Numa aula de matemática sobre números binários, muito usados na linguagem de computadores, os alunos acabam debatendo gênero – entendido como se fosse uma mera construção social e não uma questão biológica. Embora possa parecer estranho, é isso o que muitos educadores e professores de matemática têm defendido. Chamada de “matemática queer”, essa abordagem vê as salas de aula como um espaço de luta política e desconstrução da binaridade de gênero. E não se trata de uma moda estrangeira: no Brasil há vários pesquisadores e até grupo de estudo na área, registrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o MatematiQueer.
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O grupo MatematiQueer – Estudos de Gênero e Sexualidade em Educação Matemática faz parte do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Matemática (PEMAT) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Oficialmente, o PEMAT oferece dois cursos de pós-graduação, o mestrado em Ensino de Matemática e o doutorado em Ensino e História da Matemática e da Física. Assim, alunos e professores desses cursos podem, se desejarem, participar também dos grupos de estudo do PEMAT, entre eles, o MatematiQueer.
Outro grupo de estudos do mesmo programa é o de Afrociência, que, entre outros temas, pesquisa assuntos ligados à Afromatemática, que, como mostrou a Gazeta do Povo, insere no ensino da matemática o debate sobre questões raciais.
“Essas propostas [como a da “matemática queer”] não estão ligadas ao ensino em si de matemática, mas a questões políticas e sociais. Querem mudar o status de ciência exata da matemática”, explica o antropólogo e doutor em Educação Augusto Sá. Segundo ele, a ênfase da academia nas questões ideológicas tem reflexos diretos na qualidade do ensino. Isso acontece porque é na academia que são formados os futuros professores e educadores de ciências. Ainda de acordo com Sá, o risco é que se tenha aulas de matemática cada vez mais ideologizadas e menos focadas na ciência matemática.
Já para o doutor em Filosofia Jairo da Silva, o problema é a inserção da ideia do “pensamento crítico” nas ciências exatas. De acordo com artigo publicado por ele na Gazeta do Povo, desde os anos 60, muitos intelectuais passaram a valorizar a ideia de que a realidade é uma construção social. Dentro dessa perspectiva, até mesmo a ciência deixa de ser vista como um corpo articulado de conhecimento objetivo sobre a realidade. Desse modo, ela passa a ser considerada apenas como uma forma de discurso culturalmente construído, que serve como um instrumento de poder político e dominação. Isso levou muitos educadores e teóricos, segundo o professor, a se colocarem “contra a ciência tradicional (vista como escolástica, patriarcal, opressora, mantenedora da ordem social injusta), promovendo um conhecimento alternativo e supostamente libertador produzido pelos grupos oprimidos”, explica.
Estranhamento na matemática
O termo “queer” se refere originalmente na língua inglesa a coisas ou pessoas que de alguma maneira causavam estranhamento devido a seu caráter peculiar ou excêntrico. Mais tarde, passou a ser usado para designar pessoas homossexuais de forma pejorativa. Na sequência, com a politização mais intensa das questões de gênero a partir dos anos 1980, o termo começou a ser adotado por militantes, marcando um posicionamento de questionamento das normas e padrões em relação ao gênero.
Esse caráter de questionamento também está presente no grupo MatematiQueer. Na página oficial do grupo no CNPQ, os pesquisadores deixam bem clara qual é a proposta. Por meio da chamada linguagem neutra, eles explicam o que pretendem. “Nosso objetivo é promover reflexões sobre gêneros, sexualidades e educação matemática, e sobre como professories dessa área podem contribuir com essas discussões sem se limitarem às visões hegemônicas”. Ainda conforme o grupo, haveria uma inquietação com os “discursos hegemônicos que colocam a matemática num local de neutralidades, no qual as questões sociais não devem se fazer presentes”. Eles ainda questionam o fato de as discussões de gênero, quando abordadas na escola, sejam “restritas a disciplinas de humanas ou biologia”.
Financiamento público
Um dos projetos de pesquisa do grupo MatematiQueer está listado na Plataforma Sucupira, que reúne dados de pesquisas em andamento no Brasil. O projeto Educação em Ciências e Matemática para Diversidade Sexual e de Gênero e Justiça Social engloba 14 participantes, sendo oito deles estudantes do mestrado ou doutorado da UFRJ. De acordo com dados da plataforma, o projeto é beneficiário de bolsa de pesquisas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Isso significa que estudantes que fazem parte da pesquisa podem receber bolsas de auxílio durante a duração do projeto. Não há informações de quantos estudantes são de fato beneficiados com a bolsa.
A proposta da pesquisa é reunir trabalhos da área de ensino de matemática voltados para a “formação para a diversidade, em particular sexual e de gênero”. A meta seria uma “educação socialmente inclusiva, histórica e culturalmente situada”, compreendida como um “espaço para a luta por justiça social”. Em entrevista disponibilizada na própria página do MatematiQueer, o professor Agnaldo Esquincalha, líder do grupo, defende uma “desconstrução da matemática”. “A gente quer estranhar o campo da matemática, o campo da educação matemática, em relação às questões de gênero e sexualidade, mas também em relação a quaisquer outra questão”, disse ele.
Formação para professores
Para ampliar ainda mais o alcance das discussões do MatematiQueer, o grupo lançou um curso de extensão, “Estudos de Gênero: o que matemática tem a ver com isso?”, cujas aulas estão previstas para começar em março deste ano. A formação é gratuita, com duração de 60 horas e oferecido em parceria com outras cinco instituições federais de ensino (Instituto Federal do Espírito Santo, Instituto federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Maranhão e Universidade Federal do Pampa). A certificação é da Sociedade Brasileira de Educação e Matemática (SBEM).
Serão ofertadas 100 vagas, preferencialmente para licenciados e professores que atuam na educação básica. No programa, estão disciplinas como gênero e sexualidade na escola; estudos de gênero e a educação de matemática; e gênero, sexualidade e outros marcadores de exclusão social nas aulas de matemática. Os alunos também vão estudar feminismos e educação matemática; pedagogia queer e educação matemática; práticas pedagógicas antimachistas, antissexistas e “antilgbgtifóbicas”nas aulas de matemática.
Veja algumas pesquisas que o grupo MatematiQueer já desenvolveu
Entre parênteses está o ano de conclusão de cada uma delas.
A pesquisa em Educação Matemática alinhada com a justiça social: aproximações com a Educação em Direitos Humanos (2022);
Que relações podem ser estabelecidas entre matemática e pessoas LGBTI+? Narrativas de um professor desviante das cis-heteronormas que ensina matemática (2021);
Reconhecimento de pessoas LGBT+: reflexões a partir da leitura e escrita de mundo com matemática (2021);
Cenários de reconhecimento em contextos de minorias sexuais e de gênero na aula e na formação inicial de docentes de matemática (2021);
Os propósitos da Educação Matemática podem se alinhar à Educação em Direitos Humanos? (2021);
Sexualidade, Gênero e Ensino de Matemática (2021);
Relações de Gênero nos Livros Didáticos de Matemática segundo Teses e Dissertações Brasileiras (2021);
Gêneros, Sexualidades e Educação Matemática: quem se incomoda com a alteridade? (2021);
Articulações entre Teoria Queer e Educação Matemática (2021);
Representações sociais de professores(as) de matemática LGBTQIA+ sobre diversidade sexual e de gênero (2020);
Uma análise sobre a reprodução de estereótipos de gênero nos enunciados das questões das Provas da Olimpíada Brasileira de Física de 2018 (2019).

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