
Todas as crises humanitárias, sejam elas derivadas de fenômenos naturais, de natureza sanitária ou mesmo de conflitos armados, causam grandes impactos difíceis de serem mensurados sob o ponto de vista econômico e social. No caso específico da guerra entre a Rússia e a Ucrânia a situação não é diferente. Antes de comentar alguns desses reflexos, ainda que de maneira superficial, penso ser oportuno apresentar alguns indicadores acerca de ambos os países, de modo a facilitar a compreensão sobre a relevância de cada um deles no cenário internacional. Claro que o momento é de muita incerteza. Tudo vai depender da duração e dos desdobramento da crise.
Segundo dados de 2020 do Banco Mundial e informações compiladas no site Wikipédia, o Produto Interno Bruto (PIB) da Rússia é de US 1,7 trilhão, ocupando a 11ª posição no plano internacional. É o maior país do planeta em território, com 17.098.240 km2 (o dobro da área do Brasil). Sua população é de cerca de 143.456.018 habitantes. É um dos maiores exportadores mundiais de gás natural, petróleo , trigo e fertilizantes, além de ocupar a liderança em tecnologia militar e inteligência artificial. Vale pontual que cerca de 30% do gás natural consumido pela Europa vem da Rússia e, no caso da Alemanha, a importação do produto chega a 50%. Já em relação à Ucrânia, segundo as mesmas fontes e ano de referência, seu PIB é US$ 95,5 bilhões. Área territorial de 603.700 km2, população de 45,2 milhões de habitantes. Em 2020, o país foi o 51º maior exportador de mercadorias (materiais ferrosos e não ferrosos, petróleo, máquinas, equipamentos de transporte e alimentos).
Logo após a eclosão do conflito, as consequências econômicas começaram a ser repercutidas nos meios de comunicação. As bolsas do mundo inteiro despencaram. Houve aumento nos preços do petróleo. O barril do tipo Brent teve alta de 7,78% e o WTI subiu 9,09%. Já as commodities de trigo e milho foram também reajustadas respectivamente em 8,91 e 6,06%. Diante das oscilações de preços desses insumos, a tendência natural é que os custos dos serviços e dos demais produtos que integram a cadeia produtiva sejam igualmente majorados, impactando os índices mundiais de inflação. Com a elevação generalizada dos preços, causada inicialmente pela pandemia do novo coronavírus e agora agravada com o confronto militar, os efeitos recairão sobre os consumidores, prejudicando sobretudo os de baixa renda.
O Brasil – como os demais países – será afetado de alguma forma em função da guerra. O agronegócio, por exemplo, que responde por cerca de 20% da formação do nosso Produto Interno Bruto, é um dos setores que poderá ser prejudicado. Isso porque, de acordo com informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o país importa aproximadamente 85 % de fertilizantes e 25% desses produtos vêm da Rússia. Assim, dada a relevância do setor para a economia brasileira, algo precisa ser feito para que o país reduza, no menor prazo possível, essa acentuada dependência externa de adubos. No tocante especificamente ao abastecimento, penso que não há motivo para pânico. A nossa expectativa é de que a demanda por esses e outros produtos seja atendida mediante ampliação de parcerias com outros países. Afinal, a globalização veio para facilitar o intercâmbio comercial entre as nações. O risco que se corre é ter que pagar valor mais caro e elevar o custo de produção, com repasse para o preço final. No entanto, espera-se que, com o apoio da nossa diplomacia e o trabalho sério e competente da titular da Pasta da Agricultura, Tereza Cristina, a questão do abastecimento do mercado interno seja superada, sem prejuízo para o início do plantio da próxima safra, previsto para outubro. Portanto, a preocupação maior das autoridades brasileiras no presente momento deve estar voltada para implementação de políticas públicas geradoras de emprego e a criação de mecanismos mais eficazes de controle da inflação, a fim de contribuir para recuperação da economia e não afetar ainda mais o poder de compra da população.
Voltando ao contexto mundial da crise, é importante destacar que os Estados Unidos, em ação conjunta com o Reino Unido e a União Europeia, implementaram uma poderosa arma para combater a guerra, sem sequer dar um só tiro. Refiro-me às pesadas sanções econômicas impostas à Rússia e que já estão produzindo resultados. Os indicadores divulgados pelo noticiário mostram que a economia russa está colapsando. O rublo caiu cerca de 30% em relação ao dólar. Segundo estimativa da JPMorgan Chase & Co., o PIB deve encolher 11%. A Inflação e os juros subindo. Além disso, grandes empresas estão fechando suas portas, o que deve aumentar o desemprego e as desigualdades sociais. Enfim, o país está praticamente isolado dos demais. Resta ao presidente Vladimir Putin fazer uma profunda reflexão sobre o ato de insensatez que cometeu e ordene o imediato cessar-fogo, dando por encerrado o conflito com o país vizinho para que a paz volte a reinar e as relações comerciais entre os povos sejam normalizadas.
Nosso foco é o Brasil.
Brasília-DF, 7/3/2022.
José Leite Coutinho.


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