
A decisão dos Estados Unidos de não renovar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, impede a diplomata de representar os interesses nacionais no país. O ato marca o ponto mais grave de uma crise bilateral com os EUA que deve se estender até as eleições de outubro.
A avaliação é de diplomatas, parlamentares e analistas internacionais ouvidos pela Gazeta do Povo para entender o significado e os desdobramentos da medida.
A revogação do visto costuma vir acompanhada da declaração de persona non grata — decisão drástica que forçaria a chefe da missão diplomática a retornar ao Brasil. Embora não seja o caso de Viotti no momento, este seria o passo seguinte caso a relação entre os dois países se deteriore ainda mais.
Novas retaliações não estão descartadas, como sanções econômicas e o cancelamento de vistos de outras autoridades brasileiras. “Só vai piorar”, disse à Gazeta do Povo o deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara.
Um alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA comunicou a revogação do visto de Viotti nesta terça-feira (4), em reunião reservada com jornalistas. Segundo o representante americano, a medida responde à recusa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em conceder o aval diplomático formal (conhecido como agrément) ao indicado do presidente Donald Trump para a embaixada em Brasília, o deputado republicano Daniel Perez, além do veto de visto a diplomatas americanos este ano.
Em nota, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República declarou que o governo brasileiro repudia a medida e classificou as justificativas como “falsas”. O Palácio do Planalto argumentou que a tradição diplomática exige sigilo no processo: “O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4º da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas”.
O Palácio do Planalto sustenta ainda que dois funcionários americanos que tiveram vistos negados em julho “planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional”. A nota mencionou também que autoridades brasileiras, incluindo ministros do Executivo e do Supremo Tribunal Federal (STF), tiveram vistos cancelados “com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro”.
“A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”, afirmou o governo.
Para Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da FGV, Brasília tenta se defender do que considera uma tentativa de Washington de desacreditar o processo eleitoral brasileiro, seja questionando a integridade das urnas eletrônicas ou a isenção do Judiciário.
Na avaliação do pesquisador, o impasse deve durar ao menos até as eleições. “Se Flávio Bolsonaro vencer, restabelece a relação rapidamente e, após a posse, nomeia outro embaixador do agrado do governo Trump. Se Lula se reeleger, é difícil saber se Trump manterá a embaixadora sem credenciamento ou se começará a conversar novamente com o governo brasileiro. A medida está inserida no contexto de pressão americana sobre a eleição no Brasil”, analisa.
O pesquisador avalia, por outro lado, que a revogação do visto pode integrar uma estratégia de pressão comercial da diplomacia americana. “A política de Marco Rubio [secretário de Estado] é de forte pressão: adota-se uma medida dura para, em seguida, abrir negociação. Foi o que ocorreu quando anunciaram a taxação e, depois, enviaram um pacote de propostas para isentar serviços digitais e restringir o comércio com a China em troca da revisão das tarifas”, explica.
Desde o início do segundo mandato de Trump na Casa Branca, em 2025, a relação bilateral vem se deteriorando. Washington vê com desconfiança o alinhamento de Lula com regimes autoritários, a aproximação política com a China e a proposta de substituir o dólar no comércio internacional. O governo brasileiro, por sua vez, resgatou a retórica de que os EUA voltaram a adotar uma postura imperialista para dominar a América Latina e favorecer governos de direita.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da ApexBrasil e do Senado, critica a reação de Brasília. Para ele, falta pragmatismo ao lidar com a Casa Branca, o que traz prejuízos à economia nacional.
“Embora a ausência de um prazo estrito para a análise do agrément seja verdadeira, o represamento prolongado da anuência e o veto a funcionários americanos extrapolam a cortesia internacional, transmitindo uma imagem de omissão e má vontade”, pontua Coimbra. “Ao optar por um tom público confrontacional — acusando os EUA de motivações ideológicas —, a diplomacia do governo Lula abandona os canais de negociação velados e agrava o desgaste de imagem do Brasil em Washington.”
Coimbra prevê que o aval para o novo embaixador americano só seja concedido após as eleições. Até lá, a tendência é que a representação brasileira na capital americana permaneça sem comando titular. “Isso gera um isolamento funcional da representação brasileira e enfraquece a interlocução direta em temas econômicos e comerciais prementes”, afirma.
Mesmo que o Brasil conceda o aval a Perez após o pleito e Viotti recupere o visto, o episódio “deixará cicatrizes permanentes na confiança mútua”, avalia o analista. “Para a diplomacia americana, usar o rito diplomático formal como instrumento de sinalização política interna demonstra falta de pragmatismo, reduzindo a credibilidade do país e sua margem de manobra em futuras negociações bilaterais.”
Em um cenário de reeleição de Lula e aprofundamento do impasse, os EUA poderiam adotar medidas mais duras. “A Casa Branca poderia adotar retaliações comerciais seletivas ou suspender acordos bilaterais de cooperação tecnológica e de defesa. A insistência em uma postura de confrontação pública, em detrimento do profissionalismo histórico do Itamaraty, expõe o país a custos desproporcionais e evidencia os riscos de se afastar do pragmatismo institucional”, conclui Coimbra.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/suspensao-de-embaixadora-agrava-crise-e-afasta-brasil-dos-eua-ate-as-eleicoes/
O abandono das reformas microeconômicas

O Brasil é um país atrasado, com baixa renda per capita, crescimento econômico pífio, elevada pobreza, problemas sociais graves, elevados índices de violência, corrupção endêmica incurável, portanto, longe de ser um país desenvolvido que os recursos naturais permitem ser. Esse diagnóstico é amplamente conhecido, e sobre ele não há discordância tanto internamente quanto no plano internacional. É justamente por dispor de importantes riquezas naturais e condições capazes de conduzir o país ao crescimento econômico e desenvolvimento, a fim de extirpar as mazelas sociais e melhorar significativamente o padrão médio de bem-estar social, que se torna incompreensível que o país continue chafurdando no atraso e sem perspectiva de sair dessa lamentável situação.
Uma das chagas mais perniciosas da política e da administração pública nacional é a incapacidade de levar adiante qualquer plano de recuperação e desenvolvimento, mesmo com tantos planos elaborados e anunciados – alguns até iniciados e, depois, abandonados e esquecidos. Em dezembro de 2004, segundo ano do primeiro governo Lula, ainda sob o voto de confiança dado pela sociedade, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, apresentou à nação um plano chamado “Reformas econômicas e crescimento de longo prazo”: 103 páginas com um bom diagnóstico e boas propostas para alavancar o crescimento e o desenvolvimento.
O histórico das reformas microeconômicas sempre anunciadas e nunca executadas entra neste segundo semestre de 2026 diante de eventos que colocam o Brasil numa encruzilhada
Naquele momento, Palocci contava com prestígio no parlamento e na sociedade, inclusive por não ter adotado as ideias e propostas estatizantes e intervencionistas defendidas pelo PT em seus documentos e declarações públicas desde a fundação do partido. Visto em retrospecto, aquele plano apresentava méritos que poderiam ter sido uma alavanca para o crescimento econômico e a elevação da renda por habitante, de forma a viabilizar avanços sociais propugnados pelo próprio partido. Mas, na sequência, entrou em cena um hábito típico da política brasileira: nada foi seguido, as políticas de governo nunca foram na direção proposta e o plano acabou morrendo no nascedouro, dando lugar a improvisos e retrocessos que continuam até hoje.
O Brasil nunca sofreu de falta de planos e medidas que, se implementadas, significariam avanços importantes; foi o caso das sete reformas propostas por Paulo Guedes, ministro da Economia de Jair Bolsonaro: 1. reforma da Previdência Social, pública e privada; 2. reforma tributária; 3. privatização de empresas estatais, incluindo serviços operacionais na infraestrutura; 4. revisão e redução dos subsídios fiscais, creditícios e monetários; 5. reforma administrativa, com diminuição da burocracia; 6. autonomia do Banco Central; e 7. ampliação da liberdade comercial, com maior abertura internacional. Dessas propostas, a que teve melhor andamento, foi aprovada e se consolidou foi a autonomia do Banco Central, odiada por Lula e seus adeptos.
Nesse contexto, vale mencionar também o plano de 13 medidas elaboradas no âmbito do Ministério da Fazenda como parte das reformas microeconômicas capitaneadas pelo secretário de Reformas Econômicas Marcos Barbosa Pinto, por ele anunciadas no dia 20 de abril de 2023: 1. garantia para parcerias público-privadas de entes subnacionais; 2. debêntures incentivadas para infraestruturas sociais e ambientais; 3. novo marco das garantias; 4. garantia com recursos previdenciários; 5. simplificação e desburocratização do crédito; 6. acesso a dados fiscais; 7. autorização de bancos e moeda digital; 8. regime de resolução bancária; 9. combate ao superendividamento e “mínimo existencial”; 10. proteção a investidores no mercado de capitais; 11. infraestruturas do mercado financeiro; 12. cooperativas de seguros; e 13. normas de seguro privado.
O histórico das reformas microeconômicas sempre anunciadas e nunca executadas entra neste segundo semestre de 2026 diante de eventos que colocam o Brasil numa encruzilhada: ou o país dá uma guinada em sua letargia e atraso, começando por reformas políticas e reformas econômicas, de maneira a tomar o caminho das mudanças nos próximos quatro anos – que serão os últimos da terceira década do século 21 –, ou o país se definirá de vez como uma nação rica de recursos naturais e pobre e atrasada em termos econômicos e sociais.
O momento atual apresenta algumas características importantes para a definição do futuro nacional. A primeira são as eleições estaduais e federais em um cenário de polarização política e deterioração administrativa e moral das instituições. A segunda é uma realidade que pouco tem sido observada e debatida: o envelhecimento da população e também do capital físico, formado pela infraestrutura púbica de uso coletivo e infraestrutura produtiva privada, como empresas, plantas industriais, frota de veículos de carga e de passageiros, prédios comerciais, moradias, além de tantos outros bens e equipamentos de uso pessoal e empresarial. A campanha eleitoral deveria ser uma oportunidade para o levantamento e o debate dessas grandes questões nacionais tomando por base as muitas propostas que foram feitas, das quais se pode extrair ideias válidas até hoje.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/o-abandono-das-reformas-microeconomicas/
Como a Cacique Cobra Coral virou “consultora” de governos prometendo controlar o clima

Um vendaval matou três pessoas no Rio de Janeiro na última quarta-feira (29). Dias depois, a Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC), entidade que afirma controlar fenômenos climáticos por meio de uma médium, veio a público para fazer um anúncio bizarro: eles poderiam ter evitado a tragédia, mas preferiram não agir.
O motivo? O convênio gratuito que a FCCC mantinha com a prefeitura carioca expirou depois de 25 anos e não foi renovado. Segundo o autointitulado porta-voz da fundação, Osmar Santos, “o povo é que pagou o preço dessa omissão”. “Eles [os políticos] precisam entender que não precisamos deles. Eles que precisam de nós”, disse Santos ao jornal Folha de S. Paulo.
Dias antes, a Cacique Cobra Coral ganhou destaque na imprensa por suspender sua “assistência climática” à Argentina (país, de acordo com o grupo, atendido desde os anos 80). O cancelamento foi uma resposta às críticas duras de Javier Milei ao presidente Lula.
Em 2025, a entidade também anunciou o cancelamento parcial dos serviços prestados aos Estados Unidos, em retaliação às tarifas impostas pelo governo de Donald Trump a produtos brasileiros. A FCCC afirmou que os americanos ficariam “por sua conta e risco” diante de uma temporada de furacões e tornados.
Mas, afinal, quem está por trás dessa entidade que garante ter poder para interferir nas forças da natureza — e, como se não bastasse, decide quando as pessoas merecem, ou não, sua ajuda?
Alerta sobre o 11 de Setembro
Nos últimos 40 anos, a FCCC reuniu uma curiosa coleção de supostas intervenções: carnavais, réveillons, edições do Rock in Rio, visitas de papas, posses de governantes, eventos da realeza britânica, apagões, crises hídricas, incêndios florestais. A relação inclui até um alerta sobre o 11 de Setembro, enviado por carta ao governo dos EUA.
Mas essa história começou bem antes, de acordo com a narrativa da fundação. Mais especificamente na década de 30, após uma geada destruir a plantação de café do modesto sítio do agricultor Ângelo Scritori, no norte do Paraná. Desesperado com o prejuízo, ele foi consolado pelo espírito do cearense Cícero Romão Batista (1844-1934), conhecido popularmente como Padre Cícero (ou, ainda, Padim Padre Ciço).
O padre católico profetizou que a filha mais nova de Scritori tinha o dom de se comunicar com uma entidade capaz de alterar os fenômenos naturais. Dito e feito: sete anos depois, a pequena Adelaide recebeu as primeiras mensagens de uma entidade espiritual que se identificou como Cacique Cobra Coral.
Índio, Galileu e Abraham Lincoln
Segundo a “cosmologia” (o sistema de crenças, por assim dizer) da FCCC, Cobra Coral foi um índio americano que reencarnou na pele de algumas personalidades ilustres do mundo ocidental. Entre elas, o cientista italiano Galileu Galilei e o presidente americano Abraham Lincoln.
Os poderes do cacique (além da comunicação em língua portuguesa) incluiriam praticamente toda forma de manipulação climática — desviar nuvens de chuva, dissipar frentes frias, atrair precipitações para áreas de seca, alterar a pressão atmosférica, mudar a temperatura local.
Mas Cobra Coral não atende a qualquer pedido. Ele exige o que a fundação chama de “lição de casa”. É uma espécie de lembrete, ou contrapartida: os vivos também devem fazer sua parte, como obras de infraestrutura e preservação ambiental.
Paulo Coelho já foi vice-presidente
De acordo com a versão oficial, a Fundação Cacique Coral foi fundada ainda nos anos 30 pelo próprio Ângelo Scritori. Morto em 2002, aos 104 anos, ele deixou a liderança para Adelaide, que segue como médium.
Aqui vale destacar uma informação curiosa: o escritor e “bruxo” Paulo Coelho já participou do grupo, inclusive exercendo o cargo de vice-presidente.
O responsável pela expansão, no entanto, foi Osmar Tunikito Santos, marido de Adelaide e porta-voz da FCCC. No início da década de 80, ele começou a oferecer intervenções climáticas para políticos brasileiros e estrangeiros, além de sugerir pautas para a imprensa.
Mas Santos é bem mais do que um relações públicas. Ele foi o responsável por criar o modelo de negócios da Cobra Coral. Ou melhor, da Corporação Tunikito, um conglomerado de empresas que vende desde seguros de vida até, literalmente, capas de chuva.
Explica-se: a FCCC afirma não cobrar pelo “trabalho do espírito”. Por isso, os convênios com governos são apresentados como gratuitos, enquanto a receita é gerada por companhias do grupo Tunikito, que lucram com seguros, serviços meteorológicos (desenvolvidos por cientistas contratados) e outros produtos oferecidos à iniciativa privada.
A assistência climática entra apenas como um “brinde”. Assim, a exposição obtida com ministérios, prefeituras e grandes eventos ajuda a atrair clientes para os negócios da holding.
João Doria desmentiu
Mas as histórias da fundação nem sempre casam com os fatos. Em diferentes situações, governos negaram a existência dos convênios anunciados pela FCCC. Foi o caso do Distrito Federal, durante a crise hídrica de 2017; do Ministério de Minas e Energia, em 2021; e da Prefeitura de São Paulo, que desmentiu um suposto acordo anunciado por Santos após uma reunião com o então prefeito João Doria.
Isso não significa que a Cobra Coral nunca tenha mantido relações com o poder público. Documentos oficiais disponíveis no site da entidade citam parcerias e trocas de ofícios com governos estaduais, ministérios e prefeituras desde os anos 80.
O primeiro convênio documentado foi firmado em 1985, com o governo de Santa Catarina, seguido por um acordo com o Ministério de Minas e Energia, em 1986, para monitoramento de reservatórios de hidrelétricas. A relação mais duradoura, porém, foi com a Prefeitura do Rio de Janeiro, iniciada nos anos 90 e renovada em 2010, além de uma parceria formalizada com São Paulo em 2005. Há ainda registros de contatos institucionais com governos do Paraná e do Rio Grande do Sul.
De qualquer forma, o currículo de façanhas espirituais da Cobra Coral só cresce com o tempo. O roteiro costuma ser o mesmo: a fundação anuncia sua atuação para a imprensa e as autoridades confirmam, negam ou permanecem em silêncio. No fim, a narrativa ajuda a fortalecer a aura de influência alimentada pela entidade.
E, quando a realidade desmente a promessa, a explicação também já vem pronta. Nesses casos, o convênio não estava mais em vigor ou o governo descumpriu a “lição de casa”. A justificativa sempre vem acompanhada de um verniz técnico que mistura meteorologia, linguagem institucional e crenças espirituais.
Governos deram selo de aprovação
A questão central aqui não é discutir se a Fundação Cacique Cobra Coral tem, de fato, o poder para interferir no clima. Também não há, nos documentos analisados pela reportagem, evidências de desvio de dinheiro público.
O problema é que, ao longo de décadas, a FCCC construiu uma espécie de autoridade simbólica porque ministérios, governos estaduais e prefeituras a trataram como uma instituição legítima. Com isso, a entidade ganhou espaço em agendas oficiais, registros em Diário Oficial e, acima de tudo, o selo de aprovação que só o poder público consegue dar.
Ao tratar médiuns como consultores técnicos em crises energéticas ou hídricas, o Estado acaba transmitindo a mensagem de que, quando a engenharia falha, o misticismo pode ocupar um espaço que deveria ser do planejamento. Em um país acostumado a trocar prevenção por improviso, é sempre conveniente ter à mão algum tipo de muleta. Mesmo que ela seja invisível.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/como-cacique-cobra-coral-virou-consultora-governos-prometendo-controlar-clima/

Lula questiona debates eleitorais

O presidente Lula disse, em entrevista, que não vale a pena participar de debate eleitoral para ficar ouvindo “bobagem”. O entrevistador concordou. Um interlocutor compreensivo faz toda a diferença. Lula sabe onde pisa.
A notícia principal não é a que parece. Claro que um candidato à reeleição presidencial indicar que não pretende debater com os concorrentes é uma notícia e tanto. Apesar de o entrevistador ter achado aquilo normal, numa democracia não é normal — mesmo já tendo acontecido algumas vezes. E a forma que Lula encontrou para dizer isso foi a menos convincente possível: a premissa usada foi a de que candidatos sem cargo são, ou podem ser, franco-atiradores.
Nessa linha, o presidente se disse preocupado com “o nível” dos debates, complementando que nem sabe ainda quem serão os candidatos. Ou seja: quem um postulante qualquer pensa que é para criticar livremente uma autoridade — sem ter nada a perder?
Aí está, mais uma vez, a figura soturna da “narrativa antiestatal” — um expediente retórico criado para estigmatizar a crítica ao poder “em nome da democracia”
Lula, portanto, não estaria disponível para debates eleitorais com o intuito de proteger a instituição da Presidência. Esse tipo de discurso jamais colaria alguns anos atrás. Mas parece que as coisas estão mudando velozmente. O entrevistador do podcast, por exemplo, não viu problema nenhum nessa premissa.
Mas a notícia principal, como dito acima, é outra. Qualquer candidato, estando ou não no cargo, só pensa em faltar a debates eleitorais se considera suas chances de vencer claramente superiores às dos demais. Sem a certeza de um favoritismo expressivo, ninguém evita debates. Em outras palavras: com todas as informações e projeções de que dispõe um presidente da República, Lula tem a convicção de que está com a mão na taça.
Pesquisas e levantamentos de intenção de voto são falhos e têm margens de erro muito largas — eventualmente em favor do contratante. A pré-campanha presidencial deste ano foi especialmente pródiga em desencontros de projeções — tanto dos institutos mais conhecidos como das informações vazadas de sondagens internas. Banco Master, INSS, Michelle Bolsonaro, Trump e outros temas capazes de influenciar ou modificar a propensão do eleitor foram “lidos” de maneiras diversas e até opostas entre si.
O quadro das projeções eleitorais está confuso. Ninguém arrisca dizer ao certo quais acontecimentos ou escândalos abalaram quais candidaturas. Mas o Palácio do Planalto não só parece estar tirando o time de campo dos debates, como também decidiu que Lula começaria a falar explicitamente dessa intenção. É coisa de quem está muito seguro do que faz.
O presidente tem estado à vontade até para falar das suspeitas que recaem sobre seu filho no caso do INSS. A rede de blindagem propagandística do lulismo na imprensa e na elite da sociedade é algo impressionante. Com as obras completas do PT no poder, as peripécias da Lava Jato e todo o quadro de deterioração macroeconômica atual, Lula parece ainda conseguir sustentar um frescor de cavaleiro contra o fantasma da ditadura.
De passagem pelo Brasil para a convenção do maior partido de oposição, o presidente argentino Javier Milei resolveu dar uma trombada nesse status quo. Foi uma postura tão diversa do que se vê por aqui que acabou sendo tratada até como um evento exótico por parte da imprensa. O ministro da Fazenda chamou-o de “palhaço”.
Os próximos dois meses precisarão mostrar onde está o circo e onde está a realidade.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/guilherme-fiuza/lula-questiona-debates-eleitorais/

Investigados por esquema de postos de combustíveis do PCC estão no Líbano

Foragidos com mandado de prisão, Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme, o Beto Louco, estariam escondidos no Líbano, protegidos por facção local. Eles foram citados em 1ª mão pela Coluna há mais de ano como controladores da Copape – com redes de postos ligados ao PCC. Mas quem está suando frio com medo de ser preso é um presidente de partido no Brasil, por ligação com a dupla.
PT em chamas
O Pará vê o PT, partido de Lula, em pé de guerra. O senador Beto Faro, que já tem o filho deputado federal, lançou a esposa para a Câmara dos Deputados. Controlador da Executiva estadual, aliados reclamam espaço e atenção para além da família.
Polícia Digital
O Núcleo de Observação e Análise Digital da Polícia Civil de São Paulo monitora mais de 1.980 alvos e, desde sua criação do NOAD em junho, funciona 24h e salvou 406 vítimas de 1.108 ataques online. É força-tarefa que atua na prevenção e investigação de crimes cometidos ou planejados no ambiente virtual. Reúne policiais civis, militares e peritos digitais que monitoram redes sociais, jogos online e fóruns.
Sua casa
O governo federal soltou licitação para construir 4.221 casas populares na Bahia e 664 em Pernambuco, através do Ministério dos Povos Indígenas e das Cidades – com pagamento pela Caixa no total de R$ 500 milhões. O projeto depende da demanda pelas unidades e do aval dos ministérios do cadastro do beneficiário.
Nosso ouro
O mercado do ouro cresceu estupendamente de meses para cá, principalmente com a derrocada da ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela. E os bancos europeus, China e Rússia estão comprando mais o metal. Algo está acontecendo nos garimpos e nas mineradoras.
Braille no vermelho
A Abridef, associação do setor de tecnologia assistiva, afirma que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação ainda não quitou os serviços de impressão dos livros didáticos em braille de 2026. As ordens de execução foram assinadas e carimbadas, e a praxe de mercado é o pagamento em 30 dias. Já passam de dois meses. A associação cobra a publicação imediata do edital de 2027 para o país não repetir o ciclo.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/coluna-esplanada/investigados-esquema-postos-ombustiveis-pcc-partidos/

As investigações contra Lulinha e a sina do filho 01

Neste momento, o presidente Lula deve estar absorto no dilema proposto em prosa e verso por Vinicius de Moraes. “Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos. Como sabê-los?”, escreveu o poeta. Nesta terça-feira (4), o ministro Flávio do Dino, do STF, autorizou a abertura de mais um inquérito para apurar a suspeita de tráfico de influência do empresário Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do atual presidente. Outros dois inquéritos foram abertos ainda na última semana, daí por decisão de André Mendonça.
Em entrevista ao meu programa na Rádio Bandeirantes, o advogado de Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho ressaltou suas críticas às investigações em curso, em particular as que se originaram por decisão de Dino. Fica difícil sustentar o discurso de perseguição política quando a autorização para investigação vem de um ministro do STF indicado pelo pai do próprio investigado.
Em entrevista a um podcast, Lula tentou parecer severo e enfático, ressaltando que comprovado o envolvimento de seu filho, este será punido como qualquer cidadão comum
Lulinha é um personagem frequentemente citado na apuração de casos de corrupção no Brasil e uma fonte permanente de problemas para o pai, ainda que nunca tenha sido de fato responsabilizado. Mas uma coisa é o processo investigativo, que pressupõe o direito de defesa e a presunção de inocência, e outra coisa, muito mais complexa, é o efeito disso na arena política, em que versão e narrativa pensam muito mais do que a prova ou não de culpa.
Em entrevista a um podcast, Lula tentou parecer severo e enfático, ressaltando que comprovado o envolvimento de seu filho, este será punido como qualquer cidadão comum. “Se meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como o filho de qualquer pessoa. Como eu. Não haverá nenhum privilégio”. Mas o que Lula, afinal, poderia falar de diferente? Que, sendo culpado, o filho teria tratamento especial?
A descoberta dos descontos ilegais no INSS causou grande prejuízo ao governo no ano passado, quando Alessandro Stefanutto, então presidente do órgão, foi afastado das funções pelo suposto envolvimento no escândalo. Depois dele, quem caiu foi o próprio ministro da Previdência Carlos Lupi, responsável pela sua indicação para a função.
Os inquéritos contra Lulinha, que são originados desde o mesmo fato gerador, reacendem o caso junto ao público na véspera do início da campanha eleitoral propriamente dita. Lula vinha nadando de braçada, vendo, de longe, Flávio Bolsonaro afundar nos próprios percalços. Ocorre que ele também tem um filho 01 para chamar de seu. Vai ver, é sina, aqui também manifesta na família Lula da Silva.
“Filhos? Filhos / Melhor não tê-los / Noites de insônia / Cãs prematuras / Prantos convulsos”
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/guilherme-macalossi/as-investigacoes-contra-lulinha-e-a-sina-do-filho-01/
Um plano para resolver a crise institucional e a hipertrofia do Judiciário
Que há um desequilíbrio enorme entre os poderes da República, com uma hipertrofia do Poder Judiciário, é algo que muitos de nós já percebemos – e que o próprio Judiciário faz questão de nos recordar dia sim, dia também. Essa hipertrofia está na raiz de nossa crise institucional, e a grande pergunta é: como resolvê-la? O presidente da Gazeta do Povo, Guilherme Cunha Pereira, mostra que não podemos parar nas soluções mais imediatas, como a CPI do Abuso de Autoridade e o impeachment de alguns ministros do STF: é preciso repensar o Supremo, identificar bons juristas para ocupar as cadeiras que ficarão vagas nos próximos anos, e trabalhar em um marco legal da liberdade de expressão, que consolide os princípios e direitos que a Constituição já protege.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/editoriais/plano-resolver-crise-institucional-abusos-judiciario/
INSS: Deputado suspeitou de negócios de alvo da PF

Alvo da Polícia Federal, nesta terça-feira (4), na investigação sobre roubo a idosos do INSS, Willer Tomaz é conhecido em obscuros bastidores de Brasília. Em 2023, Gustavo Gayer (PL-GO) suspeitou do elo entre o advogado e Juscelino Filho e pediu a convocação do então ministro das Comunicações de Lula. A suspeita pairou sobre a distribuição de 31 retransmissoras de televisão a Tomaz. Empresas de radiodifusão são citadas na decisão do STF que autorizou a batida da PF contra Willer.
Para toda obra
No requerimento, o deputado já destacava que Willer é “compadre do senador”, além de “aliado de primeira hora” de Juscelino.
Hub financeiro
Willer, diz a PF, é personagem de sustentação, associado a empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros etc.
Montanha de dinheiro
No relatório, a movimentação financeira entre o empresário e familiares do senador, com repasse e compra de casa, supera os R$15 milhões.
Década de ficha
Em 2017, Willer, ligado à J&F, foi preso na Lava Jato. Na operação de ontem, Willer diz que não é investigado e só emprestou jato a Weverton.
Meia/Ideia: Reprovação ao governo Lula chega a 49%

A reprovação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a 49%, enquanto a aprovação alcançou 48,5%, segundo pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira (5). Outros 2,5% dos entrevistados não souberam ou preferiram não responder. É a primeira vez em oito meses que os dois índices aparecem tecnicamente empatados, dentro da margem de erro de 2,5 pontos percentuais.
Na comparação com o levantamento anterior, realizado em julho, a aprovação oscilou de 46,5% para 48,5%, enquanto a reprovação passou de 48,5% para 49%. As variações ocorreram dentro da margem de erro, mas indicam um cenário de maior equilíbrio na avaliação do presidente.
A pesquisa Meio/Ideia ouviu 1.500 eleitores em todo o país entre os dias 31 de julho e 3 de agosto. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi realizada com recursos próprios do instituto e está registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o protocolo BR-04579/2026.
Quaest: Flávio cresce e reduz vantagem de Lula em eventual segundo turno

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém a liderança em um eventual segundo turno das eleições presidenciais de 2026, mas viu sua vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) diminuir, segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (5).
De acordo com o levantamento, Lula registra 44% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 39%. Brancos, nulos e eleitores que afirmam não votar somam 13%, e outros 4% disseram estar indecisos.
Na comparação com a pesquisa anterior, Flávio Bolsonaro avançou dois pontos percentuais, passando de 37% para 39%.
Já Lula oscilou um ponto para baixo, de 45% para 44%, reduzindo a diferença entre os dois pré-candidatos de oito para cinco pontos percentuais.
Veja abaixo:

O levantamento foi realizado pela Genial/Quaest entre os dias 31 de julho e 3 de agosto, com 2.004 eleitores entrevistados presencialmente em todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.
A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-06591/2026.
Mensagens expõem estratégia de Lulinha para esconder dinheiro no exterior

A Polícia Federal (PF) tem em seu poder, há meses, mensagens atribuídas a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula (PT), que passaram a integrar o conjunto de elementos analisados em investigações sobre supostas irregularidades financeiras.
Segundo informações obtidas pelos investigadores, os diálogos mostram conversas entre Lulinha e a empresária e lobista Roberta Luchsinger sobre estratégias para manter “patrimônio escondido” no exterior, longe de exposição às autoridades brasileiras.
De acordo com a apuração, as mensagens discutem alternativas para reduzir a incidência da fiscalização da Receita Federal e estruturar recursos fora do alcance dos órgãos de controle, em uma espécie de roteiro para blindagem patrimonial internacional.
Em uma das conversas, Luxemburgo é citado por Roberta Luchsinger como uma possível jurisdição para a alocação de recursos.
O país europeu é conhecido por seu ambiente favorável a estruturas internacionais de gestão de patrimônio e, ao longo dos anos, figurou em listas e debates sobre jurisdições de tributação favorecida, sendo frequentemente mencionado em operações de planejamento tributário e proteção de ativos no exterior.
A informação foi compartilhada pelo cientista político Felipe d’Avila, que foi candidato à Presidência da República nas eleições de 2022 e por Danuzio Neto.

Conversas de Roberta obtidas pela PF também mostram o planejamento de ações para “abrir portas” no governo federal aos negócios do empresário Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, investigado por suspeita de liderar o maior esquema de desvios de aposentadorias e pensões.
Os diálogos foram usados para embasar as novas investigações sobre a atuação do filho de Lula. Roberta é amiga de Lulinha.
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