As prioridades dos brasileiros que os senadores eleitos deverão atender

Eleições 2026 definem os ocupantes de 54 cadeiras do Senado. (Foto: Ton Molina/Agência Senado)

A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e a renovação de dois terços das cadeiras do Senado lançaram a disputa pelas 54 vagas de senador para o centro da arena eleitoral deste ano. No entanto, as prioridades dos eleitos à Casa Alta, segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, vão além da prerrogativa de aprovar e cassar o mandato de ministros do STF.

Os novos senadores terão de enfrentar temas centrais como:

  • o risco de uma recessão econômica;
  • o controle do orçamento público;
  • a aprovação de medidas para combater o crime organizado no país.

E, é claro, além das denúncias de corrupção acentuadas pelo escândalo do caso Master e que não vão se apagar. Doutora em Sociologia, Marize Schons explica que o papel de fiscalizador dos senadores é dividido entre a fiscalização preventiva, que envolve a rotina orçamentária, e a investigação de eventos pontuais, deflagrada por denúncias.

Assim, de acordo com ela, o poder do Senado consiste, sobretudo, em vincular repasses a resultados e cobrar a execução, não em gerir a política setorial. No entanto, Schons pondera que o legislador brasileiro acaba assumindo funções que vão além do que está formalmente previsto.

“A hipertrofia de papéis informais tende a diluir a responsabilidade fiscalizatória que lhe é própria. As investigações, por exemplo, nunca são independentes dos interesses políticos, nos quais os próprios senadores se envolvem e de que são protagonistas”, analisa.

Voto econômico indica demanda prioritária a senadores   

Mais do que a crise institucional entre os Poderes, Marize Schons defende que o voto econômico tem peso na decisão do eleitorado pela relevância de temas como renda, emprego e custo de vida no dia a dia do brasileiro. Para ela, o que define o momento é a incerteza econômica. 

“O orçamento está esfolado, comprimido pelo avanço das despesas obrigatórias. Há a pressão dos juros e da inflação sobre o cotidiano das famílias. A taxa Selic está em 14% ao ano, patamar que encarece o crédito e freia a atividade, enquanto a inflação, embora dentro do intervalo da meta, ainda corrói renda de forma perceptível”, comenta.

Nesse cenário, na avaliação da socióloga, uma postura austera e respeitosa com os recursos públicos será cobrada pela sociedade dos parlamentares eleitos. “Existe um impacto muito grande quando o povo está pressionado economicamente e a classe política, por exemplo, aumenta o próprio salário. Não passar a mensagem de que os senadores estão capturando o orçamento para benefício próprio já é alguma coisa”, completa.

Schons argumenta que o Senado integra o mesmo “ecossistema de poder e tem responsabilidade” sobre temas como economia, corrupção e crime organizado. Ou seja, para ela, o Poder Legislativo não é um “observador externo”.  

“A partir dessa lente, corrupção, crime organizado e impunidade não são anomalias que incidem sobre uma classe política neutra; são fenômenos que atravessam as próprias estruturas de poder, e a elite parlamentar é parte constitutiva do arranjo que pretende fiscalizar. Portanto, qualquer agenda legislativa séria precisa partir dessa consciência, sob pena de produzir uma norma que a própria classe que a edita tem interesse em neutralizar”, analisa.

Eleitor vota no “pacote” apresentado por candidatos e menos nas propostas

Para o analista político e professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Daniel Pinheiro, o viés ideológico dos candidatos a deputado e a senador ganhou evidência nas últimas eleições e passou a dividir a atenção com as propostas de atuação dos concorrentes aos cargos legislativos.

“Trazer recursos para o estado e rever o pacto federativo são propostas que estão presentes no discurso, mas sempre associadas com o valor ideológico. Essa necessidade de autodeclaração ideológica tem adesão de parte do eleitorado”, avalia.

Segundo o analista político, o discurso de “arrumar o país” oferece uma posição ideológica, mas não necessariamente as medidas para enfrentar problemas em áreas como economia, segurança pública e educação. “Nem todo eleitor sabe a função de cada cargo que está elegendo. Ele compra um pacote. Por isso, o alinhamento ideológico atende muito bem ao perfil do eleitor brasileiro, relacionando o tema ao posicionamento do grupo político”, comenta Pinheiro.

Assim, de acordo com ele, as pautas de costumes e também a abertura de processos de impeachment de ministros do STF passaram a ter mais espaço nas campanhas, com cobrança dos eleitos após o pleito. “Nesse sentido, as pautas genéricas, que poderiam ser mais distantes do eleitor, são mais atrativas do que as mais pragmáticas, como a economia e a segurança”, acrescenta o professor, que lembra que a PEC da Segurança Pública ainda não foi aprovada pelo Senado, apesar da tentativa do governo federal.

Internet aumenta acesso de eleitores a informações sobre senadores

A socióloga Marize Schons ressalta que os meios digitais mudaram a maneira como os eleitores podem acompanhar o trabalho dos senadores escolhidos. Neste ano, cada estado vai eleger dois candidatos ao Senado. 

Ela recomenda o acompanhamento do trabalho dos senadores pela internet, mas sem reduzir a política às publicações nas redes sociais. “O trabalho parlamentar se mede em outro lugar, que são a presença e o voto em plenário, as relatorias, as emendas, a atuação em comissão e a execução do que foi prometido. A rede social informa, mas não substitui o registro público da atividade legislativa, que é onde a entrega (ou a ausência dela) fica documentada”, explica.

Questionada sobre a prioridade do impeachment de ministros do Supremo, Schons afirma que a configuração da Suprema Corte a partir das indicações do presidente da República eleito deve influenciar mais os rumos do STF do que a possibilidade de abertura de processos de cassação de ministros pelo Senado. Quem assumir a Presidência em 2027 poderá indicar até quatro ministros ao STF até 2030.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/prioridades-dos-brasileiros-que-senadores-eleitos-deverao-atender/

Julgamento de Dallagnol testa interferência do TSE e interessa a todo o país

Deltan Dallagnol foi eleito com 2,9 milhões de votos, mas precisa que TSE valide seu registro de candidatura. (Foto: ChatGPT sobre foto de Vitor Liasch/Campanha Filipe Barros)

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) marcou para a manhã desta quinta-feira o julgamento definitivo, no plenário da corte, do registro de candidatura de Deltan Dallagnol (Novo-PR). O ex-procurador da Lava Jato conquistou a segunda vaga de senador pelo estado do Paraná com 2,9 milhões de votos – um endosso popular que o petismo tentou a todo custo inviabilizar, com a ajuda de aliados dentro da corte eleitoral. E é por isso que o julgamento de Dallagnol interessa não só ao Paraná, mas a todo o país: ele indicará que rumo a Justiça Eleitoral pretende tomar nesta reta final de campanha, uma escolha entre o intervencionismo descarado ou o respeito à vontade do eleitor, interferindo apenas quando é estritamente necessário.

Que os paranaenses desejavam ver Dallagnol no Congresso Nacional é algo que já se sabia desde 2022, quando o ex-procurador foi o candidato a deputado federal mais votado no estado, conquistando um mandato vergonhosamente cassado pelo TSE em 2023. Desta vez, as dificuldades vieram antes mesmo da votação: Dallagnol passou duas semanas sem poder fazer campanha graças a uma decisão absurda do ministro Floriano de Azevedo Marques (indicado à corte por Lula, com apoio de Alexandre de Moraes) e referendada pelo plenário por 5 a 2, por mais que a Lei das Eleições garantisse a todo candidato com registro deferido, ainda que sub júdice (como era o caso de Dallagnol) o direito de fazer campanha. Por fim, o ex-procurador ainda superou a confusão instaurada pelo mesmo Azevedo Marques, que no fim da tarde da véspera da eleição indeferiu monocraticamente a candidatura de Dallagnol, decisão revertida na madrugada de domingo pelo presidente do TSE, Nunes Marques. Impossível saber quantos paranaenses foram votar acreditando que o candidato do Novo estaria inelegível. Mesmo assim, Dallagnol ainda teve 1 milhão de votos a mais que o terceiro colocado.

O julgamento de Dallagnol interessa não só ao Paraná, mas a todo o país, pois indicará que rumo a Justiça Eleitoral pretende tomar nesta reta final de campanha

Não há motivo algum para o TSE calar a voz de quase 3 milhões de eleitores. Por mais que o ministro Azevedo Marques insista, Dallagnol não descumpriu a Lei da Ficha Limpa; não havia processos administrativos disciplinares quando de sua exoneração do Ministério Público Federal, e este é o único critério de inelegibilidade. Foi o que afirmou (em 2023 e em 2026) o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná; foi o que afirmou (em 2023 e em 2026) a Procuradoria-Geral Eleitoral. O TSE, em 2023, simplesmente inventou uma regra inexistente na lei, apenas para tirar o mandato de alguém que o petismo considera seu inimigo moral. E nem mesmo o princípio do respeito à coisa julgada justifica a perpetuação de uma injustiça flagrante quando há a oportunidade de corrigi-la; se apenas o TSE pode rever as próprias decisões, como tanto insiste o ministro Azevedo Marques, criticando o TRE-PR por ter feito o certo, esta é a hora.

Na semana passada, entidades importantes do Paraná se manifestaram pedindo ao TSE que respeite a soberania do voto. Mas não exageramos quando afirmamos que o caso de Dallagnol transcende as fronteiras do estado. Não se trata de permitir que alguém dispute eleições sem estar legalmente habilitado para tal – nesses casos, a corte pode e deve intervir, como fez em 2018 ao barrar a candidatura presidencial de Lula. Trata-se, isso sim, de reverter um erro judicial grotesco e garantir os direitos de 3 milhões de pessoas: o próprio Dallagnol e seus eleitores. Até admitimos que algum ministro possa ter dúvidas a respeito do status do ex-procurador, mas qualquer eleitoralista sabe que, não havendo a certeza completa da inelegibilidade, respeita-se a voz do eleitor: in dubio pro sufragio.

E nunca é demais recordar: se chegamos a esse ponto, em que um candidato ficha limpa, com grande votação, corre o risco de perder o registro e o mandato, é porque vivemos anos de aparelhamento político das instituições e da transformação da Justiça em um superpoder que não presta contas a ninguém. Por mais que nosso olhar se volte especialmente ao STF, temos de reconhecer que o TSE é parte do problema há muitos anos, e antes mesmo de Lula voltar ao Planalto e indicar alguns dos ministros que hoje tumultuam a eleição, como o próprio Azevedo Marques e Estela Aranha. O retorno à normalidade democrática exige que todos os abusos cometidos ao longo dos últimos anos pelo STF e também pelo TSE sejam expostos, levem à responsabilização de quem os cometeu, e sejam desfeitos quando isso for possível.

O outro caso que será julgado nesta quinta, o do ex-governador e candidato Anthony Garotinho, pode até ter mais visibilidade por se tratar de um estado mais populoso e de poder definir a disputa pelo governo. Mas o julgamento de Dallagnol é mais relevante: se o TSE cassar seu registro, apesar de todas as evidências e pareceres que apontam para a elegibilidade, indicará que continua disposto a interferir no pleito de forma decisiva, inclusive tirando candidatos da disputa sem razão legal para tal. É por isso que toda a imprensa, todas as entidades do setor produtivo e da sociedade civil organizada, todo cidadão que anseia por um Brasil decente tem de se mobilizar nas próximas horas, para que a democracia não seja aviltada mais uma vez por conveniências políticas.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/julgamento-candidatura-deltan-dallagnol-plenario-tse/

Por que nomes conhecidos da direita ficaram sem mandato apesar da onda conservadora

Janaína Paschoal, em foto de 2016: uma década depois do impeachment de Dilma Rousseff, derrota nas urnas. (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

O PL saiu da eleição de domingo com 121 deputados federais, 22 a mais que em 2022 e a maior bancada eleita por um partido na Câmara desde a redemocratização. No Senado, elegeu 19 das 54 cadeiras em disputa e começará 2027 com 28 senadores, a maior bancada de um partido no início de uma legislatura desde 1988. Mas, no mesmo domingo, nomes que o eleitor de direita conhece há anos ficaram sem mandato. Entre eles estão Janaina Paschoal, coautora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, e o delegado Éder Mauro, um dos primeiros aliados de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. O voto conservador cresceu, mas se concentrou numa legenda e em poucos puxadores. Quem ficou fora dessa concentração perdeu, tivesse ou não fidelidade ao bolsonarismo para mostrar.

O que o eleitor premiou

“Fizemos a maior bancada jovem conservadora da história do Congresso”, disse Nikolas depois da apuração. Janaina, ouvida pela Gazeta do Povo, chegou a uma leitura parecida do lado de quem perdeu. “À direita, as pessoas queriam votar no PL”, afirma. Ela diz ter sentido nas ruas um desejo de novidade, que explicaria o número de jovens eleitos com votações altas. “A análise de realizações, de currículo, de propostas ficou absolutamente prejudicada.”

Para o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, o eleitor recompensou a lealdade. “Parte dos parlamentares que a gente considerava centrão dentro do PL se tornou mais leal ao bolsonarismo nos últimos tempos”, analisa. “O eleitor reconheceu e premiou esses, e se afastou dos que eram menos leais.”

Consentino também observa que o bolsonarismo já não se resume a Jair Bolsonaro e inclui outros membros da família e agregados como o próprio Nikolas e, possivelmente, o governador Tarcísio de Freitas, reeleito em São Paulo.

A federação que encolheu

Candidata a deputada federal pelo PP, Janaina teve 46.773 votos e ficou na suplência. Em 2018, pelo PSL, havia recebido 2.060.786 votos para a Assembleia Legislativa de São Paulo, recorde que a Casa ainda conserva. O Sargento Nantes, seu colega de bancada na Câmara Municipal, disputou pelo mesmo partido e se elegeu com 333.401 votos neste ano. PP e União Brasil, hoje federados, somavam 106 deputados eleitos em 2022 e elegeram 87 neste ano.

Acontece que, desde fevereiro, Janaina vinha questionando nas redes a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Escreveu que o senador não tinha condições de enfrentar Lula em debates e que a direita não havia escolhido uma monarquia. O posicionamento independente pode ter custado alguns milhares de votos.

As madrinhas foram para o Senado

Zoe Martínez tinha a filiação e os padrinhos que a leitura de Consentino valoriza. Cubana naturalizada, foi assessora da deputada Bia Kicis e comentarista da Jovem Pan, de onde saiu em 2023. Em 2024, chegou à Câmara paulistana pelo PL, a convite de Michelle Bolsonaro, com 60.272 votos. No domingo, Bia Kicis e Michelle foram eleitas senadoras pelo Distrito Federal. Zoe, disputando o eleitorado do estado inteiro de São Paulo, teve 25.356 votos para deputada federal.

Durante a crise das bebidas adulteradas com metanol, no fim de 2025, a vereadora protocolou um pedido de CPI para investigar a venda de produtos contaminados em bares e casas noturnas da capital. Semanas depois, circulou nas redes um vídeo em que ela pede à Guarda Civil Metropolitana o fechamento de barracas de ambulantes, sob o argumento de que vendiam bebidas de origem desconhecida e bloqueavam a rua. A gravação foi criticada inclusive por perfis de direita, que viram na cena uma vereadora conservadora mobilizando o poder municipal contra trabalhadores informais.

A jornalista Madeleine Lacsko disputou sua primeira eleição, para deputada estadual pelo Podemos e teve 14.071 votos. Um mês antes do pleito, ela escreveu aos leitores de sua newsletter que o TSE havia determinado às plataformas a retirada dos perfis de candidatos dos sistemas de recomendação orgânica. A regra pesa mais sobre quem construiu a base de eleitores nas redes sociais e depende delas para alcançar quem ainda não a segue.

Erika Hilton e os 185 votos que podem mudar a esquerda

A maré de concentração que reorganizou a direita não ocorreu em um vácuo; ela acelerou ajustes também no campo oposto. Na esquerda, o desenho do novo Congresso revelou um contraste marcante entre o pragmatismo partidário do PT e a dependência do PSOL de votações recordes. 

Janaina diz ter conversado no plenário da Câmara Municipal com a bancada do PT e saiu com uma impressão clara. “Eles têm estratégia. Conseguiram eleger vários deputados com menos votos que o PSOL, todos com votações de pouco mais de 100 mil votos. O PSOL é mais estridente, mas o PT é profissional.” Em São Paulo, Edinho Silva, presidente nacional do PT, se elegeu com 115.341 votos, e João Paulo Cunha, com 109.548.

O PSOL produziu a segunda maior votação do estado. Erika Hilton recebeu 1.596.472 votos A federação PSOL-Rede somou 4,9% dos votos válidos para deputado federal no país, quase o dobro do mínimo exigido pela cláusula de barreira. Mesmo assim, ficou abaixo da regra por 185 votos, porque atingiu o percentual mínimo em oito estados, e não nos nove exigidos. A partir de 2027, a federação perde o acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda gratuita. “Com a perda do fundo, muitos quadros do PSOL devem migrar para o PT”, prevê Janaina.

PSD, MDB e União diante do PL

Considerando a concentração no PL e a numerosa votação em candidatos da esquerda, Janaina acredita que o país caminha para o bipartidarismo. Consentino vê a formação de dois blocos, um à direita e outro à esquerda, mas considera que a fragmentação do centrão ainda impede esse desenho.

“Parte expressiva do PSD, do MDB e do União Brasil ainda pode se fundir para não ficar simplesmente como um sub-PL”, diz. O PSD foi o partido que mais perdeu cadeiras no Senado e cairá de 13 para 5 senadores. No Pará, foram MDB e União Brasil que ficaram com as duas vagas que o PL disputava.

Janaina prefere esperar antes de concluir. Quer ver os novos parlamentares, “em todos os sentidos”, começarem a trabalhar e observar a reação do Supremo Tribunal Federal, que, segundo ela, “virá”.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/por-que-nomes-conhecidos-da-direita-ficaram-sem-mandato-apesar-da-onda-conservadora/

Vorcaro acionou Mantega e buscou nova reunião com Lula em 2025, revelam mensagens

Walfrido Warde chegou a sugerir envio de avião para buscar ex-ministro da Fazenda em Londres. (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro e divulgadas pelo jornal Estado de São Paulo mostram a corrida do ex-banqueiro para conseguir uma nova reunião com o presidente Lula (PT) e, assim, tentar evitar sanções do Banco Central (BC) contra o Banco Master.

Em um áudio, o advogado Walfrido Warde sugere que o banqueiro envie uma aeronave particular a Londres para buscar aquele que, de acordo com o próprio Planalto, intermediou a aproximação: o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

“Irmão, deixa te falar, o Guido está em Londres. Só daqui dez dias, mas eu acho que seria o caso de você mandar teu avião lá buscar ele e trazer ele pra encontrar o presidente, veja aí o que você consegue fazer, conversa com ele”, diz Warde.

Áudio foi enviado meses após única reunião conhecida

O áudio foi enviado em 23 de julho de 2025. A única reunião entre o presidente e o ex-banqueiro conhecida até o momento, no entanto, é a de 4 de dezembro de 2024. O Planalto diz que esta foi a única vez que o petista se encontrou com o líder do esquema do Master.

Posteriormente, conforme revelou o jornal O Globo, Warde afirma a Vorcaro que  “Pr disse que vai chamar assim que retornar”. Além disso, em outro trecho, afirma que Mantega irá conversar com “você sabe quem” e que seria necessário uma videoconferência com Mantega para orientá-lo sobre o Master. Depois da ligação, que durou cerca de 23 minutos, Warde parabeniza Vorcaro pela “importante call” e diz que “vai dar certo”.

No mesmo contexto, porém, é tentada uma nova solução, sem a intermediação do ex-ministro.  “Você precisa conversar com o chefe. Única chance nossa”, disse Vorcaro a Warde. Em resposta, o advogado revelou que tentava contato com Marcola, então chefe de gabinete de Lula. O ex-banqueiro insiste:

“Ele precisa escutar da sua boca. Que não tem problema nenhum e que o dano que estão causando é irreversível”. Warde promete resolver e “desarmar tudo isso”.VEJA TAMBÉM:

Vorcaro sugeriu “Alexandre” para nova tentativa de aproximação

Os diálogos de julho de 2025 mostram outra via tentada pelos dois. O trecho começa com Vorcaro dizendo que precisará acionar o BC na Justiça. Em seguida, diz que o presidente do órgão, Gabriel Galípolo, “inventou nova desculpa”, olhando para “erros contábeis” na documentação do Banco Master.

A discussão leva ao nome do diretor Renato Gomes, que se posicionou contra a venda do Master ao Banco de Brasília (BRB). O banqueiro diz que será necessário pedir a suspeição do servidor.

“Tô com ódio desse cara. Ele vai sentir o peso da minha mão”, respondeu Warde. Vorcaro completa dizendo que Renato “engoliu o Galípolo” e que estaria contrariando a cúpula dos três poderes.

É diante da inviabilidade de acionar Mantega, que estava em Londres, que o advogado sugere “dar outro jeito”. Logo depois, Vorcaro escreve “Alexandre”, sem detalhar se era uma referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. “Vou pavimentar”, responde Warde.

“Bloquear toda maldade”: novas revelações conversam com relatório sobre Moraes e Vorcaro

A menção a “Alexandre” leva ao nome de Moraes não por acaso, mas pelas revelações de 1º de setembro de 2026. O ministro André Mendonça levantou o sigilo de um relatório sobre as relações entre Vorcaro e Moraes. O documento mostra contratos, encontros e principalmente mensagens.

No dia 4 de novembro de 2025, o banqueiro pede que o ministro tente “bloquear toda maldade”, alegando que o Master é alvo de auditoria todos os dias, sem que o BC consiga abrir um processo administrativo em seu desfavor. Logo no dia seguinte, há a cobrança: “Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade e sacanagem?”.

A coincidência entre as datas e conversas também reforça que o diálogo era de fato com Moraes. Em 30 de outubro de 2025, o contato recebe: “Fala meu caro, tudo bem? Como está aí em Madrid? Semana que vem vai estar no Brasil?”. De acordo com o próprio Supremo, o ministro esteve de 28 a 30 de outubro de 2025 no sexto Congresso da Conferência Mundial sobre Justiça Constitucional, promovido pelo Tribunal Constitucional da Espanha.

Banqueiro pede intervenção

Em seguida, o banqueiro afirma que irá alterar a data de uma viagem para Abu Dhabi para ver Moraes. Durante o diálogo, Vorcaro diz que o panorama econômico do Master “está indo bem”, mas que o BC estaria sendo pressionado pela PF e pelo Ministério Público a tomar atitudes. Diante disso, o banqueiro pede a intervenção do ministro:

“É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem, que aí vai tudo pro saco. Estou disponível para tratar e explicar qualquer coisa, só não pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farão algo em breve”, diz a mensagem.

Lula teria dado abertura a novo encontro

Em outra etapa das revelações, Warde encaminha uma mensagem ao banqueiro em março de 2025, quatro meses antes da tentativa com Mantega:

“Pr disse que topa receber o Vorcaro. Mas disse que dessa vez chamará também o Jaques para participar (por causa do outro sócio). Vamos tentar marcar”, escreveu, em possível referência ao senador Jaques Wagner (PT-BA).

Wagner foi alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de junho de 2026. As apurações da Polícia Federal (PF) apontam para possível recebimento de vantagens indevidas em troca de uma atuação pró-Master no Congresso, sobretudo diante dos limites das garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

De acordo com a investigação, entre os elementos descobertos estavam um apartamento de cerca de R$ 2,45 milhões em Salvador, uso de aeronaves privadas, ingressos para shows e repasses milionários a empresas ligadas ao núcleo familiar do senador. Wagner negou irregularidades.

Logo após o encaminhamento, Warde avisa que Lula irá ligar a ele para tratar do caso de Vorcaro e pede que o banqueiro avise caso tenha algo a acrescentar.

O que dizem os citados

O Planalto enviou uma nota ao Estadão:

Conforme já amplamente noticiado, o presidente Lula encontrou-se uma única vez com Daniel Vorcaro, em 4 de dezembro de 2024. Vorcaro havia ido ao Palácio do Planalto acompanhado do ex-ministro Guido Mantega e o encontro com o presidente não estava previamente agendado.

Da conversa também participaram o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e Gabriel Galípolo, então diretor de Política Monetária e atual presidente do Banco Central. Na ocasião, Vorcaro afirmou sentir-se alvo de perseguições, e o presidente respondeu que eventuais denúncias deveriam ser analisadas tecnicamente pelo Banco Central.

Não houve nenhum outro contato entre o presidente e Daniel Vorcaro. Cabe lembrar ainda que foi durante o atual governo que o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master e Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre a instituição.

A Gazeta do Povo entrou em contato com Guido Mantega e com a Warde Advogados, para manifestação de Walfrido Warde. Também acionamos a Bialski Advogados, para manifestação de Daniel Vorcaro, e o Planalto. O espaço segue aberto.

FONTE: GAEZTA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/vorcaro-acionou-mantega-e-buscou-nova-reuniao-com-lula-em-2025/

Nova bancada do PL deixa Hugo Motta com dias contados na presidência da Câmara

PL avança para comandar a Mesa Diretora e isolar Hugo Motta na Câmara dos Deputados. (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

O Partido Liberal (PL) será o principal protagonista na Câmara dos Deputados a partir de 2027 e terá força suficiente para negociar o nome do próximo presidente da Casa.

Diante dessa nova correlação de forças, analistas políticos avaliam que as chances de reeleição do atual presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), tornaram-se mínimas.

Em Brasília, os cálculos políticos já estão sendo feitos em reuniões e encontros de lideranças que devem apontar quais partidos vão se aliar ao PL pela presidência da Câmara.

A possibilidade de a direita e o campo conservador assumirem a presidência da Câmara é real. O desfecho, contudo, dependerá do desenho da chapa e do resultado do segundo turno das Eleições 2026. A disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) serve de bússola para o Parlamento.

A vitória de Flávio dá ainda mais poder à bancada conservadora na Câmara e atrai para a base do PL os partidos de centro-direita, como a Federação União Progressista – que declarou apoio oficial a Bolsonaro nesta terça-feira (6) -, o Novo, Podemos, PRD, Avante e o Republicanos, que oficializa apoio a Flávio nesta quarta-feira (7).

Juntas, as siglas têm força para eleger o presidente da Câmara e sacramentar a saída de Motta do comando da Casa, como explica o cientista político Elias Tavares, professor de pós-graduação da Damásio Educacional.

“O que o PL fez nesta eleição foi um verdadeiro rolo compressor. Com uma bancada de 121 deputados, o partido ganha musculatura suficiente para entrar diretamente na disputa pela presidência da Câmara e deixa de depender de uma composição muito ampla para construir uma candidatura competitiva”, explicou.

As alianças do PL na Câmara com Flávio na Presidência

O PL elegeu 121 deputados federais na Eleição de domingo (4). O número é o maior da Câmara, mas insuficiente para garantir por forças próprias o comando da Casa.

Para atingir o mínimo necessário de 257 votos, no dia 1º de fevereiro, o partido de Flávio Bolsonaro terá de firmar alianças. As mais prováveis são com o Partido Novo, que elegeu 10 deputados, e com a Federação União Progressista, que será dona de 87 cadeiras na Câmara a partir de 2027. O bloco terá 218 votos, a princípio, 39 a menos da meta.

Os votos restantes, segundo analistas, não são difíceis de conquistar e a vitória de Flávio Bolsonaro será importante para isso.

Os partidos de centro tendem a se aproximar da base aliada do PL mediante acordos de participação no futuro governo Bolsonaro. Com essa musculatura, o partido terá espaço para indicar o presidente da Câmara, inviabilizando a reeleição de Hugo Motta.

A direção do partido também buscará adesões entre parlamentares independentes de legendas como Podemos, PRD, Avante e PSD. Esses quadros concentram perfis moderados, abertos às reformas liberais na economia e pautas de segurança pública, por exemplo.

No entanto, Elias Tavares ressalta que o melhor cenário de composição de alianças para o PL na Câmara será aquele em que Flávio Bolsonaro seja eleito presidente da República.

“Em uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, a construção dessa maioria tende a encontrar um ambiente político muito mais favorável. Em uma vitória de Lula, o cenário se torna muito mais complexo, porque o governo teria de negociar com uma Câmara que saiu das urnas significativamente mais inclinada à direita”, analisou.

Hugo Motta depende de Lula para seguir presidente da Câmara

O atual presidente da Câmara, Hugo Motta, poderá se candidatar à reeleição em 2027. No entanto, o deputado enfrenta forte desgaste entre os deputados do PL e do Novo.

Os parlamentares da atual oposição criticam a omissão de Motta diante das pautas conservadoras. Eles ainda reclamam de arquivamentos indevidos de matérias consideradas prioritárias pela direita, do bloqueio à CPI do Caso Master e da condução administrativa, que, segundo analistas, é considerada aquém das expectativas institucionais.

Pesa também contra Motta a proximidade política construída com o Palácio do Planalto ao longo de 2026. O parlamentar facilitou votações de interesse do Executivo, o que limitou seu diálogo com o campo oposicionista.

Por essa razão, os analistas entendem que a viabilização de Hugo Motta para uma eventual reeleição na Câmara estaria ligada diretamente à vitória de Lula no segundo turno das Eleições 2026.

Mesmo assim, os partidos da base petista terão de se dedicar muito para atingir o número mínimo de votos em favor do paraibano. Os parlamentares de esquerda, somados com os de centro-esquerda, têm 167 votos estimados, 90 a menos do mínimo. O PT tem 88 votos, o PSD 43, o PSB 15, o PSOL e a REDE 15 e o PDT 6.

O Republicanos, partido de Hugo Motta, entrou oficialmente na campanha de Flávio Bolsonaro. O anúncio desta quarta-feira (4) reuniu o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o presidente do partido, deputado federal Marcos Pereira (SP), e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). A aliança tem o objetivo de fortalecer a campanha de Bolsonaro no segundo turno das Eleições. No entanto, de acordo com interlocutores próximos às lideranças, a convergência entre o Republicanos e o PL deve seguir em 2027, sobretudo na composição das alianças que vão eleger o próximo presidente da Câmara dos Deputados.

O cientista político Sérgio Praça, da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), é categórico sobre a eventual reeleição de Hugo Motta: “Ele não será reeleito presidente da Câmara”.

O especialista entende que a atuação do deputado na presidência da Casa foi frustrante e que seu estilo “de tomada de decisão pouco assertivo e o ambiente político dos últimos quatro anos não o ajudou”.

O reflexo das eleições no Senado na Câmara dos Deputados

O xadrez da disputa pela Mesa Diretora da Câmara não pode ser analisado isoladamente das eleições no Senado Federal porque o União Brasil abriga Davi Alcolumbre (AP), atual presidente da Casa e articulador natural de sua própria reeleição.

O PL vai brigar pela Mesa Diretora da Casa Alta e lançará o senador Rogério Marinho (PL-RN) como candidato, motivado pelo crescimento expressivo da sigla durante a votação do último domingo (4), que garantiu 28 senadores eleitos.

Esse confronto direto ameaçava criar atritos entre as bancadas do PL e da Federação União Progressista na Câmara. O União Brasil poderia responder ao embate do Senado vetando o apoio ao candidato da Câmara lançado pelo PL.

Contudo, o apoio formal da federação à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, nesta terça-feira (6), reduziu o possível atrito das siglas no Senado e isolou Davi Alcolumbre.

Sérgio Praça destaca ainda que Alcolumbre perdeu capital político nas Eleições 2026 e isso vai pesar contra ele nas disputas internas do Congresso Nacional.

“Alcolumbre saiu-se muito mal nessa eleição. Seus aliados no Pará foram derrotados. Seu principal opositor elegeu-se governador. E as mensagens com Daniel Vorcaro certamente chamuscam sua imagem também. Vejo ele bastante fraco, caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente da República”, destacou.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/nova-bancada-do-pl-deixa-hugo-motta-com-dias-contados-na-presidencia-da-camara/

Como Douglas Ruas se tornou a maior surpresa do 1º turno

Deputado estadual Douglas Ruas vira o jogo contra Paes com apoio de Flávio Bolsonaro. (Foto: Antonio Lacerda/EFE)

Em menos de um ano, o deputado estadual fluminense Douglas Ruas (PL) passou de um parlamentar desconhecido no cenário nacional à maior surpresa do primeiro turno no Brasil. Ele depende apenas de uma decisão da Justiça para ser o novo governador do Rio de Janeiro, o que pode acontecer ainda nesta quinta-feira (8), cancelando um eventual segundo turno contra Eduardo Paes (PSD) no próximo dia 25.

Até o final do ano passado, Ruas não era cotado para disputar a chefia do Palácio Guanabara, sede oficial do Executivo fluminense. A prisão do então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), transformou o deputado estadual na principal aposta de Flávio Bolsonaro (PL) no estado.

Policial civil, Ruas tem 37 anos e é filho do ex-prefeito de São Gonçalo Capitão Nelson. No município, ele foi subsecretário de Trabalho, chefiou a superintendência regional do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e assumiu a Secretaria de Gestão Integrada e Projetos Especiais, antes de se eleger deputado estadual com 175.977 votos, o segundo mais votado em 2022.

Aliado de Cláudio Castro (PL), Ruas foi nomeado secretário das Cidades do estado do Rio de Janeiro durante o segundo mandato do governador. O deputado voltou à Alerj em março deste ano, após o PL anunciá-lo então como pré-candidato ao governo fluminense.

Vitória improvável contra o favoritismo de Eduardo Paes

Na véspera do primeiro turno, a pesquisa Quaest indicava a possibilidade de vitória de Paes no primeiro turno, com 49% dos votos válidos contra 40% de Ruas. Reeleito em 2024 para o quarto mandato na prefeitura do Rio, Paes deixou o comando da cidade como favorito ao Palácio Guanabara e liderou a disputa durante toda a campanha, segundo os levantamentos da Quaest.

Na pesquisa de 25 de agosto, Paes tinha 37% das intenções de voto, enquanto o candidato do PL aparecia com 14% da preferência dos eleitores. Nas urnas, Ruas alcançou 49,2% dos votos válidos e pode ser anunciado como vencedor, se o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmar a anulação dos votos do candidato Anthony Garotinho (Republicanos) – a sessão está marcada para esta quinta-feira (8).

“Nossa hipótese é que milhares de eleitores indecisos (o Rio tinha a maior taxa de pessoas alienando voto no país) migraram em massa para Douglas Ruas nas últimas 48 horas à medida que ele foi sendo percebido como o candidato associado à candidatura de Flávio Bolsonaro”, explica o sócio-fundador da Quaest, o cientista político Felipe Nunes.

Garotinho fez campanha e concorreu nas urnas, apesar do indeferimento da candidatura pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Após receber 274,4 mil votos (equivalente a 3,1% dos votos válidos), o candidato do Republicanos anunciou que abrirá mão do recurso na Corte Superior, o que deve anular todos os votos atribuídos a ele. Assim, o universo de votos válidos aumentaria o percentual de Ruas acima dos 50%, garantindo a vitória em primeiro turno.

Douglas Ruas virou alternativa da direita após crise institucional

Os planos do PL para Bacellar começaram a desmoronar devido ao rompimento político com Castro, depois de uma manobra política que abriu o caminho para o ex-presidente da Alerj na linha sucessória do Executivo. Em maio do ano passado, Castro nomeou o vice-governador Thiago Pampolha (MDB) conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e colocou Bacellar como sucessor direto na cadeira do governo.

Para concorrer ao Senado, Castro precisaria renunciar ao governo seis meses antes das eleições (o período de desincompatibilização), deixando Bacellar no comando do estado. Durante uma viagem de Castro, Bacellar exonerou o então secretário de Transportes, Washington Reis, e abriu uma crise política.

O agravamento ocorreu com a prisão de Bacellar por suspeita de vazamento de informações sobre operações policiais em benefício do ex-deputado TH Jóias, detido sob a acusação de trabalhar politicamente em favor da facção criminosa Comando Vermelho.

A crise institucional escalou em março deste ano, quando Castro renunciou ao mandato de governador para disputar o Senado e evitar a cassação por abuso de poder político e econômico na reeleição em 2022. No entanto, Castro e o ex-aliado Bacellar foram condenados pelo TSE à perda dos direitos políticos por oito anos.

Ruas foi eleito presidente da Alerj, mas não assumiu o governo  

Com a dupla vacância, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), Ricardo Couto, assumiu interinamente o governo do estado. Em abril, Ruas foi eleito o novo presidente da Alerj, o que o colocou na linha sucessória para assumir o cargo de governador e fazer a campanha eleitoral de 2026 no comando do Executivo.

No entanto, o ex-prefeito carioca Eduardo Paes passou a defender uma eleição suplementar para o cargo e o caso foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF). Com a proximidade das eleições 2026, Couto foi mantido no cargo de governador como interino até a posse do novo mandatário.

  • Metodologia das pesquisas citadas:
    – 3.204 entrevistados pela Quaest de 2 a 3 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Globo Comunicação e Participações S/A/TV Globo. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº RJ-03032/2026.   
    – 1.302 entrevistados pela Quaest de 21 a 24 de agosto de 2026. A pesquisa foi contratada pela Globo Comunicação e Participações S/A. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº RJ-08748/2026.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/rio-de-janeiro/como-douglas-ruas-se-tornou-a-maior-surpresa-primeiro-turno/

“Bancada Nikolas” reúne campeões de votos e amplia influência do deputado mineiro

Nikolas Ferreira (PL-MG), deputado federal mais votado do país em duas eleições consecutivas (Foto: Kayo Magalhaes/ Câmara dos Deputados)

Deputado federal eleito mais votado do país em duas eleições consecutivas, Nikolas Ferreira (PL-MG) teve participação direta na campanha de outros candidatos que agora chegam ao Legislativo em diferentes estados. Apelidado de “bancada Nikolas”, o grupo reúne nomes como Lucas Pavanato (PL-SP), André Fernandes (PL-CE), Guilherme Kilter (Novo-PR) e Júlia de Castro (PL-RJ).

Além da votação expressiva em Minas Gerais, Nikolas passou a usar a projeção nacional construída nas redes sociais para impulsionar candidatos de sua preferência. Durante a campanha, o deputado declarou apoio a nomes que disputavam vagas na Câmara e nas assembleias legislativas. O resultado foi a eleição de aliados em diferentes regiões do país.

A atuação faz parte de uma estratégia que o próprio Nikolas associa à construção de uma nova geração de políticos conservadores. “Comecei sozinho dentro da escola e da faculdade, uma voz solitária”, afirmou.

Segundo ele, a ascensão na política ocorreu à medida que os eleitores passaram a se identificar com sua forma de atuação: “as pessoas percebem que existe uma voz que não é aquela aveludada dos políticos anteriores; é a voz genuína que vem do coração”.

Entre os principais nomes apoiados pelo deputado está Lucas Pavanato, eleito para a Câmara por São Paulo com mais de 3 milhões de votos. Em Minas Gerais, Nikolas ainda ajudou a impulsionar candidatos que chegaram à Assembleia Legislativa, como Pablo Almeida, seu ex-assessor, além de Pedro Luiz e Marcelo Heitor, que já haviam recebido apoio do deputado nas eleições municipais de 2024.

No discurso feito após a confirmação do resultado, Nikolas destacou justamente a formação de bancadas como um dos resultados da campanha. “Nós estamos fazendo também a maior bancada estadual de Minas Gerais”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “a maior bancada jovem conservadora no Congresso Nacional”.

Como foi formada a “bancada Nikolas” em todo o país

A rede de aliados de Nikolas Ferreira foi construída ao longo da campanha eleitoral, com apoio direto a candidatos de diferentes estados. O deputado participou de eventos, gravou conteúdos e emprestou sua imagem para nomes que disputavam vagas na Câmara dos Deputados e nas assembleias legislativas.

Na Câmara dos Deputados, a relação de candidatos apoiados por Nikolas e eleitos em 2026 inclui:

  • Lúcio Mosquini (PL-RO)
  • Coronel Chrisóstomo (PL-RO)
  • Delegado Fábio Costa (PL-AL)
  • Capitão Alden (PL-BA)
  • Dra. Raissa Soares (PL-BA)
  • André Fernandes (PL-CE)
  • Mariana Carvalho (PL-MA)
  • Cabo Gilberto Silva (PL-PB)
  • Thiago Medina (PL-PE)
  • Sargento Gonçalves (PL-RN)
  • General Girão (PL-RN)
  • Lucas Polese (PL-ES)
  • Júlia de Castro (PL-RJ)
  • Thiago Gagliasso (PL-RJ)
  • Chris Tonietto (PL-RJ)
  • Lucas Pavanato (PL-SP)
  • Guilherme Kilter (Novo-PR)

Além da Câmara, o apoio de Nikolas alcançou disputas para as assembleias legislativas. Em Minas Gerais, a rede inclui nomes que já haviam recebido apoio do deputado nas eleições municipais de 2024 e avançaram para a disputa estadual em 2026. Entre os eleitos para as assembleias legislativas estão:

Entre os eleitos para as assembleias legislativas estão:

  • Pablo Almeida (PL-MG)
  • Pedro Luiz (PL-MG)
  • Marcelo Heitor (PL-MG)
  • Eduarda Campopiano (PL-SP)

Bancada inclui os mais votados para federal e estadual em São Paulo

Em Minas Gerais, Nikolas foi reeleito neste ano com 3,1 milhões votos, o maior número da história. O parlamentar já havia sido o deputado mais votado do país em 2022, com 1,49 milhão de votos.

Em São Paulo, maior colégio eleitoral do Brasil, a rede de Nikolas também ganhou força com a eleição de dois nomes que se destacaram pela votação. Lucas Pavanato (PL) foi eleito deputado federal com mais de 3 milhões de votos, enquanto Eduarda Campopiano (PL) conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) com cerca de 1,9 milhão de votos.

Aos 26 anos, Pavanato chegou à Câmara depois de ganhar projeção na política paulistana. Em 2024, foi eleito vereador de São Paulo com 161 mil votos, a maior votação para o cargo naquele pleito. Antes disso, teve passagem pelo Movimento Brasil Livre (MBL), mas rompeu com o grupo e passou a se aproximar do bolsonarismo.

Na campanha para deputado federal, Pavanato defendeu pautas como a proibição de terapias hormonais para transição de gênero em menores de idade, o fim de cotas raciais, de gênero e para pessoas trans, a redução da maioridade penal para crimes hediondos, a proibição do aborto e a privatização de empresas estatais.

Já Eduarda Campopiano, de 23 anos, era vereadora de Praia Grande e fez uma “dobradinha” eleitoral com Pavanato. Eleita deputada estadual com cerca de 1,9 milhão de votos, tornou-se a segunda candidata mais votada para a Alesp na história do estado, atrás apenas de Janaína Paschoal, que recebeu cerca de 2 milhões de votos em 2018.

Campopiano também se apresenta nas redes sociais como uma representante de pautas conservadoras. Em seu perfil, afirma ser a “maior inimiga das feministas de SP” e defende bandeiras relacionadas à família, à segurança pública e à proteção de crianças.

Além de nomes do próprio PL, Nikolas teve participação em candidaturas de outras legendas, como Guilherme Kilter (Novo), eleito deputado federal pelo Paraná com quase 270 mil votos. Em 2024, Kilter disputou pela primeira vez uma cadeira na Câmara Municipal de Curitiba e foi eleito com 16.664 votos, a segunda maior votação para vereador na capital paranaense naquele pleito.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/bancada-nikolas-reune-campeoes-de-votos-e-amplia-influencia-do-deputado-mineiro/

Como são os drones “caçadores-assassinos” que os EUA enviaram à América do Sul para combater o crime

MQ-9 Reaper enviado pelos EUA à América do Sul pode realizar missões de vigilância, acompanhar alvos e transportar mísseis e bombas guiadas. (Foto: Lt. Col. Leslie Pratt/Força Aérea dos EUA/Wikimedia Commons)

Os Estados Unidos começaram a deslocar para a Colômbia e o Equador os drones MQ-9 Reaper, aeronaves militares capazes de permanecer por longos períodos no ar, acompanhar alvos no solo e realizar ataques com mísseis e bombas guiadas. Segundo informações divulgadas nesta terça-feira (6) pelo jornal americano The New York Times, os equipamentos estavam na África e agora passam a integrar a ofensiva americana contra o narcotráfico e organizações criminosas na América do Sul.

Ainda não se sabe quantos drones serão enviados à região. Na sexta-feira (2), o ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo Loffredo, disse à emissora Ecuador TV que dois MQ-9 já haviam sido entregues ao país e estavam em operação. A Colômbia acertou o recebimento de outros três aparelhos e avalia a compra de um quarto.

O Reaper é utilizado pela Força Aérea americana em missões de vigilância, reconhecimento e ataque. O drone foi desenvolvido para encontrar alvos, determinar sua localização e, quando necessário, destruí-los. Por reunir tais capacidades, a aeronave ficou conhecida como drone “caçador-assassino”.

Um drone com 20 metros de envergadura

O MQ-9 é bem maior que os drones normalmente usados para filmagens e vigilância. Tem 11 metros de comprimento e 20,1 metros de uma ponta da asa à outra, uma envergadura comparável à de alguns aviões comerciais de pequeno porte.

Vazio, o drone pesa pouco mais de 2,2 toneladas. Na decolagem, ele pode chegar a 4,7 toneladas, incluindo combustível, equipamentos e armamentos.

O motor Honeywell de 900 cavalos permite ao drone voar a cerca de 370 km/h em velocidade de cruzeiro. Segundo a Força Aérea dos EUA, o drone alcança aproximadamente 15,2 quilômetros de altitude e tem alcance de 1.850 quilômetros. Toda a operação do drone é feita à distância. Em vez de viajar dentro da aeronave, o piloto permanece em uma estação de controle em terra. Outro militar acompanha as imagens e opera os sensores.

Câmeras permitem vigiar alvos mesmo à noite

O Reaper pode permanecer durante horas sobre uma mesma região, acompanhando a movimentação de pessoas, veículos e embarcações. Para isso, o drone utiliza câmeras e sensores infravermelhos que permitem observar alvos também durante a noite. Os equipamentos conseguem identificar a posição de um alvo e transmitir essas informações às equipes responsáveis pela operação. O drone também possui um sistema de designação usado para orientar armamentos de precisão.

No combate ao narcotráfico, os aparelhos podem ajudar a localizar embarcações clandestinas, acompanhar veículos suspeitos e identificar instalações usadas por organizações criminosas. As imagens e coordenadas obtidas durante o voo podem ser compartilhadas com militares e policiais que atuam em terra.

Reaper também transporta mísseis e bombas

Além dos equipamentos de vigilância, o MQ-9 pode carregar aproximadamente 1,7 tonelada de carga útil, incluindo armamentos. Entre as armas que podem ser instaladas estão os mísseis AGM-114 Hellfire e as bombas guiadas GBU-12 Paveway II e GBU-38 JDAM. Com esse armamento, o drone pode acompanhar um alvo e atacá-lo sem precisar que outra aeronave seja enviada ao local. Os Estados Unidos já utilizaram o Reaper em operações contra organizações terroristas no Oriente Médio e na África. Na Somália, por exemplo, forças americanas mantêm operações contra o Al Shabab, grupo ligado à Al Qaeda.

O que os drones farão contra as facções?

A principal missão dos Reaper na América do Sul deverá ser a vigilância de áreas utilizadas pelo narcotráfico. Os drones poderão acompanhar suspeitos, veículos e embarcações e fornecer informações às forças colombianas e equatorianas.

Ainda não há confirmação de que os drones enviados aos dois países estejam autorizados a realizar ataques. Em setembro, o chefe do Comando Sul dos EUA, general Francis Donovan, afirmou que Washington estuda realizar ataques terrestres contra organizações criminosas na região. Segundo ele, as ações podem incluir operações contra esconderijos e instalações usadas pelos grupos.

Mudança de prioridade dos EUA

A decisão de enviar os drones para a América do Sul ocorre no momento em que o governo de Donald Trump coloca a defesa do Hemisfério Ocidental e o combate às organizações envolvidas com o narcotráfico entre as prioridades do Pentágono.

A presença militar americana na região já vinha crescendo. No ano passado, os EUA deslocaram drones MQ-9, caças F-35 e uma aeronave de ataque AC-130 para o Caribe durante a ofensiva contra embarcações apontadas como envolvidas no tráfico de drogas. Essa operação terminou na captura do ditador Nicolás Maduro, em janeiro.

Colômbia e Equador estão entre os países que aprofundaram a cooperação militar com Washington nos últimos meses. No Equador, forças americanas já participaram neste ano de operações ao lado das autoridades locais contra redes do narcotráfico. Em setembro, um drone Vector fornecido pelos EUA ajudou as forças colombianas a localizar e resgatar oito pessoas sequestradas pela guerrilha do ELN, na região de Catatumbo. No mesmo mês, drones fornecidos pelos EUA ajudaram as forças colombianas a localizar e capturar Norbey Goez Sepúlveda, apontado como integrante do Clan del Golfo, uma das maiores facções criminosas do país. A operação ocorreu na zona rural de Turbo, no departamento de Antioquia.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/como-sao-os-drones-cacadores-assassinos-que-os-eua-enviaram-a-america-do-sul-para-combater-o-crime/

Franklin Ferreira

O Senhor Deus muda os tempos e as estações: as urnas e nossa esperança

Michelle Bolsonaro está entre os muitos candidatos evangélicos eleitos em 4 de outubro. (Foto: André Borges/EFE)

“Ele muda os tempos e as estações; remove reis e estabelece reis.” (Daniel 2,21)

O domingo eleitoral trouxe razões concretas para que brasileiros olhem para o futuro com renovada esperança. Não porque todos os problemas tenham desaparecido, nem porque uma eleição seja capaz de regenerar uma nação. Mas porque as urnas mostraram que mais de 56 milhões de brasileiros desejam uma mudança de rumo.

Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, levando a eleição para o segundo turno. Com a apuração concluída, a diferença era superior a 2 milhões de votos. Ao mesmo tempo, candidatos identificados com a direita e o conservadorismo conquistaram importantes vitórias para o Senado, governos estaduais e Câmara dos Deputados. Não se trata, portanto, de um acontecimento isolado, mas de uma mudança significativa na correlação de forças políticas do país.

É legítimo celebrar. Mas é ainda mais importante compreender esses acontecimentos à luz de uma verdade muito mais antiga que a República brasileira: o único Deus, por sua providência, continua governando a história.

Como lembrou Bento XVI numa audiência geral de 2005: “A história não está nas mãos de potências obscuras, do acaso ou de meras decisões humanas. […] Deus não é indiferente às vicissitudes humanas, mas nelas penetra realizando as suas ‘vias’, ou seja, os seus projetos e as suas ‘obras’ eficazes. […] A aventura da humanidade não é confusa e sem significado, nem está votada sem apelo à prevaricação dos prepotentes e dos perversos. Pode-se reconhecer o agir divino escondido na história.”

Presidentes passam. Senadores terminam seus mandatos. Ministros deixam seus tribunais. Partidos surgem, crescem, dividem-se e desaparecem. O único Deus permanece

Uma noite importante para a direita

Talvez uma das mensagens mais claras das urnas tenha vindo do Senado, justamente porque neste ano estavam em disputa 54 das 81 cadeiras da casa.

No Rio Grande do Sul, Marcel van Hattem e Sanderson conquistaram as duas vagas. No Rio de Janeiro, Carlos Portinho e Carlos Jordy foram eleitos. Em São Paulo, Guilherme Derrite e André do Prado conquistaram as duas cadeiras em disputa. No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis foram eleitas. No Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja e Capitão Contar conquistaram as duas vagas. Em Santa Catarina, Carol de Toni e Carlos Bolsonaro venceram a disputa.

Também houve derrotas especialmente simbólicas para a esquerda. Randolfe Rodrigues, líder do governo Lula no Congresso e senador desde 2011, não conseguiu renovar seu mandato pelo Amapá. Manuela d’Ávila retornou à disputa eleitoral depois de anos afastada das urnas, mas não conseguiu uma das duas vagas gaúchas. Benedita da Silva, Marina Silva, Leila do Vôlei e Simone Tebet, além de Renan Calheiros, também ficaram fora do Senado.

Uma nova correlação de forças

A eleição para o Senado merece atenção especial. Além de legislar, a casa aprova autoridades indicadas para cargos importantes e exerce competências específicas sobre ministros do Supremo Tribunal Federal. Por isso, mudanças expressivas em sua composição podem alterar o equilíbrio institucional em Brasília. A nova configuração aponta para maior presença das forças de direita, embora longe de constituírem um bloco homogêneo.

Algo semelhante ocorreu na Câmara. O avanço do PL e de outros setores conservadores cria um ambiente parlamentar diferente para debates sobre segurança pública, responsabilidade fiscal, liberdade de expressão e religiosa, família, proteção da vida e limites do poder estatal. O PL, em particular, saiu das urnas muito fortalecido.

O fracasso dos candidatos das igrejas pentecostais

Mas uma das mudanças mais interessantes ocorreu dentro do próprio campo evangélico. As grandes máquinas eleitorais ligadas a denominações pentecostais e neopentecostais sofreram derrotas expressivas. Os quatro filhos de R. R. Soares ficaram sem mandato; a Assembleia de Deus do Brás/Madureira não conseguiu eleger seus quatro candidatos em São Paulo; Cezinha de Madureira não se reelegeu; Edna Macedo perdeu sua cadeira na Assembleia Legislativa paulista; Marcelo Crivella ficou fora do Senado; e candidatos da Igreja do Evangelho Quadrangular também foram derrotados.

Isso não significa diminuição da presença evangélica na política, mas pode indicar o enfraquecimento de um modelo de representação baseado no controle denominacional do voto. Durante décadas, grandes igrejas pentecostais e neopentecostais construíram máquinas eleitorais, indicando candidatos oficiais e negociando apoio de maneira frequentemente pragmática, integrando-se, em muitos casos, à lógica fisiológica do Centrão.

Desta vez, muitos evangélicos continuaram votando em candidatos conservadores, mas deixaram de seguir automaticamente os nomes apresentados pelas cúpulas de suas denominações. O voto evangélico permaneceu forte, mas parece ter se tornado menos controlável pelas máquinas eclesiásticas: candidatos identificados como evangélicos se elegeram, tais como Michelle Bolsonaro, Marcel van Hattem, Nikolas Ferreira e Deltan Dallagnol, enquanto vários representantes institucionais das grandes denominações foram rejeitados.

O fenômeno acompanha uma transformação mais ampla. O velho Centrão sofreu derrotas importantes, atingindo lideranças e estruturas que durante anos funcionaram como fiadoras do presidencialismo de coalizão. A derrota de Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e um dos nomes mais representativos desse sistema, é simbólica: terminou apenas em terceiro na disputa pelo Senado no Piauí.

Muitos evangélicos continuaram votando em candidatos conservadores, mas deixaram de seguir automaticamente os nomes apresentados pelas cúpulas de suas denominações

Seria exagerado decretar a morte do Centrão. Sua capacidade de adaptação é enorme, e partidos como PP, União Brasil, Republicanos, MDB e PSD continuarão exercendo influência. As fronteiras entre direita, centro-direita e Centrão também são menos nítidas na prática do que parecem durante as campanhas. Mas a correlação de forças mudou: as urnas fortaleceram setores claramente identificados com posições conservadoras e retiraram espaço de caciques partidários e máquinas religiosas acostumadas a converter influência institucional em mandatos.

Eleições produzem consequências. Talvez uma das mais significativas deste domingo seja justamente esta: parte do poder político se deslocou das cúpulas para o eleitorado. Milhões de brasileiros recusaram tanto a ideia de que a continuidade do atual projeto político fosse inevitável quanto a de que antigos caciques partidários ou religiosos pudessem determinar como deveriam votar. Há uma nova correlação de forças no país. E, pela primeira vez em décadas, há espaço real para uma mudança de rumo.

Celebrar sem idolatria

Podemos comemorar uma eleição sem transformar políticos em salvadores. Podemos desejar a derrota de projetos que consideramos prejudiciais ao país sem imaginar que o Reino de Deus chegou por meio das urnas.

A Escritura é radicalmente realista quanto ao poder. Daniel aprendeu isso vivendo não numa democracia liberal, mas entre os impérios mais poderosos de seu tempo. Viu reis se exaltarem, governantes enlouquecerem de orgulho, impérios parecerem invencíveis e poderes humanos desaparecerem. Sua conclusão foi simples: “Ele muda os tempos e as estações; remove reis e estabelece reis”. O sujeito da frase é o Deus de Israel. Não são os partidos, os tribunais, os generais, os presidentes, os movimentos políticos, nem sequer os eleitores. O Deus criador e salvador. Essa verdade nos protege tanto do desespero quanto da euforia.

Bento XVI reforça essa distinção com clareza: “Jesus esclarece a natureza do seu reino e da própria messianidade, que não é poder terreno, mas amor que serve; afirma que o seu reino de modo algum se confunde com qualquer reino político: ‘A minha realeza não é deste mundo… o meu reino não é daqui’ (Jo 18,36). […] Jesus sabe que o reino de Deus é de gênero totalmente diverso; não se baseia sobre as armas e a violência”. E ainda: “O poder do verdadeiro Messias, o poder que nunca passará nem será destruído, não é o poder dos reinos da terra, que se elevam e caem, mas o poder da verdade e do amor”.

É justamente porque o Reino de Cristo não se confunde com nenhum projeto político que podemos celebrar vitórias eleitorais sem idolatrá-las – e enfrentar derrotas sem desespero.

Deus não perde eleições

É possível que o Brasil esteja entrando em um período de correção política. O novo Congresso poderá impor limites mais claros ao Executivo e contribuir para o reequilíbrio das instituições. O segundo turno poderá ampliar ainda mais essa mudança.

Mas cristãos deveriam aprender a acrescentar algumas palavras a toda expectativa política: “se Deus quiser”. Nossa confiança última não pode repousar numa maioria parlamentar ou na eleição de um presidente. Maiorias mudam. Presidentes passam. Senadores terminam seus mandatos. Ministros deixam seus tribunais. Partidos surgem, crescem, dividem-se e desaparecem. O único Deus permanece. Essa é a diferença fundamental entre esperança cristã e otimismo político. O otimista espera que as circunstâncias melhorem. O cristão trabalha para que melhorem, mas sabe que sua esperança não depende disso.

Por isso podemos participar intensamente da vida pública sem transformar a política em religião. Podemos votar, fiscalizar, cobrar, protestar e exigir responsabilidade daqueles que governam – e, depois, afirmar: “Em paz me deito e logo pego no sono, porque só tu, Senhor, me fazes repousar seguro” (Sl 4,8). O governo do universo não repousa sobre nossos ombros.

Podemos desejar a derrota de projetos que consideramos prejudiciais ao país sem imaginar que o Reino de Deus chegou por meio das urnas

Esperança para o Brasil

Eu desejo um Brasil melhor. Um país no qual nossos filhos e netos possam crescer em segurança; famílias possam educar seus filhos segundo suas convicções; igrejas cristãs possam pregar livremente; trabalhadores possam prosperar pelo fruto de seu esforço; criminosos sejam punidos de acordo com a lei; governantes encontrem limites institucionais e nenhuma autoridade se imagine acima da Constituição. Os resultados deste domingo oferecem razões para esperar avanços nessa direção. Talvez venham anos melhores – devemos trabalhar por isso. Talvez ainda enfrentemos tempos difíceis – devemos estar preparados para isso.

A fé de que o Deus soberano “remove reis e estabelece reis” não é verdadeira somente quando nossos candidatos vencem. Também é verdadeira quando perdem. Portanto, celebremos com sobriedade, agradeçamos pela liberdade de votar e cobremos dos eleitos coragem, integridade e fidelidade às promessas feitas.

Ainda há um segundo turno. Há trabalho pela frente, instituições que precisarão reencontrar seus limites e uma sociedade profundamente dividida que precisará reaprender a conviver. Mas acima de Brasília existe um trono que nenhuma eleição alcança. Karl Barth expressou isso com precisão: “Onde existe a grande esperança, necessariamente existem também pequenas esperanças para o futuro imediato. Essas esperanças têm sua base e sua força somente na grande esperança. Elas são pequenas, relativas e condicionadas. […] E é certamente nessas muitas pequenas esperanças que o cristão vive de dia a dia, se ele realmente vive na grande esperança”.

É exatamente assim que devemos olhar para o Brasil: alimentar as pequenas esperanças sem confundi-las com a grande esperança. “Ele muda os tempos e as estações; remove reis e estabelece reis.” Governos passam. Ideologias passam. Impérios passam. O bom Deus permanece. E é precisamente por isso que podemos olhar para o futuro do Brasil com esperança – não porque saibamos o que acontecerá amanhã, mas porque sabemos quem continuará reinando quando o amanhã chegar.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/resultado-eleicoes-religiao-esperanca/

Francisco Razzo

Título de eleitor não vem com adesão ideológica

Eduarda Campopiano foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo. (Foto: Miqueias Itiuba)

Já me perguntaram como pode um professor de Filosofia não ser de esquerda. A pergunta supõe que o diploma veio com ficha de filiação.

Voltei a essa pergunta ao ler, no Intercept Brasil, a análise de Camila Galetti sobre as antifeministas eleitas no domingo. Seis eleitas do PL somaram mais de 6,5 milhões de votos. A mulher mais votada para a Assembleia Legislativa paulista, com quase 2 milhões, se define como antifeminista. A autora resume o incômodo: “a explosão de votos ficou com candidatas que atacam justamente o movimento que abriu a porta para elas entrarem na política”. Li ali uma suspeita da mesma família da pergunta que me fizeram: quem pensa fora do esperado precisa de uma explicação que venha de fora.

Há verdade no incômodo. Melhor dizê-la antes de discordar: sem a luta sufragista não haveria voto feminino; sem voto, não haveria candidata. O texto, além disso, tem cuidados que eu não esperava. Reconhece que elas “têm o direito de discordar do feminismo” e chama de incompleta a leitura de que as eleitoras “estão votando contra si mesmas”.

O argumento central vem em duas frases: “Elas usam a própria presença como prova de que o feminismo é desnecessário. A existência delas, porém, só é possível por causa do que o feminismo conquistou”. Contra quem usa a presença como prova, procede. A genealogia, porém, não decide nada sobre o que elas defendem agora. Usar um direito não obriga a concordar com quem o conquistou: o título de eleitor não traz cláusula de reconhecimento de dívida; a liberdade religiosa, conquistada por crentes perseguidos, serve hoje ao ateu sem que lhe exijam o batismo.

A suspeita de que a mulher de direita pensa pela cabeça de outro já serviu para lhe negar o voto

O incômodo, no fundo, é com a incoerência. Maquiavel abre o capítulo XVIII de O Príncipe admitindo o que todos dizem: “Quanto seja louvável num príncipe manter a palavra e viver com integridade, e não com astúcia, todos entendem”. Depois observa que os príncipes que fizeram grandes coisas tinham feito pouco caso da palavra dada. Na política, a coerência vale pelo que rende: dá ao eleitor alguma previsão sobre o que o político fará amanhã. Cobrada do adversário, costuma servir para desqualificá-lo antes de discutir o que ele defende. O texto do Intercept, justiça seja feita, discute o que elas defendem: feminicídio, aborto, cotas. Nessa parte a discordância é de mérito e não cabe aqui.

Há casos em que a incoerência existe. A eleita que pediu voto apresentando a mulher sobretudo como esposa, mãe e fiel vive uma tensão que é dela. O eleitor, porém, não a puniu. Comprou o que a própria autora chama de “um discurso de ordem, família e proteção”. Maquiavel não estranharia.

Há no texto uma frase que destoa do resto: “Essas candidatas têm rosto de mulher e estrutura de homem: a campanha é financiada pelo partido, o suplente é o irmão, o marido concorre junto”. Repare em quem conjuga os verbos. O partido financia, o irmão é suplente, o marido concorre. À mulher sobra o rosto. O resto da análise lhes dá verbo o tempo todo; nesta frase, quando o incômodo aperta, o reflexo é procurar o homem atrás da mulher. E o dinheiro do partido, no caso delas, sai em parte da reserva para candidaturas femininas, cota que o próprio texto põe na conta do feminismo.

O reflexo tem história. Na França, o Senado barrou o voto feminino durante todo o entreguerras, em boa parte porque os radicais, a esquerda laica da época, temiam que as mulheres votassem como mandasse o padre. O voto só veio em 1944, por ordenança. O precedente não decide o caso de hoje. Lembra apenas que a suspeita de que a mulher de direita pensa pela cabeça de outro já serviu para lhe negar o voto.

A análise termina com uma questão: “Haverá mais mulheres no poder em 2027. A questão é para que vão usá-lo”. A linha anterior sugere a resposta: “Já sabemos em qual lombo o chicote dela quer estralar”. Pode ser. Quem vai responder é o mandato delas; quem vai cobrar é o eleitor. Lutou-se para que as mulheres pudessem escolher. Escolheram.

Em 1774, recém-eleito, Edmund Burke avisou aos eleitores de Bristol que lhes devia o próprio juízo; sacrificá-lo à opinião deles seria traí-los. Juízo próprio é o que a frase do rosto nega às eleitas de domingo. Quem as considera perigosas tem razões para combatê-las. Antes, precisa admitir que elas pensam o que dizem.

Volto à pergunta que me fizeram. Ensino Filosofia sem ficha de filiação. O máximo que posso alegar a meu favor é que os erros, quando houver, são meus. Imagino que as eleitas de domingo possam dizer o mesmo.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/francisco-razzo/eleicoes-mulheres-antifeministas/

Coluna Esplanada

Caso vença, Flávio quer discutir fim da reeleição e união de pleitos

Analistas veem com otimismo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, que coloca Flávio Bolsonaro (PL) como favorito na corrida presidencial (Foto: Andre Borges/EFE)

Caso vença a eleição para presidente da República, Flávio Bolsonaro (PL) vai trabalhar no Congresso (e terá maioria para isso) para aumentar o mandato para seis anos. Por isso ele crava ser contra a reeleição. A ideia é bem vista nos meios político e empresarial. Porque acaba com reeleição e une no mesmo ano os pleitos municipais, estaduais e nacional.

A mudança traria uma boa economia, e menos desgaste político, menos politização judicial. Mas, uma vez na poltrona, a história pode ser outra. Ontem, ele já começou a citar que tudo vai depender do Congresso Nacional. A conferir.

Ilusão eleitoral

Veja o desespero do governo Lula para mais votos, até num estado com poucos eleitores. Na véspera da eleição do 1º turno, a Petrobras soltou para todo o Brasil que achou petróleo no Amapá. A empresa já sabe há um ano, mas é praxe segurar para momentos específicos para o mercado. Não bastasse isso, a presidente da petroleira, Magda Chambriard, soltou no megafone como isso é bom para o Amapá. Ação eleitoreira.

Deu tudo errado!

O ministro do STF Flávio Dino segurou no cargo-tampão o desembargador Ricardo Couto, o que conotou plano para ALERJ não eleger Douglas Ruas (PL). Eduardo Paes (PSD) se acomodou com pesquisas apontando sua vitória. Numa vendeta discreta, a grande maioria dos deputados da ALERJ fizeram campanha no interior por Ruas. Perderam Paes, Lula e Couto – este, se um dia sonhou, não vai para o STF caso Flávio seja eleito.

Recado das urnas

Ao estilo do poder em Brasília, um emissário do bolsonarismo mandou o recado a dois expoentes do Supremo Tribunal Federal. Haverá forte reforma do Judiciário via Congresso. “Os poderes deles serão reduzidos a 30% do que são hoje”, diz um cacique. E é bom aceitarem. Ou topam o acordo, ou serão tratorados. É o recado das urnas.

O fim de Moraes

Neste cenário, não haverá saída para Alexandre de Moraes. Ou ele deixa a poltrona no Supremo como saída honrosa no 1º semestre, ou será alvo de impeachment, caso Flávio seja eleito. Lula também já sinalizou que abandonou o ministro. O PL e aliados no Senado já têm 49 senadores para isso. Faltam cinco para a maioria necessária – e a tinta da caneta vai chiar no papel para alcançar a maioria, se Flávio for o presidente.

El niño

Nove ações para a prevenção e redução dos impactos das chuvas intensas associadas ao El Niño foram selecionadas pela Teia de Soluções, da Fundação Grupo Boticário, em parceria com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e o RegeneraRS. Ao todo, são sete projetos no Rio Grande do Sul, um em Santa Catarina e um em São Paulo. São R$ 4,2 milhões em recursos a serem divididos entre eles.

Ponto final

Pesquisa eleitoral só serve para confundir. A maioria dos institutos errou feio no 1º turno.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/coluna-esplanada/caso-venca-flavio-quer-discutir-fim-da-reeleicao-e-uniao-de-pleitos/

Paulo Cruz

“Eu te odeio; vota em mim!”

A esquerda adora hostilizar o “pobre de direita”, mas agora precisa do voto dele. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo)

“Aí também existe ódio – pronunciou ele depois de um minuto de pausa –, eles seriam os primeiros grandes infelizes se de repente a Rússia conseguisse transformar-se, ainda que fosse à maneira deles, e de algum modo se tornasse subitamente rica e feliz além da medida.” (Chátov, personagem de Dostoiévski em Os Demônios)

Findo o primeiro turno das eleições, com uma vitória substancial de Flávio Bolsonaro, a esquerda toda, como sói acontecer, entrou em modo desespero. Artistas, influenciadores, políticos e toda a malta digital do #BoraLula ficou, por algumas horas, em choque, até ligar sua metralhadora de terceirização de culpa.

Sim, porque não foi por causa do preço das coisas no mercado; pela falta de segurança; pela educação destruída; pela informalidade; pelo discurso ideológico durante os quatro anos de um governo que não entregou nada de concreto para a população; e, claro, não foi pelas diatribes e gastanças da Janja. Não foi pela “taxa das blusinhas” e pelo aumento de vários impostos, única e exclusivamente a fim de aumentar a arrecadação; não foi pelo fim eleitoreiro das bets; nem pelo inacreditável Pé-de-Meia; ou pelos Desenrola 1, 2 e 3, que só aumentaram o endividamento da população. Sabem de quem foi a culpa? Do pobre de direita.

Foi só o dia amanhecer na segunda-feira para as redes sociais serem inundadas de textos e vídeos de esquerdistas culpando o “pobre de direita”

O resultado do primeiro turno mostrou uma expansão do bolsonarismo entre eleitores de regiões e áreas populares que tradicionalmente davam vantagem a Lula, especialmente no Norte e em partes das periferias urbanas. Então, foi só o dia amanhecer na segunda-feira para as redes sociais serem inundadas de textos e vídeos culpando o “pobre de direita”, uma metáfora criada pela própria esquerda – como vou explicar abaixo – a fim de demonizar aquelas pessoas que, mesmo sendo periféricas, não votam na esquerda.

O que seria, portanto, o “pobre de direita”? De acordo com a esquerda, seria uma contradição ambulante, uma vez que uma pessoa pobre não pode se aliar ao opressor. Ou seja, para você acreditar que existe um algo chamado “pobre de direita”, você precisa, primeiro, comprar a visão de mundo da esquerda de que a “direita” representa, fundamentalmente, a burguesia exploradora (se algum leitor for esquerdista, perdão pelo pleonasmo) e a opressão dos pobres. E para acreditar que a “direita” representa a opressão, precisa abraçar, igualmente, a petição de princípio marxista, expressa no Manifesto, de que “a história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes”.

Vamos organizar as ideias. O marxismo e, posteriormente, boa parte das esquerdas assumiram a ideia de que existe, de fato, uma disputa entre patrões e empregados, pois estes seriam fundamentalmente explorados por aqueles. Mas um problema se impõe: os empregados, via de regra, não percebem a exploração, pois são alienados. O trabalhador não reconheceria espontaneamente a estrutura de exploração na qual está inserido. Por isso, é preciso que ele seja conscientizado pela militância organizada.

O problema é que essas relações não são tão simples, sobretudo com a imensa diversificação do trabalho a partir do século 20. Existe exploração? Óbvio que existe. Mas também existe funcionário procrastinador, displicente, mentiroso etc. Existem patrões, de fato, preocupados com o bem-estar de seus funcionários? Também existem. Sem contar que grande parte dos empregadores é de empreendedores de pequeno e médio porte que trabalham tanto (ou mais) que seus funcionários – às vezes sem remuneração alguma.

E para piorar, o mundo do trabalho mudou por completo com a chegada da tecnologia. A automação, a informática, a internet e, mais recentemente, a inteligência artificial transformaram profundamente a natureza das profissões, aumentaram a produtividade e criaram ocupações que simplesmente não existiam no passado. A relação entre patrão e empregado deixou de caber na imagem industrial clássica. Hoje, há trabalhadores altamente especializados, profissionais autônomos, empreendedores individuais, prestadores de serviço, trabalhadores de plataformas e uma infinidade de ocupações nas quais o próprio trabalhador possui parte significativa dos instrumentos e conhecimentos necessários para produzir. E eles estão falando em defender a CLT e o fim da escala 6×1.

Ou seja, a ideia de uma luta de classes e da necessidade de criar, no oprimido, uma tal consciência de classe é uma invenção teórica que não corresponde à realidade. Nem todo patrão é demônio, nem todo empregado é um anjo de candura. O problema é que a esquerda crê piamente nisso, pois vive, como bem observou Eric Voegelin, numa segunda realidade, cuja principal característica é a recusa de perceber. Ele explica, em suas Reflexões Autobiográficas:

“A recusa de perceber tornou-se para mim o conceito central para a compreensão das aberrações e deformações ideológicas. Ela se manifesta nas situações mais diversas. A mais interessante delas, do ponto de vista histórico, é a proibição formal de fazer perguntas reivindicada por Marx e Comte. Se alguém questionasse sua doutrina ideológica, levantando a questão do plano divino da realidade, Comte recomendaria que não levantasse questões ociosas […], enquanto Marx lhe mandaria calar a boca e tornar-se um ʻhomem socialistaʼ […]. Essa atitude de proibir qualquer dúvida sobre as premissas – o que levaria à imediata implosão do sistema – é muito comum entre ideólogos numa discussão. Em numerosas conversas com hegelianos, por exemplo, sempre se chegava a um ponto em que era preciso questionar as premissas da realidade alienada que são o ponto de partida da especulação de Hegel. Quando vinha a pergunta, recebia de meu interlocutor hegeliano a resposta de que nada entendia de Hegel; para entendê-lo, seria preciso aceitar suas premissas sem questioná-las. Portanto, se entendemos que a proibição de perguntar é a principal tática de todo debatedor ideológico, então já dispomos de ao menos um importante critério para diagnosticar a presença de uma ideologia.”

Falar em “pobre de direita” é uma rotulação falsa, um xingamento, a fim de desqualificar e ofender quem pensa e toma decisões de acordo com a própria consciência

Os teóricos de esquerda, a partir da Segunda Realidade, criam pseudoconceitos – como “luta de classes”, “capitalismo”, “meritocracia” – a fim de criticá-los. E tais pseudoconceitos só fazem sentido dentro de sua visão de mundo específica.

Por isso, falar em “pobre de direita” é uma rotulação falsa, um xingamento, a fim de desqualificar e ofender quem pensa e toma decisões de acordo com a própria consciência, que é diversa da que a esquerda exige de alguém que julga ter sob sua tutela. Como ela pensa ser dona das chamadas minorias sociais, qualquer um que escape de seus domínios é diligentemente perseguido, como o resultado do primeiro turno mostrou.

O problema é que, agora, Lula precisa desesperadamente desses votos. Então sua entourage passou a falar em empatia, diálogo, construção de pontes, com aquela falsa condescendência do tipo: “querido pobre de direita, você tem um minuto para ouvir o evangelho do pai Lula?” Mas, pelo visto, não está dando certo. E não dará mais, pois, paradoxalmente, o progressismo se tornou retrógrado e obsoleto. A rebeldia agora está no “pobre de direita”.

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