Como o novo Senado de maioria conservadora vai transformar o STF

Michelle Bolsonaro e Alexandre de Moraes: a vitória da direita no Senado terá influência sobre quem vai ocupar as próximas vagas no STF (Foto: André Borges/EFE)

O impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal marcou a campanha para o Senado e continua sendo assunto após a eleição de domingo (4). Mas a maioria conservadora que venceu nas urnas pode mudar a Corte mesmo sem tirar ninguém de lá — e, numa virada histórica, definir seus rumos por décadas.

Nos próximos quatro anos, três ministros terão de deixar o STF ao completar 75 anos. Luiz Fux sai em abril de 2028 e Cármen Lúcia, no mesmo mês do ano seguinte. Gilmar Mendes fica até dezembro de 2030, quase na passagem de um governo para outro (seu sucessor será escolhido nessa reta final ou no mandato seguinte).

Há ainda uma cadeira vazia: a de Luís Roberto Barroso, que segue sem substituto após a rejeição de Jorge Messias. Lula ainda tem tempo para preencher essa vaga neste ano, mas as chances de conseguir o aval do Senado são consideradas muito baixas.

É aí que os senadores entram em cena. O presidente diz quem quer no Supremo, mas eles têm a palavra final. Para aprovar um ministro, bastam 41 votos. E a direita saiu da eleição com mais da metade das 81 cadeiras no Senado.

Ou seja: se votar unido, o bloco conservador terá o número necessário para aprovar nomes conservadores indicados por Flávio Bolsonaro ou barrar os de Lula, dependendo de quem vencer o segundo turno.

Menos motivos para culpar o Congresso

Se Flávio Bolsonaro (PL) sair vitorioso, vai encontrar um Senado mais disposto a aceitar ministros alinhados ao eleitorado conservador. Ele também terá mais liberdade para indicar nomes para o STF — e menos motivos para culpar o Congresso se suas escolhas irritarem os apoiadores.

Vale lembrar que seu pai enfrentou essa cobrança em 2020, quando indicou Kassio Nunes Marques. Parte da base queria alguém mais identificado com as posições do chamado “bolsonarismo ideológico”. Kassio, no entanto, tinha o apoio de lideranças do Centrão e um caminho mais tranquilo para conseguir a aprovação do Senado.

Na época, Jair Bolsonaro defendeu o nome de Kassio, mas também destacou que uma indicação precisava passar pelo crivo dos senadores — e citou Sergio Moro como exemplo. “Vocês queriam o Moro para o Supremo, não era isso? (…) Será que ele vai ser aprovado no Senado?”, perguntou numa live de outubro daquele ano.

Alcolumbre “totalmente descartado”

Com quatro novos ministros conservadores, André Mendonça teria aliados para formar um grupo de cinco entre os onze integrantes do STF. Ainda não seria maioria, mas posições hoje minoritárias ganhariam mais força no tribunal.

Já o impeachment passa, antes de tudo, pela eleição de um presidente do Senado que dê andamento aos pedidos (hoje, Davi Alcolumbre mantém mais de cem deles sem avançar). No entanto, com a nova maioria eleita, o PL larga como favorito para assumir o comando da Casa em 2027.

O presidente do partido, Valdemar Costa Neto, anunciou no domingo (4) que vai trabalhar para eleger Rogério Marinho (PL-RN), buscando o apoio de PP, União Brasil e Republicanos. Alcolumbre, segundo ele, está “totalmente descartado”.

Mas Valdemar também afirmou que, para colocar Marinho na presidência do Senado, a legenda deve primeiro levar Flávio ao Planalto, porque o presidente da República tem grande influência nessa disputa.

Mesmo com Rogério Marinho na presidência, será preciso reunir os 54 votos necessários para afastar um ministro STF. A futura bancada pró-impeachment deve superar 45 integrantes e até pode chegar lá se conquistar novos apoios. Mas, para mudar o Supremo de verdade e de forma duradoura, essa maioria não precisa derrubar juízes. Basta decidir quem entra.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/como-novo-senado-maioria-conservadora-vai-transformar-stf/

Vitória da direita no Senado não é motivo para baixar a guarda

Candidatos conservadores e de direita conseguiram uma vitória expressiva nas disputas para o Senado neste domingo, e Lula saiu em desvantagem na corrida para o segundo turno da eleição presidencial. São boas notícias, mas que não podem servir para que o brasileiro baixe a guarda. Ainda há três semanas até a definição final, e ao longo desse período o PT pode “fazer o diabo”, nas célebres palavras de Dilma Rousseff. O presidente da Gazeta do Povo, Guilherme Cunha Pereira, lembra que apenas a vigilância constante e a mobilização firme podem impedir interferências que calem a voz do eleitor e nos levem a mais quatro anos de ataques às liberdades e garantias democráticas.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/vitoria-direita-senado-segundo-turno-lula-pt-stf/

Sílvio Ribas

Vitoria histórica da direita nas urnas acua o STF e consagra Jair Bolsonaro

Então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, chora durante convenção do PL de 2022. (Foto: André Coelho (EPA) EFE)

A direita obteve duas conquistas históricas nas urnas deste domingo (4):  vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições 2026 e força parlamentar capaz de conter o Supremo Tribunal Federal (STF). Além da revanche de Jair Bolsonaro na eleição de 2022, ganhou poder sobre a agenda nacional, seja lá quem for o escolhido em 25 de outubro para ser presidente.

O trunfo conservador mais contundente está no Senado. O PL elegeu 19 senadores e deverá iniciar a próxima legislatura com 28 integrantes, a maior bancada partidária em início de legislatura desde 1988. Com ao menos 49 senadores favoráveis a processos de impeachment, faltariam cinco dos 54 para condenação por crime de responsabilidade e julgamento pelo Senado.

Em junho de 2025, em ato político na Avenida Paulista, Bolsonaro defendeu a conquista de metade da Câmara e do Senado como meio para mudar o país, mesmo estando fora do Palácio do Planalto. O Congresso renovado de 2027 condicionará a Presidência da República, filtrará as indicações ao STF e deliberará reformas estruturais para barrar de vez os excessos do Judiciário.

Mesmo preso e absolutamente silenciado, Bolsonaro elegeu centenas de aliados e pôs o primogênito às portas da Presidência, a esposa e outro filho no Senado, e mais um na Câmara. Somadas às vitórias de governadores já no primeiro turno, esses fatos mostram que nem a mais dura restrição a um político brasileiro conseguiu conter o seu capital político e eleitoral.

Direita avança com governadores eleitos e deputados campeões de voto

Flávio chega à etapa decisiva com vantagem pequena, mas acompanhada de saldos estaduais favoráveis e perspectiva de absorver o restante de votos da terceira via. A eleição de governadores ainda no primeiro turno, tais como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Cleitinho (Republicanos-MG) e Sergio Moro (PL-PR), cria palanques estratégicos para a mobilização presidencial.

Na Câmara, Nikolas Ferreira (MG) e Lucas Pavanato (SP), eleitos pelo PL, personificam a conversão de influência digital em votos, cada um com os seus recordes acima de 3 milhões de votos. O desempenho confirma a internet como espaço central de mobilização e liderança. A chegada deles e de outros ao Congresso impõe pressão por profunda mudança no Judiciário.

A história favorece Flávio. Desde a redemocratização, nenhum vencedor do primeiro turno perdeu o segundo. A campanha promove uma reunião com aliados e eleitos para mostrar capacidade de governar, numa estratégia que procura associar a perspectiva de vitória à formação de maioria robusta no Congresso. Lula, por sua vez, não tem de onde tirar votos de esquerda.

Entre os derrotados, Ronaldo Caiado (União-GO) preservou base estadual, elegendo o sucessor ao governo Daniel Vilela (MDB) e a esposa Gracinha Caiado (União) conquistou cadeira no Senado. Romeu Zema (Novo-MG), em contraste, terminou a corrida presidencial com só 0,27%, sinal de que o confronto com Flávio lhe custou votos. O seu partido, contudo, se alargou.

Derrotas de aliados expõem limites de Lula e inviabilizam a frente de 2022

Os célebres derrotados da esquerda evidenciam sérias dificuldades para Lula. Gleisi Hoffmann (PT-PR), Randolfe Rodrigues (PT-AP), Simone Tebet (PSB-SP), Marina Silva (Rede-SP), Soraya Thronicke (PSB-MS) e Manuela D’Ávila (Psol-RS) ficaram de fora do Senado. Com menos de 80 mil votos, José Dirceu (PT-SP) não voltou para a Câmara e frustrou expectativas altas.

Os resultados reforçam o avanço da direita e da centro-direita desde a eleição municipal. Já as derrotas de Ciro Nogueira (PP-PI) e Renan Calheiros (MDB-AL) indicam renovação maior de personagens. Na contramão do painel nacional, o Nordeste segue essencial à competitividade petista, com o Ceará e a Bahia se confirmando como redutos absolutos para Lula e a esquerda.

Nos governos estaduais, as derrotas de Patrus Ananias (PT) em Minas Gerais, e João Campos (PSB) em Pernambuco, mostram prejuízos do apoio de Lula. Para Campos, visto como líder da esquerda no pós-lulismo, o revés interrompe trajetória de ascensão. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD) terminou atrás de Douglas Ruas (PL), expondo a fragilidade do presidente.

Os presidentes do Congresso também sofreram reveses. No Amapá, o grupo do senador Davi Alcolumbre (União) perdeu o governo para Antônio Furlan (PSD) e viu Rayssa Furlan (Podemos) conquistar uma cadeira no Senado. Na Paraíba, Nabor Wanderley (Republicanos), pai do deputado Hugo Motta (Republicanos), não se elegeu senador. O apoio de Lula deu efeito contrário.

Urnas já projetam novos comandos de Câmara e Senado e reforma do STF

A força da direita nas urnas projeta novos comandos no Congresso e amplia a pressão por reformas e limites ao STF. Rogério Marinho (PL-RN) desponta para presidir o Senado, enquanto a votação de Nikolas Ferreira reforça o seu peso na Câmara e o seu desejo de comandá-la. Intervenções dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes, do STF, na eleição deram mais força ao campo conservador.

Lula chega ao segundo turno distante da frente ampla de 2022, enquanto Flávio Bolsonaro tenta converter força eleitoral em adesões. União Brasil e PP estão no alvo, mas eventual apoio estará condicionado a negociações de bastidor. Fortalecido pelo PL, o seu presidente, Valdemar Costa Neto, ganha protagonismo em negociações, tanto antes quanto após o segundo turno.

O apelo ao voto útil favoreceu a concentração de poder na direita, que explorou os temas nacionais de economia, segurança, corrupção e rejeição ao governo. A eleição ganhou caráter de julgamento de Lula, agora prestes a se aposentar e encerrar um ciclo de décadas. Na esquerda, sinais locais de avanço do PSOL sobre o PT antecipam cenários posteriores ao lulopetismo.

Se reeleito, Lula enfrentará um Congresso bem mais hostil e maior pressão por reformas institucionais. O cenário fortalece a direita, podendo levar até a um desfecho para o petista como o de Dilma Rousseff (PT), que foi afastada da Presidência pela crise econômica que provocou, impopularidade e falta de apoio parlamentar. Nem mesmo a parceria com o STF poderia salvá-lo.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/silvio-ribas/vitoria-historica-da-direita-nas-urnas-acua-o-stf-e-consagra-jair-bolsonaro/

Com Flávio à frente, Bolsa bate recorde e dólar cai. Mercado vê momento com otimismo

Analistas veem com otimismo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, que coloca Flávio Bolsonaro (PL) como favorito na corrida presidencial (Foto: Andre Borges/EFE)

O desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da disputa presidencial neste domingo (4) animou analistas do mercado financeiro, que veem na eventual eleição do senador a chance de um governo mais responsável na área fiscal e mais favorável ao mercado.

Com 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio surpreendeu a maior parte das pesquisas de intenção de voto, que colocavam Lula à frente numericamente, ainda que em empate técnico.

No pregão desta segunda-feira (5), primeiro após o resultado, o Ibovespa, que reúne as principais ações negociadas em bolsa no Brasil, atingiu a máxima histórica de 209.605 pontos, alta superior a 9%, ainda na primeira hora de negociação.

No fechamento diário, o avanço consolidado foi de 7,7%, aos 206.912 pontos.

O dólar comercial, por sua vez, recuou mais de 5% em relação ao real por volta de 10h40 e chegou a ser cotado a R$ 4,953. Ao fim do dia, fechou cotado a R$ 5,001, uma queda de 4,13%.

Os números refletem um otimismo do mercado com a possibilidade de eleição de Flávio Bolsonaro, que chega ao segundo turno como favorito. A essa expectativa, soma-se ainda a composição do Congresso, que, com os deputados federais e senadores eleitos no domingo (4), reforça uma guinada política mais à direita.

“Isso de fato cria uma nova expectativa no mercado financeiro, principalmente pelas possibilidades que se abrem em decorrência de uma maior austeridade fiscal do governo para os próximos anos, a depender da equipe econômica que ele vai ter junto consigo”, diz Gustavo Budziak, CFO da Quartzo Capital.

O analista explica que, embora Flávio não tenha experiência no Executivo, a expectativa é formada com base na experiência do governo de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que apresentou uma política econômica de maior austeridade fiscal.

“Quando o Lula estava na frente, não se via possibilidade de austeridade fiscal, de redução de taxas de juros futuras, ou seja, continuava tudo como antes. Quando eu vejo o Flávio na dianteira, vejo que pode-se desfazer um caminho inteiro pela frente, ou seja, destravar a política fiscal, que reduz taxa de juros, que incentiva o crescimento econômico, que, por sua vez, vai fazer com que o Brasil tenha maior fluxo de capitais internos e externos, assim como das operações bancárias que hoje estão atreladas ao dólar”.

A percepção é a mesma entre analistas internacionais. “O resultado aumenta a probabilidade de uma orientação política mais favorável ao mercado, baseada na consolidação fiscal, na reforma econômica e em um alinhamento mais estreito com os EUA”, avalia o dinamarquês Thomas Haugaard, gerente de portfólio na Janus Henderson Investors, gestora global de fundos.

“O impacto imediato é claramente favorável aos ativos brasileiros, refletindo a maior probabilidade de consolidação fiscal e reformas estruturais”, completa.

Apesar disso, Budziak considera que a confirmação das expectativas do mercado ainda dependerá do que de fato a equipe econômica de um eventual governo Flávio Bolsonaro conseguirá entregar.

Eleição no Congresso também contribui para otimismo do mercado

O PL tornou-se o maior partido individual no Senado e deve ser o maior bloco na Câmara, enquanto a direita e a centro-direita em geral fortaleceram sua posição legislativa.

“Isso deve facilitar a formação de coalizões e a governabilidade sob a presidência de [Flávio] Bolsonaro, embora o sistema congressional fragmentado e transacional do Brasil continue sendo uma importante restrição”, diz o economista da Janus Henderson.

Haugaard comenta, por outro lado, que propostas fiscais detalhadas continuam limitadas, e nenhuma das campanhas forneceu, até o momento, clareza suficiente sobre o ritmo, a composição ou a implementação política do ajuste.

Para ele, há um forte potencial para o Brasil estabilizar sua classificação de crédito no caso de uma vitória de Flávio.

Budziak, da Quartzo Capital, explica que, se eventualmente Lula vencer o segundo turno das eleições, terá “uma enorme” dificuldade para governar. “Ele vai ter que fazer uma composição que vai tornar o Brasil ingovernável”.

“O Flávio ganhando, de fato ele vai conseguir destravar uma série de pautas econômicas, porque terá o apoio do Congresso Nacional para isso. Então ele tem muito mais facilidade em transitar qualquer tipo de reforma que ele queira ou de modificar alguma reforma que eventualmente já estava pautada.”

Eleição de Flávio pode favorecer queda mais forte na Selic, dizem analistas

Analistas do mercado vislumbram ainda a possibilidade de uma redução mais agressiva na taxa básica de juros pelo Banco Central (BC), a depender da confirmação de uma política fiscal mais austera do próximo governo.

A mediana de expectativas antes do primeiro turno era de uma Selic ao fim de 2027 na faixa dos 12%, de acordo com o relatório Focus, divulgado pelo BC nesta segunda-feira (5), com base em projeções de instituições financeiras até sexta-feira (2).

“Eu manteria viés de queda para a Selic e, neste momento, trabalharia com algo próximo de 11,5% no fim de 2027, abaixo dos 12% do consenso, mas condicionado às sinalizações fiscais após o segundo turno”, diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Para Lima, a nova composição do Congresso pode favorecer uma agenda de controle de gastos, mas não garante ajuste por si só. “Nenhuma força tem maioria suficiente para impor sozinha mudanças relevantes”, pondera.

Fluxo de investimento em empresas deve crescer, diz analista

Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, explica que uma Selic de 12% com uma variação do Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 1,41%, como projetava o mercado até sexta-feira, é uma combinação que mantém o investidor bem remunerado em ativos de baixo risco.

“Se o pós-eleição reduzir a percepção de risco e permitir que a Selic termine 2027 perto de 11% a 11,5%, começa a mudar a relação entre risco e retorno para quem investe em empresas de crescimento”, ressalta. “O efeito pode aparecer antes na avaliação das empresas do que na economia real.”

“Imagine uma startup projetando gerar R$ 20 milhões de caixa daqui a cinco anos. Se a taxa usada pelo investidor para descontar esse valor cair de 20% para 18%, o valor presente desse mesmo fluxo sobe de aproximadamente R$ 8 milhões para R$ 8,7 milhões, quase 9%. Não significa que valuations subirão automaticamente 9%, mas mostra por que custo de capital é decisivo para venture capital [capital de risco]”

Segundo ele, o Congresso entra nessa conta porque estabilidade fiscal melhora a visibilidade de longo prazo. “Se 2027 combinar juros menores, mercado de capitais mais funcional e reabertura de M&A [fusões e aquisições], o ciclo pode melhorar antes mesmo de o PIB ganhar muita velocidade.”

BTG projeta valorização de até 45% em ações brasileiras

Analistas do BTG Pactual também consideram que uma vitória de Flávio no segundo turno deve gerar uma expectativa no mercado financeiro por “medidas mais decisivas para enfrentar os urgentes desequilíbrios fiscais do país, desencadeando uma alta”.

“Em nossa visão, caso [Flávio] Bolsonaro vença o segundo turno, as ações brasileiras poderiam retornar rapidamente à sua média histórica de 10 anos, o que implica um potencial de valorização entre 11% e 20% em reais”, diz trecho de relatório assinado pelos analistas Carlos Siqueira, Osni Carfi e Bruno Ferreira.

“Se o Ibovespa atingir um nível de um desvio padrão acima da média — cenário bastante possível —, a valorização poderia variar de 32% a 45%. Além disso, espera-se uma valorização do real, o que ampliaria os ganhos em dólares”.

Setores como varejo, incorporadoras de médio e alto padrão, empresas do mercado de capitais e companhias devem apresentar desempenho significativamente superior, segundo os analistas.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/economia/eleicao-flavio-bolsonaro-juros-investimentos-analistas/

Ao julgar Dallagnol, TSE precisa respeitar os fatos e a vontade do eleitor

Deltan Dallagnol ficou em segundo lugar na eleição para o Senado pelo Paraná. (Foto: ChatGPT sobre foto de Campanha Novo PR)

Dos nomes da “onda de direita” que levou o Senado no domingo, um deles ainda não terminou sua luta para chegar ao cargo. Deltan Dallagnol conseguiu 2,9 milhões de votos no Paraná, levando a segunda vaga em disputa, mas ainda enfrenta as tentativas torpes de cassação do seu registro de candidatura, com alegações que já eram fantasiosas em 2023, quando o Tribunal Superior Eleitoral lhe tirou o mandato de deputado federal, e o são ainda mais hoje. Seu caso ainda está no TSE, que, espera-se, conserve a voz desses quase 3 milhões de eleitores e reconheça os fatos que atestam a elegibilidade do ex-procurador da Lava Jato.

O jogo sujo e pesado não parou nem mesmo na véspera do pleito. Na noite de sábado, faltando cerca de 12 horas para a abertura das urnas, o ministro Floriano de Azevedo Marques, indicado ao TSE por Lula com o apoio de Alexandre de Moraes, decidiu monocraticamente que deveriam ser considerados “nulos para todos os fins os votos atribuídos” a Dallagnol, e que deveria ocorrer a “imediata modificação do status do candidato para INDEFERIDO”. Era uma medida mais extrema até mesmo que a solicitada pelos petistas ao ministro Gilmar Mendes, do STF (e que não faz parte do TSE), em nova tentativa canhestra de fazer o Supremo interferir na disputa eleitoral, pois o que se pedia ali era que a candidatura de Dallagnol fosse considerada “indeferida com recurso” – Gilmar acabou não tomando decisão nenhuma no caso.

O plenário do TSE, quando analisar o registro da candidatura de Dallagnol, precisa colocar um fim às interferências descabidas que são um tapa no rosto do eleitor

A diferença importa. Uma anulação pura e simples equivaleria a uma renúncia do candidato: os votos dados a Dallagnol seriam levados à vala comum de todos os votos nulos e, mesmo se o plenário do TSE revertesse posteriormente a decisão monocrática de Azevedo Marques, não haveria como restabelecer a votação dada ao candidato. Já um “indeferimento com recurso”, com os votos sendo considerados “anulados sub júdice”, daria a vaga a Dallagnol caso ele terminasse entre os dois mais votados e vencesse no plenário da corte eleitoral. Felizmente, na madrugada de domingo, antes do início da votação, o presidente do TSE, Nunes Marques, derrubou a decisão de Azevedo Marques e ordenou que o registro de Dallagnol voltasse à condição de “deferido com recurso”, e os votos recebidos por ele fossem computados normalmente.

É preciso questionar: a quem interessava uma decisão individual, tomada poucas horas antes da eleição, sobre um tema cuja análise dentro do TSE estava ocorrendo sem nenhum tipo de lentidão que justificasse o cancelamento monocrático da candidatura de Dallagnol? Uma decisão tomada de forma a não deixar tempo para uma reorganização de forças, que instaurou a confusão entre o eleitorado, e que pareceu feita sob medida para facilitar a eleição de uma candidata do PT que vinha figurando em terceiro lugar na maioria das pesquisas, e que poderia herdar a vaga com Dallagnol fora do páreo – no fim, Gleisi Hoffmann nem sequer conseguiu o terceiro posto, superada por Alexandre Curi.

O plenário do TSE, quando analisar definitivamente o registro da candidatura de Dallagnol, precisa colocar um fim a esse tipo de interferência descabida, que não passa de um tapa no rosto do eleitor. Já expusemos aqui, repetidamente, as razões pelas quais Dallagnol está elegível e não cumpre os critérios de inelegibilidade da Lei da Ficha Limpa – não os cumpria já em 2023, quando seu mandato de deputado lhe foi grotescamente tirado, e menos ainda os cumpre agora. Essas razões foram reconhecidas pelo Tribunal Regional Eleitoral do Paraná que aprovou o registro da candidatura, e também pela Procuradoria-Geral Eleitoral, no parecer que deve embasar o julgamento, ainda sem data para ocorrer. Os fatos são avassaladores a favor do ex-procurador, e só a cegueira – por dolo ou inépcia – explica que se decida de forma contrária.

A suspensão da campanha de Dallagnol, decretada pelo mesmo Azevedo Marques e referendada pelo plenário do TSE, já tinha sido uma violência sem base legal, pois o artigo 16-A da Lei de Eleições afirma que “o candidato cujo registro esteja sub judice poderá efetuar todos os atos relativos à campanha eleitoral”. Ainda assim, e apesar da confusão instaurada pelas ações de Azevedo Marques na véspera da eleição, o povo paranaense deu a Dallagnol uma cadeira no Senado. O in dubio pro suffragio – “na dúvida, em favor do sufrágio” – é um princípio clássico do Direito Eleitoral, que pede o respeito à vontade do eleitor. A bem da verdade, analisando o caso de Dallagnol com honestidade intelectual, nem sequer deveria haver dúvida a respeito da ficha limpa do ex-procurador. Que os ministros tenham consciência disso para agir como os juízes que são, e não como militantes políticos que jamais deveriam ter lugar em um tribunal.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/julgamento-candidatura-deltan-dallagnol-tse/

PL quer Marinho na presidência do Senado, mas impeachment de Moraes “tem que ser discutido”, diz Valdemar

Rogério Marinho atua na coordenação da campanha de Flávio. (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senad)

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, confirmou que o partido lançará a candidatura do senador Rogério Marinho (PL-RN) à Presidência do Senado Federal, mas evitou uma posição mais enfática sobre o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. A fala ocorreu em entrevista à CNN Brasil concedida nesta segunda-feira (5). Na ocasião, ele descartou um apoio ao atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).

“Nosso candidato para a presidência do Senado Federal é o Rogério Marinho. Nós não vamos apoiar o Davi Alcolumbre, porque o Alcolumbre está fechado com o governo. Eles tem os mesmos problemas para resolver e não conseguiram resolver”, afirmou.

O PL foi o partido que mais elegeu senadores, com 19 das 54 vagas em disputa. A bancada passará, pelas projeções, dos 15 integrantes do início de 2026 para 28 em 2027, um ganho de 13 cadeiras, a maior da Casa. A composição ainda pode mudar com suplências, segundo turno de governadores, trocas partidárias ou candidaturas sob análise da Justiça (sub judice).

O posto é considerado estratégico porque cabe ao Senado processar e julgar os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), podendo retirar os magistrados do cargo por meio de impeachment. O principal alvo é o ministro Alexandre de Moraes.

Já há mais de cem pedidos de impeachment protocolados. Cabe ao presidente do Senado pautar cada um deles. Os requerimentos passam inicialmente pela Presidência do Senado, que pode determinar seu prosseguimento ou arquivamento. Alcolumbre tem resistido a dar andamento às iniciativas. Valdemar diz não ter dúvidas de que, caso Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito presidente da República, o partido consiga chefiar a Casa Alta.

“Não tenho dúvida que, com a eleição do Flávio, nós faremos o presidente do Senado”Valdemar Costa Neto, presidente do PL

Valdemar destaca alianças, mas fala em análise sobre impeachment de Moraes

Ao SBT News, o presidente do PL disse que espera o apoio do PP, do União Brasil e do Republicanos na empreitada e reforçou que o resultado do pleito ao Planalto deve pesar nas articulações.

Mesmo assim, Valdemar evitou cravar uma avaliação sobre o impeachment de Moraes. Questionado, ele afirmou que “isso tem que ser discutido”, mas que o ideal seria ter um Judiciário “que se concentrasse só nessa área”.

“Os senadores têm uma autonomia maior, porque os senadores são, é quase como se fosse um governador do estado. Eles têm independência e eles vão discutir esse assunto, e tenho certeza que vão discutir para fazer o que for melhor para o país”, completou.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/pl-quer-marinho-na-presidencia-do-senado-mas-impeachment-de-moraes-tem-que-ser-discutido/#cxrecs_s

Alexandre Garcia

Querem jogar nas costas de Sidônio a culpa pelo resultado ruim de Lula

O marqueteiro Sidônio Palmeira, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, e o presidente Lula, em foto de agosto de 2025. (Foto: André Borges/EFE)

Há um ditado mineiro que diz que “em casa onde falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão”. Isso está acontecendo na campanha de Lula. Ele mesmo confessou que acreditava na vitória no primeiro turno; foi iludido pelas pesquisas. Agora, a cúpula do PT está querendo colocar a culpa em Sidônio Palmeira, que é o marqueteiro de Lula. O sócio de Sidônio tem a conta da publicidade da campanha, e agora acham que foi feito alguma coisa de errado. Mas nós sabemos, a culpa é do próprio Lula: quanto mais ele fala, mais as pessoas ficam horrorizadas. A última foi essa história do toque em meninas.

Estou escrevendo minhas memórias, e estava revendo o debate entre Collor e Lula. Eu mediei o último bloco; o debate foi transmitido por um pool de emissoras de televisão, e havia muitos mediadores, de várias emissoras: Marília Gabriela, Joelmir Beting, Eliakim Araújo. Ouvindo o debate, percebi que o Lula jovem estava articulando as frases melhor que o Lula atual. Acho que ele está sentindo o peso da idade. A culpa é dele, não é do Sidônio.

Lula vai prometer ainda mais benesses para ultrapassar Flávio?

Michel Temer, que já foi vice de Dilma Rousseff, anunciou apoio a Flávio Bolsonaro. Ele já está na frente, os votos dele já estão assegurados. Flávio ainda vai disputar 10 milhões de votos dos outros candidatos que ficaram para trás no primeiro turno, mais os votos de 33 milhões de pessoas que não foram votar, mais os 5 milhões a 6 milhões de pessoas que votaram em branco ou anularam. Lula terá de correr atrás. Não sei se ele ainda vai oferecer mais presentes e benesses em troca de voto. Isso é crime eleitoral, está no artigo 299 do Código Eleitoral, podem conferir: e nem é preciso dar, apenas prometer já é suficiente para ser crime.

Flávio nem ganhou a eleição ainda e o mercado já se animou 

Um sinal que veio da economia foi a disparada da bolsa de valores com a vitória de Flávio no primeiro turno: 8% em apenas um dia é muita coisa. E o dólar despencou; a moeda nacional se valorizou só com a perspectiva de Lula sair da Presidência e voltarmos a ter equilíbrio fiscal, com menos endividamento público, juros que estimulem a economia em vez de desestimular, redução do endividamento das pessoas e das empresas. O dólar caiu 4%, fechou em exatos R$ 5.

A estratégia de Lula sempre foi gastar mais, fazer a economia crescer pelo consumo, pensando que isso faz o país avançar. Não! O que gera crescimento é investimento e produtividade, criar mais riqueza com menos custo. Lula é o oposto disso, porque ele não se importa com custo.

Partidos não deveriam ser financiados com dinheiro público

Fundo Partidário e fundo eleitoral são dinheiro dos nossos impostos, que vai para partidos políticos, inclusive aqueles dos quais não gostamos. Isso é errado; cada partido deve ser sustentado pelos seus filiados e simpatizantes. Neste domingo, vários partidos, a maior parte de esquerda, não alcançaram a cláusula de barreira e já perderam o Fundo Partidário: Psol, Rede, PDT, Avante, Missão e Solidariedade. É muito bom gastar menos dinheiro dos nossos impostos para sustentar partido político. Quiseram fazer isso como forma de evitar que os partidos fossem sustentados por empresas, mas isso era uma opção da empresa, usando dinheiro privado, e não o dinheiro que as pessoas suam para ganhar e depois precisam entregar 30%, 35%, 40% dele para o governo.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/sidonio-palmeira-lula-resultado-primeiro-turno/

Adriano Gianturco

O que dizem os números da eleição

Flávio Bolsonaro (PL) se manifesta depois de resultados do primeiro turno. (Foto: Antonio Lacerda/EFE)

O Brasil acordou nesta segunda-feira com um resultado que as pesquisas não previam. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente de Lula (PT), com cerca de 47,03% dos votos válidos contra 45,16%, diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. O presidente admitiu que contava com a vitória já no primeiro turno, e chamou o desfecho de “inesperado”.

Os números absolutos explicam. Flávio recebeu cerca de 5 milhões de votos a mais que Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022, enquanto Lula perdeu cerca de 3 milhões a 4 milhões de votos. Na leitura por classe econômica, Flávio venceu em todos os estratos, exceto na classe E, onde Lula foi o único vencedor, e o presidente chegou a encostar no adversário na classe A. Lula governa para os miseráveis e para os milionários.

Romeu Zema acabou com menos de 1%. Pesou contra ele o voto útil, já no primeiro turno. E assim ele perdeu uma vaga fácil no Senado. Para onde irão os votos dele, de Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, que juntos somam cerca de 8%? Pesquisas mostram que vão principalmente para Flávio, mais ou menos nessa proporção: 48% dos votos de Zema, 43% dos de Renan (contra 22% para Lula) e 41% dos de Cury (contra 35% para Lula). Renan não apoiará ninguém, pois está pensando no longo prazo.

No segundo turno se aplica o “teorema do eleitor mediano”: vence a disputa majoritária quem conquista o votante mediano, do meio do espectro

No Senado, o PL teve desempenho expressivo: 19 nomes do partido aparecem entre os eleitos, como Michelle Bolsonaro e Bia Kicis (DF), Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni (SC) e Carlos Portinho e Carlos Jordy (RJ). Talvez agora a direita terá a força para um impeachment de juiz do STF.

A direita unida vence. As dobradinhas mostraram isso no Distrito, no Rio Grande do Sul (Ubiratan Sanderson e Marcel van Hattem), no Maranhão, no Rio de Janeiro (com Carlos Portinho e Carlos Jordy), no Mato Grosso do Sul, em Rondônia, em Santa Catarina (Carol de Toni e Carlos Bolsonaro), no Paraná (Filipe Barros e Deltan Dallagnol), em Goiás e no Mato Grosso.

O país, como sempre, está dividido. Flávio venceu em todos os estados do Centro-Oeste, do Sul e do Sudeste; perdeu todos os do Nordeste; e levou quatro estados do Norte, contra três para Lula. O destaque, aqui, é o Tocantins, estado que em 2022 votou majoritariamente no PT para presidente, mas agora deu mais votos a Flávio. A fronteira do agronegócio está se expandindo, gerando riqueza, menos dependência do assistencialismo e mudança de valores. O chamado “Matopi”(Mato Grosso, Tocantins e Piauí) aos poucos vai mudar o voto, e talvez isso se consolide já em 2030.

A abstenção foi grande: 21,4%, a maior desde 1998. No segundo turno, a tendência histórica é de alta; a queda em 2022 (de 20,95% para 20,59%) foi uma exceção. Como a ausência se concentra entre os menos escolarizados, grupo em que Lula tem melhor desempenho, ela é vista como seu principal obstáculo.

Tirando Datafolha e Quaest, que subestimaram Flavio (para a surpresa de zero pessoas), as pesquisas ficaram na margem de erro. O Instituto Veritas acertou.

O PT teve um desempenho mediano. Lula foi mal, mas o partido segurou as vagas no Senado e aumentou a bancada na Câmara. Deve perder um governador, e viu o fracasso de vários quadros históricos do partido, como José Dirceu, Gleisi Hoffmann, Rui Falcão, Jorge Viana, Fernando Haddad e Paulo Pimenta. Com Lula se aposentando, e sem sucessores, o PT está em sérias dificuldades.

A campanha recomeça hoje. Historicamente, nunca houve uma virada. No segundo turno se aplica o “teorema do eleitor mediano”: vence a disputa majoritária quem conquista o votante mediano, do meio do espectro. Nesse sentido, Flávio se mostrou mais conciliador e mais moderado que o pai; Lula, ao contrário, apostou na radicalização, se mostrou mais agressivo e com menos paciência.

Agora, só falta ouvir a voz do povo. Paulo Gonet já recuou sobre a questão da suposta interferência americana nas eleições, diminuindo as chances de “tapetão”.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/adriano-gianturco/numeros-eleicao-primeiro-turno-pt-lula-flavio-bolsonaro/

Paulo Briguet

Demitidos pelo povo: a maior humilhação da esquerda brasileira

Randolfe Rodrigues, Marina Silva, Lula, Renan Calheiros, Simone Tebet e Gleisi Hoffmann: o PT e sua trupe sentiram o recado das urnas. (Foto: Valter Campanato/Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil; Sidat Suna/EFE; Pedro França/Agência Senado)

Olavo de Carvalho e Jair Messias Bolsonaro foram os grandes vencedores desta eleição. Olavo previu, com muitos anos de antecedência, o derretimento da esquerda brasileira e abriu os olhos do país para o pesadelo chamado teatro das tesouras. Jair foi vitorioso mesmo preso, incomunicável e proibido de falar com os próprios filhos. Espero que Jair seja libertado em breve, e que Olavo seja escolhido como patrono da educação brasileira ao lado do Padre José de Anchieta, desbancando o maoísta Paulo Freire.

Acompanho a política nacional há 40 anos e digo sem medo de errar: o que aconteceu neste domingo foi a maior humilhação da esquerda brasileira desde a “redemocratização”. Foi pior, muito pior, que as derrotas para Collor e para FHC (mesmo porque, como sabemos, FHC era apenas a outra perna da tesoura esquerdista). 

O que mais me causou admiração e (não vou negar) júbilo nos resultados de ontem foi a lista de políticos esquerdistas sumariamente demitidos pela população. São personagens que nos últimos 8 anos participaram, por ação ou omissão, de todos os desmandos, abusos e crimes cometidos pelo regime luloalexandrino:

Randolfe Rodrigues foi demitido pelo povo.

Renan Calheiros foi demitido pelo povo.

Marina Silva foi demitida pelo povo.

Soraya Thronicke foi demitida pelo povo.

Gleisi Hoffmann foi demitida pelo povo.

Benedita da Silva foi demitida pelo povo.

Eliziane Gama foi demitida pelo povo.

Fernando Haddad foi demitido pelo povo.

Manuela D’Ávila foi demitida pelo povo.

Paulo Pimenta foi demitido pelo povo.

José Dirceu foi demitido pelo povo.

Delúbio Soares foi demitido pelo povo.

Jean Wyllys foi demitido pelo povo.

André Vargas foi demitido pelo povo.

Jorge Viana foi demitido pelo povo.

Ciro Nogueira foi demitido pelo povo.

Beto Richa foi demitido pelo povo.

Rachel Sheherazade foi demitida pelo povo.

Thiago Ávila foi demitido pelo povo.

João Campos foi demitido pelo povo.

Leila do Vôlei foi demitida pelo povo.

Erika Kokay foi demitida pelo povo.

Ontem, Lula se reuniu com vários dos integrantes da lista acima (que está longe de ser exaustiva) numa das cenas mais melancólicas da política brasileira contemporânea. Ele tem experiência e idade para saber que também foi demitido pelo povo e que seu infame reinado vai acabar.

A não ser que a Gangue dos Quatro dê o golpe para não ser demitida também.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/paulo-briguet/demitidos-pelo-povo-a-maior-humilhacao-da-esquerda-brasileira/

Fachin diz que STF é “maior do que tudo e do que todos” e permanecerá

Fachin discursou durante evento pelos 38 anos da Constituição, após direita ampliar bancada no Senado a favor do impeachment de ministros. (Foto: Alejandro Zambrana/STF)

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, afirmou nesta segunda-feira (5) que, apesar dos desafios, o “Tribunal é maior do que tudo e do que todos, e ele permanecerá”. O ministro discursou na abertura da Semana da Constituição, que comemora os 38 anos da Constituição de 1988.

“Que esta Semana nos lembre de que promessas constitucionais só se cumprem quando alguém as guarda. Que este Tribunal seja, hoje e sempre, esse guardião: sereno, firme, independente, fiel à Constituição e ao povo a quem ela serve. E que em 2027 este ato se reitere com perseverança e estabilidade”, disse. 

A manifestação ocorre após a direita ampliar a bancada no Senado que defende o impeachment de ministros da Corte. Um levantamento realizado pela Gazeta do Povo mostrou que, dos 54 senadores eleitos, ao menos 30 se declararam favoráveis à medida.

Em sua fala, Fachin ressaltou que o STF “desempenhou papel essencial na preservação do Estado Democrático de Direito diante da tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023, exercendo, com independência e observância do devido processo legal, sua missão constitucional de guarda da Constituição e de proteção das instituições democráticas”.

O presidente da Corte agradeceu nominalmente a todos os ministros “pela contribuição institucional de cada qual, em seus respectivos ofícios, compreensões e competências, reafirmando-se que nenhuma pretensão de poder pode prevalecer sobre a soberania popular, a ordem constitucional e a democracia”.

Fachin ressaltou que guardar a Constituição não significa “possuir nem se assenhorar”, mas, sim, construir a jurisprudência com a colegialidade mantendo-se fiel aos limites da lei. “A Constituição é o chão comum de uma casa onde divergimos sem nos destruirmos. Ela não elimina o dissenso; oferece-lhe território, ferramentas e regras”, pontuou.

O senador Flávio Bolsonaro (PL), que disputará o segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), já declarou que pretende anistiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e os envolvidos no 8 de janeiro. 

Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pela suposta tentativa de golpe de Estado. Flávio ficou à frente de Lula no primeiro turno, com 47,03% (56.104.503 votos), enquanto o petista teve 45,16% (53.879.538 votos).

O coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), deve se reunir com Fachin nesta terça (6). Sem dar detalhes, Marinho disse que levará ao presidente da Corte suas “preocupações”. A expectativa é que o coordenador trate sobre a interferência do STF em decisões da Justiça eleitoral às vésperas do primeiro turno. 

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/fachin-diz-que-stf-e-maior-do-que-tudo-e-do-que-todos-e-permanecera/#cxrecs_s

Rodrigo Constantino

Precisamos falar sobre a Bahia: estado só anda para trás, mas mantém governo petista desde 2007

O PT governa a Bahia desde 2007, ciclo aberto por Wagner, continuado por Rui e agora esticado até 2030 com Jerônimo Rodrigues (foto). São seis mandatos seguidos. Vinte anos de um mesmo projeto. E o estado anda para trás. (Foto: Amanda Ercília/GOVBA.)

O baiano foi às urnas neste domingo e renovou o contrato. Jerônimo Rodrigues, do PT, foi reeleito governador no primeiro turno com 55,8% dos votos válidos, 4,62 milhões, contra 43,7% de ACM Neto, 3,62 milhões. Rui Costa e Jaques Wagner levaram as duas vagas do Senado. Na disputa presidencial, Lula fez 66,2% na Bahia, 5,66 milhões de votos, contra 28,5% de Flávio Bolsonaro, 2,44 milhões. A diferença passou de 3,2 milhões. Em 2022, Lula já havia levado 69,7% no estado. O mapa não mudou muito.

O PT governa a Bahia desde 2007, ciclo aberto por Wagner, continuado por Rui e agora esticado até 2030 com Jerônimo Rodrigues. São seis mandatos seguidos. Vinte anos de um mesmo projeto. E o estado anda para trás. A desculpa costumeira é a herança, o coronelismo, o sol. A desculpa caducou. Duas décadas são tempo de sobra para inverter uma trajetória, se a trajetória fosse o problema e não o método.

A Bahia tem a quarta maior população do país e, ainda assim, perdeu posição. Em 2006, antes de o PT sentar em Ondina, era o sexto maior PIB estadual. Hoje é o sétimo. A fatia do estado na economia brasileira encolheu sob os governos petistas. Não se trata de crescer devagar. Trata-se de crescer menos do que os outros e entregar participação. Um estado que encolhe no ranking nacional enquanto o partido no poder se reelege no primeiro turno não está sendo punido. Está tendo o que deseja.

A Bahia não está condenada à pobreza relativa. Está condenada, por enquanto, a um cálculo eleitoral racional e perverso: o voto premia quem distribui o presente e pune quem promete o futuro. Enquanto a urna pagar melhor a migalha do que a prosperidade, o PT terá sexto, sétimo, oitavo mandato

O IBGE registra um dado interessante: Salvador passou de 2.675.656 habitantes em 2010 para 2.417.678 em 2022. Foram 257.978 moradores a menos, queda de 9,64%, a maior entre as capitais brasileiras. Mais de 20.000 baianos mudaram para Santa Catarina. Um baiano me mandou a seguinte mensagem de desabafo: “Os jovens talentos estão indo embora. O capital intelectual que poderia gerar riqueza está se formando fora daqui e não volta mais. Vejo esse movimento entre famílias próximas. Meu filho é um bom exemplo, formou-se em Engenharia Aeroespacial na UFMG e trabalha na Embraer há um ano e meio. Pelo menos dois clientes meus, mineradores tradicionais, disseram que precisarão vender suas empresas porque os filhos construíram a vida fora e não querem assumir os negócios. Neste ano, ouvi o presidente da ADEMI-BA manifestar preocupação com a necessidade de reter talentos em Salvador e na Bahia”.

Ele acrescenta em tom fatalista: “Daniela Mercury e outros artistas adoram propagar a frase ‘baiano não nasce, estreia’. E assim, muita gente aqui, sem talento algum, pensa que é artista. Garotos pobres, da favela, ficam batucando e achando que estão fazendo algo importante…Mas o povo tem esse DNA de preguiça, de miséria, de mendicância, que não vai mudar nunca. A grande maioria aqui é ‘PTzão’ mesmo, a Bahia é a joia da coroa do PT. Existem muitos exemplos extraordinários de empreendedores, juristas, diplomatas e políticos baianos, mas são muito poucos”.

O mercado de trabalho acusa o golpe. A taxa de desemprego baiana só não é pior do que a do Piauí, outro estado governado pelo PT. No rendimento médio do trabalho, o baiano supera apenas o maranhense. Em 2025, 52,8% dos ocupados na Bahia estavam na informalidade, a terceira pior marca do país. Em São Paulo, a informalidade era de 29%. Em Santa Catarina, estado mais conservador, 26,3%. Mais da metade de quem trabalha na Bahia vive sem carteira, sem proteção e sem horizonte. Isso não é acidente estatístico. É o resultado de uma economia que não cria emprego formal porque o custo de criar emprego formal é alto, o ambiente é hostil e o governo prefere distribuir o que arrecada a deixar o cidadão produzir.

O desenvolvimento humano confirma o diagnóstico. No primeiro registro do IDHM durante os governos do PT, em 2012, a Bahia estava em 22º entre os estados. Hoje está em 23º. Vinte anos de “inclusão” e o estado desceu um degrau no fundo da tabela. Na saúde, a expectativa de vida ao nascer saiu da 14ª para a 18ª posição entre as unidades da Federação. O discurso oficial fala em hospitais inaugurados e escolas de tempo integral. O dado frio fala em gente que vive menos, relativamente aos outros estados, do que vivia quando o PT chegou.

A violência fecha o quadro. A Bahia tem a segunda maior taxa de mortes violentas intencionais do país, 36,8 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média brasileira. Das dez cidades com as maiores taxas, metade fica na Bahia. Jequié, município baiano, é a cidade mais violenta do Brasil. Não é um surto. É uma política de segurança que tratou o crime como fenômeno social a ser compreendido, enquanto o cidadão enterrava filho. O eleitor que reconduz esse governo não está mal informado sobre o homicídio. Mora ao lado dele.

A pergunta incômoda é porque o recibo eleitoral nega a realidade. A resposta não está na alma do baiano. Está no desenho do incentivo. O PT construiu na Bahia uma máquina de transferência, prefeitura alinhada, programa social e cabresto moderno. A migalha chega com logo, com data de pagamento e com cabos eleitorais que lembram de quem é o padrinho. A prosperidade não chega com logo. Ela exige regra estável, imposto que não sufoque, segurança que permita abrir o comércio à noite e um Estado que saia da frente de quem produz. Nada disso rende palanque em ano eleitoral. O Bolsa Família rende. A nomeação rende. A obra inaugurada três semanas antes do voto rende.

O custo dessa troca é pago por quem não aparece no comício. O trabalhador informal que ganharia mais com carteira assinada num estado que crescesse acima da média. O jovem que emigra porque a oportunidade ficou em Santa Catarina ou no interior de São Paulo. A família que perde um parente numa cidade que lidera o ranking de morte violenta e, no domingo seguinte, recoloca no poder o mesmo grupo. Não é falta de alternativa. ACM Neto chegou a 43,7%. Havia voto de oposição. Faltou maioria. A maioria preferiu a continuidade do arranjo que a mantém dependente.

Liberais gostam de tratar o Nordeste como exceção cultural, quase uma fatalidade. Talvez seja. Mas não há nada escrito em pedra que deva ser assim para sempre. A Bahia não está condenada à pobreza relativa. Está condenada, por enquanto, a um cálculo eleitoral racional e perverso: o voto premia quem distribui o presente e pune quem promete o futuro. Enquanto a urna pagar melhor a migalha do que a prosperidade, o PT terá sexto, sétimo, oitavo mandato. O estado continuará caindo no PIB, na longevidade e na segurança. E o resto do país continuará financiando, via União, o modelo que a Bahia acaba de reeleger. Precisamos falar sobre a Bahia porque a Bahia, neste domingo, falou sobre o Brasil.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/precisamos-falar-sobre-a-bahia-estado-so-anda-para-tras-mas-mantem-governo-petista-desde-2007/

Marqueteiros e políticos do PT já não se entendem após derrota de Lula para Flávio Bolsonaro

Presidente Lula ao lado de Sidônio Palmeira, espécie de ministro da propaganda go seu governo – Foto: assessoria.

Foi de ressaca a segunda-feira (5) pós-eleição no QG da campanha de Lula, com resultado nas urnas bem diferente do esperado. O petista convocou duas reuniões no Palácio da Alvorada, uma no início da tarde, com o chamado “núcleo duro” da campanha, e outra geral, por volta das 17h, com políticos eleitos e não eleitos. A coluna ouviu de partícipes das reuniões que Lula ainda “está no salto” e são pelo menos dois grupos que trocam acusações e o fardo da culpa: o da comunicação e o político.

Falta feijão

O nome do núcleo político é Edinho Silva, presidente do PT, chamado de “fraco” e pouco ouvido por Lula durante a campanha.

Gregos e troianos

A parte da comunicação, ligada ao marqueteiro Sidônio Palmeira, não fala a mesma língua da turma que auxilia Lula nas decisões políticas.

Dormiu no ponto

As críticas estão no timing do anúncio de benesses, como bolsa família, veto às bets, e o modelo de comunicação por podcast, sem entrevistas.

Teimosia cara

Nos dois lados há críticas a Lula, que insistiu em discurso sobre “legado” e de pouco apelo, tipo soberania e terras raras, e a militância de Janja.

FONTE: GAZETA DO POVO https://diariodopoder.com.br/coluna-claudio-humberto/marqueteiros-e-politicos-do-pt-ja-nao-se-entendem-apos-derrota-de-lula-para-flavio-bolsonaro

Luciano Trigo

Oito lições da eleição de domingo

A eleição deixou recados claros: pesquisas perderam credibilidade, a mídia tenta reagir, e eleitores rejeitam abusos do STF e corrupção. (Foto: ChatGPT sobre foto de Antonio Augusto/Ascom/TSE)

Primeira lição: pesquisas perderam influência – e a culpa é das pesquisas. Eleição após eleição, os principais institutos de pesquisa cometem erros absurdos, muito acima de qualquer margem aceitável, o que já bastaria para reduzir o impacto das suas previsões. Agrava o problema o fato de esses erros não serem politicamente neutros: eles beneficiam, quase sempre, os candidatos de esquerda ou aqueles aliados à esquerda. É razoável o cidadão comum pensar que não se trata apenas de incompetência.

O caso da eleição no Rio de Janeiro, para citar apenas um exemplo, não é menos que escandaloso: as últimas pesquisas mostravam ampla vantagem de Eduardo Paes (nove pontos, no Datafolha), sugerindo uma vitória no primeiro turno, e ele chegou quase sete pontos atrás de Douglas Ruas. Já escrevi mais de uma coluna sobre isso, incluindo “Os institutos de pesquisa vão fechar as portas?”, logo após o primeiro turno das eleições de 2022.

É hora de esses institutos demonstrarem humildade, pedirem desculpas à sociedade e fazerem uma revisão séria de suas metodologias. Ou perderão qualquer relevância.

O eleitor desconfia da grande mídia – e a culpa é da grande mídia

Costuma-se atribuir essa desconfiança crescente à maior circulação de ideias e informações promovida pelas redes sociais, o que é verdade. Mas isso só conta metade da história. Se a grande mídia tivesse sido mais isenta e rigorosa na análise dos acontecimentos desde a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, ela teria conservado sua credibilidade junto ao conjunto da sociedade.

Preferiu, com honrosas exceções, a aliança clara com um campo político, do qual se aproximou por comunhão de gostos e interesses. Criou-se uma cumplicidade silenciosa: tudo era aceitável, desde que servisse ao objetivo de destruir o inimigo comum. Embarcando na narrativa da defesa da democracia, os grandes grupos de comunicação apoiaram um sem-número de medidas excepcionais, que agora começam a se voltar contra eles.

Como ocorre com os institutos de pesquisa, o maior patrimônio de um jornal é a confiança da sociedade – e este capital, depois de perdido, é muito difícil de recuperar.

Por outro lado, a grande mídia começou a corrigir o rumo: antes tarde do que nunca

Na comparação com a eleição de 2022, a cobertura da campanha deste ano foi, no conjunto, menos enviesada. Ainda existem analistas políticos que enxergam esta eleição como uma disputa entre a “extrema-direita” e o “campo democrático”: estes ou são cínicos ou ainda não entenderam nada – provavelmente um pouco dos dois.

Esta teimosia em desqualificar a direita – e, por extensão, os brasileiros comuns que se identificam com ela – é um dos fatores que fazem a direita crescer no país. Parece óbvio.

Mas é fato que os grandes jornais não se furtaram a criticar as interferências de ministros do STF no processo eleitoral, nem a noticiar episódios cabulosos envolvendo aliados próximos e até mesmo o filho do presidente. Os escândalos do Banco Master e do INSS não foram encobertos.

Mais que isso: nas últimas semanas, diversos editoriais dos grandes jornais foram exemplares no resgate do papel da imprensa na democracia – que eles próprios pareciam ter esquecido. Talvez tenham entendido que, se não acordassem agora, poderiam estar condenados a décadas de um sono induzido e profundo.

A interferência de ministros do STF foi um tiro que saiu pela culatra

O empenho de alguns ministros de interferir no processo eleitoral – a ponto de fazer a Rede Globo cancelar o tradicional debate às vésperas do primeiro turno – foi tão despudorado que estes ministros acabaram se tornando cabos eleitorais involuntários de Flávio.

Muitos eleitores isentões ou indecisos – e a própria grande mídia – ficaram assustados com os sucessivos atropelos, que transformaram em tema central da campanha a pergunta: o que vai acontecer se Lula for reeleito e indicar mais quatro ministros para o Supremo?

O avanço da Juristocracia não é um fenômeno recente nem exclusivo do Brasil, como já escrevi. Mas atingiu entre nós uma dimensão extrema: não há tema ou polêmica que escape à atenção do Supremo, o que torna o Legislativo e o próprio Executivo seus coadjuvantes – e seus reféns.

Se o lema da Itália de Mussolini era “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”, o lema do Brasil pode se tornar muito em breve “Tudo no Supremo, nada contra o Supremo, nada fora do Supremo” – independentemente de quem ocupar o Palácio do Planalto. A maioria da sociedade não quer isso.

O Senado precisa resgatar sua altivez

A mensagem da maioria da sociedade foi clara. A bandeira do impeachment de ministros do Supremo ajudou a eleger senadores em estados do norte ao sul do país.

O Senado tem o dever e a missão histórica de recuperar sua altivez e colocar em votação as propostas engavetadas – são mais de 100, segundo o próprio presidente da Casa. Não faltam motivos

O que está em jogo não é apenas o destino de alguns ministros, mas o equilíbrio entre os Poderes. Ao longo dos últimos anos, o Supremo ocupou espaços que pertencem ao Congresso. Cabe agora ao Senado decidir se continuará aceitando essa transferência silenciosa de poder ou se voltará a exercer, com independência, as prerrogativas que a Constituição lhe confere.

A economia real importa mais que os números oficiais

Um marciano que acompanhasse o Brasil com base apenas nos indicadores econômicos pensaria que a situação do povo está maravilhosa: baixa inflação, baixo desemprego, crescimento razoável. É o que dizem os números oficiais.

A realidade é muito diferente. Para o brasileiro que trabalha e paga boletos e impostos, o poder de compra diminuiu brutalmente. Da classe média para baixo, todos estão sentindo isso na pele, todos os dias. Não é que os números sejam manipulados: é que a metodologia não reflete o cotidiano do cidadão comum.

Números positivos rendem excelentes manchetes para o governo, mas não dizem nada para quem está endividado, apesar de trabalhar muito. Agrava essa sensação a percepção de que os ricos e poderosos fazem o que querem: viagens de jatinhos, modelos norueguesas, uísque Macallan e festas que custam milhões de reais frequentadas por autoridades. É muita desfaçatez.

A corrupção continua importando

Desde o desmonte da operação Lava-Jato, esforços não faltaram para relativizar a gravidade da corrupção no país, como se fosse um problema menor ou mesmo um mal necessário. Não é. O recado aqui também foi claro: a maioria da sociedade apoia quem denuncia os desvios, não quem os acoberta.

As revelações em série do escândalo do Banco Master – que ainda estão longe de terminar – alimentaram a sensação de que as instituições estão podres por dentro – começando por aquelas responsáveis por investigar e julgar. Neste sentido, a melancólica sessão do STF do último dia 15 de setembro foi um ponto de inflexão.

Na percepção de muitos brasileiros, era uma chance de o Brasil oficial mostrar que a lei ainda funciona minimamente para todos. Ainda que nada tenha sido decidido naquela sessão, o sentimento generalizado foi de tristeza por mais uma expectativa frustrada.

Mas a vitória de uma ala no curtíssimo prazo teve um custo elevadíssimo na percepção da sociedade – e certamente influenciou o voto de muita gente.

Não existe democracia de um lado só

Lula poderia ter aproveitado seu terceiro mandato para tentar realizar um governo de conciliação. Preferiu alimentar a polarização do país. A intenção era destruir o bolsonarismo por todas as vias possíveis, inclusive a judicial.

O plano falhou miseravelmente. Uma parcela crescente da sociedade, incluindo não bolsonaristas, passou a se perguntar que democracia é esta na qual apenas um lado tem o direito de se expressar – e na qual manifestar determinadas opiniões é perigoso?

Apenas quem já apoiava Lula – e mesmo na própria esquerda houve quem discordasse dos métodos empregados – apoiou essa estratégia.

O brasileiro comum não gosta de injustiça. Este é, aliás, um dos traços mais nobres do caráter nacional: o impulso de ficar do lado de quem está sendo injustamente perseguido.

Metodologia da pesquisa citada

2.010 entrevistados pelo Datafolha em 2 e 3 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Folha de S. Paulo e pela Rede Globo. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº RJ-01334/2026.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/luciano-trigo/oito-licoes-da-eleicao-de-domingo/

Polzonoff

Janja está triste. E preocupada

Janja: “Povo ingrato!” (Foto: Gemini)

Querido diário. Querido? Querido uma ova! Diário de bosta. Seu fascista! Desculpe. Tô com raiva. É que o Meu Marido perdeu o primeiro turno das eleições. E, cá entre nós (fica só entre a gente senão o Haddad começa a chorar), ele vai perder o segundo turno também. Claro que sempre existe uma possibilidade de os nossos amigos no STF darem uma ajudazinha, mas, sei lá. Estou revoltada. Rodando a baiana aqui. Porque o brasileiro é um povo ingrato. A gente dá tudo pra eles. Bolsa Família, vale gás, SUS, show do Caetano. A gente acaba com as BETs e eles vão lá e preferem votar no filho do inominável do que votar no Meu Marido. Não entendo. País miserável. Povo burro.

E agora me resta passar os próximos dias arrumando as malas no Alvorada. Me lembrando dos doces dias do poder. Das viagens. Do Macron lá na Amazônia. E do cavalo Caramelo. Me lamentando porque ninguém nunca mais vai abrir a porta ou estender um tapete vermelho para mim. Voltarei a ser o que era. Será que vou me acostumar à vida de ex-primeira-dama? Pior: continuarei casada com Meu Marido. Sentindo aquele bafo de cachaça e ouvindo aquela voz que finjo, apenas finjo, tolerar. Tendo que suportar os filhos dele. Tendo de prestar atenção àquele papinho de que nunca antes na história deste país. Ah, diário, o que será de mim a partir de 2027?

A volta do nazibolsofascismo

E o que será do Brasil com a volta do nazibolsofascismo? Estou com medo. Tenho certeza de que eles acabarão com os direitos dos LGBTs e, pior!, voltarão a chamar comunidade de favela. Vão botar fogo em toda a Amazônia e exterminar os pobres e os negros. Ninguém vê isso? Eles vão obrigar todo mundo a trabalhar na escala 7×0, vão acabar com a Lei Rouanet e a universidade pública. O Brasil será transformado numa grande Urubici, com suásticas pintadas nos telhados das casas. Voltaremos à Idade Média. Ao tempo das cavernas, quando os homens puxavam as mulheres pelos cabelos. Que retrocesso! Vai ser horrível.

Será que os brasileiros não percebem? Digo, não são todos os brasileiros os ingratos. Só metade. Os do Sul. E também os do Sudeste. Ah, sim: tem ainda os do Centro-Oeste e do Norte. Os únicos que se salvam são os do Nordeste, principalmente os da Bahia, Maranhão e Piauí. Por que os outros estados não são mais parecidos com esses? Será que os sudestinos preferem mesmo trabalhar em vez de receber Bolsa Família? Não é possível! Será que eles curtem mesmo essa coisa de saneamento básico? Uma assessora me disse que eles querem liberdade. Foi demitida, claro! Liberdade pra quê? Não entendo. Fico por aqui. Tô mais calma. Obrigado por perguntar. Tchau.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/polzonoff/diario-janja-triste/

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