Como Lulinha foi de monitor de zoológico a lobista milionário

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha: o filho que quase não fala (e sempre se safa) (Foto: FE/Fernando Bizerra Jr./Arquivo)

Em 2002, um ano antes de o pai tomar posse como presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva ganhava R$ 600 por mês como monitor no Zoológico de São Paulo. Lulinha não cuidava dos bichos, mas explicava para os visitantes o que o elefante come, por que o pescoço da girafa é grande, como a onça se camufla na mata. Até então, sua vida era marcada apenas pelos animais e pela discrição, sem sinal de qualquer vocação para os negócios.

Hoje, aos 51 anos, o filho mais velho de Lula voltou a ser investigado pela Polícia Federal. Fábio já esteve na mira da Lava Jato por causa de suas empresas e agora reaparece numa história que envolve uma lobista, viagens internacionais bancadas por terceiros e gente com acesso direto ao presidente.

O salto do zoológico para o mundo do dinheiro e do poder em pouco mais de 20 anos já seria, por si só, um percurso digno de atenção. Mas há outro detalhe interessante nessa trajetória: Fábio Luís, que nunca deu uma entrevista de verdade, talvez seja a figura mais citada e menos ouvida da era lulista.

Quem fala por Lulinha são sempre os outros (a mãe, os amigos, os advogados, o próprio pai). A blindagem, ao que tudo indica, começa justamente aí: fazendo com que ele próprio apareça o mínimo possível.

“Fachada necessária”

Lulinha nasceu em São Bernardo do Campo, em março de 1975 — um mês antes de o pai assumir a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos. Quando Lula foi preso pela primeira vez, em 1980, enquanto liderava uma greve de 41 dias no ABC, ele tinha apenas cinco anos.

Foi nessa fase que Fábio fez a amizade mais duradoura de sua vida: com Fernando e Kalil Bittar, filhos de Jacó Bittar, “companheiro de luta” de Lula. Décadas depois, os três se tornariam sócios e, mais tarde, apareceriam em investigações criminais.

Biograficamente falando, Lulinha quase não existe antes dos 30 anos. Sabe-se apenas da infância num ambiente de política e sindicalismo, da formação em Biologia pela Unip (Universidade Paulista) e de algum interesse por videogames e internet. Isso mudaria a partir de 2003.

Naquele ano, os irmãos Bittar, que já tinham experiência em publicidade, convidaram Fábio para fundar uma companhia de entretenimento, a Gamecorp. Em 2005, a Telemar (futura Oi) investiu R$ 5 milhões no negócio — graças, é claro, ao talento incomum de Lulinha, que por acaso era filho do presidente da República.

Pouco depois chegou um novo sócio: Jonas Suassuna, dono também de metade de um hoje famoso sítio em Atibaia, “atribuído” a Lula. Segundo a Polícia Federal, as empresas de Suassuna receberam R$ 66,4 milhões da Oi entre 2004 e 2016.

Quem descreveu como esse dinheiro circulava foi Marco Aurélio Vitale, ex-diretor comercial do grupo de Suassuna. Segundo ele, essas empresas “conseguiam um tratamento que não existia dentro da operadora”. Em resumo, os projetos eram aprovados diretamente pela presidência da Oi, sem análise comercial.

“O importante era a entrada de dinheiro”, disse Vitale, completando que a sociedade com Fábio funcionava como “uma fachada necessária para que todos realizassem seus negócios através da ligação familiar”.

Pedido de prisão

O cerco à Gamecorp se apertou no fim de 2019, quando a Lava Jato deflagrou a Operação Mapa da Mina, que investigou R$ 132 milhões repassados pela Oi e pela Vivo às empresas ligadas a Lulinha e seus sócios. A Polícia Federal chegou a pedir a prisão de Fábio Luís, mas a Justiça negou o pedido.

Em seguida, os sócios começaram a deixar o negócio. Jonas Suassuna saiu em fevereiro de 2020. Em maio do mesmo ano, Fábio e os irmãos Bittar venderam os 70% que ainda detinham na Gamecorp, então rebatizada de G4 Entretenimento.

As investigações, porém, não terminaram com a venda da empresa. Em janeiro de 2022, a Justiça Federal em São Paulo determinou o arquivamento do caso após o STF questionar a atuação de Sergio Moro no processo e considerar que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era a instância competente para julgá-lo.

As provas obtidas a partir das quebras de sigilo e das buscas foram anuladas, e o Ministério Público Federal concluiu que não havia elementos válidos para sustentar uma denúncia. Não houve condenação.

Modéstia calculada

O episódio da venda da participação de Lulinha na Gamecorp ainda guarda um elemento “histórico”: uma carta que ele escreveu para os funcionários e pode ser considerada o registro mais próximo de Fábio “falando por si”.

O texto, no entanto, não tem nada de muito revelador. Na verdade, parece mais o relato de um sobrevivente de uma expedição ao Himalaia. “Lembro desses últimos 15 anos como se tivesse feito uma longa escalada, em um terreno muito íngreme, sempre contra o vento e as tempestades”, diz Fábio no comunicado.

Lulinha também se coloca como injustiçado: “Não conheço um negócio que tenha sido tão vasculhado, por tanto tempo”. E exagera no tratamento que recebeu da imprensa (“Apesar do massacre, nunca conseguiram demonstrar qualquer irregularidade”).

Ele termina a carta num tom de modéstia calculada, lembrando que, mesmo depois de 16 anos à frente de uma empresa de tecnologia e entretenimento, ainda é um biólogo. “Meu lado biólogo manda eu seguir à risca as recomendações”, escreveu, referindo-se às regras sanitárias durante a pandemia de Covid-19.

Zanin e o Prerrô

Nas últimas duas décadas, Fábio também construiu uma rede no mundo jurídico. Um dos primeiros advogados de peso a defendê-lo foi Cristiano Zanin, que atuou no caso da Gamecorp e num episódio envolvendo boatos nas redes sociais. Quatro anos depois, Zanin assumiria a defesa de Lula na Lava Jato e, em 2023, chegaria ao STF.

Mas quem realmente está no centro dessa operação é Marco Aurélio de Carvalho, fundador do grupo de advogados de esquerda Prerrogativas (ou apenas Prerrô), amigo pessoal de Lula e que desde 2023 é sempre cotado para o cargo de Ministro da Justiça. Um dos principais críticos da Lava Jato, Carvalho coordena uma espécie de blindagem jurídico-política de Lulinha — falando publicamente em nome dele e, muitas vezes, escrevendo artigos para a imprensa em sua defesa.

Nos autos, porém, o atual advogado é Guilherme Suguimori, escolhido após uma articulação de Marco Aurélio de Carvalho. Formado pela USP, Suguimori tem um perfil considerado “discreto”, que pode ajudar a família presidencial a controlar a exposição das encrencas do filho.

Não é timidez

Fora dos negócios e dos processos, Fábio sempre manteve uma vida cuidadosamente reservada. Casado com Renata Moreira e pai de dois filhos, ele morou, até 2012, num apartamento alugado no Jardins, região nobre da capital paulista. Segundo apurações da época, a mensalidade de R$ 12 mil era bancada por uma empresa ligada a Jonas Suassuna.

Depois, Lulinha se mudou para um condomínio de alta classe em Moema. O imóvel foi comprado por Suassuna por R$ 3 milhões e passou por uma reforma de R$ 1,6 milhão.

Em meados do ano passado, a família se transferiu para Madri, na Espanha. De acordo com um amigo antigo da família, o advogado Aroldo Camilo Filho, Lulinha decidiu se mudar para evitar a “perseguição brutal” contra ele e para proteger os filhos, que eram “humilhados na escola diariamente”.

Segundo outra figura próxima de Fábio, o cacique petista Washington Quaquá, a nova vida na Espanha tem sido marcada por “condições espartanas” e “precárias”. “Ele não é um cara rico”, garante o vice-presidente nacional do partido e prefeito de Maricá (RJ).

Questionado sobre o suposto temperamento, digamos, retraído, de Fábio nos últimos 20 anos, Camilo Filho acabou entregando o jogo. “Ele tem uma assessoria jurídica que o orientou a não se manifestar”, disse o advogado ao canal do jornalista Luis Nassif do YouTube. Não se trata, portanto, de timidez, mas de estratégia.

Sonegação fiscal

A discrição de Lulinha também marca sua relação com os outros membros da família — ele tem dois irmãos biológicos (Sandro Luís e Luís Cláudio), um adotivo (Marcos Cláudio, filho do primeiro casamento de Marisa) e uma meia-irmã (Lurian, filha de Lula com Miriam Cordeiro).

No entanto, entre 2016 e 2017, essa discrição foi interrompida por uma investigação da Justiça Federal sobre os negócios de três dos irmãos. Fábio, Marcos Cláudio e Sandro Luís eram sócios em diferentes empresas, e as autoridades passaram a investigar se essas companhias haviam feito repasses financeiros “sem causa” entre si, em um suposto esquema de sonegação fiscal.

O inquérito acabou arquivado em 2021 por falta de provas, depois que evidências obtidas na Lava Jato foram anuladas. Ainda assim, o caso mostra que a trajetória “empreendedora” de Lulinha não ficou só na Gamecorp.

Outro momento de exposição familiar ocorreu em 2016, quando um áudio de uma conversa de Fábio com a mãe, Marisa Letícia, foi interceptado pela Lava Jato e acabou vazado. Na gravação, Lulinha reclama da pressão sobre a família e Marisa reage irritada aos protestos contra Lula e os filhos, chamando os manifestantes de “coxinhas”.

O registro serve como uma amostra da relação entre os dois. O filho procura a mãe para desabafar e Marisa, como tantos outros personagens que cercam Fábio, parece estar ali também para blindá-lo.

“Melhores amigas para sempre”

Depois de alguns anos longe dos holofotes, Fábio voltou ao noticiário neste ano por causa de uma figura, no mínimo, peculiar: Roberta Luchsinger, lobista e amiga íntima de Lulinha e de sua mulher, Renata.

A relação é tão próxima que as duas chegaram a fazer tatuagens iguais, com a inscrição “BFF” (sigla em inglês para “melhores amigas para sempre”). Mas essa proximidade também foi motivo de confusão nos tribunais.

Em uma ação movida por uma ex-empregada de Roberta, os advogados se referiram a Lulinha ora como amigo, ora como marido da empresária. A petição ainda dizia que os dois haviam se mudado juntos para a Espanha.

O erro pode parecer banal, mas revela um detalhe intrigante: Fábio realmente frequentava a casa de Roberta em Brasília e, segundo áudios divulgados pela defesa da empregada, ele chegou a dormir no “quarto das crianças”.

Roberta, Marcola e o Careca

Já a Polícia Federal suspeita que essa amizade também tem um lado menos desinteressado. Roberta pagava despesas de Lulinha em Brasília e bancava viagens internacionais. Além disso, foi ela quem o apresentou a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como um dos operadores do esquema de fraudes em aposentadorias.

A partir de Roberta, a investigação chegou a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”, chefe do gabinete pessoal de Lula até o último mês de julho. A PF identificou repasses de Roberta para ele. Marcola afirma que se tratava de um empréstimo já quitado.

Enfim, foi essa conexão — Lulinha, Roberta, o “Careca do INSS” e o homem responsável por controlar o acesso ao presidente — que colocou novamente o filho de Lula na mira da Polícia Federal.

Mais de vinte anos depois de deixar o zoológico, Fábio Luís continua sendo o filho que quase não fala (e sempre se safa). Ao contrário do pai, que fala até demais, Lulinha parece ter escolhido outro caminho para se proteger: silêncio, relações e proximidade.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/como-lulinha-foi-monitor-zoologico-lobista-milionario/

A “crise da alma” brasileira, e como podemos vencê-la

A crise brasileira, como temos visto nos últimos vídeos, é tríplice: institucional, econômica e ético-moral. Esta última é o tema da análise de hoje feita pelo presidente da Gazeta do Povo, Guilherme Cunha Pereira. Uma sociedade incapaz de reagir a situações como as violações rotineiras da ordem constitucional pelo STF, ou os escândalos de corrupção, perdeu sua alma. Um país onde as pessoas já não confiam umas nas outras, que recompensa o vitimismo, que incentiva a polarização, que desencoraja o esforço individual e a construção de vínculos, precisa ser resgatada. E há caminhos para isso.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/crise-etico-moral-alma-brasileira/

José Fucs

Resiliência nas pesquisas traz bons presságios para Flávio Bolsonaro

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) junto de seu vice, Alfredo Gaspar (PL-AL). (Foto: Vittor Sales/ PL Nacional)

Desde que o ex-presidente Jair Bolsonaro escolheu seu filho 01 para representá-lo nas eleições presidenciais, em dezembro do ano passado, muita gente boa por aí acreditou que a decisão de privilegiar um nome do clã havia selado por antecipação a derrota da direita no pleito.

Um sentimento de frustração e pessimismo tomou conta de boa parte da oposição ao presidente Lula, em especial da turma da “isentolândia”. Para ela, outras opções que estavam no radar, como o governador paulista, Tarcísio de Freitas, teriam melhores condições de obter apoio das forças de centro-direita, de centro e até de centro-esquerda e de superar o petista, que busca seu quarto mandato, na disputa. 

Ao contrário do ex-governador de Minas Romeu Zema, candidato do Novo ao Planalto, que afirmou que votaria até “num copo” para defenestrar o PT, muitos integrantes do grupo preferem contribuir para reeleger Lula, ainda que indiretamente, votando em branco ou nulo e posando de “reserva moral” da nação, do que apoiar Bolsonaro ou um integrante da família nas eleições. 

Mesmo entre aliados do ex-presidente, a escolha de Flávio pareceu representar, ao menos num primeiro momento, uma espécie de anticlímax, diante das perspectivas concretas que se apresentavam, de um candidato de direita ou de centro-direita vencer o pleito, em meio a tudo isso que está aí – o escândalo do Banco Master; as fraudes cometidas contra os aposentados do INSS; a escalada autoritária do STF (Supremo Tribunal Federal), em parceria nada discreta com o governo Lula; e os juros estratosféricos que jogam as pessoas e as empresas no vermelho, em decorrência da gastança sem lastro promovida pela atual gestão, entre tantos outros disparates.

Essa desconfiança inicial não se devia apenas ao fato de Flávio ser pouco conhecido no plano nacional e não ter o carisma do pai, cuja penetração popular é inegável, independentemente do que se pense sobre o ex-presidente, que está impedido de participar das eleições.

Como se sabe, Bolsonaro se tornou inelegível até 2030, por decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), sob a alegação de ter espalhado desinformação a respeito das urnas eletrônicas numa reunião com embaixadores em julho de 2022. Foi, ainda, condenado a 27 anos e três meses de prisão pelo STF (Supremo Tribunal Federal), sob a acusação de tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, e cumpre sua pena no momento em confinamento domiciliar. Por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, ele foi proibido temporariamente até de receber visitas, inclusive de familiares. 

Esquema de “rachadinha”

Mesmo para bolsonaristas de carteirinha, a impressão inicial era de que o passivo de Flávio – que foi alvo de investigações por suposto envolvimento num esquema de “rachadinha” com funcionários de seu gabinete, quando era deputado estadual no Rio (2003-2019), além de ter sido acusado de comprar uma franquia da Kopenhagen para lavar o dinheiro – era alto demais para ele sobreviver à artilharia do lulopetismo. 

Mas, a cerca de um mês e meio das eleições, com a campanha eleitoral ganhando tração, Flávio vem demonstrando uma surpreendente resiliência nas pesquisas registradas no TSE. Vários levantamentos o apontam como o candidato da oposição mais bem colocado na preferência dos eleitores no primeiro turno e em empate técnico com Lula no segundo turno.

De acordo com pesquisa Quaest divulgada na semana passada (registro TSE BR-06773/2026), Flávio aparece apenas três pontos abaixo de Lula no segundo turno, dentro da margem de erro do levantamento, com 40% das preferências dos entrevistados contra 43% do presidente. Já a pesquisa PoderData (registro TSE BR-06868/2026), igualmente apresentada na semana passada, mostrou Flávio ainda mais perto de Lula, com 45% das preferências contra 46% do petista.

Nem o vazamento de seu áudio com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, inspirado na trajetória de seu pai, nem a briga pública com a madrasta Michelle Bolsonaro foram suficientes para afetar de forma significativa sua posição nas sondagens e tirá-lo do páreo. Embora tenha perdido alguns pontos nos levantamentos logo depois dos dois episódios, ele já aparece no vácuo de Lula novamente nas pesquisas mais recentes

A decisão de partidos do Centrão, como o Progressistas, o União Brasil, o Republicanos e o Podemos, de manter a neutralidade no pleito, tampouco o derrubou de forma consistente, ao menos até agora. Segundo o noticiário, a decisão teria ocorrido por interferência do próprio STF, que teria ameaçado os caciques dos partidos de dar andamento a processos que correm na Corte contra eles, por envolvimento no escândalo do Banco Master, caso dessem apoio formal à candidatura de Flávio.

Até quando ele recuou nas pesquisas, os demais candidatos da direita e da centro-direita – o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, do PSD, Renan Santos, do Missão, e Zema, do Novo – não conseguiram capitalizar seu tombo em seu favor. Apesar de o presidente do PSD, Gilberto Kassab, candidato a vice na chapa de Caiado, ter dito que a chance de Flávio se eleger “é zero”, isso traz bons presságios para seu desempenho nas urnas. 

“Tariflávio”

Realmente, é impressionante que ele tenha se mantido como candidato competitivo nesta altura do campeonato, em meio a tantas adversidades e ao movimento do establishment para isolá-lo na corrida eleitoral. Como Fênix, a ave da mitologia grega que ressurge das cinzas, Flávio parece voltar revigorado a cada revés, para desalento de seus adversários, e chegou em condições efetivas de vencer a disputa, na largada oficial da campanha, iniciada neste domingo, dia 16.

Aparentemente, pelo que se pode deduzir das últimas pesquisas, nem o bordão “tariflávio”, propagado pelo PT e por sua tropa de choque nas redes sociais, em referência a uma suposta ação de Flávio e de seu irmão Eduardo em defesa do tarifaço imposto pelo governo Trump a importações de produtos brasileiros pelos Estados Unidos, afetou de forma relevante sua candidatura. As sanções impostas a autoridades brasileiras, por participarem de ações antidemocráticas e pela perseguição ao grupo político de Bolsonaro, também não tiveram grande impacto. 

Ao contrário do que muitos analistas imaginavam, as bravatas “nacionalisteiras” de Lula contra os EUA por conta do tarifaço e das sanções, com o resgate do discurso embolorado em defesa da tal “soberania nacional”, que prosperava no país na época do “ianques go home”, nos anos 1950 e no início da década de 1960, parecem não ter surtido os efeitos desejados. No caso da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos EUA, o impacto foi até desfavorável a Lula e seus aliados, que se opunham radicalmente à medida, apoiada por cerca de 60% da população, conforme as pesquisas.  

Se, depois de tudo isso, propagado por aí com o apoio incondicional de boa parte da mídia tradicional, Flávio ainda conseguiu se manter na cola de Lula, parece improvável que agora, com a campanha entrando em sua fase decisiva, sua candidatura definhe. É certo que, no calor da disputa, não dá para descartar nenhum cenário. Mas, a julgar pela resiliência demonstrada por Flávio nas pesquisas, tudo indica que boa parte dos eleitores, inclusive aqueles que não morrem de amores por ele, votaria até “num copo”, como Zema, para apear Lula e o PT do Planalto.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/jose-fucs/resiliencia-nas-pesquisas-traz-bons-pressagios-para-flavio-bolsonaro/

Moraes na mira: novo secretário de Rubio para o Hemisfério Ocidental criticou ministro do STF

Ex-secretário de Comércio e Indústria da Virgínia, Juan Pablo Segura vai supervisionar a divisão do Departamento de Estado que abrange assuntos relacionados ao Brasil (Foto: Governo da Virgínia/Divulgação/Wikimedia Commons)

Em meio a relatos de que o governo Donald Trump planeja novas sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, um crítico do juiz tomou posse este mês para o cargo de secretário-adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado americano, pasta chefiada por Marco Rubio: o empresário de ascendência argentina Juan Pablo Segura, de 38 anos.

Em fevereiro de 2025, quando Moraes multou o X em R$ 8 milhões por se recusar a fornecer dados cadastrais de um perfil na rede social atribuído ao jornalista Allan dos Santos e determinou a remoção da conta, Segura fez um comentário na plataforma que foi respondido com emojis de apoio pelo dono do X, Elon Musk.

“Bloquear o acesso a informações e aplicar multas a empresas sediadas nos EUA por se recusarem a censurar pessoas que vivem nos Estados Unidos é incompatível com valores democráticos, incluindo a liberdade de expressão”, escreveu Segura.

Ele se graduou em contabilidade e estudos do Leste Asiático na Universidade de Notre Dame, no estado de Indiana.

Em 2014, Segura fundou sua primeira empresa, a Babyscripts, uma startup que desenvolveu um aplicativo para melhorar o atendimento a gestantes no pré-natal e pós-parto.

A empresa foi reconhecida no ranking CB Insights como uma das 150 corporações tecnológicas voltadas ao setor de saúde mais inovadoras do mundo. Segura também recebeu diversos prêmios, como de Jovem Empreendedor do Ano pela Câmara de Comércio Hispânica da Grande Washington e pela Câmara de Comércio do Distrito de Colúmbia, além de ter sido finalista do prêmio Empreendedor do Ano da Ernst & Young.

Na administração pública, Segura foi secretário de Comércio e Indústria do estado da Virgínia na gestão do governador republicano Glenn Youngkin (2022–2026).

De acordo com o Departamento de Estado, no seu período à frente da pasta, a Virgínia bateu recordes na atração de novos investimentos de capital, simplificou mais de 35% de todas as regulamentações estaduais e recuperou o título de melhor estado americano para se fazer negócios, concedido pela emissora CNBC.

Segura também foi candidato pelo Partido Republicano ao Senado Estadual da Virgínia em novembro de 2023. Na ocasião, foi derrotado pela democrata Russet Perry.

A nomeação de Segura para a divisão do Departamento de Estado que abrange assuntos relacionados ao Brasil ocorre em um momento de tensões renovadas entre o governo Lula e a gestão Trump.

Além de novas tarifas sobre produtos brasileiros, anunciadas em julho, Washington revogou no início de agosto o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, devido à demora da gestão Lula em conceder o agrément ao indicado pelos EUA para a embaixada americana em Brasília, Daniel Perez, que teve sua nomeação aprovada posteriormente pelo Senado americano.

A medida de Washington foi também uma retaliação pelas recentes negativas de vistos a dois funcionários do governo dos EUA que viriam ao Brasil. O governo Lula alegou que ambos “planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional”, acusação negada pela gestão Trump.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/novo-secretario-rubio-hemisferio-ocidental-criticou-ministro-stf/

Correios começam a entregar no Brasil compras feitas em lojas do Paraguai

Estatal começou a entregar em território nacional compras feitas pela internet em duas lojas paraguaias. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Os Correios começaram a entregar no Brasil compras feitas pela internet em duas das principais lojas de Ciudad del Este, no Paraguai, ampliando o acesso de consumidores brasileiros a produtos importados. A nova parceria envolve a Cellshop e a New Zone Importados, conhecidas pela venda de eletrônicos e outros produtos importados na cidade paraguaia que faz fronteira com Foz do Iguaçu (PR).

Pelo novo modelo, o consumidor poderá comprar diretamente nos sites das duas empresas e receber a encomenda em qualquer endereço do Brasil. A operação será realizada por meio do Correios Packet, serviço da estatal destinado ao transporte de remessas internacionais.

“Para os consumidores brasileiros, a principal vantagem é a possibilidade de adquirir pela internet produtos comercializados por lojistas paraguaios e receber as compras em casa com comodidade e segurança”, afirmaram os Correios ressaltando que a modalidade também deve ampliar o mercado das empresas paraguaias e reduzir custos logísticos.

Para os varejistas brasileiros, porém, a expansão desse tipo de comércio pode aumentar a pressão sobre a indústria nacional, que já reclama da concorrência de produtos importados vendidos pela internet. A discussão ganhou força com a chamada “taxa das blusinhas”, que alterou a cobrança sobre compras internacionais até US$ 50.

A possibilidade de comprar diretamente de lojas paraguaias ocorre em meio à pressão de entidades do varejo brasileiro contra a concorrência dos produtos importados. Segundo levantamento recente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), a manutenção da isenção da tarifa ameaça quase 100 mil empregos.

A “taxa das blusinhas”, derrubada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) através de uma medida provisória com vistas à eleição de outubro, terá a comissão especial do Senado instalada no dia 1º de setembro, às vésperas do vencimento. O petista conta com a aprovação em tempo recorde para não ter a volta do imposto impopular às vésperas do primeiro turno.

A parceria dos Correios com as duas lojas paraguaias também faz parte do plano de reestruturação da estatal para ampliar receitas e tentar conter o rombo que já chega a R$ 5,4 bilhões no primeiro trimestre deste ano. No ano passado, o prejuízo recorde chegou a R$ 8,5 bilhões.

Novas lojas habilitadas

De acordo com os Correios, Cellshop e New Zone Importados estão habilitadas para vender ao mercado brasileiro e também participam do Remessa Conforme, programa da Receita Federal destinado a empresas de comércio eletrônico que informam previamente os dados das importações.

Desde maio, está zerado o imposto federal sobre importações de até US$ 50 realizadas por plataformas enquadradas nas regras da medida, embora a isenção tenha caráter temporário. As compras continuam sujeitas ao ICMS cobrado internamente.

Antes da mudança, as compras de até US$ 50 realizadas por empresas participantes do Remessa Conforme estavam sujeitas a uma alíquota de importação de 20%. Para empresas que não participam do programa, a cobrança permanece em 60%, independentemente do valor da encomenda.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/economia/correios-comecam-entregar-brasil-compras-feitas-lojas-paraguai/

Flávio quer Forças Armadas contra o narcotráfico e Lula mira dissuasão contra outros países

Marinha do Brasil faz exercício militar no Rio de Janeiro (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

A definição do papel das Forças Armadas e dos rumos da política externa expõe divergências estruturais entre as propostas contidas nos planos de governo de Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para as eleições deste ano.

O debate central gira em torno de discutir qual é a maior ameaça ao Estado brasileiro e como os recursos militares devem ser empregados.

A proposta de Flávio Bolsonaro, entregue no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 13 de agosto, prioriza o uso dos militares no combate ao crime organizado transnacional e às redes de narcotráfico que atuam na América do Sul. Já o plano do governo Lula, registrado no TSE no início do mês, direciona a atuação militar para dissuadir outros Estados de atacarem o Brasil.

O uso das Forças Armadas está alinhado com as propostas de política externa de cada um. Enquanto Flávio foca sua proposta de política externa no pragmatismo comercial, Lula aposta em uma proposta de política externa ideológica de alinhamento com os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos).

Flávio combaterá o narcoterrorismo regional

Na proposta de Flávio Bolsonaro, a soberania brasileira é associada diretamente à capacidade de segurança pública interna.

A avaliação central do plano é que o principal desafio enfrentado pelo país decorre da atuação de facções criminosas e redes transnacionais que operam além das fronteiras nacionais. A estratégia preconiza o envolvimento direto das Forças Armadas no combate às organizações narcoterroristas.

“Incentivaremos amplo espectro de tecnologias disponíveis, com foco em inovação como drones e inteligência artificial”, diz parte do plano de governo de Flávio sobre o combate ao narcotráfico e ao terrorismo.

Ao adotar essa abordagem, o plano de Flávio se alinha com a política externa americana, que vem focando esforços em erradicar o narcoterrorismo da América do Sul.

Lula fala em investimento militar e defesa contra inimigo externo

As diretrizes do plano de Lula fundamentam-se no conceito tradicional de defesa nacional, no qual a principal função das instituições militares é salvaguardar o território, a Amazônia e os recursos estratégicos diante de ameaças de países estrangeiros.

O texto do plano de Lula enfatiza que a segurança pública civil deve permanecer sob a gestão de órgãos específicos, enquanto as Forças Armadas mantêm seu foco na prontidão operacional e na autonomia tecnológica do Estado. Sem citar diretamente os EUA, o plano petista diz que o Brasil deve ser capaz de tomar decisões e adotar políticas independentes de influências internacionais.

Nesse contexto, o fortalecimento da Base Industrial e Tecnológica de Defesa (BITD) é apontado como vetor central para promover inovação e reduzir a dependência externa de suprimentos militares.

“Aprovamos nova legislação orçamentária que assegura previsibilidade e continuidade para os investimentos em defesa, o que garante continuidade dos projetos e fortalece a Base Industrial e Tecnológica de Defesa como vetor de inovação”, destaca o plano de reeleição do petista.

Modelos em contraste

A comparação das propostas evidencia duas doutrinas distintas para a atuação internacional e de segurança do Estado.

Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a proposta de Flávio Bolsonaro vincula a credibilidade internacional da soberania ao combate ostensivo do crime organizado, priorizando a cooperação com mercados consolidados e a convergência com padrões internacionais de governança.

A diretriz de Lula, por outro lado, concebe a soberania como a capacidade de manter autodeterminação geopolítica perante outros países, investindo em autonomia industrial militar e consolidando a integração com países de blocos emergentes, como o Brics.

Assim, a análise comparativa expõe dois caminhos definidos: de um lado, a convergência entre defesa nacional e segurança pública focada no narcotráfico; de outro, a separação constitucional entre defesa soberana contra ameaças de países estrangeiros e a segurança pública interna, como explica o especialista em Relações Internacionais Cézar Roedel.

“Flávio procura articular o retorno das relações com aliados tradicionais, como os Estados Unidos, e combater o crime organizado com mais pragmatismo, mesmo se for necessária a ajuda de aliados estrangeiros. A tônica de Lula é uma suposta defesa da soberania contra potências estrangeiras”, explicou.

O especialista em segurança e presidente da Associação dos Oficiais do Paraná, Alex Erno Breunig, acredita que a principal demanda do eleitor brasileiro é a segurança pública. Nesse cenário, investir em defesa contra outros países é, segundo ele, no mínimo desvio da realidade.

“Se a ideia do governo é proteger o país contra países vizinhos, não necessitamos de grandes ampliações nos investimentos. O Brasil não possui nenhum adversário potencial em suas fronteiras. Se a ideia do governo é proteger o território nacional contra grandes forças armadas, a exemplo dos EUA, não adianta investir”, disse.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/flavio-quer-forcas-armadas-contra-o-narcotrafico-e-lula-mira-dissuasao-contra-outros-paises/

O STF que defende a Constituição na teoria enquanto a viola na prática

Edson Fachin, presidente do STF, solidarizou-se com Flávio Dino e não criticou decisão de Moraes que violou sigilo da fonte jornalística. (Foto: ChatGPT sobre foto de Gustavo Moreno/STF)

A grotesca violação da garantia constitucional do sigilo da fonte jornalística não foi ignorada pelas entidades que representam veículos de comunicação e profissionais da imprensa. Associação Nacional de Jornais (ANJ), Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) estão entre as instituições que denunciaram a ameaça grave à liberdade de imprensa contida nas investigações que tinham o objetivo (implícito, mas ainda assim evidente) de descobrir quem era a fonte do jornalista maranhense que denunciara o suposto uso irregular de veículos públicos pelo ministro Flávio Dino e seus familiares. Mesmo jornalistas e órgãos de imprensa que aplaudiram ou calaram diante das primeiras investidas de Alexandre de Moraes contra a liberdade de expressão passaram a dizer que uma linha muito perigosa acabou de ser cruzada.

Infelizmente, aqueles que, neste exato momento, poderiam colocar imediatamente um freio nesta nova investida autoritária de Moraes estão titubeando. Falamos dos demais ministros do Supremo, alguns dos quais fizeram a defesa genérica da liberdade de imprensa e da importância do trabalho jornalístico para a sociedade, mas se calaram diante de uma violação concreta do sigilo da fonte, isso quando não se solidarizaram com Dino, como fez o presidente da corteEdson Fachin, dias depois da operação contra o ex-secretário Raimundo Cutrim, apontado como a fonte do jornalista Luís Pablo.

Os ministros do STF têm desenvolvido um padrão muito preocupante: o de defender teoricamente todas as liberdades e garantias individuais, enquanto na prática decidem e votam para aboli-las uma a uma

“A presidência do Supremo Tribunal Federal manifesta solidariedade ao ministro Flávio Dino e reconhece que ameaças à segurança física dos ministros e familiares devem ser apuradas com rigor”, disse Fachin em seu pronunciamento, ignorando que o “rigor” usado por Moraes atropelou completamente o “compromisso irrenunciável com a Constituição e com o respeito às liberdades fundamentais, sobretudo com liberdade de imprensa e com o direito fundamental dos jornalistas ao sigilo de fonte” que o Supremo, segundo Fachin, teria. O máximo que o presidente da corte se permitiu foi manifestar a disposição de que as decisões monocráticas de Moraes sejam submetidas a um colegiado – o plenário ou a Primeira Turma, que Moraes integra – o quanto antes, o que, a bem da verdade, deveria ser o destino de toda decisão individual no STF.

O grande problema é que os ministros do STF têm desenvolvido um padrão muito preocupante: o de defender teoricamente todas as liberdades e garantias individuais, enquanto na prática decidem e votam para aboli-las uma a uma. Ninguém encarnou essa contradição melhor que Cármen Lúcia, quando julgou uma ação no TSE contra a divulgação de um documentário da produtora Brasil Paralelo, em 2022. Após manifestar preocupações mil com a possibilidade de a corte eleitoral estar praticando censura prévia (pois nenhum dos julgadores havia nem sequer visto o documentário), votou pela censura alegando uma “situação excepcionalíssima”.

Nenhum ministro do STF dirá abertamente que despreza a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, o sigilo da fonte, a imunidade parlamentar e outros direitos e garantias individuais. Portanto, quando precisam atacar esses direitos, defendem-nos em tese, para depois relativizá-los de alguma forma, seja com bordões surrados como o “liberdade de expressão não é liberdade de agressão!” moraesiano, seja com as “situações excepcionalíssimas” de Cármen Lúcia, seja com algum outro “mas” que invoque alguma justificativa capenga, como as “sutilezas” invocadas por Gilmar Mendes ou o “não confundamos jornalistas investigativos com jornalistas investigados por práticas criminosas” usado por Moraes para defender a operação contra Cutrim. Outros, como acaba de fazer Fachin, preferem calar, e com isso consentir, como diz a sabedoria popular.

Suspeitas de crime – porque até o momento não há mais que isso contra Luís Pablo – podem e devem ser investigadas, mas sempre dentro da lei. Moraes não fez isso. Em março, ordenou a apreensão dos dispositivos eletrônicos do jornalista maranhense, e chegou a deixar subentendido que pretendia, sim, descobrir quem havia lhe dito que Dino e a família estariam usando veículos oficiais de forma irregular. Moraes afirma que o “sigilo de fonte (…) nunca se confundiu e jamais se confundirá com escudo protetivo para prática de atividades ilícitas”; muito mais acertado é dizer que a busca pela elucidação de um crime ou mesmo a tão cantada “defesa da democracia” jamais podem se confundir com escudo protetivo para a violação de garantias constitucionais.

O colegiado que julgar (se é que isso de fato ocorrerá) a decisão de Moraes não tem como consertar o que já foi feito, no sentido de que não apagará da memória coletiva o fato de que Cutrim era a fonte de Luís Pablo; no máximo, pode invalidar algumas provas, o que já é alguma coisa, embora pouco diante do tamanho do abuso cometido. Muito mais importante seria que os ministros fechassem totalmente as portas para arbitrariedades semelhantes no futuro. Mas terão a decência e a coragem de fazê-lo, após terem descido tão fundo no autoritarismo com tantas decisões, votos e silêncios?

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/sigilo-da-fonte-edson-fachin-alexandre-de-moraes/

Polzonoff

Moraes quebra sigilo da fonte de cronista da Gazeta do Povo

O batuta Alexandre de Moraes segurando uma truta. (Foto: ChatGPT)

Tenho noção da minha insignificância. Tanto que, quando os policiais chegaram às suntuosas e nababescas instalações dos Estúdios Gazeta do Povo, achei que fosse pegadinha do malandro. A coisa começou a mudar de figura quando me algemaram e me colocaram num camburão da PF. Aí comecei a desconfiar de que a coisa podia ser séria. “A casa caiu, Polzo!”, “Fascistinha vai dormir de conchinha com o Filipe Martins, hein!”, “Hoje a jiripoca vai piar!”, riam, zombavam e intimidavam os agentes da PF.

Até que chegamos. Onde não sei. Cobriram meu rosto com um capuz e fui levado por corredores, escadas e elevadores até uma sala. Fiquei lá por muito tempo. Horas, talvez. Tempo o bastante para eu pensar na morte da bezerra & outras histórias. Até que ouvi a porta se abrindo e se fechando. Passos. Alguém arrastando a cadeira e se sentando. Tiraram meu capuz. Era ninguém menos do que Alexandre de Moraes me encarando com olhos maníacos. “Não precisa ter medo”, disse ele. “Quero apenas esclarecer uma coisa”. Sinceramente? Não estava com medo dele. Estava com medo da reação da minha mulher quando ficasse sabendo disso tudo.

Eu não sou besta…

Esperei. Alguém entregou uma folha ao ministro. “Aqui nesta sua crônica, em que você exige que eu explique os 129 milhões, hahahahaha, até parece, neste trecho aqui, ó, você diz que as pessoas se referiam a mim por diversos termos. Termos que rimam com ‘truta’”. Pensei em explicar que era uma crônica, seu burro!, uma crônica! Mas achei melhor ficar quieto. E ele: “Afinal, que termos são esses que rimam com truta?” Na hora, percebi a oportunidade de bancar o herói. A palavra começou a se formar na minha boca. O efe e o i. Tem hífen? Mas aí me lembrei da música do Raul Seixas (“eu não sou besta…”) e principalmente da bronca que levaria da minha mulher. “Tô ferrado”, pensei, desejando por um instante dormir de conchinha com o Filipe Martins mesmo. As the spooner, not the spoonee. Tá me estranhando?

Luta, fruta, gruta, recruta, conduta, astuta, araruta, minuta, impoluta. São várias as palavras que rimam com “truta”. Nenhuma convincente o bastante. De novo me deu vontade de falar a verdade. “Posso falar?”, perguntei só para ganhar tempo. Ele meneou a cabeça e sorriu aquele seu sorriso de vilão de história em quadrinhos. “A palavra que rima com “truta’ e que usaram para se referir ao senhor era… batuta!”. Alexandre de Moraes pareceu aliviado. Ouvi aplausos e gritos de “é isso aí, chefinho!”. “Então as pessoas querem saber quando é que o batuta, o batutão aqui vai explicar os 129 milhões?”, perguntou ele. Fiz que sim. Moraes ficou sério de novo e, sem hesitar, quebrou ali mesmo meu sigilo de fonte: “E quem foram essas pessoas? Quero nomes”.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/polzonoff/moraes-sigilo-da-fonte/

Alexandre Garcia

Eleitor não se conquista na base da briga, mas do convencimento

Quem quer convencer o outro a votar em seu candidato não vai conseguir nada sendo agressivo. (Foto: Imagem criada utilizando Google Flow/Gazeta do Povo)

Olhando a pesquisa publicada nesta segunda-feira pela Nexus, que foi paga pelo BTG Pactual, vamos perceber que ainda há muito eleitor a ser conquistado. Segundo a pesquisa, são 5% de brancos e nulos, 2% de indecisos, 23% que não têm interesse e 5% que não vão votar. São 40 milhões, 50 milhões, 55 milhões de eleitores em 159 milhões a serem conquistados.

Até nisso há um potencial. O Brasil é um país que tem um tremendo potencial de riqueza, mas não se torna potência porque não sabe usar o seu potencial. Será que os candidatos, os partidos e os próprios eleitores interessados em defender os seus candidatos a deputado, senador, governador e presidente sabem como conquistar mais votos para os seus preferidos? Não se conquista voto brigando, mas argumentando e convencendo. Para isso, é preciso ter informação e conhecimento. Nós nos valorizamos e ganhamos poder com o conhecimento. Por isso muitos políticos não fazem questão de investir no ensino, porque fica mais fácil de dominar a população; vejam só o nível do serviço público e dos políticos.

Dino afasta presidente de TCE ligado a grupo político rival

O ministro Flávio Dino, que é maranhense, ex-governador e que foi eleito para ser representante do Maranhão no Senado, abriu mão disso e deu as costas para o seu eleitor, aceitando ser ministro do Supremo. Acho tão estranho isso, um desprezo ao eleitor. Agora ele determinou o afastamento, por 180 dias, do presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão, Daniel Brandão. Esses tribunais de contas têm muita coisa a ser examinada, porque dão lugar a protegidos – o presidente afastado, por exemplo, é sobrinho do atual governador.

O motivo do afastamento seria a interferência nas investigações de um assassinato ocorrido em 2022, causado por uma discussão sobre distribuição de propina com verbas públicas federais. Por causa disso, o processo até veio para o Superior Tribunal de Justiça, onde o senador Weverton teria atuado para resolver as coisas. Em 2024, Gilbson Cutrim Soares Júnior foi condenado pelo homicídio. O sobrenome lembra alguém? Raimundo Cutrim, ex-secretário, teve contra si operação de busca e apreensão; ele seria a fonte do jornalista Luís Pablo, que denunciou o suposto uso irregular de carro oficial por Dino em São Luís. Neste caso do assassinato, o que se diz é que Raimundo teria pedido para o pai do condenado que ele retirasse algumas declarações para não envolver o presidente do Tribunal de Contas, o sobrinho do governador.

É uma trama enorme, difícil de entender, mas que nos deixa pensando: tudo isso é feito em nome do povo (porque todo poder emana do povo) e com o dinheiro do povo, que paga imposto mesmo que não queira, sempre que compra alguma coisa.

Mais um acidente que mostra por que é preciso usar cinto também no ônibus

Eu posso soar chato porque vivo me repetindo sobre esse assunto, mas vocês viram o que aconteceu com o ônibus fretado que estava levando pessoas de Belo Horizonte, para um fim de semana em Copacabana? Eram 56 pessoas no ônibus, inclusive a tripulação, e na serra de Petrópolis ele rolou para fora da estrada. Eu vi as fotos; o ônibus está inteiro. Quem estivesse amarrado no cinto estaria preservado lá dentro, a menos que alguém sem o cinto tivesse sido jogado e acertasse outro passageiro. Sempre digo que é preciso usar cinto de segurança também nos ônibus. Houve 10 mortos e, ao que parece, de 15 a 20 feridos. Provavelmente quem saiu ileso é porque estava com o cinto e teve a sorte de não ser atingido por ninguém ou por nada enquanto o ônibus rolou – ele deu umas duas voltas, pelo que vi na foto. Usar cinto é a diferença entre a vida e a morte.

Metodologia da pesquisa citada na coluna

2.003 entrevistados pelo instituto Nexus de 14 a 16 de agosto de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos porcentuais. Registro no TSE n.º BR-03317/2026.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/pesquisa-indecisos-convencimento/

Luciano Trigo

Por que a Faria Lima prefere Lula?

Para a Faria Lima, pouco importa se o candidato é de esquerda ou direita. Por ora, o mercado financeiro parece preferir o que já conhece. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

Há um paradoxo pouco explorado na relação entre o governo Lula e o mercado financeiro. Na retórica política, eles parecem ocupar lados opostos. De um lado, um presidente identificado historicamente com os trabalhadores, a expansão do gasto social e a crítica às desigualdades. De outro, a Faria Lima, símbolo de bancos, gestoras, fundos de investimento e grandes operadores do capital.

Na prática, a convivência entre os dois é mais do que pacífica: é uma relação de aliados. Isso porque o mercado não precisa gostar de Lula. Precisa que ele seja previsível. A diferença é importante.

O mercado financeiro busca maximizar lucros em ambientes de alta rentabilidade, e o Brasil atravessa uma fase na qual o dinheiro voltou a ser muito bem remunerado. A Selic está em 14%, já chegou a 15% no início do ano, e novas reduções devem ser modestas.

Durante o terceiro mandato de Lula, as instituições financeiras e empresas concentradas no ecossistema da Faria Lima registraram lucros recordes históricos, impulsionadas pelo longo período de juros elevados. O sistema financeiro brasileiro atingiu a marca histórica de R$ 255 bilhões em lucro líquido em 2025, segundo dados do Banco Central.

Embora o governo federal mantenha frequentes embates retóricos com o mercado financeiro, os grandes bancos ampliaram significativamente suas margens financeiras e carteiras de crédito corporativo, consolidando uma fase de alta rentabilidade mesmo em meio a pressões fiscais.

A verdade é que o governo que se apresenta como defensor dos pobres administra uma economia na qual o capital financeiro encontra condições extraordinariamente favoráveis para prosperar. Sob a presidência de Lula, a política de juros elevados significa renda segura e atrativa para os grandes investidores da Faria Lima.

Para quem vive do trabalho, juros elevados significam crédito caro, financiamento difícil e menor dinamismo da economia. Por isso, o endividamento da classe média só aumenta e a vida do cidadão comum só piora. Mas, para quem tem dinheiro para aplicar, os juros significam outra coisa: uma remuneração excepcionalmente atraente em aplicações de baixo risco.

Para a Faria Lima, pouco importa se o candidato é de esquerda ou direita. Por ora, o mercado financeiro parece preferir o que já conhece

Não é preciso imaginar uma conspiração para entender o mecanismo. Quando o Estado paga juros elevados sobre uma dívida pública gigantesca, uma parcela relevante da renda nacional é transferida para os detentores de ativos financeiros. Isso não significa que todos os bancos estejam simplesmente enriquecendo por causa da Selic, nem que seus lucros dependam exclusivamente dos juros. Apenas revela como um ambiente de dinheiro caro se transforma em fonte de remuneração elevada para o capital financeiro.

A relação entre o mercado financeiro e o governo não se resume à taxa Selic. Ela passa também por dívida pública elevada, mercado de títulos, autonomia do Banco Central, regras fiscais e mecanismos sofisticados de intermediação financeira. Lula pode tensionar alguns desses mecanismos no discurso, mas não rompeu com eles na prática.

Para o capital, essa continuidade institucional reduz o risco de mudanças abruptas e torna o conflito político menos relevante do que parece na superfície. O governo Lula não representa uma ruptura com a arquitetura econômica existente: opera dentro dela, combinando políticas sociais com a remuneração do capital. Distribui renda pela porta social enquanto remunera o capital pela porta financeira.

Para a Faria Lima, pouco importa se o candidato é de esquerda ou direita. O que importa é a previsibilidade e a preservação das condições que permitem ao capital extrair valor do sistema. É uma acomodação na qual o conflito ideológico perde densidade.

Por sua vez, Flávio Bolsonaro representa uma agenda mais liberal, com redução de impostos e do peso do Estado na economia e na vida do cidadão – o que, em tese, também deveria interessar aos detentores de capital financeiro. Mas Flávio oferece ao mercado menos previsibilidade. A Faria Lima já conhece o modus operandi de Lula e sabe o que esperar de seu governo. No mundo dos investimentos, essa segurança pode valer mais do que a promessa de uma mudança potencialmente favorável.

O problema surge quando essa acomodação se torna assimétrica: quando o trabalho é chamado a aceitar sacrifícios em nome da estabilidade, enquanto o capital encontra na própria estabilidade uma oportunidade de remuneração extraordinária. Por ora, o mercado parece preferir o que já conhece. Resta saber qual será o preço desse alinhamento pragmático para a sociedade, caso Lula seja reeleito.

FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/luciano-trigo/por-que-a-faria-lima-prefere-lula/

Lula expõe embaixadora do Brasil a virar ‘persona non grata’ nos EUA

Diplomata Maria Luiza Ribeiro Viotti (Foto>Jefferson Rudy/Ag. Senado)

Apesar de poder a qualquer momento chamar de volta para o Brasil a embaixadora que teve o visto “cancelado” nos Estados Unidos, Lula (PT) e seu governo decidiram manter Maria Luiza Viotti em Washington com só um propósito: a utilização eleitoral da situação e especialmente da eventual declaração de “persona non grata” e deportação da diplomata brasileira. As razões de Lula são meramente eleitorais, transformando o caso em mote de campanha. Experientes diplomatas ouvidos pela coluna que têm Viotti em alta conta, uma profissional exemplar, confirmam a suspeita: “só a eleição explica”.

Advertência dada

O governo do PT e o chanceler Mauro Vieira já foram advertidos que Viotti está mesmo sujeita a ser declarada “persona non grata” pelos EUA.

Não faltaram avisos

Lula foi avisado por semanas sobre o risco de retaliação do governo dos EUA pela demora em aprovar o embaixador americano para o Brasil.

Pura malvadeza

Com visto cancelado, Viotti já não é reconhecida como embaixadora do Brasil, na prática. Mas o Planalto ordenou sua permanência nos EUA.

Nem aí

Ao saber do possível agravamento da crise, Lula avisou que a análise sobre a aceitação do embaixador americano fica para depois da eleição.

FONTE: GAZETA DO POVO https://diariodopoder.com.br/coluna-claudio-humberto/lula-expoe-embaixadora-do-brasil-a-virar-persona-non-grata-nos-eua

Lula ignora dados do próprio governo sobre Segurança e Educação

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ao tentar justificar a recusa do seu governo de priorizar o combate à criminalidade, Lula (PT) usou dados falsos para sustentar sua “tese”. Ele disse que enquanto um presidiário custaria em média R$35 mil a Estados como São Paulo, “um menino na universidade custa R$20 mil”. Mais uma vez, como se jacta sempre, Lula mentiu. O gasto médio do poder público com a população carcerária é de R$31.653 anuais por detento, enquanto o custo por aluno de universidade federal, bem maior, bate os R$52.533. A informação é da Coluna Claudio Humberto, do Diário do Poder.

Lula deveria se interessar pelos dados do Ministério da Educação. Saberia que gasto médio com um universitário é de R$4.377 mensais.

E saberia que a Secretaria Nacional de Políticas Penais, cujo titular ele nem conhece, aponta o custo médio dos presidiários: R$2.637 por mês.

Lula não sabe que os Estados investem por aluno da Educação Básica, US$3.668. Perto da Argentina (US$ 3.679), longe da OCDE: US$ 11.914.

FONTE: GAZETA DO POVO https://diariodopoder.com.br/brasil-e-regioes/ttc-brasil/lula-ignora-dados-do-proprio-governo-sobre-seguranca-e-educacao

Moraes quer enterrar meu pai vivo, diz Flávio Bolsonaro

Senador Flávio Bolsonaro ao lado do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro – Foto: redes sociais.

O senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), repudiou nesta terça-feira (18) as medidas e decisões que o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tende a cumprir a mando do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o primogênito do ex-mandatário, o ministro deseja “enterrar Bolsonaro vivo”.

O senador destacou as decisões em que Bolsonaro está proibido de falar com pessoas fora de sua residência, no Condomínio Solar de Brasília, onde cumpre pena desde março.

“O relator do processo dele, o ministro Alexandre de Moraes, sequer permite que ele se comunique por carta, proíbe a visita de seus filhos […]. Ele quer matar, ele quer enterrar vivo o presidente Bolsonaro”, disse Flávio em entrevista à Rádio Itatiaia.

Segundo o senador, as medidas impostas ao seu pai causam comoção em seu eleitorado e resultam em apoio à sua campanha presidencial.

“As pessoas se indignam mais, mas pensam cada vez mais nele. Por onde eu ando, as pessoas vêm me abraçar e chorar e dizer assim: “Esse abraço aqui é pro seu pai, manda um abraço pro seu pai”, prosseguiu em sua fala.

Atualmente, o líder da direita está proibido de receber visita de aliados políticos e de familiares. A decisão veio a ser deferida após o episódio envolvendo a leitura da chamada “Carta aos Brasileiros”, em uma live de Flávio.

Moraes afirma em sua decisão que condenou Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão, que ele está proibido de se manifestar publicamente ou em rede social, seja privada ou por meio de terceiros.

FONTE: DP https://diariodopoder.com.br/justica/ttc-justica/moraes-quer-enterrar-bolsonaro-vivo-diz-flavio

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