Toffoli e a deformação da Justiça no caso Banco Master

Ministro Dias Toffoli é o relator do caso do Banco Master no STF. (Foto: Andressa Anholete/STF)

Na semana passada, esta Gazeta defendeu abertamente o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli. E a cada dia que passa a saída do ministro se torna mais imperativa. A permanência de Toffoli como relator do inquérito sobre o Banco Master é escandalosa. O ministro já abusou tanto da paciência do país que cabe perguntar, parodiando Cícero, Quo usque tandem abutere, Toffoli, patientia nostra? Até quando abusarás de nossa paciência, ministro Toffoli?

A atuação de Dias Toffoli não apenas destoa dos parâmetros mínimos de normalidade institucional. Ela os afronta. O que se observa é uma conduta sistemática de intervenção direta no curso da apuração, com o claro efeito – senão a intenção – de moldar o processo segundo conveniências específicas. Trata-se de um comportamento incompatível com a função constitucional de um ministro do Supremo.

Ministros do Supremo não são figuras sacralizadas. São servidores públicos investidos de poder precisamente porque se espera deles mais rigor, mais prudência e mais respeito às regras – não menos

O que deveria ser supervisão judicial converteu-se em ingerência. O que deveria ser cautela tornou-se dirigismo. E o que deveria ser imparcialidade foi substituído por uma sequência de atos que, considerados em conjunto, revelam um padrão de atuação incompatível com qualquer noção séria de devido processo legal. Agora, na fase de oitivas, o relator fixou prazo exíguo para ouvir múltiplos investigados – considerado insuficiente pela própria Polícia Federal – e determinou que os depoimentos fossem realizados no STF, sob sua supervisão direta, rompendo com a prática ordinária e ampliando ainda mais sua interferência sobre a dinâmica da apuração. Não é procedimento técnico. É controle.

O quadro já seria grave por si só, mas torna-se escandaloso diante das informações, amplamente divulgadas pela imprensa, sobre vínculos financeiros entre familiares do ministro Toffoli e pessoas ligadas aos investigados, envolvendo empreendimento imobiliário no Paraná. As regras de impedimento existem justamente para impedir que situações como essa contaminem a credibilidade do Judiciário. Ignorá-las não é tecnicalidade: é corrosão institucional deliberada.

Diante de fatos tão graves, seria razoável esperar do Supremo uma reação orientada à proteção de sua própria autoridade. Mas o que se viu foi o oposto. A nota divulgada pelo presidente da corte, Edson Fachin, não enfrentou os fatos. Limitou-se a uma defesa corporativa, genérica e previsível, embalando a blindagem sob a retórica já desgastada da “defesa da democracia”. A crítica legítima é tratada como ameaça institucional; o pedido de transparência é rotulado como ataque ao Estado de Direito. O Supremo, mais uma vez, preferiu proteger seus membros a proteger sua credibilidade.

Exigir que ministros cumpram as regras de impedimento, que respeitem o devido processo legal e que se submetam ao escrutínio público não enfraquece a democracia – fortalece-a. Cortes constitucionais não sobrevivem ao fechamento defensivo. Fortalecem-se quando respondem a questionamentos com transparência, não quando os desqualificam. A democracia não é atacada por quem exige explicações do Supremo. É atacada quando a corte se recusa a dá-las.

Também a Procuradoria-Geral da República, ao manifestar-se contra o afastamento do ministro Toffoli, reforça a percepção de alinhamento institucional e abdica de sua função constitucional de fiscalização. E o Senado, instância encarregada de exercer controle sobre ministros do Supremo, simplesmente tem desertado de suas responsabilidades. A omissão tornou-se política oficial.

Ministros do Supremo não são figuras sacralizadas. São servidores públicos investidos de poder precisamente porque se espera deles mais rigor, mais prudência e mais respeito às regras – não menos. Quando passam a agir sem constrangimento institucional, protegidos por seus pares e blindados pela omissão dos demais Poderes, o que está em risco não é apenas a imagem do STF. É a própria ideia de República. Se Davi Alcolumbre, presidente do Congresso, prefere a covardia, os demais senadores, as instituições republicanas ainda comprometidas com a ordem institucional e a sociedade precisam exigir que o Senado cumpra seu papel. Não há outro caminho: Toffoli não pode continuar livre para abusar da paciência do país.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/toffoli-e-a-deformacao-da-justica-no-caso-banco-master/

CPMI do INSS e Banco Master têm em comum um Lewandowski enrolado

Enrique (E) e Ricardo Lewandowski (D), pai e filho

Dois dos maiores escândalos da atualidade têm em comum o sobrenome Lewandowski entre os personagens. No caso do INSS, a Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (AMBEC) e o Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (CEBAP), contrataram Enrique Lewandowski como advogado no processo que investiga a ladroagem contra velhinhos e pensionistas. O mesmo padrão se repete na bilionária fraude envolvendo o Banco Master.

Pagamento na veia

O Master contratou o escritório da família Lewandowski, com o patriarca já na cadeira de ministro da Justiça, mediante R$250 mil mensais.

Ministro no pacote?

Enrique é filho de Lewandowski, que era ministro da Justiça na vigência do contrato. A Polícia Federal é subordinada ao titular do ministério.

CPMI deve convocar

Pedido de convocação de Enrique Lewandowski aguarda votação. Cita o “peso” e a “influência” de ser “filho do então ministro”.

Quebra de sigilo

Requerimento da deputada Bia Kicis (PL-DF) para quebrar o sigilo bancário de Enrique, mirando o INSS, pode trazer muito mais que isso.

FONTE: DP https://diariodopoder.com.br/coluna-claudio-humberto/cpmi-do-inss-e-banco-master-tem-em-comum-um-lewandowski-enrolado

Vorcaro e ex-BRB se contradizem sobre origem de créditos

Daniel Vorcaro era o controlador do Banco Master, liquidado pelo Banco Central – Foto: redes sociais.

O fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ex-gestor do BRB, Paulo Henrique Costa, apresentaram versões conflitantes sobre a procedência de ativos financeiros. O confronto ocorreu durante uma acareação realizada no Supremo Tribunal Federal no mês de dezembro.

O foco da divergência centra-se em créditos problemáticos adquiridos pela instituição brasiliense no início de 2025. Segundo Vorcaro, o BRB sabia que os valores provinham da empresa Tirreno, uma terceira parte no negócio.

Por outro lado, o ex-presidente do Banco de Brasília sustentou que acreditava na origem direta dos recursos no próprio Banco Master. As informações sobre o embate jurídico foram publicadas originalmente pelo portal Poder360.

Durante o questionamento da Polícia Federal, Vorcaro relatou conversas prévias com Paulo Henrique sobre um novo modelo de comercialização de carteiras. Ele afirmou que o executivo fora avisado sobre a originação dos ativos por terceiros.

Contudo, o ex-presidente do BRB alegou que seu entendimento era diferente sobre a movimentação dos títulos. Para ele, o Master originava as carteiras, vendia para outros e depois as recomprava para repassar ao banco estatal.

Paulo Henrique destacou que as falhas de informação só se tornaram evidentes após a conclusão das operações financeiras. O procedimento policial foi acompanhado por representantes do Ministério Público Federal e do gabinete do ministro Toffoli.

As investigações contra o Banco Master começaram em 2024 a pedido do Ministério Público Federal. O objetivo era apurar a suposta criação de carteiras de crédito sem fundamento real.

A apuração indica que tais títulos foram vendidos a outra instituição bancária. Após intervenção do Banco Central, esses ativos teriam sido trocados por papéis sem a devida avaliação de risco.

Em 18 de novembro, a autoridade monetária oficializou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de sua corretora. A medida interrompeu definitivamente o processo de venda da instituição que havia sido divulgado apenas um dia antes.

FONTE: DP https://diariodopoder.com.br/brasil-e-regioes/vorcaro-e-ex-brb-se-contradizem-sobre-origem-de-creditos

Maioria absoluta dos brasileiros acha que Lula não merece ser reeleito

Lula (PT) – Foto: Agência Brasil.

Levantamento nacional realizado pelo Paraná Pesquisas e divulgado nesta quinta-feira (29) revela que a maioria absoluta dos brasileiros, isto é, 51% dos entrevista consideram que Lula (PT) não merece ser reeleito presidente da República nas eleições de outubro próximo.

A pesquisa, que foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob nº BR-08254/2026/2026, aponta que 45,3% dos eleitores brasileiros, ao contrário, consideram que o petista merece mais um mandato no Palácio do Planalto. Ficaram em cima do muro, sem opinar, 3,8% do total.

Veja os números da vontade majoritária dos brasileiros:

O levantamento mostra ainda a intenção de votos dos eleitores na disputa presidencial, apontando crescimento do nome do senador Flávio Bolsonaro(PL-RJ), em um primeiro cenário, que Lula lidera estacionou nos 39,8%, indicando “teto” do petista, enquanto o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro já registra 33,1% das opções do eleitorado.

Nesse Cenário 1, sem Tarcísio Gomes de Freitas (Rep), a soma dos demais pré-candidatos a presidente (Ratinho Junior, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Aldo Rebelo), todos de oposição, chega a 15,6 pontos percentuais, quase o triplo da diferença entre Lula e Flávio, situada nos 6,7 pontos.

Veja os números no Cenário 1 para presidente:

Em eventual segundo turno, caso a votação fosse realizada hoje, Lula somaria 44,8% contra 42,2% de Flávio, que sobe em flecha desde que seu nome foi lançado. Em outubro, o filho de Bolsonaro somava 37%, subiu para 38,6% em novembro e para 41% em novembro, para finalmente alcançar este desempenho de janeiro.

Veja os números de 2º turno entre Lula e Flávio Bolsonaro:

O Paraná pesquisas realizou 2080 entrevistas pessoais, domiciliares e presenciais com eleitores de 160 municípios brasileiros, entre os dias 25 e 28 de janeiro, nos 26 Estados e no Distrito Federal. A margem de erro é de 3,4 pontos, para menos ou para mais.

FONTE: DP https://diariodopoder.com.br/uncategorized/pesquisa-maioria-absoluta-dos-brasileiros-acha-que-lula-nao-merece-ser-reeleito

Cresce influência de Gilmar na CBF: filho vira ‘cartola’ no MT

Francisco Schertel Mendes amplia atuação na CBF como cartola, no Mato Grosso. (Foto: Reprodução/Instagram)

Dezembro de 2025 marcou mais um avanço de Francisco Schertel Ferreira Mendes na trajetória de protagonismo junto à Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O advogado que é filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, foi eleito vice-presidente da Federação Matogrossense de Futebol (FMF), depois de firmar parceria com o instituto de ensino superior do integrante da cúpula da Justiça do Brasil.

Francisco Schertel Ferreira Mendes é diretor-geral do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), instituição de ensino superior fundada por Gilmar Mendes, que firmou convênio em 2023 para parceria com a CBF Academy, para gestão e e operação cursos de capacitação, certificação e pós-graduação na área do futebol.

O filho de Gilmar Mendes turbinou a campanha chapa encabeçada pelo advogado Diogo Pécora, que surgiu como 3ª via e acabou eleito presidente da FMF. Antes de comandar a federação, o dirigente era assessor do deputado estadual Chico Guarnieri (PRD) e presidiu o Tribunal de Justiça Desportiva de Mato Grosso.

Segundo matéria do Estadão, o contrato da CBF com o IDP de Gilmar Mendes prevê o recebimento de 84% da receita da CBF Academy. Em 2023, o braço acadêmico da confederação arrecadou R$ 9,2 milhões. Teve receita bruta de R$ 5,9 milhões, em 2024. E ainda sem ter fechado os números do faturamento de 2025.

Protagonismo notável

O novo “cartola” herdeiro do ministro do STF tem origem e negócios da família em Mato Grosso. E foi tema de duas reportagens do Estadão, desde ontem (28), que relatam sua jornada emergente, para além da discrição dos bastidores do mundo acadêmico. Isso porque seu protagonismo tem avançado, entre a gestão do ex-presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, e a do atual Samir Xaud, e chamado a atenção entre dirigentes de federações e de clubes, nos eventos desportivos.

Francisco Mendes mora a mais de 1 mil quilômetros de distância do Mato Grosso, mas tem se empenhado para divulgar iniciativas de modernização, como a implantação inédita do sistema de árbitro de vídeo (VAR) no campeonato matogrossense, além do contrato para transmissão de todas as partidas da competição estadual. Trabalha em Brasília, mas mantém indicados que lideram os projetos centrais da CBF para modernizar o futebol.

Outro gesto expansivo de Francisco Mendes foi destaque nas redes sociais da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS), quando o filho de Gilmar Mendes visitou o presidente da federação do estado vizinho, Estevão Petrallás, ainda em outubro de 2025. O encontro, segundo a FFMS, visava alinhar projetos com a CBF Academy para fortalecer o futebol sul-mato-grossense, com qualificação e o crescimento do esporte.

Cerca de um mês após a nova gestão, a federação do estado sem grande tradição no futebol nacional já garantiu participação do Mixto Esporte Clube na Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino, a elite da modalidade no país. A ascensão inédita ocorreu após desistências de dois clubes, mesmo com o Mixto tendo ficado em 6º lugar na 2ª divisão, segundo a CBF, “com base nos critérios aplicados pela CBF e na necessidade de reorganização dos clubes participantes”

Uma das reportagens do Estadão cita que Francisco Mendes comandou uma excursão à Europa com dirigentes de federações e de clubes. E até discursou para outros cartolas, no passeio por cidades de Inglaterra, Alemanha e Espanha.

FONTE: DP https://diariodopoder.com.br/esporte/cresce-influencia-de-gilmar-na-cbf-filho-vira-cartola-no-mt

Leonardo Coutinho

Confesso que errei: subestimei a resiliência institucional no Brasil

Enquanto os discursos sugerem harmonia, o recado ao país é outro: enfrentar a corrupção pode custar mais caro do que praticá-la. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Em janeiro de 2018, quando coloquei o ponto final em meu livro Hugo Chávez, o Espectro, encerrei com um posfácio otimista. Eu explicava por que o Brasil, apesar de vícios endêmicos como corrupção, patrimonialismo, compadrio e apatia cidadã, não corria risco real de se “venezuelizar”. A base do meu argumento era simples: institucionalidade. As engrenagens rangiam, mas resistiam.

O mais incômodo daquela conclusão era reconhecer que o freio principal não era, propriamente, os pesos e contrapesos. Eu via um Judiciário resiliente na fricção entre Executivo e Legislativo, mas o verdadeiro amortecedor do ímpeto “revolucionário” do PT era outro: o Centrão.

O salva-vidas do Brasil era um condomínio fisiológico que se move para qualquer lado ideológico oferecendo governabilidade em troca de privilégios. Paradoxalmente, esse cálculo de sobrevivência conteve planos de controlar a imprensa, avançar sobre bancos e impor reformas de feição revolucionária. Eles sabiam que, no dia em que largassem o cabresto, seriam devorados. Sendo assim, domaram a fera para se salvar. Como se vê, não era virtude, mas puro instinto de autopreservação.

Naquele momento, o Brasil parecia colecionar sinais de autocorreção: o Mensalão já havia sido enfrentado; Dilma Rousseff sofreu impeachment por crimes de responsabilidade e por uma condução fiscal temerária que afundou o Brasil em uma crise que persiste até hoje; e a Lava Jato, com todas as suas imperfeições, funcionava como uma operação de assepsia institucional. Havia motivos para acreditar em anticorpos antibolivarianos.

Mas, em 2019, os ventos viraram. O país foi submetido a uma operação de corrosão da credibilidade da própria ideia de responsabilização. As mensagens obtidas por hackeamento e batizadas de “Vaza Jato” serviram de pretexto para implodir a operação.

O efeito político foi imediato: o que era remédio passou a ser vendido como veneno. A partir daí, “Lula Livre” deixou de ser slogan e virou uma engenharia institucional.

O efeito político foi imediato: o que era remédio passou a ser vendido como veneno. A partir daí, “Lula Livre” deixou de ser slogan e virou uma engenharia institucional

Para desmontar o que estava ajudando o Brasil a encarar um de seus males estruturais, abriu-se uma avenida para relativizar ritos, desidratar provas e reescrever a história. O resultado não foi apenas a reabilitação de um líder; foi a reabilitação de um método: fazer política por atalhos judiciais, com atores exercendo as funções de árbitro e jogador.

O rescaldo foi devastador. Corruptores confessos, com cifras devolvidas aos cofres públicos, foram reposicionados no jogo. Mais grave: a cleptocracia aprendeu com os erros. Não precisou sofisticar tanto os crimes. Só foi necessário um upgrade nos mecanismos de proteção.

A estratégia central passou a ser a compra de influência por meio da captura de elites — políticas, judiciais, policiais e midiáticas. O mercado de “serviços” migrou do técnico para o relacional. No Brasil pós-Lava Jato, o maior ativo não é a tese jurídica, mas o nível de acesso. Operar na cozinha do poder ou ostentar “DNA supremo” virou capital.

Esse ecossistema tem embalagem respeitável: escritórios de lobby travestidos de advocacia, intermediários de atalhos. Não é que isso não existisse antes. A diferença é que, depois do desmonte, isso deixou de ser patologia para virar modelo de negócio dominante.

O recado ao país foi cristalino: perseguir a corrupção pode ser mais perigoso do que praticá-la. Foi assim com a perseguição ao pessoal da Lava Jato e tem sido assim com os auditores e diretores do Banco Central que atuam no caso do banco Master.

Por falar em Master, não deveria surpreender que novo escândalo tenha surgido de maneira tão volumosa. O chefão do esquema, Daniel Vorcaro, não fez nada de extraordinário. Ele só se aproveitou do ecossistema criado no Brasil para normalizar a liberdade de Lula e dos demais envolvidos nos esquemas apurados pela Lava Jato. Vorcaro cresceu em um caldo de cultivo em que não existem mais limites éticos e morais entre quem investiga e é investigado, entre quem julga e é julgado, entre quem prende e é preso.

Em 2018, eu errei ao acreditar na resiliência institucional brasileira. Eu sabia que seus pés eram de barro, mas subestimei a velocidade com que o barro viraria lama.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/leonardo-coutinho/confesso-que-errei-subestimei-a-resiliencia-institucional-no-brasil/

Alexandre Garcia

Depoimento de Vorcaro em CPI põe Brasília em suspense

Daniel Vorcaro, preso na operação que liquidou o Banco Master. (Foto: Gurometal/Wikimedia Commons)

Na próxima quinta-feira, vai ter uma atração máxima na CPI da Previdência, que examina aquele roubo, aquele desvio de R$ 6 bilhões de idosos da Previdência, aposentados e pensionistas. É um escândalo, uma crueldade. E o Vorcaro está envolvido nisso também. Então ele foi convocado, ele vai ter que estar lá, na semana da reabertura dos trabalhos, da volta das férias. Vai ser um interesse muito grande, porque a boca do Vorcaro pode ser fatal. Pode fazer mais mal, por exemplo, que as medidas do Trump, de tirar visto, de baixar a Magnitsky.

Se ele começa a falar, por exemplo, desse contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da família Moraes, ou contar alguma coisa sobre os investimentos lá no resort-cassino dos irmãos Toffoli. Isso porque os celulares dele ainda não foram abertos, que estão sob sigilo do ministro Toffoli. Estranho. Agora, o ministro pelo menos está sentindo a pressão, disse que terminadas as investigações, vão verificar se pode ir para as instâncias ordinárias. Não vai para as instâncias ordinárias no plural, não. Vai para a primeira instância, se for o caso. É uma só. Mas enfim. Então, quinta-feira que vem, Vorcaro, que tem esse grande poder de mostrar quem são os amiguinhos dele.

Nadine Heredia e o avião da FAB

Uma juíza federal de Brasília, juíza da 5ª vara, está dando 15 dias para a União dar explicações por que que um avião da Força Aérea Brasileira, na véspera da prisão da condenada primeira-dama do Peru, Nadine Heredia Alarcón, posou em Lima e resgatou a primeira-dama, a ex-primeira-dama do Peru. Saber por que foi dado o asilo para ela e quem foi que pagou o avião que foi lá, quem foi que ordenou. Inclusive, a condenação dela se deve a uma empresa brasileira que deu dinheiro, uma mochila cheia de dinheiro, a Odebrecht. Quem será que pediu para a Odebrecht dar dinheiro para ela, para fazer a campanha do marido dela? De quem será que o marido dela era amigo? Quem será que tinha compromisso?

Esse assunto foi levantado numa ação popular por um advogado do Mato Grosso do Sul, Daltro Feltrin. Interessante que ele entrou com a ação. A ação é de abril, estava na 14ª vara, mas ninguém deu bola, ninguém respondeu, provavelmente ninguém respondeu. Agora a juíza da 5ª vara teve que exigir explicações em 15 dias, para o comandante da aeronáutica, para o ministro da Justiça, Lewandowski, para o ministro Mauro Vieira, de Relações Exteriores, para esclarecer essa história.

Vitórias contra o câncer e lesões medulares

E eu deixei para o fim as melhores notícias na área da saúde. Vejam só, um pesquisador, doutor Mariano Barbacid, ele é do Centro Nacional de Pesquisas do Câncer, da Espanha, anunciou vitória sobre o câncer de pâncreas, em tripliterapia, que teria eliminado esse câncer que é tão mortal. Só que em experiências pré-clínicas, ainda não aplicado em humanos. Aqui a ressalva, mas todo mundo está recebendo isso como uma grande notícia e uma notícia séria. Ele já é um homem conhecido por suas palestras em congressos de medicina na Suíça.

E aqui no Brasil, pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da doutora Tatiana Sampaio, com aplicação de injeções de uma proteína, polilaminina, em pessoas que, por acidentes, tiveram lesões na medula e perderam o movimento das pernas e dos braços. E com a aplicação da injeção, em caráter experimental, estão recuperando os movimentos. Consta que já foi aplicada em seis pessoas. É uma boa notícia. Uma brasileira. Tem gente já falando em Nobel de Medicina. Aí vai disputar com o espanhol.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/vorcaro-cpi-previdencia/

Francisco Razzo

Por que o caso Orelha perturba tanto

Orelha vivia entre pessoas, era visto, alimentado, acariciado. Pertencia ao tecido afetivo do bairro (Foto: 110280Andre/Wikimedia Commons)

O caso do cachorro Orelha provoca indignação que ultrapassa o registro do crime. A violência ali desafia a capacidade ordinária de compreensão moral. Algo naquele gesto escapa às categorias com que habitualmente classificamos a agressão.

Falta disputa, reação, interesse, vantagem. Resta agressão dirigida contra vida absolutamente vulnerável. O choque vem da ausência de motivo reconhecível, de uma crueldade sem narrativa que a enquadre. O ato parece suspenso no vazio, violência pura, sem ancoragem no mundo das razões humanas.

Casos assim mobilizam o que o sociólogo francês Luc Boltanski chamou de economia moral da indignação. Certas formas de sofrimento, quando expostas publicamente, exigem julgamento imediato e convocam o espectador a tomar posição. A hesitação já soa como cumplicidade; o silêncio, como anuência. Ninguém pode ter a menor dúvida do que significa perversidade aqui.

Orelha aparece como figura moral completa: velho, dócil, conhecido, cuidado por todos. Inocência e dependência concentradas num grau que bloqueia qualquer tentativa de relativização, porque contexto algum atenua e ambiguidade alguma suspende o juízo. O velho cão encarna a vítima perfeita, aquela diante da qual toda justificativa se dissolve antes de ser formulada.

Certas formas de sofrimento, quando expostas publicamente, exigem julgamento imediato e convocam o espectador a tomar posição

Essa clareza moral explica a intensidade da reação. A indignação funciona como mecanismo coletivo de defesa simbólica, e ao reagir em uníssono, a sociedade reafirma um limite: há atos que não pertencem ao mundo comum. A repulsa compartilhada reconstrói, ainda que provisoriamente, a fronteira entre o tolerável e o impensável. Não à toa o risco é descarrilar para o linchamento — falo disso em outro artigo.

Quando esse limite é violado de forma tão inconfundível, surge a tentação de empurrar o agressor para fora da normalidade. Fala-se em psicopatia, monstruosidade, desvio radical — linguagem moral, não diagnóstico clínico. O que esses moleques fizeram ameaça a própria ideia de convivência e humanidade. Classificar os autores como “aberração” protege a imagem que a sociedade precisa fazer de si mesma: se os agressores são monstros, o ato permanece exterior à comunidade moral, e a ordem simbólica sobrevive intacta, ainda que saibamos que monstros são feitos da mesma matéria que nós.

A comoção nasce da empatia com a vítima, mas também daquele medo silencioso que acompanha esse tipo de violência. Se isso é possível sem motivo, o que mais pode ser? A pergunta ressoa porque a crueldade gratuita revela uma fissura na gramática moral do nosso cotidiano. O mundo comum pressupõe que a violência responda a alguma lógica — ódio, vingança, cobiça são motivos reconhecíveis. Afinal, quem aqui não está indignado a ponto de confundir justiça com vingança? Prova de que a ausência de motivo no ato de violência desarma o entendimento.

Há também um componente de proximidade que intensifica o pânico moral. Orelha vivia entre pessoas, era visto, alimentado, acariciado, e pertencia ao tecido afetivo do bairro. A violência contra ele atinge todos que participavam desse vínculo; cada morador sente que a agressão o alcançou. A reação pública cumpre função que vai além do desabafo, pois sinaliza quais valores a comunidade considera invioláveis.

Resta, porém, uma inquietação que a indignação não resolve. O agressor não veio de fora — pertencia ao mesmo mundo em que Orelha circulava. A monstruosidade habitava a vizinhança, e isso perturba mais do que o próprio ato, porque sugere que a crueldade sem causa pode ser possibilidade latente, adormecida na maioria, desperta em alguns.

filosofia moral tradicional oferece pouco consolo. Aristóteles pensava o vício como hábito mal formado, corrigível pela educação; Kant via no mal radical uma inclinação que a razão deveria subjugar. Ambos pressupunham inteligibilidade. A crueldade gratuita escapa a esses esquemas porque resiste à explicação. O mal aparece como pura negação, recusa do vínculo, desprezo pela ordem do ser. Algo próximo do que a tradição chamou de mal absoluto.

Orelha virou símbolo involuntário, e sua imagem condensa a fragilidade de toda criatura que depende da contenção alheia para sobreviver. A comoção que desperta precisa honrar algo verdadeiro: a intuição de que há vidas cuja integridade deveria estar além de qualquer arbítrio. O desafio é transformar essa intuição em ordem institucional capaz de proteger os que não podem se proteger.

Be the first to comment on "Toffoli e a deformação da Justiça no caso Banco Master"

Leave a comment

Your email address will not be published.


*