
As novas informações que vieram à luz nesta terça-feira, com a divulgação de mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, mostram um relacionamento turvo, polpudo e indecente – mas não surpreendente. Os brasileiros de bem já sabem há muito tempo quem é Moraes: muito antes de haver Vorcaro e o Banco Master, já havia o abuso de autoridade, as decisões inconstitucionais, a perseguição a desafetos, as violações do devido processo legal, os múltiplos papéis em processos. Mas as novidades desta terça-feira não apenas confirmam o que muitos já sabiam; elas jogam a verdade inescapável diante de todos os demais brasileiros, os que não sabiam ou não queriam saber. E tornam ainda mais urgente aquilo de que o Brasil precisa há um bom tempo: o afastamento definitivo do ministro de suas funções no STF.
Quando o Brasil inteiro soube do contrato completamente imoral de R$ 129 milhões celebrado pelo Banco Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, sem qualquer fundamento ou contrapartida proporcional, o mínimo que se poderia esperar, e que a Gazeta do Povo e outras vozes influentes pediram, era a abertura de uma investigação corajosa sobre o tema, seguida do inevitável impeachment. A existência do contrato tinha sido confirmada, ao menos R$ 80 milhões foram pagos, e Moraes tomou decisões em ao menos em um caso de interesse de Vorcaro. Os elementos para um impeachment já estavam presentes. No entanto, inúmeras forças convergiram em uma “operação abafa” – forças poderosas, como um presidente do Senado covarde e conivente, um procurador-geral da República cúmplice, e elementos da Polícia Federal dispostos a deixar o assunto na sombra, para que esfriasse.
Se os senadores querem fazer desta semana de “esforço concentrado” uma semana realmente valiosa para o país, um único tema merece seu empenho: a abertura do processo de impeachment de Moraes
Felizmente, não esfriou. A terça-feira começou com a notícia de que o ministro havia editado o fabuloso (e ainda hoje muito mal explicado) contrato – cujo valor, sabe-se agora, era de R$ 131 milhões, e não R$ 129 milhões – entre o Master e Viviane Barci de Moraes. O próprio escritório confirmou a informação, demonstrando que Moraes sabia muito bem da negociação e parecia não se incomodar com o fato de o escritório de sua família ser contratado por valores muito superiores aos recebidos pelas melhores bancas da capital federal. Mas ainda havia muito mais, graças à determinação, ao espírito cívico e à coragem do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo.
Mendonça havia solicitado à Procuradoria-Geral da República informações sobre uma mensagem enviada por Vorcaro a um contato identificado como sendo Moraes, pedindo que o ministro intercedesse junto ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para “não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem”. Em outras palavras, Vorcaro pedia proteção. A repercussão foi tão grande que Mendonça levantou o sigilo da ação, e mais conversas surgiram. Ao longo dos diálogos, Vorcaro deixa subentendido que tem informações sobre as investigações contra ele, e pergunta a Moraes, em 15 de novembro de 2025: “acha que segunda já tenho que estar fora?”. Não se sabe o que o ministro respondeu, mas o fato é que, coincidência ou não, em 17 de novembro, a primeira segunda-feira depois daquele pedido de aconselhamento, Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos, enquanto tentava sair do país.
As novas mensagens – porque o Brasil já conhecia algumas outras, trocadas inclusive no dia da prisão do banqueiro – só reforçam um tipo de relacionamento que vai muito além do aceitável, entre um membro da mais alta corte do Judiciário brasileiro e uma pessoa que estava sob investigação por uma gigantesca fraude financeira. Um relacionamento de proximidade e confiança, no qual Vorcaro pede socorro e blindagem a um ministro do STF cuja esposa recebe dezenas de milhões de reais do banco de propriedade desse mesmo investigado – por meio de um contrato, sabe-se agora, que tem o dedo de Moraes. A pergunta óbvia é: como é possível que Vorcaro se sentisse livre para enviar a Moraes pedidos de proteção e perguntas sobre o andamento das investigações sem temer uma ordem de prisão por obstrução de Justiça? A resposta também nos parece bastante óbvia.
Ao longo do dia, avolumaram-se os pedidos para que Moraes tome a iniciativa de deixar a corte, ou que ao menos o Supremo costure internamente algum tipo de afastamento temporário. Nada disso, no entanto, basta. É ao Senado que cabe a mais urgente atitude capaz de iniciar um retorno à normalidade, depois de anos de ditadura do Judiciário: o impeachment de Moraes. Impeachment já, sem atrasos, sem justificativas inaceitáveis.
O Congresso está reunido na sua última semana de “esforço concentrado” antes das eleições, priorizando temas que nem de longe são aqueles realmente importantes para o país, ou que exigem um tempo mais alongado de reflexão e deliberação. Se os senadores querem fazer jus ao papel histórico que têm, se querem fazer desta semana uma semana realmente valiosa para o país, um único tema merece seu empenho: a abertura do processo de impeachment de Moraes.
A lei do impeachment diz que um ministro do Supremo comete crime de responsabilidade quando “proceder de modo incompatível com a honra, dignidade e decoro de suas funções”. Quando um ministro tem esse tipo de conversa com alguém como Vorcaro, na situação em que ele estava, podemos ter certeza completa de que a honra, a dignidade e o decoro já foram jogados no lixo há muito tempo. Moraes fez sua escolha, e agora é a vez dos senadores: que eles sejam honrados, tenham consciência do seu papel histórico, acabem com esta ditadura infame que mantém encolhidos milhares e milhões de cidadãos. Em resumo: que façam o seu papel.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/alexandre-de-moraes-mensagens-daniel-vorcaro-impeachment/
Como era a relação de amizade e “gratidão de vida” entre Vorcaro e Moraes

A análise dos dados extraídos do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, realizada pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, revelou detalhes sobre a estreita relação entre o empresário e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
O documento, enviado ao ministro relator do caso, André Mendonça, e agora remetido à PGR, expõe uma teia de contatos frequentes, reuniões reservadas, contratos milionários com o escritório da esposa do magistrado e a concessão de benefícios de luxo que culminaram em mensagens de “gratidão de vida” enviadas pelo banqueiro ao ministro.
“Estamos juntos sempre. Voce [sic] sabe que tenho gratidao [sic] da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo”, escreveu o ex-banqueiro.
O ministro Alexandre de Moraes e a defesa de Vorcaro foram procurados, mas não se manifestaram até a publicação desta reportagem. Já a PGR defendeu seja declarada a nulidade do relatório da Polícia Federal que revelou a troca de mensagens e fez críticas à atuação de Mendonça. (Leia mais sobre a manifestação de Gonet no fim da matéria.)
Além disso, as mensagens revelam um tratamento informal e frequência de encontros. Vorcaro se referia ao ministro informalmente como “meu caro” e, em conversas com sua então namorada, referia-se a Moraes intimamente como “Alexandre” ou “Alex” ao relatar encontros frequentes.
Vorcaro organizava jantares sociais que incluíam as esposas e prestava favores diretamente aos filhos de Moraes, como quando mobilizou sua equipe para conseguir credenciais “VIP 1” e acomodação em uma “boa mesa” para a filha do ministro e seu irmão assistirem a um treino na Arena MRV, em Belo Horizonte (MG).
Somado a isso, haveria um acolhimento e mimos de luxo. Vorcaro chegou a preparar uma “experiência completa” de lazer com cavalos e o serviço de seu chef de cozinha particular para Moraes e sua comitiva em um hotel de luxo em Campos do Jordão (SP).
Contatos entre Moraes e Vorcaro antecederam aproximação com Viviane Barci
Os registros periciais do celular de Vorcaro – apreendido em novembro de 2025 – revelam que a aproximação e contatos diretos com Alexandre de Moraes antecederam a relação formal ou comercial com a esposa do magistrado, a advogada Viviane Barci de Moraes, cujo escritório firmou um contrato milionário com Vorcaro.
Em 21 de dezembro de 2023, teria ocorrido a primeira articulação de encontro intermediada pelo ex-deputado e ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro (PL) Fábio Faria.
Faria teria solicitado a placa e o modelo do carro de Vorcaro para autorizar a entrada na garagem de um endereço em São Paulo. Horas depois, Faria envia um áudio a Vorcaro relatando que o anfitrião, que seria Moraes, “gostou da conversa” e queria marcar novo encontro.
Em 26 de dezembro, teria ocorrido o segundo encontro no mesmo local. Exatamente uma hora após a chegada, às 11h43, Faria compartilha com Vorcaro os contatos telefônicos de Alexandre de Moraes, salvos sob os nomes “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”, todos vinculados a um mesmo terminal telefônico.
Treze segundos depois, Vorcaro salva o número. No dia 27 de dezembro de 2023, Faria avisa Vorcaro que “Alex quer ir almoçar lá no dia 30”. Vorcaro mobiliza sua equipe em um hotel de luxo em Campos do Jordão.
No dia 30 de dezembro de 2023, é realizado um almoço para uma comitiva de nove convidados e quatro seguranças de Moraes. O chef de cozinha de Vorcaro tirou fotos com o ministro e o motorista do ex-banqueiro é disponibilizado para transportar um dos convidados de Moraes, identificado no relatório da PF como “desembargador”.
Em contraste com a relação já estabelecida com o ministro, os registros do celular de Vorcaro indicariam que seu contato com Viviane Barci de Moraes só se iniciou no ano seguinte.
No dia 11 de janeiro de 2024, o número de “Vivi Moraes” foi salvo na agenda de Vorcaro às 16h53. Segundo a PF, a perícia constatou que “não foi encontrado registro de chamadas entre Daniel Vorcaro e o contato de ‘Vivi Moraes’ antes de 11/01/2024”.
O primeiro contato ocorre às 16h48 daquele dia, quando Viviane envia a minuta do primeiro contrato de serviços advocatícios. No documento constava, segundo a PF: Prezado Daniel, boa tarde. Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato…”.
Teia de relações reveladas pelo relatório da PF
O relatório da PF expõe que a relação entre Vorcaro e Moraes era sustentada por uma rede de intermediários e operadores que teriam facilitado a comunicação e a execução de supostos favores mútuos. O principal articulador político teria sido Fábio Faria, responsável por agendar jantares, repassar mensagens e gerenciar encontros sem exposição pública.
Ao ser questionado sobre as interlocuções que promoveu entre Moraes e Vorcaro, Fábio Faria afirmou à reportagem que Daniel Vorcaro o procurou para pedir uma opinião sobre a contratação do escritório de Viviane Barci de Moraes para atuar em uma disputa judicial em São Paulo.
Segundo o ex-ministro, ele recomendou o trabalho da advogada, mas disse que não participou de reuniões com o escritório nem teve conhecimento dos valores negociados entre as partes. Faria também disse desconhecer o contrato firmado posteriormente entre o Master e o escritório de Viviane.
Outro elo seria um advogado. Segundo a PF, esse advogado estaria diretamente na interlocução com o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em março de 2025, o advogado enviou a Vorcaro uma foto ao lado de Gonet e afirmou que o PGR queria falar com o banqueiro, o que resultou em quatro chamadas telefônicas subsequentes.
No campo operacional e de eventos, uma mulher gerenciava demandas logísticas e marketing de Vorcaro. Ela coordenava, segundo a PF, diretamente com o gabinete de Moraes e com Viviane a programação de fóruns jurídicos internacionais e a emissão de passagens aéreas.
Com o objetivo de proteger juridicamente e financeiramente os negócios, um dos advogados de Vorcaro elaborava contratos para reduzir o chamado “risco reputacional” para a família do ministro. Entre as propostas, estavam estruturas societárias alternativas que permitiriam esconder a propriedade direta de determinados bens e ativos.
Benefícios recebidos de Vorcaro pela família Moraes, segundo a PF
De acordo com os documentos e mensagens analisados pela PF, a família Moraes foi destinatária de uma série de vantagens financeiras, logísticas e de luxo providenciadas por Vorcaro.
Entre eles estavam contratos milionários e pagamentos prioritários. O primeiro contrato teria sido firmado entre o Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, em janeiro de 2024, com vigência de 3 anos e honorários mensais de R$ 3 milhões líquidos.
Vorcaro teria ordenado que esses pagamentos fossem prioridade absoluta e chegou a falar ao seu financeiro que não deixasse “atrasar um dia”, autorizando que fossem feitos antecipadamente e “sem nota”, se necessário. Em abril de 2025, Vorcaro ordenou a um diretor do Master que ninguém tivesse acesso àquele contrato para evitar vazamentos.
Segundo a PF, a perícia técnica nos metadados dos arquivos digitais revelou que Alexandre de Moraes revisou diretamente as minutas desse contrato. A primeira versão, enviada por Viviane a Vorcaro em 11 de janeiro de 2024, apontava em seus registros que, embora criada por um determinado usuário, a “última modificação” havia sido realizada pelo usuário “Ministro Alexandre de Moraes” às 16h30 daquele mesmo dia, dezoito minutos antes de o arquivo ser compartilhado.
O mesmo padrão se repetiu na versão final do documento, enviada por Viviane em 17 de janeiro de 2024, cujos metadados confirmariam que a última edição do arquivo foi feita novamente pelo usuário “Ministro Alexandre de Moraes” na noite de 15 de janeiro de 2024, às 23h04.
Um segundo contrato, desta vez com a Vikings Participações – também de Vorcaro – foi firmado em maio de 2025 com limite remuneratório de R$ 50 milhões. Não há detalhes sobre pagamentos, mas há registro de uso de aeronaves de luxo como forma de pagamento.
Associado ao segundo contrato, foi elaborado um “Termo de Acordo e Dação em Pagamento” no valor de R$ 40 milhões, representados pela transferência de cotas das empresas F24 e F53 controladas por Vorcaro. Dação em pagamento significa quitar uma dívida entregando um bem ou outro ativo no lugar de dinheiro.
Segundo o relatório, essas cotas davam direito ao uso de um jato executivo modelo Legacy 650 avaliado em mais de US$ 5,5 milhões por cota e de um helicóptero modelo EC 155 B1 avaliado em mais de US$ 1,3 milhão por cota.
Mensagens confirmariam, segundo a PF, o uso efetivo das aeronaves pela família do ministro. Um sócio de Vorcaro disse, em julho de 2025, que “já usaram aviões e helicópteros”.
Em resposta a uma pergunta sobre se estavam gostando, Viviane de Moraes escreveu ao sócio de Vorcaro que “sim, estamos gostando muito, todos que nos atenderam sempre foram muito educados e atenciosos”. Em agosto de 2025, Vorcaro ordenou à sua equipe de aviação que “não deixe de atender Barci”.
O escritório Barci de Moraes afirmou, em nota, que o ministro analisou o contrato a pedido do setor de compliance da banca, prática adotada em outros casos semelhantes, para verificar eventuais impedimentos legais e que, como Moraes nunca julgou qualquer causa envolvendo o Master, não haveria óbice à contratação.
No Fórum Jurídico de Londres, Vorcaro disponibilizou veículos blindados de altíssimo padrão com motoristas exclusivos para ministros do STF, citando nominalmente Alexandre de Moraes.
Vorcaro também autorizou a emissão de passagens aéreas internacionais para o próprio ministro para a edição de 2025 do evento.
O ex-dono do Master providenciou também ingressos na categoria “VIP 1” e acomodação em “boa mesa” para a filha de Alexandre de Moraes e seu irmão assistirem a um treino beneficente na Arena MRV, do Atlético Mineiro, clube cuja SAF era administrada por um fundo do Banco Master. Vorcaro orientou sua equipe que colocasse os irmãos juntos.
Vorcaro pediu orientação a Moraes sobre saída do país
O nível de proximidade e confiança entre o ex-banqueiro e o ministro ficaram evidenciados em meados de novembro de 2025, período que antecedeu a Compliance Zero e a primeira prisão de Vorcaro. Diante de rumores de uma iminente medida judicial contra seus negócios, Vorcaro teria utilizado um aplicativo de notas de seu celular para redigir mensagens e enviá-las como capturas de tela de visualização única para Moraes.
Em 15 de novembro de 2025, às 21h22, Vorcaro realizou a captura de tela de uma nota altamente sensível e 11 segundos depois enviou a Moraes. Na mensagem, o ex-banqueiro demonstrava desespero com a possibilidade de ser alvo de uma operação e pedia orientações ao ministro sobre se deveria fugir do país.
Mensagens recuperadas pela PF indicam que ele havia escrito: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz […]? E o Galipolo ta sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda ja tenho que estar fora?”.
Para investigadores, a mensagem indicaria que o ex-banqueiro recorreu diretamente a Moras na tentativa de informações privilegiadas sobre investigações em andamento e avaliar a necessidade de deixar o Brasil antes de ser alcançado pelas autoridades.
Dois dias após essa comunicação, a PF deflagrou a operação e apreendeu o dispositivo que continha todo o histórico das conversas. Na ocasião, Vorcaro foi preso pela primeira vez quando tentava deixar o país. Segundo sua defesa, ele viajava a trabalho, rumo aos Emirados Árabes, onde negociaria a venda do banco.
Gonet aponta duas ilegalidades em investigação determinada por Mendonça
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, defendeu a nulidade e a extinção da petição de Mendonça. Para ele, haveria uma dupla nulidade na ordem de investigação emitida pelo ministro-relator. A primeira porque Mendonça determinou, por iniciativa própria, a investigação de pessoas específicas, sem um pedido prévio do Ministério Público ou da Polícia Federal.
Segundo Gonet, essa atuação ultrapassou os limites da função de um juiz, que deve permanecer separado das funções de investigar e acusar. Para o procurador-geral, ao determinar diretamente quais pessoas deveriam ser investigadas ainda na fase inicial da apuração, o relator assumiu um papel que caberia ao Ministério Público e à polícia.
A segunda irregularidade apontada pela PGR envolve a investigação de ministros do próprio Supremo Tribunal Federal (STF). Gonet afirma que, caso uma investigação encontre indícios de crime cometido por um magistrado, o caso deve ser encaminhado ao tribunal competente para que o colegiado decida sobre o prosseguimento da apuração. Por isso, segundo ele, o relator não poderia ter determinado sozinho o aprofundamento das investigações sobre o ministro Alexandre de Moraes.
Gonet afirma ainda que, embora a ordem judicial tivesse como objetivo analisar de forma ampla as provas recolhidas, ela acabou direcionando a Polícia Federal para investigar Moraes, cujo nome já havia aparecido em informes policiais anteriores.
O estudo produzido pela PF dedicou quase 190 das 218 páginas à busca de indícios de eventual envolvimento do ministro em ilícitos. Para o procurador-geral, se havia elementos que justificassem uma investigação contra Moraes, o relator deveria ter encaminhado o caso à Presidência do STF para que o Plenário decidisse sobre a abertura da apuração. Por considerar que essas irregularidades comprometem toda a investigação e os resultados obtidos a partir dela, Gonet pediu a extinção da petição.
Mas Mendonça já disse que enviará ao plenário da Corte o pedido de investigação Moraes, mesmo com a manifestação contrária da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra a análise.
A determinação consta no despacho que levantou o sigilo do relatório da Polícia Federal sobre as mensagens trocadas entre Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mendonça havia pedido a manifestação da PGR, mas frisou que a deliberação dos ministros ocorrerá de qualquer forma.
Oposição amplia ofensiva contra Moraes e pressiona por afastamento de Andrei e Gonet
Diante das revelações do relatório da PF, a oposição no Congresso ampliou nesta terça-feira (1º) a ofensiva contra o ministro Alexandre de Moraes. Além de articular um novo pedido de impeachment contra Moraes, parlamentares passaram a defender o afastamento cautelar do ministro e do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e protocolaram uma queixa-crime contra o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
No Senado, o senador Carlos Viana (PSD-MG) solicitou ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), a realização de uma sessão com a presença de Moraes para que o ministro possa prestar esclarecimentos sobre as denúncias. Viana também afirmou que Alcolumbre terá de escolher entre pautar o impeachment ou assumir publicamente que estaria “blindando” o ministro. Segundo ele, as novas informações precisam ser apuradas pelo Congresso, garantindo a Moraes o direito de defesa. A oposição também anunciou uma obstrução no Senado para pressionar pelo afastamento de Moraes.
As medidas anunciadas também atingem a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. A oposição quer o afastamento de Andrei Rodrigues do comando da PF por causa de mensagens atribuídas a Vorcaro nas quais o ex-banqueiro teria buscado a intermediação de Moraes junto ao diretor-geral da corporação.
Contra Gonet, os parlamentares apresentaram uma queixa-crime e questionaram a atuação do procurador-geral diante dos fatos envolvendo Moraes e Vorcaro.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/como-era-a-relacao-de-amizade-e-gratidao-de-vida-entre-vorcaro-e-moraes/

Moraes está desmascarado; o que o STF e o Senado farão?

Eu tenho falado aqui do peso moral de uma autoridade quando ela se esvazia. Há um vácuo de autoridade quando há um vácuo de moral. É o caso de Dias Toffoli, que recuou na decisão contra Renan Santos, coincidentemente no mesmo dia em que a Polícia Federal mostrou provas de uma ligação muito íntima entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. O ministro do STF aparece como consultor, conselheiro, até quase um advogado de Vorcaro, que dá R$ 300 mil em cartão de crédito para cada filho de Moraes, negocia jatinhos com a mulher de Moraes, faz um contrato de mais de R$ 130 milhões, revisado no computador de Moraes. Apareceu até o procurador-geral da República dizendo que estava com saudades de Vorcaro!
Felizmente, apareceu também uma referência de legalidade no Supremo: o ministro André Mendonça. Com base na Constituição, ele diz que o Supremo é o tribunal que julga por crimes comuns os ministros da corte, que há indícios fortíssimos, que é preciso investigar, que a Constituição exige moralidade e publicidade, e que por isso ele precisa pôr tudo às claras. Agora, o Supremo vai ter de tomar uma atitude – e o Senado também.
Algumas escolhas de Flávio Bolsonaro estão confundindo os apoiadores
Está causando estranheza em muitos dos seguidores de Flávio Bolsonaro esse anúncio de prováveis ministros que já apoiaram Lula. Primeiro foi o ministro da Saúde, Cláudio Lottenberg, diretor do Hospital Albert Einstein, o que não agradou a uma grande parte dos seguidores de Flávio. Agora, diz o noticiário que Flávio teve um jantar com banqueiros, e o anfitrião foi um banqueiro que, na última eleição, apoiou Lula e criticou muito o pai de Flávio, Jair Bolsonaro: é Marcelo Kayath, de uma dessas financeiras que administram fundos. Ele foi apresentado a Flávio como indicação para ser ministro da Fazenda; estavam lá Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco; Milton Maluhy Filho, do Itaú; Gilson Finkelsztain, do Santander; Roberto Campos Neto, do Nubank; Richard Gerdau, da Gerdau; e João Camargo, do Esfera Brasil.
Daniela Marques também estava presente; quando disseram que ela seria um bom nome para a Casa Civil, que gerencia a ligação entre o presidente e os ministérios, houve aplausos, segundo o noticiário. O anfitrião Kayath diz que já recebeu lá, em outros tempos, Ronaldo Caiado, ACM Neto, Fernando Haddad, Guilherme Boulos. Ele é um violonista clássico e formado em Business (o que seria Negócios, ou Economia) em Stanford, nos Estados Unidos.
Essas coisas dão o que falar porque há determinadas aspirações entre os eleitores de Flávio. E essa é a grande questão da necessidade de reformas políticas no Brasil: aproximar mais o eleitor, o cidadão, o pagador de impostos dos seus representantes. Ontem eu estava cortando o cabelo e, na cadeira ao lado, dois homens, o barbeiro e o cliente, só falavam em futebol. Fiquei pensando que o pessoal no Congresso Nacional deve estar muito satisfeito quando os eleitores não saem de um estádio de futebol, porque assim eles podem fazer o que querem, mesmo não sendo os mandantes. Os mandantes estão no estádio, esperando um gol, mas o gol não vai mudar nada no dia seguinte, enquanto um voto no Congresso muda a vida dos filhos e netos desses torcedores. Precisamos de politização, de informação, porque vejo que 30 milhões a 40 milhões de eleitores não devem participar da eleição, não estão interessados. E eles são decisivos. Os que têm mais de 70 anos, e os que têm 16 e 17 anos, que não precisam votar, deveriam votar. Não deixem que os outros escolham o futuro de vocês.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/moraes-mensagens-vorcaro-desmascarado/

Alexandre de Moraes vai cair

Ontem, em meio àquele turbilhão de notícias, me lembrei da famosa imagem de Alexandre de Moraes com seu relógio de R$600 mil. Na época, dei uma filosofada em cima do acessório, me perguntando e perguntando aos leitores da Gazeta do Povo por que um ministro que ganhava R$45 mil por mês ostentava um relógio caríssimo daqueles. Orgulho, claro. O relógio que, tanto para um banqueiro quanto para um vagabundo, mostra a mesma coisa: o tempo está passando. E, se Deus quiser e ele há de querer, nos livraremos do traste.
A queda do ministro é aguardada por todos. Mas, como Paulo Gonet deixou claro ontem (1), não será fácil. Porque essa gente tem uma cara de pau como nunca se viu. Eu, pelo menos, nunca vi coisa igual. Vergonha na cara, honra, decência – essas expressões e palavras foram excluídas do vocabulário da gentalha. Como é possível que um procurador-geral da República peça a nulidade das provas em que ele é mencionado? E o detalhe que não me escapa: em nenhum momento Gonet ou Moraes negam a veracidade das mensagens e a proximidade pornográfica com o banqueiro.
Vai cair
Moraes consulta as horas em Rolex provavelmente comprado com dinheiro de Daniel Vorcaro. Não consigo entender. Eu e você que vivemos vidas modestas pelo menos dormimos pesadamente à noite. Há dificuldades, claro, até porque uma vida sem dificuldades não vale a pena ser vivida. Mas há também momentos de paz e alegria. Os amigos na mesa do Dante, por exemplo. Uma simples ida ao mercado. A consciência tranquila de quem não vendeu a alma a um diabrete qualquer em troca de um relógio de R$600 mil, charutos e Macallan, contrato de R$131 milhões, cartão de crédito para os filhos, cotas de jatinho e o que ainda há de ser revelado.
Vai cair. Alexandre de Moraes vai cair e não demora. Vai virar nota de rodapé nessa que é apenas mais uma página infeliz da nossa história. Não a última, infelizmente. E, ao cair, com alguma sorte arrastará consigo toda a corja que o cerca e que lhe deu apoio nos últimos anos. Mas mesmo que caia sozinho… Vai cair, vai cair, vai cair. Acredito. Vai cair e gosto de imaginá-lo assim: caído e aproximando o punho dos olhos para consultar as horas na lembrança do relógio de R$600 mil que, sem saber, ele usava para consultar quanto tempo de poder absoluto ainda lhe restava.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/polzonoff/alexandre-de-moraes-vai-cair/
Julgamento do 8 de janeiro empata e pode levar a nova derrota de Moraes

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes pode sofrer uma nova derrota em uma ação penal relacionada aos atos de 8 de janeiro de 2023, na Praça dos Três Poderes. O recurso de Manuela Souza de Lima, de 23 anos, está em julgamento no plenário virtual até sexta-feira (4).
O placar está em 4 a 4. O voto de Moraes foi acompanhado pelos ministros Dias Toffoli, Flávio Dino e Cristiano Zanin. Já a divergência aberta pelo ministro Edson Fachin foi acompanhada por Cármen Lúcia, André Mendonça e Luiz Fux. Faltam apenas os votos de Nunes Marques e Gilmar Mendes.
Não é a primeira vez que Moraes é confrontado nas ações dos atos em Brasília. No início do mês, Zanin foi autor de um voto divergente que abriu um precedente para outras ações do 8 de janeiro. A divergência vencedora admite que os réus descontem de suas penas o período em que estiveram submetidos a medidas cautelares.
Após a denúncia, PGR incluiu novas acusações
Manuela foi denunciada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por suposta participação no 8 de janeiro. Em sua defesa, ela afirmou que assim que viu a confusão na Praça dos Três Poderes, se afastou do local, permanecendo apenas nos acampamentos. Depois disso, houve a celebração de um acordo de não-persecução penal (ANPP) que prevê, entre outras coisas, que ela não poderia ser processada por outro crime ou contravenção até o encerramento da execução do acordo.
Ocorre, porém, que a Polícia Federal (PF) obteve imagens do celular da jovem de Cerro Largo (RS) que a mostram na rampa do Palácio do Planalto. Com isso, Moraes rescindiu o acordo. Manuela, que até então respondia por incitação ao crime e associação criminosa, passou a responder pelos cinco crimes repetidamente atribuídos aos réus do 8 de janeiro e aos núcleos do suposto golpe: associação criminosa armada, golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
Para Moraes, o acordo é claro ao prever a possibilidade de rescisão no caso de descumprimento ou do surgimento de novos fatos. Nesse caso, por ter praticado condutas mais graves do que as que admitiu para celebrar o acordo, seria necessária a rescisão.
Denúncia original foi julgada no Plenário e acréscimo na Primeira Turma
Fachin, no entanto, vê uma irregularidade no julgamento. É que a denúncia original foi votada no Plenário, enquanto o aditamento que incluiu os outros crimes foi julgado apenas pela Primeira Turma.
O que gerou a divergência foi uma alteração no regimento interno promovida 11 meses após o 8 de janeiro. Até então, as ações penais eram julgadas em Plenário. A partir dali, passaram para as turmas. Há, no entanto, uma regra de transição: a regra não se aplica às ações penais surgidas antes da publicação da emenda regimental.
Fachin entende que o acréscimo de novos fatos e crimes à denúncia não cria uma nova ação penal, pelo que deve ser mantido o julgamento no plenário. Em outras palavras, a Primeira Turma seria incompetente para julgar este processo em específico.
O presidente do Supremo também defende que o acordo deve voltar a valer. Para ele, a PGR tinha acesso ao celular de Manuela desde 9 de janeiro de 2023 e, com isso, tinha condições de pedir uma perícia para avaliar todos os fatos. O órgão, segue o ministro, ficou em silêncio por 15 meses depois que o laudo foi concluído, em junho de 2024, permitindo que a acusada seguisse prestando serviço comunitário, pagando o valor acordado, participando de um curso sobre democracia e não usando redes sociais, para só depois disso apontar descumprimento.
FONTE: GAZEATA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/julgamento-do-8-de-janeiro-empata-e-pode-levar-a-nova-derrota-de-moraes/#cxrecs_s

Do Val: derrota de Moraes começou e Mendonça está protegido pelos EUA

As novas revelações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, colocaram novamente a atuação do ministro no centro do debate político. A decisão do ministro André Mendonça de levantar o sigilo de documentos relacionados ao caso e as informações que vieram a público sobre mensagens entre Moraes e Vorcaro ampliaram a pressão sobre a Corte.
Entre os novos elementos estão uma mensagem em que Vorcaro teria perguntado a Moraes se deveria deixar o país antes de uma eventual prisão, além de informações sobre contratos milionários envolvendo o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Também vieram à tona relatos sobre relações entre Vorcaro e integrantes do círculo de autoridades próximas ao caso.
Em entrevista à Entrelinhas e ao programa Sem Rodeios, o senador Marcos do Val avaliou que a decisão de Mendonça representa uma mudança importante dentro do STF. Para ele, o cenário atual é resultado também da pressão exercida pelo governo dos Estados Unidos sobre autoridades brasileiras após a aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes.
Entrelinhas: O ministro André Mendonça decidiu levantar o sigilo de uma investigação que envolve as relações entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Como o senhor avalia esse movimento?
Marcos do Val: Nós temos que dividir isso em dois tempos. Um tempo quando o Alexandre de Moraes tinha um poder total, principalmente com a Polícia Federal, que era praticamente dele, todo mundo dizia isso, e o papel de agora é do André Mendonça. Então, essa mudança ocorreu exatamente quando o Alexandre de Moraes entrou para a Magnitsky e, na negociação para retirá-lo, ficou, então, condicionada a ação do governo americano para o trabalho de combate ao crime no Brasil. E esse movimento blindou o André Mendonça.
Entrelinhas: O senhor considera que as sanções americanas alteraram a correlação de forças dentro do STF?
Marcos do Val: Hoje o André Mendonça está com essa força, ele está com esse trabalho fantástico, transparente, dentro da Constituição, sendo um legalista e há várias unidades de inteligência do governo americano trabalhando junto com o André Mendonça.
Entrelinhas: O senhor teme que André Mendonça possa sofrer algum tipo de retaliação por avançar nessas investigações?
Marcos do Val: Com toda a certeza. Eu temo por uma parte, mas eu fico tranquilo por outra, que quando o governo americano atua junto a um trabalho dessa magnitude, o governo americano dá todas as seguranças possíveis.
Se ele estivesse sozinho, tentando combater o sistema, já teria acontecido alguma coisa, não teria chegado até aqui, não teria tanta coragem de colocar a público.
E dou parabéns à Polícia Federal, a parte boa da Polícia Federal, que estava calada e sendo perseguida também, pela parte podre da Polícia Federal e que hoje está tendo coragem de confrontar o algoz do Brasil durante três anos.
Entrelinhas: O senhor acredita que outros ministros do STF podem se afastar de Moraes diante dessas revelações?
Marcos do Val: Daqui para frente, é o Alexandre se apequenar e os outros ministros começarem a se afastar dele para também não serem contaminados.
Entrelinhas: Entre as novas informações, Vorcaro teria perguntado a Moraes se deveria fugir antes da prisão. O que mais chama a atenção do senhor nesse conjunto de revelações?
Marcos do Val: Eu vejo de forma muito positiva. Eu fui o único senador perseguido na história do Congresso Nacional, com perseguições, sem embasamento constitucional nenhum, reconhecido por órgãos internacionais como perseguido político.
Eu já falei para todo mundo sobre as ilegalidades dele, mas todos sempre com muito medo do Alexandre. Eu sabia que isso não ia durar muito tempo, por conta também do meu trabalho desde 2019 com o Marco Rubio, quando era ainda senador nos Estados Unidos e trabalhava na área de inteligência.
Quis Deus colocar ele como secretário de Estado no governo Trump, que começou o trabalho do governo americano de confrontar os governos socialistas que tentaram golpes através das supremas cortes.
Entrelinhas: O senhor entende que Vorcaro acreditava estar protegido por sua relação com Moraes?
Marcos do Val: O algoz, o que todo mundo temia, o cara que fez esse contrato, estava certo de que ele seria avisado com antecedência, que Alexandre de Moraes não ia fazer nada contra ele.
E realmente não fez. Pelo contrário, fez a favor, né? Foi quase sócio. Então, isso já é notório.
Entrelinhas: Como o senhor interpreta os contratos milionários envolvendo o escritório de Viviane Barci de Moraes?
Marcos do Val: O primeiro contrato foi feito em janeiro de 2024, no auge do poder de Alexandre de Moraes. Vorcaro preferiu pagar, porque o homem mais poderoso do Brasil já estava com ele.
Entrelinhas: O senhor acredita que a divulgação dessas mensagens muda o patamar das denúncias que já vinham sendo feitas contra Moraes?
Marcos do Val: Esse momento é um momento histórico, porque nós estamos tendo de fato uma realização de um sonho de ver o Alexandre de Moraes, realmente, começando a ser desvendado.
Ele estava com essa certeza de que teria sua impunidade, que continuaria com o poder, e agora a gente vê um outro cenário.
Entrelinhas: O senhor acredita que as novas informações já justificariam uma investigação contra Alexandre de Moraes?
Marcos do Val: Tem muita coisa para acontecer ainda. Lá na frente, essas notícias vão ser a justificativa para que o governo americano imponha novamente a Magnitsky.
Mas nós só vamos ter um outro país depois das eleições, onde vai entrar a maioria no Senado, não só de direita, mas tem que ser de direita combativa, para então impichar o Alexandre e fazer o trabalho que cabe ao Senado Federal.
Entrelinhas: O senhor pensa que o Senado atual não tem força ou disposição para enfrentar Alexandre de Moraes?
Marcos do Val: O local de fato onde deveria frear o Alexandre era dentro do Senado Federal. Só que há políticos de carreira, de muitos anos, que respondem a mil processos. Alguns até bizarros, de perseguições políticas, outros de corrupção. O Alexandre usava isso como chantagem.
“Olha, se faltar, se assinar impeachment, eu vou colocar, vou tirar da gaveta o seu processo e nós vamos julgar da forma que eu desejar, porque eu julgo de forma monocrática”, né?
Então, o STF precisa de fato ter essa intervenção dos novos senadores em 2027.
Entrelinhas: Além da maioria, a presidência do Senado será fundamental a partir de 2027?
Marcos do Val: O cenário começou agora, desconstruindo o Alexandre de Moraes. Nós vamos tirar o presidente Alcolumbre. Provavelmente, o senador Marinho ou a Tereza Cristina devem assumir a presidência. Eles vão pautar os pedidos de impeachment, e assim a gente vai conseguir controlar o STF.
Entrelinhas: O senhor acredita, portanto, que 2027 será um divisor de águas?
Marcos do Val: Em 2027, nós precisamos estancar, frear Alexandre de Moraes. E que ele realmente seja excluído do STF, além de ser preso pelos crimes que cometeu.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/entrelinhas/do-val-derrota-de-moraes-comecou-e-mendonca-esta-protegido-pelos-eua/
Imprensa internacional chama escândalo envolvendo Moraes de “bomba atômica”

A imprensa internacional está repercutindo a divulgação das mensagens de celular enviadas por Daniel Vorcaro ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, inclusive uma consulta do banqueiro ao juiz sobre se deveria deixar o Brasil pouco antes de ser preso em novembro de 2025.
O jornal El País publicou uma reportagem que afirmou que “Moraes tem mantido silêncio diante de revelações que caíram como uma bomba atômica a menos de cinco semanas das eleições” presidenciais.
“Essas eleições influenciarão o Supremo, já que o vencedor terá a oportunidade de nomear ministros para as três vagas que ficarão abertas durante seu mandato, podendo alterar a maioria — que atualmente favorece Moraes”, afirmou o periódico espanhol.
O argentino La Nación disse que Moraes “tem sido a figura mais temida e polarizadora entre os três poderes” do Brasil, ao acumular “poderes extraordinários” em processos no STF.
“Esse papel central lhe rendeu hostilidade que ultrapassou as fronteiras do Brasil. Em julho de 2025, o governo de Donald Trump revogou seu visto e impôs sanções com base na Lei Magnitsky, devido à sua atuação nos processos contra Jair Bolsonaro e às ordens para que plataformas americanas removessem conteúdo. Em setembro, Washington incluiu [a esposa do juiz, Viviane] Barci de Moraes na lista. Finalmente, em dezembro, o governo dos EUA reverteu a decisão e retirou ambos da lista de sanções”, afirmou o La Nación.
A plataforma americana Bloomberg, especializada em notícias e análises sobre economia, foi na mesma linha, ao afirmar que “Moraes é uma figura polarizadora no Brasil, tendo despertado a ira de conservadores que o acusam de censura durante uma cruzada contra as chamadas fake news nas redes sociais” e desempenhado “um papel central no julgamento que condenou Bolsonaro sob a acusação de tramar um golpe após sua derrota nas eleições de 2022 para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.
“Moraes já havia negado anteriormente ter vínculos com Vorcaro. No entanto, as mensagens divulgadas na terça-feira, caso se confirmem como verdadeiras, sugerem que eles mantinham uma relação próxima em um momento em que o Banco Master enfrentava investigações e escrutínio devido a alegações de que seu crescimento explosivo havia sido construído com base em ativos e práticas fraudulentos”, escreveu a Bloomberg.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/imprensa-internacional-chama-escandalo-envolvendo-moraes-bomba-atomica/
Ministros já avaliam que Moraes não deveria assumir presidência do STF em 2027

A quebra de sigilo da investigação da Polícia Federal, nesta terça (1º), que revelou com riqueza de detalhes a constrangedora relação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes, provocou uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF). Ministros agora discutem maneiras de convencer Moraes a desistir da presidência da Casa, com posse para daqui a um ano, como forma de preservar a instituição e evitar que outros colegas sejam arrastados para a crise.
Falam até em renúncia
Ao menos um ministro, que se queixa das “descortesias” do colega, acha que Moraes deveria renunciar, poupando o STF e encerrando a crise.
Pode ser só o começo
O temor dos ministros é que pode vir mais: o relatório de 247 páginas da PF se baseia na quebra de sigilo de um dos 8 celulares de Vorcaro.
Amor com amor se paga
Indignada, a oposição quer impeachment, ação por tráfico de influência, corrupção etc. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) pediu sua prisão.
Vão-se os anéis, ficam…
Para colegas, Alexandre de Moraes teria chance efetiva de “lutar para a preservação do cargo” se ele desistisse da presidência.
Vorcaro e Moraes trocaram 51 mensagens em 21 dias, aponta jornal

Diálogos extraídos pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mostram uma intensa troca de mensagens com o ministro do STF Alexandre de Moraes nas semanas que antecederam a primeira prisão do banqueiro. Em 21 dias, foram 51 mensagens com pedidos de intervenção, consultas sobre o andamento das investigações, cobranças e declarações de “gratidão”.
Os registros, revelados pelo Estadão a partir de relatório da PF cujo sigilo foi levantado pelo relator André Mendonça, indicam que Vorcaro e Moraes conversaram sobre detalhes sensíveis da Operação Compliance Zero — investigação que apura fraudes na emissão de títulos sem lastro, manipulação de ativos e um esquema estimado em bilhões no sistema financeiro. O banqueiro acabou preso duas vezes no âmbito do caso.
Pedidos de intervenção e tentativas de “reverter” a operação
Vorcaro pediu reiteradamente que Moraes intercedesse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para conter ou atrasar as apurações. Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes da primeira prisão, perguntou: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”.
No mesmo período, consultou o ministro sobre a possibilidade de uma operação policial e sobre se deveria deixar o País: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. No dia seguinte, insistiu: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.
No dia da prisão, 17 de novembro de 2025, Vorcaro enviou várias mensagens relatando tentativas de antecipar a venda do Master a investidores (incluindo grupo Fictor e árabes) e perguntou: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
“Gratidão da minha vida” e “dívida de vida”
Em 14 de novembro, véspera da primeira detenção, Vorcaro escreveu: “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda a minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e sua família. Muito obrigado por tudo.
”As comunicações usavam frequentemente prints do bloco de notas enviados como mensagens de visualização única, que se apagam após a leitura. Moraes chegou a responder com um emoji de “joinha”. O número do ministro estava salvo no celular de Vorcaro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, contato que teria sido compartilhado em 2023 pelo ex-ministro Fábio Faria.
O relatório da PF também aponta indícios de encontros presenciais nas vésperas da prisão e ao longo de 2024 e 2025. Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025 no Aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar em jato particular e novamente em março de 2026.
O material coloca em evidência a proximidade entre o banqueiro investigado e o ministro do STF no período em que a operação policial avançava contra o Master. Moraes já havia se manifestado em notas anteriores sobre partes das conversas.
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