Quando se tornou comum chamar de fascista qualquer um que não seja extrema-esquerda?

Rare German vintage cigarette card from ca. 1933 Der Staat der Arbeit und des Friedens album.

No verão russo de 1928, os integrantes da Internacional Comunista, fundada por Vladimir Lênin nove anos antes para incentivar a disseminação do comunismo em nível planetário, receberam uma nova orientação: a partir de agora, era obrigatório se referir a grupos de esquerda da Europa, sociais democratas e socialistas, como “sociofascistas”.

A mudança brusca na abordagem para os camaradas de outros países era resultado da irritação dos dois mais influentes líderes da União Soviética naquele momento, Leon Trotsky e Josef Stalin. Eles decidiram que havia chegado a hora de criticar abertamente grupos que não estivessem perto de derrubar o capitalismo em seus países.

“Camaradas ao redor do mundo receberam ordens para adotar uma atitude mais militante e a ‘revolução global’ voltou para a agenda como item prioritário. Nesse particular, a Europa tornou-se a arena do embate revolucionário, cujo prêmio seria a disseminação do comunismo”, relata o historiador britânico Robert Service em Camaradas: Uma história do comunismo mundial. “O ambiente na região era explosivo e nenhum dos mais eminentes bolcheviques na União Soviética estava contente com o fato de que tão pouco estivesse sendo feito para fomentar a revolução no exterior”.

Surgia assim o hábito de acusar de “fascista” qualquer pessoa que não fosse de extrema-esquerda. Curiosamente, Trostky seguiria para o exílio logo em 1929, e a partir de então seria também ele considerado fascista em documentos oficiais soviéticos, até ser assassinado no México, em 1940. O uso da alcunha, como se sabe, nunca mais saiu de moda.

Muralha de Proteção Antifascista

A partir da década de 1930 em diante, “fascista” passou a ser aplicado, na imprensa estatal soviética, a qualquer país capitalista — curiosamente, a Alemanha nazista recebia artigos elogiosos entre o acordo de Stalin, de 1939, e a invasão contra os soviéticos, em 1941.

Qualquer opositor do regime, ou líder da própria União Soviética que se visse perseguido por Stalin, recebia automaticamente a pecha. Ao fim da Segunda Guerra, com a formação da cortina de ferro no Leste Europeu, cada um dos movimentos que tentou questionar as ordens Moscou foi caracterizado como fascista. No lado oriental da Alemanha, o Muro de Berlim era chamado oficialmente com o nome Muralha de Proteção Antifascista. Mas afinal, o que é fascismo?

A expressão se origina da palavra fascio, que em italiano significa “feixe”. Fazia referência ao poder dos grupos: afinal, um feixe de madeira é muito mais resistente e poderoso do que um único pedaço de madeira. Além disso, na Roma Antiga, havia um machado revestido por varas, chamado fasce em latim. Ou seja: na mesma palavra, o político italiano Benito Mussolini e seus seguidores pregavam a união e, ao mesmo tempo, a imposição da força por meio da violência da maioria.

Apesar de ter fundado o grupo Fasci d’Azione Rivoluzionaria ainda em 1914 e morrer apenas em 1945, Mussolini nunca se preocupou em estabelecer uma ideologia detalhada para o fascismo. Havia apenas algumas práticas bastante características, como o populismo, o antiliberalismo e o autoritarismo.

De Gandhi a Marina Silva

No livro ‘O que é Fascismo’, resultado de uma coletânea de ensaios escritos entre os anos 1930 e 1940, o escritor britânico George Orwell argumentou: “Ouvi o termo ser aplicado a agricultores, a lojistas, ao castigo corporal, à caça à raposa, às touradas, ao Comitê de 1922, ao Comitê de 1941, a Kipling, Gandhi, Chiang Kai-chek, à homossexualidade, aos programas de rádio de Priestley, aos albergues da juventude, à astrologia, às mulheres, aos cães e a não-sei-mais-o-quê”. Como dizia ele, “qualquer inglês aceitaria ‘valentão’ como sinônimo” de fascista.

E essa falta de detalhes ajudou os soviéticos — e seus seguidores comunistas até hoje — a utilizar da expressão como uma ofensa. “Fascista”, ao fim das contas, pode significar qualquer coisa. Que o digam o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin ou qualquer integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) – para não falar nos ex-presidentes americanos Ronald Reagan e George W. Bush. Todos eles já foram chamados de fascistas, mesmo não tendo a menor relação com qualquer prática da Itália de Mussolini.

Confira a matéria na Gazeta do Povo

Be the first to comment on "Quando se tornou comum chamar de fascista qualquer um que não seja extrema-esquerda?"

Leave a comment

Your email address will not be published.


*