula.
Escudo das Américas mantém divergências sobre segurança regional
Uma das principais consequências da reeleição de Lula para a política regional americana está relacionada ao Escudo das Américas, iniciativa lançada por Trump em março deste ano para ampliar a cooperação contra o narcotráfico, os cartéis e outras organizações criminosas. Lula não colocou o país no Escudo, diferentemente de Flávio, que prometeu durante a campanha presidencial inserir o país na iniciativa.
Em junho, o governo Trump formalizou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, decisão que encontrou resistência no governo Lula.
Para Clarita Maia, a permanência de Lula no poder limita o alcance da estratégia americana na região, embora não inviabilize o funcionamento do Escudo. Segundo a especialista, a ausência do Brasil no Escudo representa uma dificuldade para Washington não apenas pelo peso econômico do país, mas também por sua posição geográfica. O território brasileiro faz fronteira com Colômbia, Peru e Bolívia, três dos maiores produtores mundiais de cocaína, e ocupa uma posição estratégica nas rotas comerciais e de transporte do Atlântico Sul.
Marco Aurelio afirmou que a derrota de Flávio Bolsonaro no Brasil dificulta os planos de Trump de ampliar o alinhamento político na região, mas não retira totalmente de Washington a capacidade de pressionar o governo brasileiro.
“Washington perde a garantia de uma parceria irrestrita na agenda geopolítica regional e em órgãos multilaterais, mas preserva forte capacidade de exercer pressão econômica e mantém canais abertos com parlamentares conservadores e governadores de oposição no Brasil”, afirma.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/ida-de-flavio-aos-eua-pode-reacender-tensao-entre-lula-e-trump-no-inicio-do-quarto-mandato/
Juiz manda deputada excluir post sobre demissão de eleitores de Lula

O juiz do Trabalho Leonardo Saggese Fonseca deu 48 horas para que a deputada estadual Índia Armelau remova uma postagem em que questiona se empresários deveriam manter em seus quadros funcionários que votaram no presidente Lula (PT). A liminar desta terça-feira (27) atende a um pedido do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro (MPT-RJ). O descumprimento pode resultar em multa de R$ 5 mil por dia.
“Sendo a ré uma integrante do parlamento, mas do que qualquer outro cidadão, deve prezar pela liberdade de expressão, desde que respeitosa, deve fomentar a democracia e aceitar as diferentes opções políticas de cidadãos e trabalhadores, sem utilizar de discursos e falas que podem gerar pela sua leitura ou escuta, sentimentos de ódio, perseguição ou discriminação”, afirmou o magistrado.
Na publicação, a deputada sugere que o empregador consulte as redes sociais do funcionário em busca de sinais de posicionamento político.
“Empresário, olha a rede social do teu funcionário aí e confere se ele fez ‘L’. Acho que não faz sentido nenhum manter na tua empresa quem odeia empresários”, escreveu.
O MPT-RJ argumenta que o texto estimula o assédio eleitoral e a discriminação por posicionamento político. A petição ainda defende que a imunidade parlamentar deve ser descartada se servir como tentativa de proteger discursos discriminatórios. Com isso, pede indenização por dano moral coletivo de R$ 600 mil.
O que diz a parlamentar
Por meio de um vídeo, a parlamentar comentou a divulgação da ação. Ela explicou que adere à campanha “não contrate quem odeia empresário”.
“Eu só tô falando o seguinte: você, empresário conservador, tome cuidado, porque o cara que pensa que você é o câncer do mundo, o que que ele pode fazer com a sua empresa agora?”, pontuou
A parlamentar ainda afirmou que o país vive uma ditadura e defendeu dividí-lo em dois.
“Quem gosta do PT vai lá na maior concentração, onde? No Nordeste, onde as dez cidades mais violentas estão lá, as dez cidades mais analfabetas estão lá e as dez cidades mais pobres estão lá. Vai pra lá. E quem quer o conservadorismo, vem pra cá. E a gente divide, é igual isso. O empresário petista, esquerdista, contrata essa galera e esquece a gente, cara, esquece quem é conservador e a gente contrata quem tem o mesmo pensamento que o nosso, que é produzir, que quer crescer”, completou.
A Gazeta do Povo entrou em contato com o gabinete de Índia Armelau. O espaço segue aberto para manifestação.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/juiz-manda-remover-postagem-de-deputada-que-sugere-demissao-de-eleitores/
Lula considera para ocupar ministérios políticos que acumulam processos judiciais

Após a vitória no segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarcou em Brasília para discutir a composição de seu governo a partir de 2027.
Entre os nomes mencionados nas articulações estão o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), o senador Camilo Santana (PT-CE) e o deputado federal André Janones (Rede-MG), associados a postos estratégicos na Esplanada dos Ministérios e no Palácio do Planalto.
Rafael Fonteles é cotado para a Fazenda
Reeleito governador do Piauí, Rafael Fonteles é apontado para o Ministério da Fazenda. Antes de assumir o governo estadual, ele comandou a Secretaria da Fazenda do Piauí.
Sua gestão, porém, foi alvo de questionamentos. O Ministério Público Federal abriu, em setembro do ano passado, um inquérito para apurar improbidade administrativa relacionadas a contratos estaduais de R$ 8 milhões firmados com uma empresa administrada por uma pessoa interditada. O caso também foi levado a órgãos de controle.
Operações da Polícia Federal investigaram suspeitas de irregularidades em contratos da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi) e da Fundação Municipal de Saúde (FMS), com prisões de gestores de organizações sociais e afastamento de servidores.
Camilo Santana aparece na disputa pela Casa Civil
O senador e ex-ministro da Educação Camilo Santana responde a uma ação de improbidade administrativa relacionada a desvios de recursos destinados à construção de unidades sanitárias para famílias de baixa renda, no período em que foi secretário das Cidades do Ceará, durante o governo Cid Gomes. Segundo as informações do processo, houve determinação de indisponibilidade de bens para garantir ressarcimento ao erário.
Durante sua passagem pelo Ministério da Educação, a pasta também lidou com compras de mobiliário realizadas pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).
Janones é citado para cargo no Planalto
O deputado federal André Janones, reeleito por Minas Gerais, aparece para funções na Secretaria de Comunicação Social ou na Secretaria-Geral da Presidência. Ele ganhou projeção durante a campanha presidencial com o canal de WhatsApp “Exército do Lula”.
Janones firmou, em março de 2025, um acordo de não persecução penal (ANPP) no Supremo Tribunal Federal (STF) relacionado à investigação sobre exigência de devolução de parte dos salários de assessores parlamentares, prática conhecida como rachadinha.
O acordo prevê obrigações financeiras e outras condições. Os pagamentos foram concluídos em setembro deste ano, incluindo valores destinados à Câmara dos Deputados. O parlamentar também esteve envolvido num caso no qual sua ex-mulher, Leandra Guedes, solicitou medida protetiva com acusações envolvendo o uso de imagens íntimas.
A definição dos nomes e os cargos de confiança dependerá das negociações conduzidas por Lula e da composição que o presidente pretende estabelecer para o mandato de 2027.
Criminosos iriam faturar R$10 bi com seguro-defeso no Maranhão

Uma organização criminosa foi alvo da Operação Indefeso, nesta quarta-feira (28), por indícios de que causaria um prejuízo de cerca de R$ 10 bilhões aos cofres públicos com fraudes à concessão do Seguro Defeso, nos próximos cinco anos, no Maranhão. O cerco liderado pela Polícia Federal com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU) visa combater o esquema criminoso na concessão do benefício que garante renda a pescadores artesanais quando há interrupção legal da atividade pesqueira por razões ambientais.
A operação cumpre um bloqueio de R$ 400 milhões em bens e valores de investigados, bem como o afastamento cautelar de dois agentes públicos suspeitos de participação nos crimes. E levou cerca de 160 policiais federais com técnicos da CGU ao cumprimento de 35 mandados de busca e apreensão, em 16 municípios maranhenses.
A Justiça Federal ainda impôs 17 medidas cautelares diversas da prisão, com objetivo de cessar atuação do grupo criminoso, preservar a instrução processual e evitar a continuidade das práticas ilícitas.
E foram apreendidos documentos, telefones celulares, armas e veículos de alto valor, para garantir mais elementos de prova para a investigação e o ressarcimento dos danos causados ao erário. As apreensões visam impedir a ocultação ou dissipação de patrimônio obtido com as atividades criminosas.
“As investigações apontam para a existência de um esquema de fraudes envolvendo a concessão indevida do Seguro Defeso, mediante a inserção de informações falsas em sistemas governamentais, utilização de documentos fraudulentos e possível participação de agentes públicos e particulares”, detalhou a PF.
Os alvos da Operação Indefeso podem ser processados e condenados por crimes de organização criminosa, estelionato previdenciário, inserção de dados falsos em sistema informatizado da Administração Pública, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
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