
No fim de setembro, poucos dias antes do primeiro turno das eleições, Lula assinou a medida provisória que criava o Desenrola Brasil 3.0, uma nova etapa do programa de renegociação de dívidas de pessoas físicas, oferecendo descontos que, dependendo das circunstâncias, podem atingir até 90% do valor atualizado da dívida. O programa, uma reciclagem de Desenrolas anteriores, entra na lista de benesses de última hora oferecidas por um presidente que busca a reeleição, mas termina seu terceiro mandato desgastado, sob péssima avaliação popular.
O Desenrola 3.0 abrange dívidas com atraso de dois a quatro anos e meio, cujo valor original seja inferior a R$ 10 mil, nas modalidades cartão de crédito, empréstimo direto ao consumidor, contas de água, luz e telefone, dívidas com lojas e empresas do varejo, e dívidas com outros prestadores de serviços. A diferença fundamental entre o novo Desenrola e os anteriores está no formato: se antes o devedor renegociava diretamente com o credor, tendo o governo como intermediário, desta vez o governo federal deve comprar as carteiras de crédito que os bancos e outras empresas credoras têm com o consumidor, na forma de leilões feitos pelo governo com descontos mínimos de 90% do valor da dívida. Em resumo: o governo compra a carteira de dívidas dos consumidores pagando valores bem abaixo do valor original da dívida; e o devedor paga (ao governo) apenas 10% ou menos do que devia.
Para os bancos e empresas credoras, a vantagem está em conseguir empurrar para o governo carteiras de crédito compostas de dívidas muito antigas, não pagas pelos devedores. Não deixa de ser um mecanismo de recuperação de crédito que, embora com desconto, permite aos credores a recuperação de parte de créditos praticamente perdidos e de recebimento quase impossível. O banco deixa de receber parte do valor contábil original da dívida (já que concordou em vendê-la com grande desconto no leilão), mas ganha liquidez imediata ao transformar um ativo que não seria pago em dinheiro real. Para o devedor, surge uma boa oportunidade para ele se livrar da dívida e limpar seu nome pagando 10% ou menos do valor devido.
O Desenrola não resolve o problema estrutural das dívidas de pessoas físicas: as altas taxas de juros, consequência direta da política fiscal irresponsável do governo
Segundo dados recentes da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 82% das famílias brasileiras têm algum tipo de dívida, incluindo as dívidas caras e com taxas de juros elevadas (caso do cartão de crédito e cheque especial); e 83 milhões de brasileiros têm alguma inadimplência e estão com o nome negativado nos cadastros de crédito pessoal. Surge, então, a pergunta: o Desenrola 3.0 não seria uma boa medida a favor dos devedores inadimplentes?
Em primeiro lugar, trata-se de oportunismo eleitoreiro de um presidente que tenta vencer as eleições para conquistar um quarto mandato, mesmo estando no fim de um terceiro mandato com as tradicionais marcas petistas: ineficiência, irresponsabilidade fiscal, demagogia e um oceano de casos de corrupção. Anunciar um novo Desenrola faltando poucos dias para a eleição é de um populismo imenso, repetindo a essência das campanhas de políticos demagogos na busca de votos com promessas de criar benefícios e fazer caridade com dinheiro público.
O populismo é sempre a promessa de dar soluções simples para situações complexas, que geram falsas expectativas e quase nunca se cumprem. Nesse sentido, vale destacar a baixa eficiência desse programa, verificada em suas etapas anteriores, a começar pela constatação de que, entre as pessoas que negociaram suas dívidas, em torno de um terço delas voltou à inadimplência logo adiante. O próprio Banco Central verificou que, para cada R$ 1 negociado no primeiro Desenrola, surgiu R$ 1,15 em novas dívidas. O programa não resolve o problema estrutural das dívidas de pessoas físicas: as altas taxas de juros, consequência direta da política fiscal irresponsável do governo.
Outro aspecto vem de uma teoria estudada no âmbito da ciência econômica: o “efeito moral”, que trata das condutas derivadas de fatos e causas que as precedem. No caso específico, argumenta-se que a ajuda a quem se endividou demais, ou mesmo teve gestão relaxada de suas finanças pessoais, acaba por incentivar condutas futuras com o mesmo comportamento, seja por parte dos devedores quanto pelas instituições financeiras que emprestam dinheiro a eles. O “efeito moral” é a percepção de que, não importa o tamanho do risco assumido, se algo sair errado o irresponsável sempre será socorrido pelo governo, mais cedo ou mais tarde. Vale para bancos e empresas que se julgam “grandes demais para falir”, vale para governadores e prefeitos que gastam demais, e vale para indivíduos. A sucessão infinita de medidas como o Refis e planos de renegociação de dívidas estaduais e municipais é um atestado de que, no Brasil, o governo federal faz o calote compensar.
Ao avançar com a terceira etapa desse programa, o governo está criando mais uma fonte de déficit público, pois a experiência já demonstrou que muitos devedores não quitarão nem mesmo o saldo devido após os gordos descontos. Ou seja, o governo comprará os créditos bancários a um custo estimado de R$ 150 bilhões (dinheiro que a União obviamente não tem), os bancos receberão uma parte da dívida e o Tesouro Nacional arcará com perdas financeiras em função dos devedores que não quitarão a dívida remanescente, da qual o governo passou a ser o credor.
O Desenrola 3.0 só podia mesmo ter saído da mente de um governo cujo chefe já declarou que mais déficit público não é problema, que um pouco de inflação não faz mal, e que o aumento da dívida do governo não prejudica. Uma soma de demagogia, populismo, irresponsabilidade fiscal e falta ética na busca de mais um mandato presidencial, busca essa que esperamos ver frustrada no fim de outubro.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/desenrola-3-desespero-eleitoreiro-lula/

Ministros do STF que hostilizaram Bolsonaro agora querem negociar com Flávio

Assim como ocorreu com Jair Bolsonaro em 2018, a cúpula do Judiciário foi surpreendida no final da tarde do domingo com a dimensão do avanço da direita nas urnas. A dianteira de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da corrida presidencial e a consolidação do PL como a maior e mais influente bancada do Congresso deram aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a certeza de que uma repactuação na relação com o bolsonarismo é inevitável. O movimento de bastidor agora é de negociação.
Cientes agora do favoritismo de Flávio para chegar ao Planalto, os integrantes do STF acompanham as exigências do grupo político vitorioso: a anistia para Jair Bolsonaro, para a cúpula militar e civil do governo anterior e para os demais condenados pelos atos do 8 de janeiro e, como ponto inegociável, o impeachment de Alexandre de Moraes.
“O recado que já está sendo dado para o STF é o seguinte: o Moraes vai cair. Não existe a possibilidade de ele ficar. Qualquer outra coisa, poderemos sentar e conversar e analisar um caminho para vivermos institucionalmente em harmonia. Mas o Alexandre de Moraes não fica. Não é uma decisão minha. O partido, os candidatos eleitos devem isso aos eleitores. Esses senadores eleitos pelo PL foram eleitos para isso”, resume Gustavo Gayer, deputado do PL eleito para o Senado por Goiás.
Nas contas do PL, já existem 49 senadores de direita – 60% do Senado – favoráveis ao impeachment, e Rogério Marinho desponta como nome forte para assumir a presidência da Casa no ano que vem. A pressão interna no PL é para que o processo de impeachment de Moraes seja instaurado logo no início da próxima legislatura, em fevereiro de 2027.
Diante do cenário, ministros do STF já iniciaram conversas para estabelecer um acordo de contenção de danos, principalmente para evitar um efeito dominó — ou seja, que outros magistrados, além de Moraes, venham a cair em sequência.
A interlocução, já iniciada por Rogério Marinho junto a ministros de perfil articulador — em especial o decano Gilmar Mendes —, busca sinalizar que o objetivo do novo governo não será declarar guerra permanente contra o STF, mas ter estabilidade para viabilizar as reformas necessárias para consertar a economia.
“É lamentável que o Brasil, neste momento em que se encontra, com todos os problemas que nós temos e desafios que estão na nossa frente, estejamos discutindo o STF. Isso acontece porque alguns de seus integrantes se colocaram no centro do palco político”, afirmou Marinho nesta segunda (5), em entrevista à imprensa.
O resultado da eleição aponta para uma demanda por reformas no STF que vão além da saída de Moraes — um imperativo acelerado pelas ramificações do escândalo do Banco Master. Os ministros, agora, passarão a tratar dos termos e limites da mudança, pois não abrem mão de participar da repactuação, até em razão da complexidade técnica e jurídica do tema.
Mesa de negociação: demandas da direita no Congresso e contrapropostas do STF
Na mesa de negociação entre o meio político e a cúpula do tribunal, três pontos centrais delimitam o debate, com o STF já desenhando alternativas para mitigar danos:
- Decisões monocráticas: A direita exige o fim do mecanismo pelo qual um único ministro pode suspender decretos presidenciais, medidas provisórias ou leis aprovadas pelo Congresso — expediente largamente utilizado contra o governo Bolsonaro por partidos nanicos de esquerda. Os ministros resistem, sob o argumento de que qualquer magistrado ou tribunal precisa da prerrogativa de proferir decisões cautelares para preservar a segurança jurídica. A solução intermediária aceita pelo STF seria fixar prazos mais rígidos para a submissão automática dessas decisões ao plenário, além de restringir drasticamente as instituições legitimadas a acionar a Corte, limitando o papel de legendas menores e entidades de classe sem vínculo com o tema.
- Foro privilegiado: Outra prioridade é o fim ou ao menos a limitação do foro privilegiado, que se tornou a arma mais poderosa dos ministros para manter sob rédeas curtas deputados e senadores, especialmente os do Centrão, além de instrumento de retaliação contra discursos mais agressivos de parlamentares da direita. Os ministros tentarão convencer o Congresso de que, sem o foro no STF, parlamentares ficariam à mercê de magistrados locais, mais suscetíveis à influência de adversários regionais. Uma possível solução é transferir processos criminais de congressistas para o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Por lá, os 33 ministros também são indicados pelo presidente e aprovados pelo Senado, mas advêm de listas tríplices formadas por desembargadores, membros do Ministério Público e advogados.
- Mandatos para ministros: Mandatos fixos para futuros integrantes são admitidos, desde que não afetem os atuais membros da Corte, nomeados de forma vitalícia. Por outro lado, qualquer proposta de ampliação do número de cadeiras no STF — que permitiria ao novo presidente formar uma maioria imediata — é terminantemente rechaçada pelo tribunal.
Como o conflito se estabeleceu
A compreensão do desafio em torno de uma negociação exige resgatar a trajetória da tensa relação entre Jair Bolsonaro e o STF, na qual Flávio sempre tentou atuar como agente moderador. Em 2018, após o impacto inicial da vitória conservadora, o movimento de diversos ministros foi de aproximação pragmática.
Dias Toffoli e Gilmar Mendes eram interlocutores frequentes do ex-presidente e auxiliavam no diálogo com os caciques do Congresso. Em contrapartida, buscavam influenciar escolhas para cargos estratégicos no Executivo e no Judiciário, além de avalizarem no tribunal a validação da pauta econômica liberal (independência do Banco Central, privatizações e marcos regulatórios).
Outra contrapartida tácita era evitar que o governo interferisse no desmonte da Operação Lava Jato — pauta de interesse convergente do Centrão e da família Bolsonaro, então pressionada pelas apurações das “rachadinhas”.
A relação ruiu em 2020 quando, durante a pandemia, o STF bateu de frente com o Planalto ao validar medidas regionais de isolamento e vacinação. As declarações de Bolsonaro contra a Corte foram respondidas com o inquérito das fake news e derivados. O conflito escalou até a eleição de 2022, resultando no duro enfrentamento em torno das urnas eletrônicas e, depois, nas condenações por tentativa de golpe.
Com a eleição de Lula, os ministros respiraram aliviados e, para conter a força de Bolsonaro, avalizaram a ofensiva judicial liderada por Moraes. Alinhando-se ao novo governo, adotaram retórica incisiva contra o ex-presidente, repisando a acusação de golpismo e classificando o bolsonarismo como a mais grave ameaça à democracia.
O dilema entre a governabilidade e o revanchismo
A direita votou em Flávio para obter uma reparação política. Cabe agora ao senador, no papel de virtual presidente, calibrar como se dará esse acerto de contas.
Se, por um lado, precisará entregar à sua base o troféu politicamente exigido — o impeachment de Alexandre de Moraes —, por outro, terá de calcular os limites do revanchismo do seu grupo se quiser manter a estabilidade institucional, necessária para governar e aprovar reformas cobradas pelo mercado.
Os ministros do STF demonstram disposição para pactuar reformas institucionais. O impasse agora é definir se aceitam entregar Moraes ao impeachment conduzido pelo Senado ou se o próprio tribunal atuará internamente para afastá-lo, dentro de um inquérito próprio sobre a relação dele com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Se antes os aliados do ministro contavam com a continuidade do governo atual para estancar as pressões, a vitória avassaladora da direita força um ajuste de rota rápido.
A sinalização recente do ex-presidente Michel Temer, padrinho da indicação de Moraes, em acenar para Flávio Bolsonaro pode ser o primeiro passo para uma transição negociada e sem conflagração institucional. Uma renúncia do ministro poderia selar a paz, mas não é comportamento típico de Moraes.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/renan-ramalho/ministros-do-stf-que-hostilizaram-bolsonaro-agora-querem-negociar-com-flavio/
Por que Trump está evitando declarar apoio direto a Flávio Bolsonaro

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comentou nesta segunda-feira (5) o desempenho do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da eleição presidencial do Brasil, mas voltou a evitar uma declaração direta de apoio ao candidato da direita na disputa contra o presidente Lula (PT).
Questionado sobre o resultado, Trump classificou a votação de Flávio como uma “vitória muito, muito grande” e disse que o resultado foi “incrível”. O senador terminou o primeiro turno, realizado neste domingo (4), liderando a votação, com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula. Os dois voltam a se enfrentar nas urnas no dia 25 de outubro.
A fala foi a manifestação mais aberta de Trump sobre Flávio desde o início da atual campanha. Ainda assim, o presidente americano não pediu votos ao candidato do PL, nem declarou formalmente que desejava sua vitória na disputa contra Lula.
A cautela é interessante porque, nos últimos anos, Trump declarou apoio a alguns candidatos da direita em eleições por todo o mundo e chegou, no caso da eleição legislativa argentina e em Honduras, a vincular a continuidade do apoio financeiro americano ao país ao resultado das urnas.
Sobre o Brasil, porém, o comportamento de Trump tem sido diferente. Segundo o jornal Washington Post, a decisão de manter Trump “afastado” da campanha de Flávio foi decidida tanto por integrantes da Casa Branca quanto por aliados do próprio senador brasileiro. O jornal americano lembrou que, quando Flávio visitou Trump na Casa Branca no começo deste ano, a equipe do senador já havia decidido que não pediria o apoio do republicano à candidatura do presidenciável do PL. Ao jornal, o empresário Paulo Figueiredo disse que a candidatura presidencial não foi discutida na visita e que Trump também não ofereceu apoio formal a Flávio.
Do lado americano, a conclusão teria sido semelhante. Um assessor da Casa Branca afirmou ao jornal americano que a avaliação neste momento era de que um apoio de Trump a Flávio poderia produzir efeito contrário ao pretendido pelo republicano na disputa. A preocupação estava ligada principalmente à tentativa de Lula de colocar a questão da “soberania nacional” no centro da disputa eleitoral.
Durante o último ano, devido à falta de negociação por parte do governo Lula e à escalada da censura do Judiciário no Brasil, o governo Trump aumentou tarifas sobre a importação de produtos brasileiros, aplicou sanções contra autoridades do país – entre elas a Lei Magnitsky, contra o ministro Alexandre de Moraes, por perseguição contra a oposição – e pressionou Brasília por causa do processo de suposto golpe de Estado contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar. Lula passou então a apresentar tais medidas como uma interferência e um “ataque à soberania” do Brasil por parte dos Estados Unidos.
Segundo o Post, integrantes da Casa Branca começaram a perceber que o discurso do petista estava ganhando espaço entre eleitores. O assessor do governo americano afirmou ao jornal que, quando Trump deixava de ser assunto na campanha presidencial brasileira, Lula tinha mais dificuldade para explorar o discurso de “interferência” dos Estados Unidos na eleição, e a estratégia do petista de usar o tema para ganhar eleitores perdia força. Por isso, a Casa Branca teria concluído que uma declaração aberta de apoio a Flávio neste momento poderia entregar ao petista justamente um argumento que Washington quer retirar da campanha.
A avaliação atribuída à Casa Branca pelo Post é semelhante à de Cezar Roedel, mestre em relações internacionais e estrategista internacional. À Gazeta do Povo, ele lembrou que a postura de Trump neste momento tem mais relação com cálculo político do que com hesitação em relação à candidatura de Flávio.
“A preferência política de Trump parece bastante clara, mas uma declaração formal de apoio teria um custo e poderia produzir o efeito contrário ao pretendido”, disse o analista. Ele lembra que Flávio chegou a este segundo turno na frente de Lula e precisa agora ampliar sua votação para além do eleitorado da direita. Nesse cenário, segundo Roedel, Trump ganha mais mantendo apenas sinais de proximidade com Flávio, como a fala desta segunda, do que entrando diretamente na campanha brasileira.
“Trump conseguiu elogiar o desempenho de Flávio e sinalizar claramente sua simpatia sem pedir votos e sem transformar formalmente a eleição brasileira em uma disputa entre Washington e Brasília”, analisou.
Segundo o estrategista, o histórico recente de tarifas e sanções dos Estados Unidos contra o Brasil tornou qualquer gesto da Casa Branca mais sensível durante a campanha.
“As tarifas já colocaram os Estados Unidos no centro da disputa brasileira e deram a Lula espaço para explorar o discurso da soberania. Um apoio explícito permitiria ao PT associar Flávio novamente à pressão americana sobre o Brasil, desviando o debate dos problemas internos do governo Lula para uma discussão sobre interferência estrangeira”, disse.
Flávio Pierobon, advogado e mestre em Ciência Jurídica e professor da Universidade Positivo, também avalia que a reação de Trump ao resultado do primeiro turno pode ter sido calculada. Segundo ele, apesar da proximidade política entre Trump e Flávio, o republicano ainda precisa considerar a possibilidade de Lula permanecer no poder.
“A vitória ainda não chegou, as eleições ainda não acabaram. Se eventualmente Flávio não confirmar a vitória no segundo turno, Trump vai ter que, em algum momento dos próximos dois anos de mandato, conversar com Lula. Ter vestido o boné do Flávio e dado apoio explícito a outro candidato acaba construindo mais muros do que pontes numa eventual relação entre os países”, disse.
Igor Lucena, doutor em relações internacionais, observa que uma manifestação aberta de Trump sobre Flávio também poderia ser explorada pelos adversários do senador para questionar a legitimidade de uma eventual vitória dele. “Acho que o governo americano também faz esse cálculo de não dar armas para deslegitimar uma possível vitória de Flávio”, disse.
Trump já entrou diretamente em outras eleições na região… e teve sucesso
Na Colômbia, Trump declarou apoio direto a Abelardo de la Espriella dias antes da realização do segundo turno da eleição presidencial deste ano. O republicano afirmou que o resultado no país seria importante para o futuro das relações entre Washington e Bogotá. De la Espriella acabou derrotando o candidato de esquerda Iván Cepeda, apoiado pelo então presidente esquerdista Gustavo Petro, na eleição de junho.
Depois da eleição, Trump reivindicou sua participação no resultado da disputa presidencial. “Eu o apoiei”, disse o chefe da Casa Branca ao comentar a vitória do colombiano. De la Espriella chegou a telefonar para agradecer o apoio recebido dos Estados Unidos.
Trump também se manifestou de forma ainda mais direta na eleição presidencial de Honduras, em novembro do ano passado. Poucos dias antes do pleito, o republicano declarou apoio ao conservador Nasry Asfura, chamando-o de “aliado dos Estados Unidos” e pedindo aos hondurenhos que votassem nele. O presidente dos EUA chegou a colocar em xeque o apoio financeiro americano ao país caso Asfura não vencesse a eleição. O candidato acabou eleito por pequena margem no país, com 40,3% dos votos, contra 39,5% do candidato de centro-direita Salvador Nasralla.
Na Argentina, o aceno de Trump ocorreu nas eleições legislativas de outubro de 2025. Na ocasião, ele declarou apoio ao partido de Javier Milei na disputa para o Congresso argentino e chegou a condicionar a manutenção do suporte americano ao país sul-americano ao sucesso eleitoral da legenda libertária. Naquele momento, Washington também ofereceu uma linha de swap (acordo que permite a troca temporária de moedas entre os dois países) de US$ 20 bilhões à Argentina e discutia outras formas de ajudar financeiramente o país.
O partido La Libertad Avanza, de Milei, terminou a eleição legislativa com 40,68% dos votos, frente aos 31,69% da coalizão peronista, e ampliou sua presença no Congresso. No dia seguinte, Trump afirmou que Milei havia recebido “muita ajuda” dos Estados Unidos e citou expressamente seu próprio apoio ao líder argentino na campanha.
Trump não se manifestou antes das eleições no Equador, Peru e Chile
Nas eleições presidenciais do Equador, Chile e Peru, onde líderes alinhados a Trump também chegaram ao Executivo, o republicano não declarou durante a campanha um apoio público da mesma forma como fez em Honduras ou na Colômbia, mas celebrou posteriormente os resultados.
No Equador, o presidente Daniel Noboa chegou a se reunir com Trump nos EUA poucas semanas antes do segundo turno de 2025, mas não houve uma declaração formal de apoio por parte do republicano a ele.
No Chile, Trump também não anunciou apoio explícito a José Antonio Kast antes da eleição, embora tenha afirmado posteriormente que havia apoiado o presidente conservador na disputa.
Já no Peru, não houve um apoio público de Trump a Keiko Fujimori durante a campanha presidencial deste ano, mas a Casa Branca celebrou o resultado no país após o pleito.
Posicionamentos de Trump contribuíram para derrotas dos conservadores no Canadá e na Austrália
No começo de 2025, os conservadores do Canadá pareciam caminhar para uma vitória ampla depois de quase uma década de governo progressista. Em janeiro daquele ano, eles chegaram a aparecer com mais de 20 pontos à frente dos liberais nas pesquisas.
A disputa, no entanto, mudou depois que Trump assumiu a Presidência dos Estados Unidos, iniciou a aplicação de tarifas contra o Canadá e passou a falar de forma repetida na possibilidade de transformar o país no “51º estado” americano.
Trump não chegou a declarar apoio aberto ao líder do Partido Conservador, Pierre Poilievre. Pelo contrário, o republicano chegou até a dizer durante a campanha que não se importaria com uma vitória dos liberais e que “preferia negociar com um liberal do que com um conservador”. Ainda assim, suas falas sobre o país dominaram a eleição canadense.
O atual premiê Mark Carney, que assumiu a liderança do Partido Liberal depois da saída de Justin Trudeau, transformou o discurso de “resistência às ameaças americanas” em um dos principais temas da campanha da legenda progressista. Com isso, os liberais passaram de uma desvantagem de mais de 20 pontos nas pesquisas no início de 2025 para a liderança dias antes da votação em abril, enquanto Poilievre e os conservadores tiveram dificuldades para adaptar sua campanha ao novo cenário.
A eleição acabou sendo um caos para o Partido Conservador. Os liberais permaneceram no poder e conquistaram 169 cadeiras no parlamento, contra 144 dos conservadores. O próprio Poilievre perdeu temporariamente seu cargo, tendo voltado a ocupar novamente um posto no Legislativo apenas no final do ano passado, após uma eleição suplementar. A imprensa internacional atribuiu parte da recuperação dos liberais na eleição à reação dos canadenses às tarifas de Trump e às suas declarações sobre anexar o país.
Poucos dias depois, algo semelhante ocorreu na Austrália. O conservador Peter Dutton chegou a liderar pesquisas no começo de 2025, mas perdeu força durante uma campanha eleitoral marcada também pelas incertezas no país provocadas pelas tarifas de importação dos EUA.
Na ocasião, o líder da oposição tentou até se afastar das comparações feitas entre ele e o presidente americano. O atual premiê trabalhista Anthony Albanese passou então a explorar este fator na campanha. À agência Reuters, estrategistas políticos avaliaram que Trump não foi o fator decisivo na derrota de Dutton, que também cometeu erros durante a campanha, mas que o chamado “efeito Trump” na disputa aumentou a preocupação de eleitores australianos que passaram a ver mudanças políticas no país com maior cautela.
Albanese acabou conseguindo uma ampla vitória e garantiu um segundo mandato. Dutton não apenas perdeu a eleição como também foi derrotado em seu próprio distrito eleitoral, que ocupava havia mais de duas décadas.
Tais casos podem explicar o risco observado pela Casa Branca ao Post em relação ao Brasil: um presidente Trump muito presente numa campanha pode permitir que seus adversários mudem o assunto da eleição e mobilizem eleitores em torno do tema de “soberania nacional”.
Intervenção explícita de Trump seria risco desnecessário para Flávio, avaliam analistas
Segundo o assessor da Casa Branca ouvido pelo Post, a tendência é que o governo Trump continue evitando uma participação direta na campanha presidencial durante este segundo turno. A avaliação feita ao jornal é de que Flávio não precisa de uma movimentação americana neste momento e que uma tentativa aberta de ajudá-lo poderia acabar favorecendo Lula.
Para Roedel, há pouco incentivo para Trump mudar sua postura em relação à eleição brasileira neste momento. “Uma intervenção explícita de Trump acrescentaria um risco que hoje parece desnecessário. A estratégia mais racional para Washington é preservar a interlocução, continuar sinalizando afinidade política e deixar que a eleição seja decidida pelos brasileiros”, concluiu.
Segundo Pierobon, o resultado do primeiro turno também reduz a necessidade de Trump mudar de postura durante esta reta final da eleição.
Lucena lembra ainda outro fator para a manutenção da cautela de Trump neste segundo turno: a política interna americana.
“O presidente Trump também está focado nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. Como a prioridade é eleger o Congresso americano, o Brasil acaba ficando em segundo plano neste exato momento. Há uma infeliz, ou feliz, coincidência de datas”, concluiu.
As eleições de meio de mandato nos EUA ocorrem em 3 de novembro. Estarão em disputa todos os 435 assentos da Câmara dos Deputados e 35 das 100 cadeiras do Senado, além de 36 eleições para governador em estados como Califórnia, Texas e Flórida.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/por-que-trump-esta-evitando-declarar-apoio-direto-a-flavio-bolsonaro/
Por que Trump está evitando declarar apoio direto a Flávio Bolsonaro

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comentou nesta segunda-feira (5) o desempenho do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da eleição presidencial do Brasil, mas voltou a evitar uma declaração direta de apoio ao candidato da direita na disputa contra o presidente Lula (PT).
Questionado sobre o resultado, Trump classificou a votação de Flávio como uma “vitória muito, muito grande” e disse que o resultado foi “incrível”. O senador terminou o primeiro turno, realizado neste domingo (4), liderando a votação, com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula. Os dois voltam a se enfrentar nas urnas no dia 25 de outubro.
A fala foi a manifestação mais aberta de Trump sobre Flávio desde o início da atual campanha. Ainda assim, o presidente americano não pediu votos ao candidato do PL, nem declarou formalmente que desejava sua vitória na disputa contra Lula.
A cautela é interessante porque, nos últimos anos, Trump declarou apoio a alguns candidatos da direita em eleições por todo o mundo e chegou, no caso da eleição legislativa argentina e em Honduras, a vincular a continuidade do apoio financeiro americano ao país ao resultado das urnas.
Sobre o Brasil, porém, o comportamento de Trump tem sido diferente. Segundo o jornal Washington Post, a decisão de manter Trump “afastado” da campanha de Flávio foi decidida tanto por integrantes da Casa Branca quanto por aliados do próprio senador brasileiro. O jornal americano lembrou que, quando Flávio visitou Trump na Casa Branca no começo deste ano, a equipe do senador já havia decidido que não pediria o apoio do republicano à candidatura do presidenciável do PL. Ao jornal, o empresário Paulo Figueiredo disse que a candidatura presidencial não foi discutida na visita e que Trump também não ofereceu apoio formal a Flávio.
Do lado americano, a conclusão teria sido semelhante. Um assessor da Casa Branca afirmou ao jornal americano que a avaliação neste momento era de que um apoio de Trump a Flávio poderia produzir efeito contrário ao pretendido pelo republicano na disputa. A preocupação estava ligada principalmente à tentativa de Lula de colocar a questão da “soberania nacional” no centro da disputa eleitoral.
Durante o último ano, devido à falta de negociação por parte do governo Lula e à escalada da censura do Judiciário no Brasil, o governo Trump aumentou tarifas sobre a importação de produtos brasileiros, aplicou sanções contra autoridades do país – entre elas a Lei Magnitsky, contra o ministro Alexandre de Moraes, por perseguição contra a oposição – e pressionou Brasília por causa do processo de suposto golpe de Estado contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar. Lula passou então a apresentar tais medidas como uma interferência e um “ataque à soberania” do Brasil por parte dos Estados Unidos.
Segundo o Post, integrantes da Casa Branca começaram a perceber que o discurso do petista estava ganhando espaço entre eleitores. O assessor do governo americano afirmou ao jornal que, quando Trump deixava de ser assunto na campanha presidencial brasileira, Lula tinha mais dificuldade para explorar o discurso de “interferência” dos Estados Unidos na eleição, e a estratégia do petista de usar o tema para ganhar eleitores perdia força. Por isso, a Casa Branca teria concluído que uma declaração aberta de apoio a Flávio neste momento poderia entregar ao petista justamente um argumento que Washington quer retirar da campanha.
A avaliação atribuída à Casa Branca pelo Post é semelhante à de Cezar Roedel, mestre em relações internacionais e estrategista internacional. À Gazeta do Povo, ele lembrou que a postura de Trump neste momento tem mais relação com cálculo político do que com hesitação em relação à candidatura de Flávio.
“A preferência política de Trump parece bastante clara, mas uma declaração formal de apoio teria um custo e poderia produzir o efeito contrário ao pretendido”, disse o analista. Ele lembra que Flávio chegou a este segundo turno na frente de Lula e precisa agora ampliar sua votação para além do eleitorado da direita. Nesse cenário, segundo Roedel, Trump ganha mais mantendo apenas sinais de proximidade com Flávio, como a fala desta segunda, do que entrando diretamente na campanha brasileira.
“Trump conseguiu elogiar o desempenho de Flávio e sinalizar claramente sua simpatia sem pedir votos e sem transformar formalmente a eleição brasileira em uma disputa entre Washington e Brasília”, analisou.
Segundo o estrategista, o histórico recente de tarifas e sanções dos Estados Unidos contra o Brasil tornou qualquer gesto da Casa Branca mais sensível durante a campanha.
“As tarifas já colocaram os Estados Unidos no centro da disputa brasileira e deram a Lula espaço para explorar o discurso da soberania. Um apoio explícito permitiria ao PT associar Flávio novamente à pressão americana sobre o Brasil, desviando o debate dos problemas internos do governo Lula para uma discussão sobre interferência estrangeira”, disse.
Flávio Pierobon, advogado e mestre em Ciência Jurídica e professor da Universidade Positivo, também avalia que a reação de Trump ao resultado do primeiro turno pode ter sido calculada. Segundo ele, apesar da proximidade política entre Trump e Flávio, o republicano ainda precisa considerar a possibilidade de Lula permanecer no poder.
“A vitória ainda não chegou, as eleições ainda não acabaram. Se eventualmente Flávio não confirmar a vitória no segundo turno, Trump vai ter que, em algum momento dos próximos dois anos de mandato, conversar com Lula. Ter vestido o boné do Flávio e dado apoio explícito a outro candidato acaba construindo mais muros do que pontes numa eventual relação entre os países”, disse.
Igor Lucena, doutor em relações internacionais, observa que uma manifestação aberta de Trump sobre Flávio também poderia ser explorada pelos adversários do senador para questionar a legitimidade de uma eventual vitória dele. “Acho que o governo americano também faz esse cálculo de não dar armas para deslegitimar uma possível vitória de Flávio”, disse.
Trump já entrou diretamente em outras eleições na região… e teve sucesso
Na Colômbia, Trump declarou apoio direto a Abelardo de la Espriella dias antes da realização do segundo turno da eleição presidencial deste ano. O republicano afirmou que o resultado no país seria importante para o futuro das relações entre Washington e Bogotá. De la Espriella acabou derrotando o candidato de esquerda Iván Cepeda, apoiado pelo então presidente esquerdista Gustavo Petro, na eleição de junho.
Depois da eleição, Trump reivindicou sua participação no resultado da disputa presidencial. “Eu o apoiei”, disse o chefe da Casa Branca ao comentar a vitória do colombiano. De la Espriella chegou a telefonar para agradecer o apoio recebido dos Estados Unidos.
Trump também se manifestou de forma ainda mais direta na eleição presidencial de Honduras, em novembro do ano passado. Poucos dias antes do pleito, o republicano declarou apoio ao conservador Nasry Asfura, chamando-o de “aliado dos Estados Unidos” e pedindo aos hondurenhos que votassem nele. O presidente dos EUA chegou a colocar em xeque o apoio financeiro americano ao país caso Asfura não vencesse a eleição. O candidato acabou eleito por pequena margem no país, com 40,3% dos votos, contra 39,5% do candidato de centro-direita Salvador Nasralla.
Na Argentina, o aceno de Trump ocorreu nas eleições legislativas de outubro de 2025. Na ocasião, ele declarou apoio ao partido de Javier Milei na disputa para o Congresso argentino e chegou a condicionar a manutenção do suporte americano ao país sul-americano ao sucesso eleitoral da legenda libertária. Naquele momento, Washington também ofereceu uma linha de swap (acordo que permite a troca temporária de moedas entre os dois países) de US$ 20 bilhões à Argentina e discutia outras formas de ajudar financeiramente o país.
O partido La Libertad Avanza, de Milei, terminou a eleição legislativa com 40,68% dos votos, frente aos 31,69% da coalizão peronista, e ampliou sua presença no Congresso. No dia seguinte, Trump afirmou que Milei havia recebido “muita ajuda” dos Estados Unidos e citou expressamente seu próprio apoio ao líder argentino na campanha.
Trump não se manifestou antes das eleições no Equador, Peru e Chile
Nas eleições presidenciais do Equador, Chile e Peru, onde líderes alinhados a Trump também chegaram ao Executivo, o republicano não declarou durante a campanha um apoio público da mesma forma como fez em Honduras ou na Colômbia, mas celebrou posteriormente os resultados.
No Equador, o presidente Daniel Noboa chegou a se reunir com Trump nos EUA poucas semanas antes do segundo turno de 2025, mas não houve uma declaração formal de apoio por parte do republicano a ele.
No Chile, Trump também não anunciou apoio explícito a José Antonio Kast antes da eleição, embora tenha afirmado posteriormente que havia apoiado o presidente conservador na disputa.
Já no Peru, não houve um apoio público de Trump a Keiko Fujimori durante a campanha presidencial deste ano, mas a Casa Branca celebrou o resultado no país após o pleito.
Posicionamentos de Trump contribuíram para derrotas dos conservadores no Canadá e na Austrália
No começo de 2025, os conservadores do Canadá pareciam caminhar para uma vitória ampla depois de quase uma década de governo progressista. Em janeiro daquele ano, eles chegaram a aparecer com mais de 20 pontos à frente dos liberais nas pesquisas.
A disputa, no entanto, mudou depois que Trump assumiu a Presidência dos Estados Unidos, iniciou a aplicação de tarifas contra o Canadá e passou a falar de forma repetida na possibilidade de transformar o país no “51º estado” americano.
Trump não chegou a declarar apoio aberto ao líder do Partido Conservador, Pierre Poilievre. Pelo contrário, o republicano chegou até a dizer durante a campanha que não se importaria com uma vitória dos liberais e que “preferia negociar com um liberal do que com um conservador”. Ainda assim, suas falas sobre o país dominaram a eleição canadense.
O atual premiê Mark Carney, que assumiu a liderança do Partido Liberal depois da saída de Justin Trudeau, transformou o discurso de “resistência às ameaças americanas” em um dos principais temas da campanha da legenda progressista. Com isso, os liberais passaram de uma desvantagem de mais de 20 pontos nas pesquisas no início de 2025 para a liderança dias antes da votação em abril, enquanto Poilievre e os conservadores tiveram dificuldades para adaptar sua campanha ao novo cenário.
A eleição acabou sendo um caos para o Partido Conservador. Os liberais permaneceram no poder e conquistaram 169 cadeiras no parlamento, contra 144 dos conservadores. O próprio Poilievre perdeu temporariamente seu cargo, tendo voltado a ocupar novamente um posto no Legislativo apenas no final do ano passado, após uma eleição suplementar. A imprensa internacional atribuiu parte da recuperação dos liberais na eleição à reação dos canadenses às tarifas de Trump e às suas declarações sobre anexar o país.
Poucos dias depois, algo semelhante ocorreu na Austrália. O conservador Peter Dutton chegou a liderar pesquisas no começo de 2025, mas perdeu força durante uma campanha eleitoral marcada também pelas incertezas no país provocadas pelas tarifas de importação dos EUA.
Na ocasião, o líder da oposição tentou até se afastar das comparações feitas entre ele e o presidente americano. O atual premiê trabalhista Anthony Albanese passou então a explorar este fator na campanha. À agência Reuters, estrategistas políticos avaliaram que Trump não foi o fator decisivo na derrota de Dutton, que também cometeu erros durante a campanha, mas que o chamado “efeito Trump” na disputa aumentou a preocupação de eleitores australianos que passaram a ver mudanças políticas no país com maior cautela.
Albanese acabou conseguindo uma ampla vitória e garantiu um segundo mandato. Dutton não apenas perdeu a eleição como também foi derrotado em seu próprio distrito eleitoral, que ocupava havia mais de duas décadas.
Tais casos podem explicar o risco observado pela Casa Branca ao Post em relação ao Brasil: um presidente Trump muito presente numa campanha pode permitir que seus adversários mudem o assunto da eleição e mobilizem eleitores em torno do tema de “soberania nacional”.
Intervenção explícita de Trump seria risco desnecessário para Flávio, avaliam analistas
Segundo o assessor da Casa Branca ouvido pelo Post, a tendência é que o governo Trump continue evitando uma participação direta na campanha presidencial durante este segundo turno. A avaliação feita ao jornal é de que Flávio não precisa de uma movimentação americana neste momento e que uma tentativa aberta de ajudá-lo poderia acabar favorecendo Lula.
Para Roedel, há pouco incentivo para Trump mudar sua postura em relação à eleição brasileira neste momento. “Uma intervenção explícita de Trump acrescentaria um risco que hoje parece desnecessário. A estratégia mais racional para Washington é preservar a interlocução, continuar sinalizando afinidade política e deixar que a eleição seja decidida pelos brasileiros”, concluiu.
Segundo Pierobon, o resultado do primeiro turno também reduz a necessidade de Trump mudar de postura durante esta reta final da eleição.
Lucena lembra ainda outro fator para a manutenção da cautela de Trump neste segundo turno: a política interna americana.
“O presidente Trump também está focado nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. Como a prioridade é eleger o Congresso americano, o Brasil acaba ficando em segundo plano neste exato momento. Há uma infeliz, ou feliz, coincidência de datas”, concluiu.
As eleições de meio de mandato nos EUA ocorrem em 3 de novembro. Estarão em disputa todos os 435 assentos da Câmara dos Deputados e 35 das 100 cadeiras do Senado, além de 36 eleições para governador em estados como Califórnia, Texas e Flórida.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/por-que-trump-esta-evitando-declarar-apoio-direto-a-flavio-bolsonaro/
Petistas envolvidos no Mensalão e Lava Jato: um retorna à Câmara, outros três ficam de fora

O PT conseguiu eleger apenas um dos quatro antigos nomes do partido envolvidos nos escândalos do Mensalão e da Lava Jato que tentaram retornar ao Congresso. Com 109.548 votos, o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) foi eleito deputado federal por média pela Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV).
José Dirceu (PT-SP), Delúbio Soares (PT-GO) e André Vargas (PT-PR) ficaram como suplentes da Casa Baixa do Congresso. Os quatro tiveram participação em episódios que marcaram os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e da ex-presidente Dilma Rousseff nos escândalos de corrupção.
A volta dos antigos companheiros contou com o apoio político de Lula e do PT, que buscavam ampliar a bancada do partido no Congresso. Lula priorizou nomes que haviam ocupado posições de destaque nas primeiras gestões petistas e que, depois das condenações, caíram no ostracismo.
Cunha é ex-presidente da Câmara
João Paulo Cunha comandou a Câmara de 2003 a 2005, durante o primeiro mandato de Lula, e foi um dos políticos mais importantes do PT. Sua condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do Mensalão se deu por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.
O ex-deputado cumpriu pena e recebeu, em 2016, indulto natalino com base no Decreto 8.615/2015, da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), após o STF reconhecer que ele preenchia os requisitos para o benefício.
Cunha passou a atuar, então, como advogado em Brasília. Em 2025, Lula o chamou publicamente para retornar à política durante um evento em Osasco, a principal base eleitoral do ex-deputado.
“João Paulo, você trate de voltar para a política. Pare de ganhar dinheiro como advogado em Brasília. Pare de querer ganhar dinheiro em Brasília, venha para a porta de fábrica fazer comício”, disse Lula na ocasião.
Em 2026, o ex-deputado justificou a candidatura à Câmara: “Foram anos de trabalho, reflexão e dedicação à advocacia, mas o momento do país pede responsabilidade, diálogo e gente preparada para reconstruir caminhos. Se eu puder ajudar o Lula a governar, fortalecer nossa região e melhorar a vida da população, estarei presente.”
José Dirceu é figura emblemática do Mensalão
Ex-ministro da Casa Civil de Lula e ex-presidente do PT, José Dirceu, 79 anos, recebeu 78.450 votos e ficou como sexto suplente da Federação na Câmara. Ele foi um dos principais articuladores políticos dos primeiros governos de Lula e um dos personagens centrais do Mensalão.
Em 2005, o então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) apontou Dirceu como responsável pela articulação política do esquema de pagamento a parlamentares em troca de apoio ao governo. Naquele ano, Dirceu deixou a Casa Civil e teve o mandato cassado pela Câmara.
No julgamento do Mensalão, foi condenado a sete anos e 11 meses de prisão por corrupção ativa e formação de quadrilha. Ele chegou a cumprir pena em regime fechado na Papuda, em Brasília, antes de passar ao regime domiciliar.
Dirceu voltou a ser preso em 2015, durante a Lava Jato, e recebeu novas condenações relacionadas ao esquema de corrupção na Petrobras. Em 2024, o ministro Gilmar Mendes, do STF, anulou os atos processuais da Lava Jato contra o ex-ministro conduzidos pelo então juiz Sergio Moro, hoje governador eleito do Paraná pelo PL.
Com a recuperação dos direitos políticos, Dirceu passou a trabalhar para reconstruir sua presença pública e chegou a ser cotado para disputar uma vaga ao Senado. A candidatura, porém, acabou sendo para a Câmara.
Durante a campanha, ele retomou a atividade política e passou a fazer críticas frequentes ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no domingo (4).
Delúbio Soares voltou a disputar eleição em Goiás
Ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, 70 anos, ficou associado ao chamado “Valerioduto”, sistema de recursos operado pelo publicitário Marcos Valério e apontado nas investigações como fonte de pagamentos a parlamentares.
Delúbio foi condenado pelo STF a seis anos e oito meses de prisão por corrupção ativa e formação de quadrilha. Cumpriu parte da pena em regime semiaberto e passou à prisão domiciliar. Em 2016, recebeu o perdão da pena por indulto natalino.
O ex-tesoureiro também foi alvo da Lava Jato e chegou a ser condenado em processos conduzidos pelo então juiz Sergio Moro. As condenações foram posteriormente anuladas pelo Superior Tribunal de Justiça, em 2023.
Ao anunciar a intenção de disputar a eleição, Delúbio afirmou que pretendia ajudar a ampliar a bancada petista e apoiar Lula no Congresso. “Estou colocando meu nome à disposição do meu partido, da Federação Brasil da Esperança, para que em julho ele seja aprovado. O que estou pedindo é apoio político para que a gente possa, em 2026, vencer as eleições no Brasil.”
Em entrevista à Folha de S.Paulo em junho, ao defender seu retorno às urnas, Delúbio resumiu sua posição sobre os processos que enfrentou: “Não me arrependo de nada porque não fizemos nada de errado.” Ele obteve 14.218 votos em Goiás e foi eleito suplente da Federação para a Câmara.
André Vargas foi vice-presidente da Câmara
Ex-1º vice-presidente da Câmara no biênio 2013-2014, André Vargas, 62 anos, recebeu 34.619 votos no Paraná em 2026 e foi eleito suplente para a Câmara. Vargas foi um dos principais nomes do PT paranaense até ser atingido pelas investigações da Lava Jato.
O então deputado teve o mandato cassado pela Câmara em 2014, em meio às revelações sobre sua relação com o doleiro Alberto Youssef. No ano seguinte, foi preso e condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A pena chegou a 24 anos e 10 meses.
O ex-parlamentar deixou o PT durante a crise provocada pelas investigações, mas posteriormente retornou ao partido. Após a anulação de suas condenações, voltou a se apresentar como candidato e passou a atuar novamente na organização partidária.
Vargas sustentou que sua prisão teve motivação política e que foi pressionado a fazer uma delação contra Lula e o PT. “Fui vítima de uma prisão ilegal que durou 42 meses. Sofri todo tipo de pressão para fazer a delação, objetivo real da prisão, mas resisti, pois o que queriam era que eu confirmasse invenções mentirosas para atingir o Lula e o PT.”
Na campanha de 2026, defendeu seu retorno à Câmara como uma forma de reforçar a bancada de esquerda. “Volto a disputar uma vaga na Câmara para reforçar o campo político democrático e popular. Hoje, a classe trabalhadora e o presidente Lula sofrem reveses em uma Câmara conservadora e antipopular. Medidas simples como a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e a cobrança de impostos de jogos bets têm muitas dificuldades de serem aprovadas.”
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/petistas-envolvidos-no-mensalao-e-lava-jato-um-retorna-a-camara-outros-tres-ficam-de-fora/
Socialismo é cada vez mais popular entre jovens democratas nos EUA

Uma pesquisa reveladora, realizada antes das eleições legislativas de novembro nos Estados Unidos, mostrou que mais de 30% dos americanos têm uma visão favorável do socialismo.
De acordo com a pesquisa da OnMessage, que ouviu 800 eleitores americanos entre 12 e 16 de julho, 35% dos entrevistados se identificaram como democratas.
“O apoio ao socialismo não é mais uma pauta de nicho para os eleitores democratas. Nossos dados mostram que a maioria dos democratas de todas as idades tem visões favoráveis do socialismo, incluindo 84% dos democratas da Geração Z”, disse Henry Parkhurst, o pesquisador da OnMessage que realizou o levantamento, ao Daily Signal.
As descobertas confirmam que a alegação do Partido Democrata de que o socialismo é uma “questão secundária” não é mais verdadeira, e que o socialismo se espalhou pelo núcleo do partido.
“Embora o Partido Democrata nacional possa alegar estar dividido sobre o quão longe deve ir em direção ao socialismo, seus eleitores claramente estão incentivando o partido a se mover nessa direção”, acrescentou Parkhurst.
A pesquisa ocorreu meses depois de os Socialistas Democráticos da América (DSA) comemorarem um aumento histórico no número de membros, combinado com o crescimento de candidatos e autoridades filiadas ao DSA em todo o país.
Agora, no próximo Congresso, pelo menos cinco novos membros do DSA tomarão posse na Câmara dos Representantes, somando-se ao número crescente de autoridades socialistas, como a prefeita de Seattle, Katie Wilson, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez.
Os candidatos ao Senado Angie Nixon na Flórida e Abdul El-Sayed no Michigan também têm boas chances de vencer suas disputas em novembro.
A OnMessage revelou os resultados após realizar entrevistas por texto para web e registrar uma participação histórica de entrevistados.
A pesquisa também fez uma sobreramostragem de eleitores com menos de 45 anos, resultando em aproximadamente 600 eleitores da Geração Z e Millennials para uma análise aprofundada.
A margem de erro desta pesquisa é de +/- 3,5%.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/socialismo-e-cada-vez-mais-popular-entre-jovens-democratas-nos-eua/

Não, a Bahia não é o câncer do Brasil!

Esta semana fui surpreendido com um vídeo de desabafo do Rodrigo Constantino, no qual ele dizia que Salvador é um lixo e que a Bahia é o câncer do país. Tudo porque aquele estado deu 66% dos votos a Lula, enquanto Flávio Bolsonaro ficou com 28%. Citando “evidências anedóticas”, o Consta disse que o baiano é folgado e preguiçoso. Na coluna que escreveu sobre isso aqui na Gazeta do Povo, meu amigo tentou transformar o desabafo num raciocínio, mas só piorou as coisas. Ele citou o famoso Alguém para dizer que “o povo [da Bahia] tem esse DNA de preguiça, de miséria, de mendicância, que não vai mudar nunca”.
Mancada. Mil vezes mancada. Primeiro que, se o baiano tem mesmo esse DNA aí, qual seria a solução? Se todo um estado jamais vai mudar e aderir aos ideais da direita, isso faz de seus habitantes pessoas más, inferiores, indignas da democracia e da prosperidade nas quais se banham os demais brasileiros? O discurso de humilhação do adversário seduz por um único motivo: ele é fácil. Como se numa democracia liberal digna do nome não houvesse espaço para a discordância. Como se os baianos não fossem livres para tomar decisões que eu, você e a maior parte do país consideramos erradas. Claro que são! Mesmo que essas decisões afetem negativamente a minha vida.
Fracasso
Mais produtivo do que simplesmente reduzir 14 milhões de pessoas à figura do homem preguiçoso e escravo por opção seria tentar entender as causas das decisões dos baianoss. O que leva a Bahia a ser tão lulista, petista e esquerdista? Em outras palavras: onde os liberais, conservadores e bolsonaristas estão errando? Porque o fracasso da direita em mostrar aos baianos o desastre coletivo que é a submissão ao petismo e em convencer os baianos de que o Estado é um parasita, e não um amigo ou provedor, é isso mesmo, não tem outra palavra: fracasso. Pode não ser uma derrota de 7 a 1, mas é de 66 a 28. Essa é a exata medida da incompetência da direita.
E não é só lá. A Bahia chama a atenção no mapa eleitoral por causa do seu tamanho, mas outros estados e regiões do Brasil foram majoritariamente lulistas. Isto é, parecem impermeáveis aos ideais da direita liberal e conservadora – e nem por isso houve quem dissesse que o sul do Rio Grande do Sul, por exemplo, é o câncer do Brasil. Bairros populosíssimos e esclarecidíssimos e prosperíssimos da cidade de São Paulo votaram no Lula. E aí, como o determinismo geográfico explica isso? Por outro lado, Rondônia inteira votou em Flávio Bolsonaro – e nem por isso o estado é um Paraíso. Dizer que a Bahia é o câncer do Brasil é um atalho mental idêntico ao que os petistas tanto usam na guerra fratricida que vêm promovendo desde sempre. Esse é o país que você quer para seus filhos e netos? Nem eu.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/polzonoff/bahia/

Entra eleição, sai eleição, e as pesquisas continuam errando

Muita gente está preocupada com as pesquisas de opinião que erraram feio. Eu já mostrei aqui a primeira página da Folha de S.Paulo no domingo, dia da eleição, com manchete gigantesca mostrando que Lula estava na frente de Flávio Bolsonaro por 45% a 42%, segundo o Datafolha. Errou por cinco pontos percentuais, bem mais que a margem de erro de dois pontos. Nikolas Ferreira está sugerindo uma CPI para examinar por que tão poucos acertaram o resultado. De fato, se houver pesquisa muito bem paga, feita para influenciar o eleitor, é preciso investigar. Mas a resposta que todos já podem dar é não confiar nos institutos que erraram, ou por má intenção ou por incompetência.
Um amigo escocês que mora no Brasil e acompanha as coisas do Reino Unido e daqui me disse: “No Reino Unido, desde o início do século, a direita e a centro-direita estão se afastando dessas agências de pesquisa, porque é melhor dar uma surpresa na urna. Evitam, ou dão uma informação errada, porque temem até que as pesquisas ponham o resultado inverso. Há também a pressão da mídia de esquerda e, sobretudo, a pressão do ódio”. Recentemente uma pessoa foi acusada de planejar um ataque contra um político de direita britânico – a mesma pessoa acusada de ter assassinado uma ex-deputada também de direita. No Brasil, tentaram matar Jair Bolsonaro. Nos Estados Unidos, tentaram matar Donald Trump. Há muitas passeatas de muçulmanos contra Israel em vários países.
A difusão do ódio é muito grande, e a imprensa ajuda – por exemplo, quando praticamente não usa “direita”; qualquer coisa que não esteja à esquerda do centro é chamada de “extrema direita”. Quem diz isso nem sabe o que seja “extrema direita”. Mas “extrema esquerda”, isso não existe: podem até querem varrer Israel do mapa, e nem assim serão chamados de “extrema esquerda”.
Faça contas e não caia em teorias da conspiração
Continuo a ver nas redes sociais gente questionando como Flávio não teve a mesma quantidade de votos que os senadores do PL. Calma lá! São vários senadores e um Flávio: o eleitor deu um voto para Flávio, um voto para um senador e outro voto para outro senador. A mesma pessoa, portanto, pode dar um voto a Flávio e dois votos para senadores do PL. E ainda botam deputados no meio da história, fazem uma mistura com os porcentuais. O mesmo porcentual, em um estado com 3 milhões de eleitores, significa algo muito diferente em um estado com 30 milhões de eleitores. Há uma grande distância entre 100% de 30 milhões e 100% de 3 milhões. Vamos voltar à aritmética e às médias ponderadas que aprendemos na escola, para não cair nessa.
Luiza Erundina se torna a deputada mais idosa do Brasil
Eu tenho falado aqui de candidatos que foram eleitos e outros que ficaram de fora. Lembram da Luiza Erundina, que era do PT e foi prefeita de São Paulo? Ela teve 169 mil votos, foi eleita em 13.º lugar para a Assembleia Legislativa de São Paulo, será deputada estadual aos 91 anos. Também foi em São Paulo que José Dirceu, grande pensador do PT, não foi eleito deputado federal. A ex-presidente do PT Gleisi Hoffmann também não se elegeu no Paraná.
Fusão no setor de mídia coloca gigante nas mãos de herdeiro da Oracle
Temos novidades na mídia. Anotem esse nome: David Ellison, 43 anos, herdeiro da Oracle, piloto, ex-artista. É o CEO da Paramount Skydance, que assumiu a Warner, formando um grupo que inclui HBO, CNN e CBS. E ele é amigo de dois líderes políticos que vocês conhecem: Benjamin Netanyahu e Donald Trump.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/erros-pesquisas-intencao-voto/

Sem anistia para Moraes: para o Brasil ser pacificado, ministro tem que sair

A CNN Brasil revelou nesta segunda-feira que uma ala do STF já estaria buscando um acordo político com o bolsonarismo, assustada com a bancada que a direita vai ter no Senado a partir de fevereiro. A conta é simples: a bancada pró-impeachment chega a 49 votos, faltando só cinco para os 54 necessários para tirar um ministro da Corte. E o recado que circula nos bastidores é claro – poupar os ministros em troca da revisão da prisão de Jair Bolsonaro e da anistia unânime aos condenados do 8 de janeiro.
O PL já rejeitou qualquer “acordão”. E fez bem. Porque anistia negociada não é anistia – é chantagem institucionalizada. É o Supremo usando a prisão de um ex-presidente como moeda de troca para blindar ministros investigados. Quem aceita esse negócio não está fazendo política; está vendendo a democracia a preço de banana.
Rogério Marinho foi direto ao ponto. Ele disse que, se for presidente do Senado, vai mudar o rito: “Se 49 senadores assinarem um pedido de cassação, a abertura do processo será automática”. E completou: “Não quero ser como Alexandre de Moraes, que acusa e julga. Quero me colocar no papel de magistrado. Se os elementos de prova me convencerem, votarei favorável ao afastamento em definitivo do ministro processado”.
A democracia brasileira não sobrevive com um ministro que decide eleição por conveniência, que presta consultoria a banqueiro ladrão, que censura opositores e que se acha acima de qualquer apuração
É isso. Não é vingança, não é radicalismo – é o Senado fazendo o que a Constituição manda. Marinho também lembrou o recado que deu a Gilmar Mendes: “Não queremos vingança. Queremos que a Constituição seja respeitada.” Ninguém pode estar acima da lei, ponto final. Marinho adota tom sereno, mas com conteúdo firme. Será um bom presidente do Senado. Davi Alcolumbre não deixará saudades.
Valdemar Costa Neto, presidente do PL, disse em entrevista que a prioridade é tocar o país para frente, não “incendiar o Brasil”. De fato, ninguém quer espalhar clima de vingança generalizada e o povo tem pressa, quer prosperidade, segurança, tudo aquilo que o PT lhe tirou. Mas todo cuidado é pouco: falta a Valdemar, investigado pelo sistema, a coragem de defender o que deve ser feito. Moraes precisa ser investigado. Isso é parte de “tocar o país para frente”. Nenhuma democracia está a salvo com um ministro desses permanecendo no STF.
E aqui entra o detalhe que ninguém quer enxergar. Michel Temer, o homem que indicou Alexandre de Moraes ao STF em 2017, declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno. A CNN aponta Temer como possível intermediário do acordo. Coincidência? Talvez. Mas aquele que criou o monstro agora quer negociar em seu nome – e isso cheira a tentativa de salvar o próprio legado, não a interesse republicano.
A democracia brasileira não sobrevive com um ministro que decide eleição por conveniência, que presta consultoria a banqueiro ladrão, que censura opositores e que se acha acima de qualquer apuração. O caso Vorcaro não é detalhe – são mais de 50 conversas, um contrato de R$ 129 milhões com o escritório da mulher do ministro, e uma perícia da PF que identificou o próprio Moraes como interlocutor. Isso não se anistia. Isso se investiga. E se pune, caso comprovada a culpa.
Recuar agora seria um erro histórico. A bancada está montada, as provas estão na mesa, e o povo acabou de votar contra o ativismo judicial. Moraes foi o maior cabo eleitoral de Flávio e o maior derrotado nas urnas no domingo – mais até do que Lula. Se o STF teme o impeachment, que resolva internamente – afastando quem manchou a toga. Mas o Congresso não pode trocar a Constituição por um acordo de bastidor.
Talvez tentando já contemporizar, Moraes autorizou o semiaberto para a Débora do batom, condenada a vários anos de prisão pelo 8 de janeiro, pelo “terrível crime” de escrever uma frase na estátua da Justiça com seu batom. A frase era problemática sim: dita pelo ministro Barroso! “Perdeu, mané”, no batom da Débora, não é nada demais; na boca de Barroso, é confissão de crime. Moraes acha que vai se safar com gestos assim? É pouco demais, tarde demais. O senador eleito pelo Novo, Marcel van Hattem, está certo: não queremos impeachment apenas, mas a prisão de Moraes!
Para o Brasil ser pacificado, Moraes tem que sair e, de preferência, ser preso, pagar por seus inúmeros crimes que destruíram famílias inteiras. Sem anistia. Sem blindagem. Sem medo. Sem acordão.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/sem-anistia-para-moraes-para-o-brasil-ser-pacificado-ministro-tem-que-sair/
Lulistas do STF afirmam nos bastidores que não ‘aceitam’ indulto para Bolsonaro

Flávio Bolsonaro (PL) talvez tenha de esperar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para devolver o próprio pai à liberdade. Ministros “lulistas” apostam no enfrentamento. Eles juram a interlocutores que se Flávio for eleito e indultar Jair Bolsonaro, isso seria rejeitado pela Corte. A alegação é a “jurisprudência”: o STF anulou o perdão a Daniel Silveira, apesar de a Constituição conferir ao presidente a prerrogativa de concedê-lo, e reiterou isso no caso do 8 de Janeiro.
Zero acordo
A disposição de afrontar o eventual presidente Flávio Bolsonaro desfaz a impressão de tentativa de “acordão político” que circulou ontem.
Raiva no coração
Ao ameaçarem eventual indulto ou graça presidencial a Bolsonaro, os lulistas do STF sobem nas tamancas, excitados, relata uma das fontes.
Já foi dito
Quando não se ousava contestar Alexandre de Moraes, outros ministros que achavam imperdoáveis supostos crimes do 8/Jan mudaram de ideia.
No passado
Para Moraes não há anistia em “crime contra o Estado Democrático de Direito”, mas ministros já avaliam que essa acusação não se sustenta.
Ataque terrorista de 7 de outubro em Israel jamais será esquecido

Em 7 de outubro de 2023, o ataque do Hamas a Israel matou cerca de 1.200 pessoas e levou 251 para Gaza como reféns. Entre elas havia crianças, jovens, mulheres, idosos, famílias inteiras, moradores de comunidades próximas à fronteira, soldados e participantes de um festival de música. Dos levados para Gaza, 209 foram sequestrados vivos. Dezenas morreram em cativeiro; pelo menos seis foram mortos por seus captores. Cada número guarda um nome, uma voz, uma mesa que ficou vazia e uma família obrigada a aprender a viver com a ausência.
Hoje, a memória se volta a essas vítimas e a todos os que sobreviveram carregando feridas que não aparecem em fotografias: o medo que retorna, o sono interrompido, a culpa de ter sobrevivido, a espera por alguém que não voltou. Lembramos também os familiares, cuja dor não terminou quando cessaram as notícias. Para eles, o tempo passa sem apagar o dia em que o mundo se partiu.
Essa memória também alcança outras vidas atingidas pela violência: israelenses e palestinos que perderam parentes, casas, segurança e futuro; ucranianos sob a guerra; sudaneses expulsos de suas cidades pelo conflito e pela fome; populações da República Democrática do Congo, de Mianmar, do Haiti, do Iêmen, da Síria, do Afeganistão e do Sahel, submetidas à guerra, à perseguição, ao terror e ao deslocamento. Lembramos ainda as vítimas de violências que raramente ocupam as manchetes e aquelas cuja dor se tornou tão frequente que parece ter desaparecido do noticiário.
Há também vidas sacrificadas sem uma explosão ou um ataque anunciado: pessoas submetidas à fome e à pobreza, famílias sem acesso a moradia, água, educação e cuidados de saúde; refugiados que atravessam fronteiras levando tudo o que lhes resta; migrantes explorados ou abandonados pelo caminho; crianças privadas da infância; mulheres submetidas à violência; idosos deixados à própria sorte; povos discriminados; pessoas sem proteção ou sem lugar seguro para existir. Algumas dessas mortes são imediatas. Outras acontecem lentamente, no abandono, na indiferença e na injustiça.
Recordar as vítimas de 7 de outubro não exige esquecer nenhuma outra vítima. A dor humana não precisa disputar espaço, e a compaixão não diminui quando alcança mais pessoas. Cada povo tem direito à memória de seus mortos; cada família, ao luto; cada sobrevivente, à dignidade e à possibilidade de reconstruir a vida.
O verdadeiro humanismo não escolhe quem merece ser chorado. A verdadeira empatia não pergunta de que território, religião, nacionalidade, raça, cor, gênero, origem ou condição social vem a vítima. Reconhece, em cada pessoa ferida ou perdida, alguém cuja vida tinha valor antes de se tornar estatística — e continua a ter depois que o mundo desvia os olhos.
David Gertner, Ph.D. – Escritor e ensaísta.
Observadores da OEA avaliam que STF e TSE geraram incerteza na campanha

A missão de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) afirmou nesta terça-feira (6) que decisões monocráticas de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) geraram “incerteza e confusão” durante a campanha. O relatório preliminar também avalia que a votação foi organizada e classifica o sistema eletrônico brasileiro como “exemplo de excelência eleitoral para a região e para o mundo”.
O documento registra relatos de que algumas decisões podem “afetar a equidade em alguns momentos da disputa” e defende “máxima segurança jurídica” para o segundo turno. Segundo o relatório, atores políticos ouvidos pelos observadores manifestaram preocupação com o que classificaram como “ativismo ou um protagonismo judicial que colocou os ministros de ambos os tribunais no centro da campanha eleitoral”.
Entre os exemplos, a OEA citou decisões sobre regras de combate à desinformação e divergências sobre a participação do candidato Renan Santos (Missão) no debate da TV Globo. De acordo com a missão, esses episódios introduziram “distorções no desenrolar natural da campanha e condições de incerteza jurídica para os atores do processo”.
Divergência entre STF e TSE
O relatório menciona ainda a divergência entre as duas cortes e cita o ofício enviado pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, ao presidente do STF, Edson Fachin. O documento foi encaminhado em 28 de setembro, depois que o ministro Flávio Dino, do STF, suspendeu uma decisão de André Mendonça tomada no TSE. A decisão de Mendonça havia determinado a remoção de publicações sobre Flávio Bolsonaro (PL) e Nossa Senhora Aparecida.
No ofício, Nunes Marques alertou para um “risco de captura institucional” do TSE e manifestou “preocupação com episódios reiterados de indevida sobreposição de competência e de violação ao juiz natural”.
Caso Dallagnol
A OEA destacou também a candidatura de Deltan Dallagnol (Novo) ao Senado pelo Paraná. Na noite anterior à eleição, o ministro Floriano de Azevedo Marques negou o registro da chapa e determinou que os votos eventualmente recebidos fossem considerados nulos. Poucas horas antes da abertura das urnas, Nunes Marques suspendeu os efeitos da decisão e determinou a contabilização dos votos até uma manifestação definitiva do plenário.
Avaliação da votação
Apesar das críticas à atuação judicial, a missão fez uma avaliação positiva da organização do pleito. Segundo a OEA, o TSE e os tribunais regionais demonstraram “importante capacidade técnica, logística e organizacional”. O relatório destaca que todas as 517.179 seções eleitorais instaladas no Brasil e no exterior abriram no dia da votação.
Sobre o sistema eletrônico, a missão afirmou que a rapidez da apuração fortalece a transparência e a confiança no processo.
A OEA é uma das sete missões internacionais que acompanham oficialmente as eleições. O grupo atua no país a convite do TSE e é o maior já enviado pela organização ao Brasil, com 91 observadores de 23 nacionalidades.
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