Decisão de Gilmar

Apontado como criador do sistema que fraudou o INSS, com a cumplicidade de seus dirigentes, para roubar mais de 9 milhões de aposentados, Igor Dias Delecrode, 28 anos, sócio de empresas de tecnologia da informação envolvidas no esquema, não colaborou em nada: ele também foi blindado por habeas corpus preventivo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) desta vez Gilmar Mendes, e foi autorizado a não responder a qualquer pergunta.
O esquema que terá concebido e do qual se beneficiou é suspeito de haver retirado das aposentadorias quase R$1,5 bilhão, utilizando-se de brechas que teria criado ou identificado no sistema, desenvolverndoum programa para fraudar biometria e assinaturas digitais no INSS. Em menos de um ano, o depoente recebeu R$15 milhões acusado de. A ferramenta teria dado aparência de legalidade aos descontos feitos por meio de falsificações.
No entanto, Gilmar Mendes dispensou Igor Delacrode até mesmo de assumir compromisso de dizer a verdade, o que na prática o autorizava a mentir. Ele disse apenas que mora em São Paulo e é formado em auditoria financeira e, vagamente, que pratica atividades de tecnologia e informação como “hobby”.
Horas depois, percebendo estar diante do mentor do esquema, a CPMI decidiu apreender o celular de Delacrode. Mas seu advogado Levy Magno orientou seu cliente a não fornecer a senha de acesso ao aparelho e registrou seu “inconformismo” com a decisão. Pediu a devolução do aparelho, o que foi negado pelo presidente da comissão.
“Meteu a mão com força”
Delacrode se recusou a responder a todos os questionamentos. Somente o relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), tinha 90 perguntas a fazer, destacando que Delecrode “meteu a mão com força” em mais de R$1,460 bilhão nas fraudes com a cumplicidade ao menos de nove entidades.
— Ele virou multimilionário, transacionou mais de R$15 milhões em menos de um ano com invenção de ferramentas para tirar dinheiro de aposentados e pensionistas. Impunidade, riqueza e tapa na cara do brasileiro. Tem hora que revolta. O que a gente está fazendo aqui? É dinheiro roubado do povo brasileiro e não acontece absolutamente nada. Esse silêncio é a vitória da impunidade. No Brasil, compensa praticar crimes — afirmou Alfredo Gaspar.
O relator destacou que Delecrode montou uma organização criminosa que atuou em pelo menos três núcleos criminosos. O trabalho contou com um sofisticado sistema de coleta de dados e verificação de autenticidade, que burlou o sistema de biometria facial a partir da cópia da identidade, em esquema descoberto pela Controladoria-Geral da União (CGU).
— Ele conseguiu uma mágica maior, é o coração tecnológico da safadeza. Juntando tudo que ele participou, obteve mais de R$ 1,4 bilhão. Se o Brasil fosse sério, esse elemento estaria preso. Criou um conglomerado tecnológico, cada associação tinha um sistema de verificação de identidade independente —acusou o deputado.
O relator apontou que, além do STF, alguns membros da própria CPMI estariam blindando a convocação de depoentes, o que impediria o aprofundamento das investigações.
— O silêncio do depoente é um tapa na cara do povo brasileiro. Ele conseguiu justiça que o brasileiro comum não consegue. O STF está transformando a justiça brasileira em dois degraus, o dos pobres e o dos endinheirados. Deveria estar preso quem autorizou solução provisória no INSS, quem compactuou com essas entidades, todos esses presidentes de associação. E tem gente sendo blindada aqui [na comissão mista] não é só no STF, não, e isso é vergonhoso.
CPMI protesta contra Gilmar
Para o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), a concessão de habeas corpus pelo STF ao depoente indica que o trabalho dos parlamentares “não vale absolutamente nada”.
— Isso é para nos fazer pensar o tanto que nós precisamos retomar atribuição do Congresso Nacional que, infelizmente, tem sido entregue a outro Poder, por covardia ou conivência, seja o que for. Este Senado precisa ter coragem para se levantar, dar resposta dentro da Constituição, novos limites de pesos e contrapesos nessa convivência entre os Poderes. Isso não pode continuar, precisamos retomar coragem, toda concentração excessiva de poder não faz bem à democracia — defendeu.
O senador Rogério Marinho (PL-RN) apontou a existência de uma “jurisprudência de exceções, uma disfuncionalidade de funcionamento dos Poderes”.
O senador Izalci Lucas (PL-DF), por sua vez, defendeu que a CPMI se reúna com o ministro André Mendonça e peça ao STF a prisão preventiva dos envolvidos no esquema ilegal contra os aposentados.
No início da reunião, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) anunciou que o prazo para pensionistas lesados pedirem ressarcimento foi prorrogado de 14 de novembro de 2025 até 14 de fevereiro de 2026. Até o presente momento, mais de 3 milhões de aposentados receberam devolução, que totaliza mais de R$ 2 bilhões.
“Nós te pegamos”, avisa Damares
Para a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), os órgãos públicos precisam passar por uma reforma administrativa para ter mais competência na fiscalização. Damares disse ter a impressão de que o depoente “é às vezes muito inteligente e às vezes muito burro”, mas que de qualquer forma ele estaria em “uma grande enrascada”.
— Não pense que você é esperto. Nós te pegamos. Sua situação é gravíssima — afirmou a senadora a Igor Delecrode.
Segundo a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), a CPMI tem trabalhado com “muita garra”. Ela disse ainda que “a pizzaria não será no Congresso Nacional”. Na visão de Soraya, o funcionamento das entidades associativas aponta para uma organização criminosa para fraudar o INSS.
— Eu calculo para o depoente em torno de 53 anos de prisão na pena máxima — registrou a senadora.
Silêncio da culpa, diz Viana
Carlos Viana afirmou que gostaria de poder colocar o depoente na cadeia, mas lembrou que precisava seguir a lei. Ele lamentou o fato de o Brasil ouvir mais uma vez “o silêncio da culpa”. Segundo o senador, os brasileiros viram na CPMI o espelho de um país ferido pela corrupção. Viana também disse que os órgãos públicos fizeram um silêncio cúmplice diante do esquema de fraude do INSS.
— Transformaram o benefício dos aposentados em objetos de luxo e ostentação. Enquanto o governo sorri diante das câmeras, os aposentados choram diante das contas. A verdade vai vencer o silêncio — registrou o presidente, que ainda reclamou dos habeas corpus concedidos pelos ministros do STF que garantem direito ao silêncio aos depoentes.
Celular
A comissão aprovou, por votação simbólica, a apreensão dos celulares de Igor Dias Delecrode, bem como o acesso a aplicativos de mensagens. O requerimento foi apresentado pelo relator, deputado Alfredo Gaspar. O depoente não resistiu e entregou o aparelho ao presidente Carlos Viana, que logo passou o celular à Polícia Legislativa.
No entanto, o advogado Levy Magno orientou seu cliente a não fornecer a senha de acesso ao aparelho e registrou seu “inconformismo” com a decisão. Segundo Magno, deveria haver uma decisão judicial para a apreensão. Ele ainda pediu a devolução do aparelho, o que foi negado pelo presidente da CPMI.
— É um iPhone 17, que foi comprado esta semana. Os outros já foram levados pela Polícia Civil e pela Federal — informou o depoente a Carlos Viana.
Gilmar desdenha do Congresso, ao blindar mais um suspeito, e revolta CPMI do INSS

O presidente da CPMI do INSS, senador Carlos Viana (Pode-MG), protestou ontem (10) contra o ministro do STF Gilmar Mendes, acusado de desdenhar do Congresso no habeas corpus usado para blindar Igor Delecrode, suspeitíssimo no roubo bilionário a aposentados. O relator Alfredo Gaspar (União-AL) disse que, aos 28 anos, Igor ficou milionário com dinheiro roubado. “Isso não pode ficar assim”, protestou Viana. Ele diz que, para Gilmar e STF, o Congresso “não vale absolutamente nada”.
R$1,4 bi roubados
Convocado para depor como testemunha, Igor Dias Delecrode é acusado de participar do esquema que roubou R$1,4 bilhão de aposentados.
Mudança ‘artificial’
Gilmar disse que a condição de investigado “não pode ser artificialmente modificada” para testemunha, que o obrigaria a respondera às perguntas.
Impondo limites
O senador Rogério Marinho (PL-RN) cobrou da Câmara que vote projeto do Senado impondo limites ao poder cada vez mais exacerbado do STF.
Desmoralização
“A investigação da CPMI é autônoma e não se confunde com a da Polícia Federal”, diz Marinho, que vê o STF tentando desmoralizar o Congresso.
Toffoli anula provas da Odebrecht contra ex-1ª dama do Peru

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli anulou todas as provas do caso Odebrecht contra Nadine Heredia, mulher do ex-presidente do Peru Ollanta Humala, preso após o casal ser condenado à prisão por lavagem de dinheiro em seu país. A ex-primeira-dama peruana, que é amiga de Lula (PT), conseguiu fugir e se esconder na Embaixada brasileira em Lima, de onde foi transportada ao Brasil por ordem do presidente brasileiro.
As provas anuladas incluem tabelas apreendidas no apelidado “Departamento de Propina” da empreiteira brasileira, que detalhavam pagamento a centenas de autoridades principalmente no Brasil, mas também no exterior. Os sistemas “Drousys” e “My Web Day B” foram a base para as condenações de Heredia e Humala no Peru, mas no Brasil são consideradas “imprestáveis”, segundo a decisão de Toffoli, como manda o “ordenamento jurídico”.
Condenação no Peru
Nadine Heredia e Ollanta Humala foram condenados em abril de 2025, no Peru, a 15 anos de prisão por lavagem de dinheiro, após investigações constatarem que o casal recebeu contribuições ilegais da Odebrecht durante as campanhas eleitorais de 2006 e 2011. A empreiteira, que mudou de nome para Novonor, também já foi beneficiada por decisões semelhantes no STF.
Em 2023, o ministro Dias Toffoli havia anulado as provas contra Humala, decisão que à época também beneficiou o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Todos os atos da Lava Jato contra Vaccari foram anulados. Em fuga no Brasil, Heredia pediu que o STF estendesse a ela a decisão que beneficiou o marido e o ex-tesoureiro petista.
A decisão de Toffoli determina também que as provas obtidas pela Lava Jato não podem ser usadas, em território brasileiro, em “quaisquer atos instrutórios ou de cooperação”. A operação Lava Jato desvendou o pagamento de propina da Odebrecht (atual Novonor) a chefes e/ou funcionários do governo de pelo menos 12 países: Angola, Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Guatemala, México, Moçambique, Panamá, Peru, República Dominicana e Venezuela.
FONTE: DP https://diariodopoder.com.br/brasil-e-regioes/cib-brasil/toffoli-provas-peru
Defesa de Tagliaferro pede suspeição de Moraes a Fachin

O advogado Paulo Faria, que defende o perito Eduardo Tagliaferro, protocolou neste domingo (9) uma arguição de suspeição contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Moraes é relator da ação que acusa Tagliaferro de obstrução de investigação relacionada a organização criminosa, violação de sigilo funcional, coação no curso do processo e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
A Primeira Turma já tem maioria para tornar o ex-assessor de Moraes réu, com votos de Flávio Dino e Cristiano Zanin, além do próprio Moraes. Na prática, a suspeição declara formalmente que o juiz poderia ser parcial no julgamento e que, portanto, não pode participar do julgamento. A relatoria da arguição de suspeição, via de regra, é do presidente do Supremo, que atualmente é o ministro Edson Fachin.
Defesa diz que Moraes é “denunciado, vítima e juiz” ao mesmo tempo
No pedido, Faria já inicia qualificando seu cliente como “perseguido político e torturado pelo Estado brasileiro”. O advogado diz que Moraes tem interesse na causa, além de praticar perseguição pessoal contra Tagliaferro.
Paulo Faria ainda cita a negativa de Moraes a um julgamento presencial. Após o relator incluir o julgamento na pauta do plenário virtual, a defesa insurgiu contra a atitude. Os defensores reclamaram de ter de apresentar sustentação oral por vídeo, já que, segundo eles, não haveria garantia de visualização pelos ministros.
Assim como em um recurso apresentado anteriormente, o advogado usa palavras fortes contra Moraes, classificando-o como “o suspeitíssimo relator, que parece ‘ter medo’ de enfrentar os argumentos da defesa, e se esconde atrás de uma tela de computador.”
O Código de Processo Penal considera como suspeito o juiz que seja “amigo íntimo ou inimigo capital” de qualquer uma das partes. Com esse embasamento, a defesa argumenta que Moraes “não detém ojeriza apenas dos advogados, mas, principalmente, o excipiente [Tagliaferro].”
A defesa ainda aponta para as respostas de Moraes aos pedidos formulados, que ocorreram “na velocidade da luz”. Há a suspeita, por parte da equipe do ex-assessor, de que Moraes não analise as petições antes de decidir.
“O fato de ser denunciado, vítima e juiz, simultaneamente, já é mais que suficiente para se ter o mínimo de vergonha e se declarar suspeito, transferindo o acerco a outro ministro”, defende Paulo Faria.
Moraes não revisou voto após último recurso da defesa
O julgamento de admissibilidade iniciou na última sexta-feira (7). Na segunda-feira (3), Paulo Faria apresentou um recurso pedindo novamente a oportunidade de realizar sustentação oral presencialmente, e não por vídeo. Os metadados do voto de Moraes, porém, demonstram que o ministro finalizou o documento em 30 de outubro, e não o alterou após o agravo regimental.
Eduardo Tagliaferro era assessor especial de combate à desinformação no Tribunal Superior Eleitoral. Ele ganhou notoriedade após divulgar mensagens trocadas em um grupo de WhatsApp entre servidores do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal. As mensagens sugerem que Moraes estaria perseguindo pessoas de direita, por meio de investigações determinadas de ofício, com base em postagens de redes sociais.
Por meio de nota, o gabinete de Moraes diz que todos os procedimentos realizados foram regulares, com base na legislação vigente e que todos os procedimentos realizados constaram nos autos das respectivas ações.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/republica/defesa-de-tagliaferro-pede-suspeicao-de-moraes-a-fachin

Onyx Lorenzoni desmontou a narrativa dos petistas na CPMI do INSS

Um levantamento feito na CPMI que investiga esse crime hediondo que tirou dinheiro dos idosos da Previdência mostra que os mais prejudicados foram os pensionistas e aposentados do Nordeste. Quase 37% dos que tiveram descontos indevidos são de lá, e tiraram um dinheirão deles.
Eu estava revendo um depoimento raríssimo, de alguém que foi à CPMI para responder a tudo que perguntaram, sem habeas corpus, e que ainda veio de Portugal para prestar depoimento: o ex-ministro da Previdência Onyx Lorenzoni. Ele usou dados do Banco Central para derrubar completamente a narrativa de que no governo Bolsonaro facilitaram a fraude. Ele mostrou que os descontos no último ano do governo Temer eram de R$ 794 milhões (atualizados pela inflação); no último ano do governo Bolsonaro, os descontos eram de R$ 706 milhões. Em janeiro de 2019, 2,778 milhões de aposentados e pensionistas tinham descontos. Quando terminou o governo Bolsonaro, eram 2,706 milhões, quer dizer, 72 mil pessoas a menos. E por que conseguiram diminuir? Porque fizeram a biometria, exatamente para evitar a desonestidade.
E, daqueles 2,706 milhões de pessoas no fim de 2022, agora são 7,491 milhões que tiveram descontos, ou seja, o número explodiu no governo Lula. Lorenzoni demonstrou isso, e demonstrou também que, em 34 anos, nunca tinha havido medidas para fiscalizar isso. A biometria e o rigor administrativo fecharam a porta do consignado. E o ex-ministro ainda disse que, mesmo com o TCU e a Controladoria Geral da União reclamando, o governo Lula só se mexeu depois que a polícia entrou na história.
COP-30 está cheia de exibicionismo e uma ironia muito triste
O Estadão mostrou que o ditador do Congo, um militar que governa desde 1997, mandou botar um tapete vermelho no corredor do hotel Vila Galé Collection, em Belém. Aliás, o hotel só ficou pronto porque o presidente de Portugal ligou para o dono da rede Vila Galé e cobriu a conclusão, porque do contrário a delegação portuguesa não teria onde ficar.
A COP-30 está cheia dessas coisas divertidas, essa história de as pessoas que vieram da Europa precisarem mostrar floresta tropical atrás delas. Achei muita graça naquela foto dos líderes, parece que as pessoas estão protegidas por um muro coberto de trepadeiras, sei lá se são de verdade ou de plástico. A floresta mesmo está atrás, ninguém consegue ver. Aí os líderes vão para aquelas reservas, para um bosque, a Ursula von der Leyen, que é a chefe da União Europeia, pegou um quati, mas é um daqueles animais em cativeiro, que estão ali para as pessoas tirarem fotos. Os turistas vão lá para olhar os bichos, mas ninguém arrisca ir à floresta.
Todos foram para bons restaurantes, mas o secretário-geral da ONU, António Guterres, e o francês Emmanuel Macron não quiseram saber de peixe, disseram que não comeriam peixe de água doce. Um dos restaurantes tinha uma sobremesa bastante eloquente: um bolo de chocolate com calda de chocolate belga cobrindo tudo. No Pará, há brasileiros plantando cacau e sendo expulsos por forças federais, pelo Ibama, pelo pessoal do meio ambiente. Brasileiros pobres plantam cacau lá, mas o bolo leva chocolate belga, que coisa triste.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/onyx-lorenzoni-narrativa-petistas-cpmi-inss/#success=true

Carta ao povo de Rio Bonito do Iguaçu

Irmãos rio-bonitenses,
Eu vi — todos vimos — as imagens da sua terra: uma cena de bombardeio, uma cidade rasgada de alto a baixo, telhados arrancados, paredes fraturadas, ruas desfiguradas. No entanto, diante da visão dantesca, por algum motivo, busquei na calamidade os traços da salvação.
Foram apenas quarenta segundos, menos de um minuto sem misericórdia. A terra permaneceu, mas tudo que estava em cima foi levado. E ainda assim, vocês estão aí: com o coração ferido, mas de pé. Em pé. Levantados do chão.
Foi por isso que resolvi escrever. Diante da força de um povo que se reergue, o mínimo que se pode fazer é ficar em silêncio e, depois, escrever com o coração nas mãos.
Voltei no tempo. Lembrei-me de quando estive aí perto, na região do Cantuquiriguaçu, vinte e dois anos atrás. Fui enviado como repórter para cobrir uma pauta sobre o futuro da região — e nunca mais esqueci o lugar. Havia pobreza, sim. Mas havia acolhimento. Aquelas conversas amenas, o sotaque do interior, o cheiro de café, o velho fogão, a passarada, as histórias dos pioneiros e, sempre ao fundo, o som do rio, sabedor de tudo antes da gente.
Rio Bonito do Iguaçu. Que nome! Um nome que parece ter sido escrito para permanecer. Um nome com promessa dentro: rio, bonito, Iguaçu — palavras de água, beleza e origem. Agora o nome está ferido, mas não foi arrancado. Continua aí, como vocês: de pé. Em pé. Ressurgido dos escombros.
Na hora do tornado, a igreja estava cheia. Era noite de missa. Os fiéis rezavam, alguns em silêncio, outros cantando. O vento veio sem aviso, empurrou as paredes do templo, arrancou parte do teto — mas ninguém ali dentro se feriu. Uma graça dentro do terror. A igreja ficou ferida, mas o povo saiu vivo.
Seis pessoas morreram naquela noite. Entre elas, uma menina de 14 anos, que se preparava para receber o sacramento da Crisma. Mas talvez o que se salvou naquela igreja — mesmo com o teto rasgado — tenha sido mais do que os corpos. Salvou-se a fé, que é sempre mais forte quando trememos. A cidade ficou como a igreja: ferida, mas viva.
Enquanto escrevo estas linhas, estou numa casa firme, com paredes ao redor, teto no lugar e luz acesa. Tenho água limpa, comida no armário e silêncio no quarto ao lado. E penso em vocês — irmãos rio-bonitenses — que nesta mesma hora estão em ginásios, em casas emprestadas, em quartos improvisados, tentando entender o que restou. Só o amor ao próximo, como escreveu Santo Agostinho, pode nos tirar desse abismo entre o conforto e a calamidade. É nele que a cidade pode renascer.
E vai renascer. Não porque as autoridades prometeram, mas porque vocês já estão de pé. O nome de vocês não foi levado. O Brasil inteiro — do Paraná à fronteira invisível do Norte — está abraçando Rio Bonito do Iguaçu. Um abraço feito de ajuda, de oração, de respeito.
Rio Bonito do Iguaçu. Digo devagar, no ritmo de uma prece. Digo como quem recolhe os cacos e nomeia um por um. Digo para lembrar que nenhum vento, por mais forte que seja, consegue apagar um nome que nasceu da terra, do rio e do povo. Digo para que todos ouçam — e se lembrem.
Rio Bonito do Iguaçu. Cidade com nome de nascente, com gente que não se entrega, com fé que não cede, com as paredes feridas e a alma intacta. Que os dias vindouros tragam casa, pão e consolação. Que a saudade dos que partiram seja guardada com flores e memórias. Que o amor ao próximo — esse milagre que se faz com as mãos — seja o novo alicerce de tudo.
Eu me despeço dizendo o nome de vocês, com um novo sobrenome:
Rio Bonito do Iguaçu, Rio Bonito do Brasil.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/paulo-briguet/carta-povo-rio-bonito-iguacu

COP 30, Celac e o mundo do faz de conta

Lula interrompeu sua presença numa cúpula esvaziada para marcar presença em outra cúpula esvaziada. De Belém para a Colômbia, da COP 30 para a Celac, o presidente brasileiro vai trilhando sua agenda fantasiosa. Sua madrinha nesse périplo é a imprensa, que faz a gentileza de não lhe dirigir as perguntas inevitáveis.
Qual foi a última vez que você viu Lula cercado de microfones sob pressão de questionamentos incisivos ao vivo? Se você achar que foi no mensalão, é possível que a sua memória não esteja te traindo. O escândalo do mensalão estourou há 20 anos. E o escândalo do venezuelão está acontecendo agora.
Mas a imprensa não trata mais escândalo como algo escandaloso (dependendo dos envolvidos, claro). Segundo a OEA e o Carter Center, Maduro fraudou sua reeleição e se impôs como presidente ilegítimo e ditatorial por meio da violência. Lula, Amorim e seus porta-vozes tratam Maduro como um parceiro leal. E a imprensa não está nem aí para esse compromisso hediondo.
O papel melancólico da imprensa – não só a brasileira – é o sinal evidente da decadência da elite intelectual
O presidente brasileiro deixou a cenografia da COP 30 para uma aparição na cenografia da Celac – ao lado de Gustavo Petro, uma espécie de Alberto Roberto colombiano. Com os dois países impregnados por facções do crime organizado, eles fizeram um dueto pacifista para inglês ver. Nem inglês viu, pelo menos ao vivo, porque até a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, cancelou sua participação – sendo que uma das razões essenciais da cúpula era o diálogo entre América Latina/Caribe e Europa.
Alberto Roberto é o imortal ator canastrão interpretado por Chico Anysio. Até ele ficaria encabulado de meter esse papo de “continente pacífico” para fazer a defesa dissimulada do regime brutal de Maduro. Quando anunciou sua decisão de ir à Colômbia, Lula disse que era preciso reprovar a presença militar norte-americana no Caribe, exaltando a soberania venezuelana. Uma vez lá, acabou preferindo não mencionar especificamente o conflito. Ainda assim, a imprensa tradicional continuou se recusando a confrontar esse “pacifismo” em defesa de um ditador violento.
O papel melancólico da imprensa – não só a brasileira – é o sinal evidente da decadência da elite intelectual. Ela decidiu que não quer permitir a ascensão dos movimentos legítimos de representação popular, potencializados pela inclusão da internet. E apostou tudo nessa resistência coreográfica ao fascismo imaginário, transformando figuras como Lula em pilares da democracia.
Haja rebolado retórico. Durma-se com um barulho desses na rave amazônica.
FONTE: GAZETA DO POVO https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/guilherme-fiuza/cop-30-celac-mundo-conta
Be the first to comment on "Acusado de criar o sistema que roubou INSS fica calado"