Eleição de Lula não apaga escândalos do STF nem clamor por impeachment

Após a eleição de Lula, direita terá no Senado sua principal aposta para promover o equilíbrio entre os Poderes. (Foto: Jonas Pereira/Agência Senado)

Após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para seu quarto mandato, a oposição deve se concentrar novamente em uma das suas principais apostas para a próxima legislatura: levar adiante o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), com foco em Alexandre de Moraes.

Com a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pelo Palácio do Planalto, a direita recorre agora à força conquistada no Congresso, em especial no Senado. O PL terá a maior bancada, com 29 dos 81 senadores.

O partido busca converter esse peso em influência, em primeiro lugar para tentar eleger o presidente do Senado, responsável por encaminhar os pedidos contra ministros do Supremo. Sob Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e Davi Alcolumbre (União-AP), a Presidência da Casa travou por anos as iniciativas da oposição contra Moraes.

Nas últimas semanas, o compromisso com o impeachment foi apresentado por parlamentares eleitos como uma obrigação com seus eleitores. “Seria uma covardia, uma traição ao povo brasileiro a gente recuar”, disse recentemente a senadora eleita Bia Kicis (PL-DF), em entrevista à Folha de S.Paulo.

Passadas as eleições, um dos desafios da oposição será recolocar os escândalos envolvendo os ministros no centro do debate público.

Moraes deve ser o primeiro alvo da ofensiva. Sua atuação no inquérito das fake news e nos processos contra os presos do 8 de janeiro continua na memória da oposição. As revelações recentes sobre suas relações com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tornaram a pressão por seu impeachment mais forte.

Entre as iniciativas já apresentadas contra Moraes está a representação protocolada em 30 de setembro pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) e outros parlamentares. A petição reúne assinaturas de diferentes partidos e inclui até nomes da esquerda.

A maioria dos senadores da próxima legislatura já sinalizou ser a favor do impeachment de ministros. A permanência de Lula no Planalto, contudo, pode dificultar a conversão desse apoio declarado em votos para afastar um ministro.

Um senador ouvido pela Gazeta do Povo vê o risco de o governo Lula e o STF se articularem para pressionar o Senado e fazer até parlamentares favoráveis ao impeachment recuarem.

Comando do Senado será decisivo para avanço do pedido

A vitória de Lula pode fortalecer Alcolumbre no Senado e até viabilizar sua reeleição à Presidência da Casa. Segundo o colunista da CNN Caio Junqueira, o presidente do Senado já disse a interlocutores que calcula ter pelo menos 48 votos para se reeleger e que continuará sem pautar o impeachment de ministros do STF.

O PL planeja disputar o comando da Casa com Rogério Marinho (RN), que coordenou a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.

A disputa pela presidência do Senado será a etapa central para a direita tentar cumprir a promessa de derrubar ministros do STF. Os levantamentos feitos até agora por diversos veículos sobre o apoio ao impeachment dão estimativas de 48 a 54 senadores favoráveis, mas esses números terão pouca relevância se o Senado continuar nas mãos de Alcolumbre.

Em dezembro de 2025, Gilmar Mendes determinou, por meio de uma liminar individual, que as fases iniciais do impeachment de ministros do STF exigiriam 54 votos no Senado, em vez da maioria simples prevista em lei. A decisão ainda não foi referendada pelo plenário da Corte.

Como mostrou a Gazeta do Povo, o Senado pode tentar reverter essas restrições por meio de uma revisão no próprio STF ou de mudanças na legislação – caminho que também exigiria aprovação da Câmara e ficaria sujeito à sanção ou ao veto de Lula. Essa disputa envolve só as etapas preliminares. A condenação definitiva exige 54 votos por determinação da Constituição.

Segundo a Folha de S.Paulo, Edson Fachin já sinalizou que pretende submeter a liminar de Gilmar ao plenário ainda em 2026, antes da posse dos novos parlamentares. O julgamento poderá consolidar as condições para a tramitação dos pedidos criadas por Gilmar.

A permanência de Lula no Planalto impõe outro dilema à direita: se um ministro perder o cargo, caberá ao petista indicar seu substituto. A escolha, por outro lado, dependerá da aprovação de pelo menos 41 senadores, o que dá à oposição margem para negociar com o Executivo o perfil do novo integrante da Corte.

Além disso, a própria ameaça de impeachment poderia servir de freio aos ministros, levando-os a adotar uma postura mais contida, mesmo que a composição da Corte continue muito inclinada à esquerda.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/eleicao-de-lula-nao-apaga-escandalos-do-stf-nem-clamor-por-impeachment/

O Brasil saiu derrotado, mas a reação é possível

O Brasil perdeu uma oportunidade ímpar de correção de rumos ao reeleger Lula, no último domingo. A combinação de terrorismo eleitoral e uso desenfreado da máquina pública reverteu a vantagem que Flávio Bolsonaro havia conquistado no primeiro turno. Se depender de Lula e do PT, teremos mais quatro anos de irresponsabilidade econômica, deterioração institucional e intensificação da autocracia do Judiciário. Mas o presidente da Gazeta do Povo, Guilherme Cunha Pereira, afirma que a oposição não pode desanimar e precisa assumir sua responsabilidade diante da crise no STF, de possíveis nomeações de novos ministros, da votação do Orçamento e da necessidade de fiscalização do governo Lula.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/o-brasil-saiu-derrotado-mas-a-reacao-e-possivel/

Quatro bombas que Lula deixou e que ameaçam o futuro da economia

Lula discursa para simpatizantes após vitória no segundo turno: um dos desafios será desarmar a bomba do crescimento da dívida pública (Foto: Isaac Fontana/EFE)

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumir o Palácio do Planalto em 5 de janeiro, pela quarta vez, herdará uma economia em que a dívida pública não para de crescer, os juros estão fora de controle e o poder de compra das famílias está enfraquecido.

Para analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o modelo petista que ancorou o crescimento no estímulo constante à demanda, sem ganhos de produtividade, esbarrou nos próprios limites, e se não houver correção o cenário mais provável é de uma crise de crédito.

As fontes também indicam que se não houver uma mudança contundente de rumos na condução econômica, o país pode enfrentar uma estagnação prolongada.

Segundo o head de alocação da XP Investimentos, Rodrigo Sgavioli, o país vive uma dinâmica de um pé no acelerador e outro no freio — em referência à expansão dos gastos públicos, que estimula a demanda, mas pressiona a inflação e obriga o Banco Central (BC) a manter os juros elevados para contê-la.

Para evitar um colapso semelhante ao vivenciado em momentos de descontrole fiscal do passado, Lula terá de desarmar as quatro bombas que ele mesmo plantou: forte aumento da dívida pública, juros em níveis  elevados, explosão do endividamento privado e aumento da insegurança jurídica. 

Um eventual sucesso do próximo mandato dependerá fundamentalmente da disposição de Lula de implementar um ajuste estrutural focado na contenção das despesas obrigatórias, na restauração da segurança jurídica e na aprovação de reformas que destravem o crescimento potencial do país, apontam os especialistas.

O presidente reeleito, entretanto, não sinalizou disposição em implementar medidas desse tipo ao longo da campanha eleitoral.

Bomba 1: Dívida pública fora de controle

As contas públicas enfrentam uma situação cada vez mais delicada, marcada por déficits persistentes, crescimento acelerado da dívida e pouca margem para cortar despesas.

Na última década, o país registrou superávit primário apenas em 2022, resultado considerado excepcional pelos analistas. No terceiro mandato de Lula, a velocidade de crescimento da dívida pública mais que dobrou, e o endividamento deve chegar a entre 85% e 91,5% do PIB, conforme o cenário e o horizonte das projeções.

O problema é agravado pela rigidez do orçamento: mais de 90% dos gastos são obrigatórios, o que limita a capacidade do governo de reduzir despesas e reequilibrar as contas.

Segundo a diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro, o arcabouço fiscal perdeu credibilidade porque despesas foram excluídas de suas regras, enfraquecendo seu papel de controle das contas públicas.

Há divergências sobre o tamanho do ajuste necessário. Ribeiro cita uma regra prática que aponta para um superávit primário de 2,5% do PIB, considerando juros reais de 5%. Já o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, avalia que um ajuste de 1% a 1,5% do PIB no início do governo seria suficiente para colocar a dívida em trajetória de queda a partir de 2030.

A recuperação do grau de investimento não deve ocorrer no curto prazo. As projeções de mercado apontam para seis a dez anos de disciplina fiscal contínua.

Para reverter a trajetória da dívida, os especialistas defendem uma regra fiscal vinculada ao endividamento em relação ao PIB. Enquanto a dívida superar 80% do PIB, as despesas públicas ficariam sem aumento real, acima da inflação, com flexibilização conforme o endividamento diminuísse. A contenção dos gastos ajudaria a recuperar a confiança dos investidores e reduzir os juros.

O ajuste exigiria mudanças nas regras de reajuste do salário mínimo e de correção de aposentadorias e do BPC, que poderiam passar a acompanhar apenas a inflação em períodos de estresse fiscal, segundo Ribeiro. Lula se mostrou contrário a essas mudanças durante a campanha.

Outra medida seria corrigir os pisos constitucionais de saúde e educação apenas pela inflação, o que geraria uma economia acumulada de R$ 40 bilhões a R$ 53,6 bilhões até 2030, segundo estimativas da Genial. A lista inclui ainda uma reforma administrativa para conter gastos com pessoal e supersalários, além de um corte de 10% nos gastos tributários não constitucionais sem avaliação de resultados. Lula também não sinaliza disposição para essas medidas.

Bomba 2: Juros altos

A desconfiança dos investidores em relação às contas públicas eleva os juros cobrados nos contratos de longo prazo, aumentando o custo da dívida do governo e transferindo mais recursos públicos para quem recebe esses juros.

Em 2025, o Estado gastou R$ 1,3 trilhão apenas em juros, o equivalente a 9% do PIB. Camargo faz uma crítica direta a esse mecanismo: “Você faz programas para diminuir a pobreza e, ao mesmo tempo, é obrigado a transferir R$ 1,3 trilhão para os 10% mais ricos da população. A desigualdade não vai cair nunca”.

O quadro piora porque mais da metade da dívida pública é indexada diretamente à taxa Selic. O aperto monetário para combater a inflação degrada o resultado fiscal e realimenta a bola de neve do endividamento.

Interromper esse círculo vicioso exige recuperar a confiança dos investidores já nos primeiros 100 dias de governo. Segundo Sgavioli, quando o mercado acredita que as contas públicas serão ajustadas, os juros dos contratos de longo prazo caem antes mesmo de o Banco Central reduzir a Selic.

A transição de 2016 ilustra esse efeito. Após o avanço e a aprovação do Teto de Gastos, as taxas nominais de longo prazo caíram de 16,62% para 12,16%, enquanto os juros reais dos títulos públicos indexados à inflação recuaram de 7,32% para 5,65% em poucos meses.

A queda dos juros reduz o custo de refinanciar a dívida pública. Segundo estimativa da Genial, essa economia poderia chegar ao equivalente a 4,87 pontos percentuais do PIB acumulados até 2030. Com contas públicas mais equilibradas, o governo gastaria menos com juros, enquanto famílias e empresas poderiam obter crédito mais barato, sem depender de novos estímulos fiscais.

Bomba 3: Endividamento recorde das famílias

Segundo o Banco Central, em julho, 28,7% da renda das famílias estava comprometida com o serviço da dívida apenas com o Sistema Financeiro Nacional, o maior número da série histórica iniciada em 2005.

A taxa média de juros com recursos livres cobrada das pessoas chegou a 61,7% ao ano em agosto. A Serasa aponta que nesse mês eram 83,9 milhões de consumidores negativados, o maior número da série histórica iniciada em 2016 e o vigésimo mês consecutivo de alta. Em setembro, 81,7% das famílias estavam endividadas, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Na prática, o Estado, que paga cada vez mais juros para rolar sua dívida, empurra esses juros para quem precisa tomar crédito: famílias e empresas. A deterioração das finanças estatais transbordou para o setor privado, criando três frentes de estresse: o alto comprometimento da renda familiar, o aperto das empresas com recordes de recuperação judicial e a ameaça de uma crise de crédito.

As empresas vivem situação similar. O número de empresas inadimplentes no Brasil cresceu em agosto de 2026 e chegou a 9,3 milhões de CNPJs, de acordo com a Serasa Experian. A concentração maior é entre micro e pequenas e do setor de serviços. Mesmo gigantes como Raízen, Cosan e CSN estão apertadas por dívidas e vendendo ativos.

Segundo Camargo, para tirar famílias e empresas do sufoco, o governo precisa parar com os programas de renegociação e perdão de dívidas, já que o perdão governamental geraria um risco moral danoso: “Por que vou pagar minha dívida se daqui a três anos eles vão perdoar? Você está incentivando as pessoas a não pagarem”.

No longo prazo, os especialistas apontam que é necessária a consolidação da educação financeira nacional e a implementação de uma agenda microeconômica para baratear o crédito. Ribeiro detalha que ela passa por aumentar a competição bancária, reduzir a tributação sobre os bancos e garantir segurança jurídica na recuperação de ativos.

Bomba 4: Insegurança jurídica

A insegurança jurídica é a face mais visível do ambiente de negócios brasileiro, que sofre com mudança constante de regras e credibilidade fiscal insuficiente para reconquistar o grau de investimento.

Um dos exemplos marcantes de insegurança jurídica na condução do governo federal foi a proibição abrupta das bets durante a campanha eleitoral. Cada empresa havia desembolsado R$ 30 milhões em outorgas para operar legalmente por cinco anos. Após anunciar a proibição, o governo afirmou que não devolveria os valores pagos pelas empresas.

Para as fontes ouvidas pela Gazeta do Povo, a solução exige resgatar a estabilidade institucional e o respeito estrito aos contratos, já que um ambiente jurídico previsível favorece o investimento produtivo.

Para destravar o PIB potencial, Sgavioli defende focar em reformas microeconômicas e na elevação da produtividade de setores defasados. O caminho aproveita vocações estratégicas do país, como energia limpa, minerais críticos e data centers.

Se não desarmar as quatro bombas, Lula poderá entregar ao sucessor, em 2031, uma economia com dívida pública ainda maior, juros elevados e crédito mais caro, prolongando os desequilíbrios fiscais e limitando as perspectivas de crescimento do país.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/economia/divida-publica-juros-bombas-proximo-governo/

PT e STF iniciam a vingança contra Flávio Bolsonaro

O senador Flávio Bolsonaro se pronuncia após a derrota no segundo turno da eleição presidencial. (Foto: Google Flow sobre foto de Joédson Alves/Agência Brasil)

No último debate antes do segundo turno da eleição presidencial, Lula ameaçou Flávio Bolsonaro com as seguintes palavras: “você se prepare, que dia 25 você vai perder imunidade, você se prepare que você vai perder imunidade e você vai ter problema, porque a sua vida tem muito inquérito que agora vai andar. Se os seus amigos não estão deixando andar, agora vai andar”. Pois não se passaram nem sequer 24 horas após a definição do resultado da eleição para que a ameaça começasse a se tornar realidade: na tarde desta segunda-feira, Flávio teve o passaporte apreendido pela Polícia Federal, por ordem do ministro do STF (e aliado de Lula) Alexandre de Moraes. O senador (que ainda tem imunidade parlamentar, pois seu mandato ainda não está encerrado) também foi informado de que está proibido de deixar o país.

Flávio é investigado em três inquéritos no STF. O primeiro, sob relatoria do ministro André Mendonça – provavelmente a quem Lula se referia ao dizer “seus amigos”, já que Mendonça foi indicado à corte por Jair Bolsonaro –, trata do aporte de dinheiro do Banco Master, de Daniel Vorcaro, na produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente da República. Os outros dois têm relatoria de Moraes: o segundo trata de uma possível calúnia cometida contra Lula, e o terceiro apura uma suposta lavagem de dinheiro envolvendo também o advogado Willer Tomaz, investigado também no caso do roubo dos aposentados do INSS. Foi dentro deste terceiro inquérito que, a pedido de três deputados governistas – Duda Salabert (Psol-MG), Otoni de Paula (PSD-RJ) e Rogério Correia (PT-MG) –, Moraes ordenou a apreensão do passaporte.

Sem um elemento real que aponte para o risco de Flávio deixar o país, a apreensão do passaporte é arbítrio, vingança pura dos vencedores contra os derrotados

Por mais que o Código de Processo Penal preveja, no artigo 320, a apreensão de passaporte como uma das várias medidas cautelares que podem ser aplicadas a investigados, denunciados e réus, é preciso haver razões muito fundadas para que tal restrição ao direito de ir e vir seja imposta. Mas tudo o que existe é uma sugestão de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio que está radicado nos Estados Unidos desde março de 2025. “Eu assumo que, se meu irmão não vencer, sou a favor de que ele deixe o país. Sim, com certeza”, disse o ex-deputado no último dia 23 em entrevista comentarista político Steven Crowder. Isso é incontestável. Mas será suficiente para justificar a apreensão do passaporte? A resposta é um rotundo “não”.

A mera sugestão de um terceiro, mesmo que familiar, não basta para que se configure o risco de fuga do país. Tampouco o fato de Jair Bolsonaro ter se ausentado do Brasil no fim de 2022, derrotado pelo mesmo Lula. Seria preciso haver indícios concretos. A Polícia Federal encontrou, durante algum monitoramento, conversas do senador indicando uma possível fuga? Identificou a compra de alguma passagem aérea? Até onde se sabe, não existe nada nesse sentido. E, sem um elemento real que aponte para o risco de Flávio deixar o país, a apreensão do passaporte é arbítrio, vingança pura dos vencedores contra os derrotados com a colaboração de um magistrado moralmente comprometido.

Moraes, recorde-se, é reincidente nesse tipo de abuso. Em junho de 2024, o ministro mandou de volta para a cadeia 208 réus ou condenados do 8 de janeiro alegando “receio de fuga”, mas sem comprovar tal risco em nenhum dos casos, usando como único argumento o fato de outros desses réus e condenados terem escapado do Brasil. Em dezembro do ano passado, Moraes ordenou a prisão domiciliar de dez condenados dos “processos do golpe”, incluindo o ex-assessor presidencial Filipe Martins e sete integrantes ou ex-integrantes das Forças Armadas. Nenhum deles estava planejando nada, até onde se sabe: eles apenas pagaram pela frustrada tentativa de fuga de Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal capturado no Paraguai, e pela fuga do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, que estava nos EUA desde setembro daquele ano.

Que a apreensão do passaporte de Flávio Bolsonaro esteja sendo noticiada quase como um desdobramento natural da derrota de ontem é algo que deveria nos assustar. Boa parte da sociedade e da opinião pública normalizou a tal ponto a perseguição a determinado lado do espectro político-ideológico que se tornou cega para o que é, claramente, um ato de vingança de um governo que quase se viu destronado, em parceria com um ministro do STF cujo impeachment foi defendido por quem agora se torna alvo da medida abusiva. O país precisa acordar urgentemente dessa letargia e perceber que o arbítrio não deixa de ser arbítrio quando é dirigido àqueles de quem se discorda ou por quem se nutre antipatia. Quem, nos últimos tempos, insiste em ver Lula e Moraes como defensores da democracia ou não sabem quem são Lula e Moraes, ou não sabem o que é democracia.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/apreensao-passaporte-flavio-bolsonaro-vinganca-pt-stf/

Nas cidades mais miseráveis do Brasil, Lula teve quase 70% dos votos

Em Melgaço (PA), município com menor IDH do Brasil, Lula recebeu 66,8% dos votos no segundo turno. (Foto: Marco Santos / Agência Pará)

O resultado das eleições de 2026 no último domingo (25) mostrou uma inversão quase inacreditável dos números da votação no primeiro turno. Mas, em pelo menos um aspecto, as duas etapas de votação mantiveram uma característica: Lula venceu nas cidades mais pobres e Flávio Bolsonaro levou a melhor nas cidades mais prósperas do Brasil.

O critério usado pela Gazeta do Povo para essa análise é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), uma métrica criada na década de 1990 pela ONU para medir a qualidade de vida de uma população. São levados em conta fatores como longevidade, saúde, escolaridade e poder de renda e de compra. Em um cenário perfeito, o índice seria igual a 1.

No levantamento feito pela reportagem, os 10 municípios com menor IDH no Brasil deram vantagem ampla para Lula.

Foi assim em Atalaia do Norte, município localizado no Alto do Solimões, Amazonas. Por lá, Lula obteve 77,81% dos votos, contra 22,19% de Flávio.

Dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) mostram que cerca de 75% das famílias de Atalaia do Norte são beneficiárias do Bolsa Família. Dos cerca de 16 mil habitantes, menos de 1,9 mil estão empregados em postos de trabalho formal. Sem surpresa, o IDH do município está entre os menores do país, 0,450.

Mas há municípios com IDH ainda mais baixo. É o caso de Melgaço, na região da Ilha de Marajó, no Pará. O índice municipal da cidade é o menor do Brasil, 0,418, e segundo dados do IBGE o rendimento médio dos trabalhadores empregados no município é de meio salário mínimo. Seria normal, portanto, esperar que a principal fonte de renda da cidade venha de um programa social, como o Bolsa Família.

Mas a situação do município em relação ao benefício é, no mínimo, inusitada. Dados do ministério mostram que mais de 110% das famílias dependem do Bolsa Família em Melgaço. E como isso é possível? A explicação oficial está na diferença de contabilidade: para o MDS, uma pessoa pode ser considerada como uma família, e por isso pode haver mais de uma família em uma mesma casa; o IBGE, por sua vez, faz a contagem por domicílios, e não por quem mora neles.

E o resultado nas urnas? Por lá, Lula recebeu dois de cada três votos válidos, 66,83% do total. Flávio ficou com o restante: 33,17% dos votos no segundo turno no município.

Nas dez cidades com o menor IDH do Brasil, Lula teve uma média de 69,6% votos no segundo turno. Flávio ficou com 30,4%.

Confira como foi a votação nos municípios com menor IDH do Brasil

Voto muda de lado nas cidades com maior IDH

Quando a situação se inverte, muda também o nome do vencedor no segundo turno no município. Na lista das 10 cidades mais prósperas do Brasil, Flávio Bolsonaro venceu em todas. Nesse grupo, a média foi de 59,7% para o candidato do PL contra 40,3% de Lula.

A maior vantagem foi em Balneário Camboriú, no litoral catarinense. O IDH do município é de 0,845, muito alto segundo a ONU, e nas urnas o candidato do PL teve 74,15% dos votos, contra 25,85% do petista. A propósito, apenas 4% dos moradores da cidade dependem do Bolsa Família.

É assim também em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, o município com maior IDH do Brasil. O índice de 0,862 é reflexo, entre outras coisas, do baixo índice de desemprego local. Dados do IBGE mostram que a cidade de 173,2 mil habitantes tem 135,5 mil postos de trabalho com carteira assinada. Em 2023 – dado mais atualizado disponível – o PIB per capita foi de R$ 136,1 mil.

Nas urnas de São Caetano, Flávio Bolsonaro levou 58,33% dos votos. Para Lula sobraram os 41,67% restantes.

A menor diferença a favor de Flávio na lista das 10 cidades com maior IDH foi registrada no “A” do ABC, Santo André. O índice é de 0,815, mas a dependência do Bolsa Família sobe para algo em torno de 11,5% da população. A vitória de Flávio Bolsonaro foi apertada, 50,29% contra 49,71%, pouco mais de 2,5 mil votos.

Confira como foi a votação nos municípios com maior IDH do Brasil

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/como-votaram-as-cidades-com-maior-e-menor-idh-no-brasil/

Vitória de Lula mantém isolamento político do Brasil na América Latina; veja mapa

Ao contrário de 2023, quando iniciou seu terceiro mandato, petista tem pela frente uma vizinhança dominada pela direita (Foto: André Borges/EFE)

Ao ser reeleito neste domingo (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém o Brasil preso a um impasse na política externa: está cada vez mais isolado na América Latina e no Caribe.

No início de 2023, quando Lula assumiu seu terceiro mandato, a América do Sul tinha oito mandatários de esquerda (na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Guiana, Suriname e Venezuela) e apenas quatro de direita (Equador, Paraguai, Peru e Uruguai).

Hoje, o jogo político foi revertido: o subcontinente está dividido entre sete governos de direita (Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru) e cinco de esquerda (Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Uruguai).

Nas Américas Central e do Norte e no Caribe, apesar de focos de resistência da esquerda, como as ditaduras de Cuba e Nicarágua e o governo do México, da presidente Claudia Sheinbaum, a gestão do presidente americano, Donald Trump, também tem aliados estratégicos de direita, como José Raúl Mulino (Panamá), Nayib Bukele (El Salvador) e Nasry Asfura (Honduras).

Veja a orientação política dos países da América Latina e do Caribe em 2026

INFOGRAFICO

Além desse predomínio da direita, Venezuela e Guiana, dois países das Américas liderados pela esquerda, hoje estão mais próximas de Trump do que de Lula.

A ditadora interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, atende a todas as demandas do republicano e sua gestão desde a captura de Nicolás Maduro vem sendo descrita como uma “tutelagem” do secretário de Estado americano, Marco Rubio.

Apesar de ter um presidente de esquerda (Irfaan Ali), a Guiana aderiu ao Escudo das Américas, um plano de segurança de Trump amplamente endossado pela direita do continente e ao qual Lula se opõe, e abriu suas reservas de petróleo e gás para exploração de empresas americanas, o que tem feito o país ostentar algumas das maiores taxas de crescimento econômico do mundo nos últimos anos.

Em entrevista à Gazeta do Povo, Ricardo Caichiolo, doutor em ciências políticas e sociais e diretor do Ibmec Brasília, disse não acreditar que o petista buscará mudanças na relação com países vizinhos governados pela direita.

“Com Lula permanecendo na presidência, não há perspectiva de alteração de sua política externa nas relações com tais governos de direita, que deverá se pautar no pragmatismo dessas relações, com foco nas relações comerciais”, projetou.

João Alfredo Lopes Nyegray, professor dos cursos de negócios internacionais e relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), afirmou que questões como Cuba, cada vez mais pressionada economicamente pela gestão Trump (que também ameaça uma intervenção militar na ilha), seguirão sendo “um ponto de tensão estratégica entre Brasília e Washington”.

“O governo atual se opõe publicamente a uma intervenção militar unilateral, posição reiterada pelo chanceler Mauro Vieira. O Brasil fala de apoiar o governo cubano em tudo. Contudo, para além da retórica, o Brasil não vai fazer mais”, disse Nyegray.

Já Allan Gallo, professor de direito e economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (MackLiber) e do Núcleo de Estudos sobre China (NECH), projetou a continuidade das hostilidades entre Lula e o presidente argentino, Javier Milei, seu principal desafeto na vizinhança.

“A vitória governista mantém o atrito, mas a aritmética pesa mais que a afinidade porque Brasil e Argentina concentram cerca de 90% do PIB do bloco. O Mercosul continua dependendo dos dois, mesmo quando seus presidentes preferem fingir que não”, disse Gallo.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/vitoria-lula-mantem-isolamento-politico-brasil-america-latina-veja-mapa/

PL reconhece vitória de Lula, mas cobra explicações

Valdemar da Costa Neto reconheceu vitória de Lula no segundo turno, mas cobrou esclarecimentos. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O Partido Liberal (PL), do candidato derrotado Flávio Bolsonaro, reconheceu nesta segunda-feira (26) a vitória do presidente Luiz Inácio Lula (PT) no segundo turno das eleições. Em nota, o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, também cobrou explicações sobre o pleito. 

“Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático. Seguiremos acompanhando os fatos e buscando respostas com responsabilidade, transparência e respeito às instituições”, disse o dirigente. 

Lula venceu as eleições com 64,2 milhões de votos (51,79%), enquanto Flávio teve 59,8 milhões votos (48,21%). Nos momentos finais da votação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin ordenou que as seções eleitorais ficassem abertas até às 19h em todo o país, duas horas a mais do que o previsto.

Zanin atendeu a um pedido da campanha petista após relatos de que o transporte público teria sido reduzido em cidades como Salvador (BA) e São Paulo (SP). No entanto, a equipe de Flávio também solicitou a prorrogação em locais afetados pelas fortes chuvas.

Após a confirmação da vitória do presidente, o senador disse que não reconheceria o resultado e pediria a anulação do pleito. No entanto, a prosposta encontrou resistência entre aliados. Flávio recuou e anunciou que pretende acionar a Justiça Eleitoral para cassa a chapa eleita.

Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o senador criticou o pacote de bondades apresentado por Lula durante a campanha, classificando as iniciativas como “compra de voto”.

“Vou pedir, sim, a cassação da chapa do Lula por todos os abusos que ele cometeu. A lei tem que valer para todo mundo. A competição tem que ser justa e igual. O que aconteceu: não fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou”, afirmou o parlamentar.

Valdemar ressaltou que “a ampliação expressiva dos gastos públicos com benefícios sociais às vésperas da votação levanta questionamentos sobre os efeitos dessas medidas em um processo eleitoral justo, além de possíveis consequências econômicas para o país”.

“O PL continuará firme, atuando com independência e responsabilidade na defesa da democracia, da liberdade e dos valores que representamos. Nosso compromisso é com o Brasil e com os milhões de brasileiros que confiam em nosso trabalho”, disse o presidente do PL.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pl-reconhece-vitoria-de-lula-mas-cobra-explicacoes/

Na berlinda por protestos violentos, esquerda da França tenta “colar” em Lula para vencer Le Pen

Carro incendiado em Paris durante os protestos violentos na França nas últimas semanas (Foto: MOHAMMED BADRA/EFE/EPA)

Acusada pelo governo Emmanuel Macron e por Marine Le Pen de ser responsável pelos protestos violentos na França nas últimas semanas, a esquerda do país europeu tenta usar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil como estratégia para sair das cordas.

Le Pen, do partido de direita nacionalista Reagrupamento Nacional (RN), tem liderado as pesquisas para a eleição presidencial de abril, com Raphaël Glucksmann, da coalizão formada pelo Partido Socialista, pelo Place Publique e pela Esquerda Republicana e Socialista, e Jean-Luc Mélenchon, do partido de esquerda A França Insubmissa (LFI, na sigla em francês), disputando a segunda posição com Édouard Philippe, ex-primeiro-ministro de Macron.

Enquanto Glucksmann tem criticado a violência nos protestos na França e se distanciado do LFI, Mélenchon tem culpado o governo Macron pelos tumultos.

Após o segundo turno no Brasil, ambos foram às redes sociais elogiar Lula e sinalizar que esperam uma virada eleitoral na França em 2027.

“Viva Lula, viva o Brasil da dignidade. As pesquisas e os comentaristas especialistas — blá-blá-blá — previam seu fracasso certo”, escreveu Mélenchon no X, afirmando que o petista “derrotou a extrema-direita e as interferências estrangeiras”.

“A magnífica campanha de massas reuniu, nas urnas, o povo das favelas e os trabalhadores contra a ditadura do dinheiro-rei e do desprezo pelo povo”, acrescentou o esquerdista.

Já Glucksmann afirmou que “a vitória de Lula é uma lição maravilhosa: na política, nada é fatalidade”.

“Quase todos os comentaristas davam [Flávio] Bolsonaro [PL] como vencedor, mas uma imensa mobilização cidadã em prol da democracia provou que eles estavam errados. Assim como na Sérvia, com [Aleksandar] Vučić”, disse, citando o presidente sérvio, derrotado nas eleições parlamentares de domingo (25).

“Espero que as derrotas de [Benjamin] Netanyahu e [Donald] Trump venham na sequência, para mostrar que, diante da internacional de extrema-direita, uma reação democrática é possível”, afirmou Glucksmann, citando o pleito nacional de Israel, que está sendo realizado nesta terça-feira (27), e as midterms americanas, marcadas para o dia 3 e nas quais o Partido Republicano tentará manter o controle do Congresso dos Estados Unidos.

Esquerda da Espanha e da Argentina também tenta usar “fator” Lula

Não é só na França que a esquerda tenta usar a vitória de Lula como motivação para eleições locais.

Um aliado do petista, o presidente do governo da Espanha, Pedro Sánchez, disse que a vitória da esquerda no Brasil marca o começo da “virada do progressismo global”.

“Grande vitória de Lula! O que aconteceu no Brasil acontecerá na Espanha. A virada do progressismo global acaba de começar”, escreveu o socialista no X.

No início de outubro, o presidente do governo da Espanha anunciou a dissolução do Parlamento e a antecipação das eleições gerais no país europeu, que estavam previstas para 2027 e agora serão realizadas no dia 29 de novembro.

A legenda de Sánchez, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), tem aparecido nas pesquisas atrás do conservador Partido Popular (PP).

Na Argentina, o peronista Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires e possível adversário do presidente Javier Milei na eleição de 2027, foi na mesma linha.

“Lula venceu as eleições, deixando uma lição: nunca se deve desistir”, escreveu no X, afirmando que “há outro caminho”.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/esquerda-franca-tenta-colar-lula-vencer-le-pen/

Polzonoff

Um lamento

Detalhe do quadro “A Balsa da Medusa”, de Théodore Géricault. (Foto: Wikipedia)

Hoje eu quero começar o Gazeta Agora… com um lamento.

(E, desde já, eu peço desculpas a você. É que eu tô com um probleminha na voz. Então, se a voz falhar ou eu tossir e tiver que parar pra tomar um gole d’água, eu peço a sua compreensão).

Como eu dizia, eu vou começar o Gazeta Agora com um lamento.

É, um lamento! Simplesmente porque o lamento é justo nesta hora de derrota. Nesta hora em que um sentimento avassalador de decepção toma conta do Brasil.

Mais do que justo, ele é humano e, por isso, necessário. Pra você saber que não tá sozinho.

Derrota

Sobre a derrota de ontem, ela parece política, partidária e ideológica. Porque é isso o que tá na superfície e a maioria das pessoas enxerga.

Mas, pra quem tem olhos de ver, a derrota de ontem foi muito mais do que isso.

Foi a derrota da justiça, da decência e do que ainda restava de um país unido pela esperança.

Da Justiça porque simplesmente não há mais leis no Brasil.

Isso não é novidade, é claro.

Mas eu acho que até por um… instinto de sobrevivência, a gente (inclusive aqui no Gazeta Agora) tende a analisar a realidade partindo do pressuposto de que as leis ainda existem.

Justiça

De que há homens que ainda se submetem às leis. E eu não tô falando só das leis mundanas, não.

E mais: de que estamos cercados por pessoas que buscam fazer o que é certo, não o que é conveniente.

Ontem, infelizmente, ficou claro que essa não é a realidade no Brasil de 2026.

E essa é apenas uma das muitas lições que a gente pode e deve tirar desta derrota que (repito!) não se reduz ao aspecto eleitoral.

Ainda que este seja o aspecto que mais doa neste momento.

No Brasil de 2026, a lei se submete aos interesses dos homens que estão no poder. No tal do sistema. Jamais o contrário.

Perversão

E essa perversão se reflete na alma de cada um de nós. Até mesmo daqueles que não acreditam na existência da alma. Nesses, mais ainda!

E, novamente, eu não tô falando apenas da justiça abstrata das decisões do Supremo, das manifestações da PGR ou dos despachos do Ministério Público.

Não! Eu tô falando de algo muito mais difícil de identificar e de, neste caso, consertar, recalibrar, ainda mais coletivamente: o senso de justiça que habita cada um de nós.

Porque não pense que a derrota de ontem foi simplesmente a derrota do Flávio Bolsonaro, da direita, do bolsonarismo……….. e  a vitória do Lula, do PT e do esquerdismo.

A derrota de ontem foi a derrota de um senso de justiça comum. Um senso de justiça baseado em coisas como a honra e a ideia muito cristã de que o poder nunca pode ser um fim em si.

Aparência de bem

De que há valores nobres pelos quais vale a pena lutar. E vale, sim.

São coisas, são valores que de uma forma frágil e até milagrosa nos uniam.

Nos unia enquanto um povo que tinha objetivos em comum. Entre eles a prosperidade e a felicidade.

Sim, a felicidade. Lembra dela? Quando foi a última vez que você se sentiu feliz por ser brasileiro?

Mas eu falava do senso de justiça ferido, pisoteado, moribundo e, neste momento, eu te garanto: respirando por aparelhos.

Um senso de justiça que muita gente perdeu ou jogou fora. Que muita gente trocou pelo prazer de pertencer ou de se sentir superior.

Pelo bem que não é bem. É só aparência de bem.

Senso de justiça

Um senso de justiça que muita gente vendeu, prostituiu pelo prazer de se sentir vencedor numa disputa que eles acham que é finita e sem sentido nenhum.

Mas que a gente sabe que é passageira e paradoxalmente eterna.

Se um dia a gente vai recuperar esse senso de justiça comum? Eu não faço a menor ideia.

E, como eu disse no começo, isto daqui é um lamento.

Então é natural que, num dia como hoje, eu me sinta tentado a dizer que não, que já era. Que a gente nunca mais vai recuperar o nosso senso de justiça.

Mas vai. Como e quando eu não sei. Mas vai.

Agora, pedindo um pouquinho mais da sua paciência, eu vou falar da derrota da decência.

Decência

E aqui talvez eu não devesse me surpreender, mas eu me surpreendo: é incrível como tem gente que não tá nem aí pra decência.

Uma gente que vive tão embriagada de cinismo, transbordando mediocridade, satisfeita com a mediocridade, e arrotando ressentimento e inveja.

E que hoje tá por aí, celebrando a vitória da mentira. E eles sabem que é mentira.

Eu não sei vocês, mas eu sou de um tempo em que mentir era feio. Era reprovável. Por qualquer ângulo que se olhasse.

E eu aprendi com o meu pai, que aprendeu com o pai dele, que nenhuma vitória ou conquista com base na mentira é digna de ser celebrada.

Quanto mais de ser usada pra tripudiar sobre os adversários.

Nenhuma vitória obtida com base na mentira é digna. Na mentira – e também na trapaça.

Fraude

E aqui pode ficar tranquilo que eu não vou entrar nesse papo de fraude.

Até porque, com a derrota, com a queda do chamado império das leis, com o esmagamento do nosso senso comum de justiça, e com o abandono da busca pela verdade… falar em fraude não faz o menor sentido.

Quando eu falo em trapaça, eu tô pensando menos no que o Zanin fez na noite de ontem, ou na matemática esquisita da apuração, e mais nos pequenos gestos de traição, de vilania e de perversidade que a gente viu ao longo da campanha.

Que a gente vê desde que a cizânia se tornou o objetivo máximo do Estado. E hoje, quase um quarto de século mais tarde, a gente vê contaminando o nosso cotidiano. As nossas relações.

As muitas fraudes morais que a gente vê minando a nossa capacidade de convivência.

Ou você acha que a vitória do Lula ontem vai aumentar a confiança entre as pessoas? Que o Lula vai unir o país?

Ou você acha que a vitória do Lula ontem contribui em alguma coisa pro bem comum?

Esperança

Claro que não.

Por fim, o que a gente viu ontem foi a derrota da esperança. Aquela que o dito popular ensina que é a última a morrer – e eu acredito nisso!

E quando eu falo em esperança aqui eu não tô falando de Flávio Bolsonaro. Nem de direita, bolsonarismo… Muito menos de Partido Liberal. Nada disso.

Eu não tô falando na esperança ideológica. Até porque qualquer um que leu Dostoievski sabe que a ideologia veio pra escravizar, não pra libertar. Jamais pra libertar.

Eu tô falando… daquela esperança que é até difícil de definir e expressar. É só esperança. Tá na palavra.

A esperança que não é uma espera estéril. Ou pelo não menos deveria ser.

A esperança que não é uma espera impotente.

A esperança que é esperar, agindo com virtude, pra que o bem prospere.

A esperança que às vezes também é esperar, com paciência, fé e (repito!) ação virtuosa, que a tempestade se dissipe.

Lembrando que não existe prisão pior do que um coração sem esperança.

Sofrer

Hoje tá difícil, gente. Tá difícil pra mim e eu sei que tá difícil pra muitos de vocês.

E não pense que eu vou encerrar com um discurso motivacional, dizendo pra você aí levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, não.

Pelo contrário. Hoje é dia de sofrer. Afinal, o sofrimento também tem o seu dia. O sofrimento também tem o seu propósito.

Hoje é dia de lamber as feridas. De refletir.

Hoje é dia de abraçar quem tá assim meio pra baixo. E não precisa ter vergonha de ficar triste, não. Eu também tô.

Hoje é dia de se unir àquelas pessoas que, apesar da derrota de ontem, e apesar de estarem hoje sofrendo, ainda acreditam.

Acreditam na justiça e na decência. Na verdade e na liberdade.

O bem sussurra

Lembrando que tudo isso que dói, dói muito, tá doendo demais hoje (a vitória do Lula, a comemoração dos petistas, a zombaria, a injustiça, a trapaça, as muitas mentiras e a indecência)… Tudo isso só mostra que o mal é estridente.

E ridículo nessa sua estridência.

Enquanto o bem… o bem sussurra.

E a gente tem que estar bem atento pra ouvir esse sussurro. Porque ele é divino.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/polzonoff/lamento/

Guilherme Macalossi

A direita pode espernear e chorar ou aprender com a derrota para Lula

Lula teve mais de 10,4 milhões de votos a mais que no primeiro turno. (Foto: Ricardo Stuckert/Campanha de Lula)

Há uma porção de pseudomatemáticos no X apresentando “modelos” de resultados eleitorais que apontam para o que seria a suposta inconsistência do resultado da eleição presidencial. É a velha teoria conspiratória da fraude das urnas rediviva, com um verniz de aritmética subginasiana. A partir daqui, o eleitor conservador, legitimamente decepcionado com mais uma vitória de Lula, é convidado a fazer uma escolha difícil: reconhecer o resultado adverso (e toda a autocrítica associada a isso) ou embarcar novamente no círculo vicioso de autoengano que pode levar a novas derrotas políticas no futuro.

Compreender a realidade negativa exige algum grau de humildade. Mas, ao fazê-lo, a direita pode iniciar o percurso do que pode ser uma emancipação ideológica saudável. Talvez até de uma alforria. E, antes de qualquer coisa, importa constatar que a família Bolsonaro foi responsável por duas das maiores derrotas da história política brasileira. O pai perdeu, pela primeira vez, uma reeleição. Já o filho Flávio Bolsonaro sofreu, também de forma inédita, uma virada no 2º turno para Lula. Teria esse grupo condições de continuar na liderança do antipetismo até 2030?

O petista fez um rápido diagnóstico das falhas de sua campanha no 1º turno, ao mesmo tempo em que Flávio agia como se já estivesse eleito. E não ajudou o fato de ele se apresentar nos debates eleitorais como um cosplay de Pablo Marçal

Em nota após a eleição, o PL, partido de Flávio e Jair, reconheceu o resultado das urnas, enfatizou suas vitórias para governos estaduais e nas disputas legislativas e marcou posição sobre o uso da máquina pelo governo Lula. Uma postura muito mais sóbria do que a do seu candidato derrotado. Valdemar da Costa Neto, que pode ser muitas coisas, menos burro, já soube ler o cenário. A direita, no geral, saiu fortalecida das urnas. A derrota no 2º turno da eleição é responsabilidade da família.

Em vez de embarcar no velho conspiracionismo da fraude (que serve a influenciadores e aos coletores de engajamento), os direitistas deveriam aproveitar o ensejo para buscar alternativas. Uma situação inusitada, visto que tal janela de oportunidade se deu por força da vitória do lulismo. O petista vai para o último mandato sem ter um sucessor natural, enquanto a oposição vê no horizonte um conjunto de possibilidades que a vitória de Flávio obstaria, já que devolveria à família a autoridade política central sobre o antipetismo.

Todas as razões para a vitória de Lula são objetivas e facilmente comprováveis. Enquanto ele botava sua tropa na rua, num esforço de mobilização inédito na história recente das eleições brasileiras, o candidato do PL ficou praticamente duas semanas conjecturando nomes para seu governo hipotético. Lula fez um rápido diagnóstico das falhas de sua campanha no 1º turno, ao mesmo tempo em que Flávio agia como se já estivesse eleito. E não ajudou o fato de ele se apresentar nos debates eleitorais como um cosplay de Pablo Marçal.

Em vez de fincar bandeira na desconstrução de um governo cheio de problemas e amplamente rejeitado, Flávio resolveu entrar de cabeça numa disputa insana para ver quem poderia ser mais populista. Assim como o petista, que usou e abusou da máquina, o candidato do PL foi enfileirando anúncios de benefícios e programas custosos. O discurso não convenceu ninguém, mas enfraqueceu a agenda de ajuste fiscal, até então simbolizada no chamado “tesouraço”.

O antipetismo é o fenômeno político mais importante da última década, mas vai sendo sobrepujado por outro fenômeno que se consolidou no processo eleitoral de 2026: o antibolsonarismo. Quanto antes a direita compreender o risco de continuar subordinada a uma família com tamanha barreira de rejeição, mais cedo poderá se reencontrar com sua com sua agenda de país, e talvez, com uma vitória numa eleição presidencial.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/guilherme-macalossi/a-direita-pode-espernear-e-chorar-ou-aprender-com-a-derrota-para-lula/

Alexandre Garcia

O mercado já percebeu o tamanho da insegurança que nos aguarda

Homem “faz o L” diante do prédio da bolsa de valores de São Paulo, na segunda-feira. (Foto: Isaac Fontana/EFE)

Por que razão a bolsa despencou nesta segunda-feira mais do que havia despencado na pandemia, e o dólar subiu mais do que havia subido no estouro do escândalo Joesley, em 2017? Porque há uma insegurança muito grande quanto à economia se Lula continuar aumentando o endividamento, e fazendo o déficit e os juros subirem também. O governo petista é gastador; todos os mandatos de Lula e Dilma Rousseff foram guiados pela teoria de que a gastança promove o crescimento. Mas o dinheiro não cai do céu, não é maná.

Há um outro fator, percebido por quem assistiu ao último debate, o da Globo. Eu, ao menos, que fui mediador de muitos debates com Lula, incluindo aqueles com Collor em 1989, percebi a diferença entre aquele Lula e o Lula de hoje. Há uma fraqueza maior – vou usar uma palavra que não seja ofensiva, mesmo porque ele é mais jovem que eu. Lula não ouviu perguntas, não ouviu respostas, julgou que a pergunta não tinha sido respondida. Em certo momento, ele perguntou se Flávio Bolsonaro aumentaria as aposentadorias. Ele disse que sim, e Lula retrucou: “Ele não respondeu, vou perguntar de novo”, e Flávio disse “eu vou responder de novo”, porque Lula não tinha ouvido.

Ele não conseguia nem entender o sistema da Globo, de apontar um assunto no telão. Quando foi escolhida a educação integral, ele disse que ia falar sobre educação, e não sobre educação integral – quer dizer, ele se insurgiu contra a regra que ele conhecia. No primeiro debate, Lula deu as costas para a câmera várias vezes, perdeu a noção da posição espacial, esqueceu de se dirigir sempre olhando para as pessoas. Ele cometeu atos falhos gravíssimos, como dizer que “em quatro anos do meu próximo governo, vamos dizer que o Brasil acabou”, ou que, se a PEC da Segurança for aprovada, ele vai “acabar com a polícia”. Há uma dificuldade de ouvir, de raciocinar.

Além dessa questão do cansaço de Lula, já octogenário, após tanto tempo de política, ele ainda disse que vai haver uma nova forma de governar, e isso deixa muita gente se olhando. Isso cria desconfiança sobre como ele quer governar. Jânio Quadros tentou fazer isso, ele mesmo me disse que tentou governar com seus próprios eleitores, deu as costas para o Congresso e acabou renunciando. Lula já teve pouco apoio no Congresso, e resolveu comprá-lo. Mas não sei se continuará a haver gente venal entre os representantes que acabamos de eleger para a Câmara e o Senado, porque a maioria de direita e centro-direita está muito grande. A bancada petista é pequena, e o partido tem poucos governadores.

Tudo isso diz ao mercado que haverá quatro anos de muita dificuldade política. Já temos a insegurança jurídica, e a questão fiscal: STF e contas públicas completamente fora dos trilhos. Serão anos difíceis pela frente, sem dúvida.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/lula-mercado-financeiro-inseguranca/

Extinção do TSE entra no radar do debate político, após sinais de irrelevância na eleição

O palácio espelhado da sede do Tribunal Superior Eleitoral, onde atuam sete ministros duas vezes por semana – Foto: Luiz Roberto/Secom TSE.

O desrespeito à Lei na campanha e crimes eleitorais escandalosos de abuso de poder político e econômico, de 2026, mas com ministros mais preocupados em atender interesses dos candidatos preferidos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) demonstrou na prática que passou da hora de o Brasil discutir sua extinção.

Nos Estados Unidos, por exemplo, não existe um TSE, nem órgão semelhante com sede suntuosa e custo bilionário. E na maior democracia do mundo também há eleições a cada dois anos.

Existe apenas o Federal Election Commission (FEC), que regula só o financiamento de campanhas federais, sem administrar a votação em si.

Lá, não há propaganda gratuita obrigatória em rádio e TV. Se querem se promover, candidatos pagam anúncios nos veículos de comunicação.

A lei federal obriga apenas que emissoras que cedam espaço a um candidato devem oferecer a mesma oportunidade a outros na disputa.

FONTE: DP https://diariodopoder.com.br/brasil-e-regioes/ttc-brasil/extincao-do-tse-entra-no-radar-do-debate-politico-apos-sinais-de-irrelevancia-na-eleicao

Escritório de deputado tucano é alvo de operação da PF

Deputado Marcelo Queiroz (PSDB-RJ) | Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira uma nova fase da Operação Castratio, que investiga suspeitas de fraude em contratos públicos de aproximadamente 200 milhões de reais no Rio de Janeiro. Um dos alvos é o escritório de advocacia do deputado federal Marcelo Queiroz, do PSDB, além de pessoas ligadas ao parlamentar.

Os policiais cumprem cinco mandados de busca e apreensão nos municípios do Rio de Janeiro e de Niterói. As ordens foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal, em razão do foro privilegiado do deputado.

A investigação apura possíveis irregularidades em contratos para serviços de castração e esterilização de animais, firmados pela Secretaria de Agricultura do estado quando Marcelo Queiroz era o titular da pasta. Segundo a Polícia Federal, há suspeitas de direcionamento de licitações, superfaturamento e fraude na contratação de uma empresa privada.

Esta é a segunda etapa da operação. A primeira fase foi realizada em maio deste ano, e o material apreendido naquela ocasião levou os investigadores a aprofundar as apurações sobre a possível atuação de uma organização criminosa.

Os fatos investigados podem configurar crimes de peculato, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. Até o momento, a Polícia Federal busca esclarecer a extensão do suposto esquema e a participação dos envolvidos. A CNN Brasil informou que procurou os citados, mas não havia obtido manifestação até a publicação da reportagem.

FONTE: DP https://diariodopoder.com.br/brasil-e-regioes/xwk-brasil/escritorio-de-deputado-tucano-e-alvo-de-operacao-da-pf

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